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quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Caminho para o Imperturbável

Aneñjasappaya Sutta
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1. Em certa ocasião o Abençoado estava entre os Kurus numa cidade denominada Kammasadhamma. Lá ele se dirigiu aos monges desta forma: "Bhikkhus." – "Venerável Senhor," eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:
2. “Bhikkhus, os prazeres sensuais [1são impermanentes, vazios, falsos, enganosos; eles são ilusórios, a tagarelice dos tolos. Os prazeres sensuais aqui e agora e os prazeres sensuais nas vidas que virão, as percepções sensuais aqui e agora e as percepções sensuais nas vidas que virão – ambos são igualmente o reino de Mara, o domínio de Mara, o engodo de Mara,A RESERVADescrição: http://cdncache-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png de caça de Mara. Por conta deles, estes estados ruins e prejudiciais como a cobiça, má vontade e a presunção surgem, e eles constituem uma obstrução para o nobre discípulo que aqui se encontra em treinamento.
(O IMPERTURBÁVEL) [2]
3. “Nesse sentido, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Os prazeres sensuais aqui e agora e os prazeres sensuais nas vidas que virão ... constituem uma obstrução para o nobre discípulo que aqui se encontra em treinamento. E se eu permanecesse com a mente abundante e transcendente, tendo superado o mundo e tomado uma firme decisão com a mente. [3Quando eu fizer isso, não haverá mais estados mentais ruins e prejudiciais em mim como a cobiça, má vontade e presunção, e com o abandono destes a minha mente estará ilimitada, imensurável e bem desenvolvida.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. [4Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para o imperturbável. [5Este, bhikkhus, é declarado o primeiro caminho dirigido para o imperturbável.
4. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte:[6‘Existem prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão; qualquer que seja a forma material, toda forma material compreende os quatro grandes elementos e a forma material derivada dos quatro grandes elementos.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim com freqüência, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para o imperturbável. Este, bhikkhus, é declarado o segundo caminho dirigido ao imperturbável.
5. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte:[7‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão – ambas são igualmente impermanentes. Aquilo que é impermanente, não vale a pena se deliciar nele, não vale a pena recebê-lo, não vale a pena se agarrar nele.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para o imperturbável. Este, bhikkhus, é declarado o terceiro caminho dirigido ao imperturbável.
(A BASE DO NADA)
6. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: [8‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão, e percepções do imperturbável – são todas percepções. Onde todas essas percepções cessam sem vestígios, isso é a paz, isso é o sublime, isto é, a base do nada.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base do nada. Este, bhikkhus, é declarado o primeiro caminho dirigido à base do nada.
7. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo, dirigindo-se à floresta, ou à sombra de uma árvore, ou a um local isolado, considera o seguinte: ‘Isto está vazio de um eu ou daquilo que pertence a um eu.’ [9Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base do nada. Este, bhikkhus, é declarado o segundo caminho dirigido à base do nada.
8. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Isso poderá não ser; isso poderá não ser meu. Isso não será; isso não será meu. Eu estou abandonando aquilo que existe, que veio a ser.' [10Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nesta base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base do nada. Este, bhikkhus, é declarado o terceiro caminho dirigido à base do nada.
(BASE DA NEM PERCEPÇÃO, NEM NÃO PERCEPÇÃO)
9. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão, percepções do imperturbável e percepções da base do nada – são todas percepções. Onde todas essas percepções cessam sem vestígios, isso é a paz, isso é o sublime, isto é, a base da nem percepção, nem não percepção.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança a base da nem percepção, nem não percepção, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base da nem percepção, nem não percepção. Este, bhikkhus, é declarado o caminho dirigido à base da nem percepção, nem não percepção.”
(NIBBANA)
10. Quando isso foi dito, o venerável Ananda disse para o Abençoado: “Venerável senhor, aqui um bhikkhu está praticando assim: ‘Se isso não tivesse sido, isso não seria meu; isso não será e isso não será meu. O que existe, o que veio a ser, isso eu estou abandonando.’ [11Dessa forma ele obtém a equanimidade. [12Venerável senhor, esse bhikkhu realiza Nibbana?”
“Um bhikkhu aqui, Ananda, poderá realizar Nibbana, um outro bhikkhu aqui poderá não realizar Nibbana.”
“Qual é a causa e razão, venerável senhor, porque um bhikkhu aqui poderá realizar Nibbana, enquanto que outro bhikkhu aqui poderá não realizar Nibbana?”
“Aqui, Ananda, um bhikkhu pratica da seguinte forma: ‘Se isso não tivesse sido, isso não seria meu; isso não será e isso não será meu. O que existe, o que veio a ser, isso eu estou abandonando.’ Assim ele obtém a equanimidade. Ele se delicia nessa equanimidade, a recebe, permanece agarrado a ela. Ao agir assim, a sua consciência se torna dependente disso e se apega a isso. Um bhikkhu, Ananda, que está influenciado pelo apego não realiza Nibbana.”
11. “Mas, venerável senhor, quando um bhikkhu se apega, a que ele está se apegando?”
“À base da nem percepção, nem não percepção, Ananda.”
“Quando um bhikkhu se apega, venerável senhor, parece que ele se apega ao melhor objeto de apego.”
“Quando esse bhikkhu se apega, Ananda, ele se apega ao melhor objeto de apego, pois esse é o melhor objeto de apego, isto é, a base da nem percepção, nem não percepção. [13]
12. “Aqui, Ananda, um bhikkhu pratica da seguinte forma: ‘Se isso não tivesse sido, isso não seria meu; isso não será e isso não será meu. O que existe, o que veio a ser, isso eu estou abandonando.’ Assim ele obtém a equanimidade. Ele não se delicia nessa equanimidade, não a recebe, não fica agarrado a ela. Como ele não age assim, a sua consciência não se torna dependente disso e não se apega a isso. Um bhikkhu, Ananda, que está sem apego, realiza Nibbana.”
13. “É maravilhoso, venerável senhor, é admirável! O Abençoado, de fato, nos explicou como cruzar a torrente na dependência de um apoio ou outro. [14Mas, venerável senhor, o que é a nobre libertação?” [15]
“Aqui, Ananda, um nobre discípulo considera da seguinte forma: ‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão, percepções do imperturbável, percepções da base do nada e percepções da base da nem percepção, nem não percepção – isso é a identidade até onde se estende a identidade. [16Isto é o Imortal, isto é, a libertação da mente através do desapego.’ [17]
14. “Portanto, Ananda, eu ensinei o caminho para o imperturbável, eu ensinei o caminho para a base do nada, eu ensinei o caminho para a base da nem percepção, nem não percepção, eu ensinei o caminho para cruzar a torrente na dependência de um apoio ou outro, eu ensinei a nobre libertação.
15. “Aquilo que por compaixão um Mestre deveria fazer para os seus discípulos, desejando o bem-estar deles, isso eu fiz por você, Ananda. Ali estão aquelas árvores, aquelas cabanas vazias. Medite, Ananda, não adie, ou então você irá se arrepender mais tarde. Essa é a nossa instrução para você.”
Isso foi o que disse o Abençoado. O venerável Ananda ficou satisfeito e contente com as palavras do Abençoado..



Notas:
[1] MA diz que se tem em mente ambos, os prazeres sensuais objetivos e as contaminações sensuais. [Retorna]
[2] Veja o MN 105 – nota 6, aqui também parece que o termo “imperturbável” abrange só o quarto jhana e as duas primeiras realizações imateriais. [Retorna]
[3] MA explica: “tendo superado o mundo da esfera sensual e tendo decidido com uma mente que tem nos jhanas o seu objetivo.” [Retorna]
[4] MA explica a frase “a sua mente adquire confiança nessa base” com o significado de que ele alcança ou o insight que tem como objetivo o estado de arahant, ou o acesso ao quarto jhana. Se ele obtiver o acesso ao quarto jhana, isto se torna a sua base para alcançar o “imperturbável,” isto é o quarto jhana em si. Mas se ele obtiver o insight, então ele decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria através do aprofundamento do insight para alcançar o estado de arahant. A decisão pelo “aperfeiçoamento da sabedoria” pode explicar porque tantos versos deste sutta, embora culminando com as realizações advindas da concentração, estão expressas através de frases apropriadas para explicar o desenvolvimento do insight. [Retorna]
[5] MA explica que este trecho descreve o processo de renascimento de alguém que não conseguiu alcançar o estado de arahant depois de ter alcançado o quarto jhana. A “consciência conduzindo ao renascimento”, (samvattanikam viññanam), é a consciência resultante através da qual aquele ser renasce, e ela possui a mesma natureza imperturbável da consciência produtora de kamma que alcançou o quarto jhana. Como a consciência do quarto jhana é que irá determinar o renascimento, este ser irá renascer num mundo celestial correspondente ao quarto jhana.
Na versão paralela dos Agamas em chinês (MA 75) aparece este trecho:
"Em um momento posterior, com a dissolução do corpo e o fim da vida, devido a essa anterior inclinação mental, ele certamente irá realizar o imperturbável."
Não há menção no MA 75 da expressão "a “consciência conduzindo ao renascimento”, (samvattanikam viññanam)". [Retorna]
[6] MA diz que esta é a reflexão de alguém que alcançou o quarto jhana. Como ele inclui a forma material entre as coisas a serem superadas, se ele alcançar o imperturbável, terá alcançado a base do espaço infinito, e se ele não alcançar o estado de arahant irá renascer no mundo do espaço infinito. [Retorna]
[7] MA diz que esta é a reflexão de alguém que alcançou a base do espaço infinito. Se ele alcançar o imperturbável, terá alcançado a base da consciência infinita e irá renascer naquele mundo, se não tiver alcançado o estado de arahant. [Retorna]
[8] Esta é a reflexão de alguém que alcançou a base da consciência infinita e tem como objetivo alcançar a base do nada. [Retorna]
[9] MA chama isto de vacuidade com duas pontas – a ausência de um “eu” e “meu” – e diz que este ensinamento sobre a base do nada é exposto por meio do insight ao invés da concentração, que foi a abordagem da seção anterior. No MN 43.33, é dito que esta contemplação conduz à libertação da mente através da vacuidade. [Retorna]
[10] MA chama isto de vacuidade com quatro pontas e explica da seguinte forma: (i) ele não vê o seu eu em nenhum lugar; (ii) ele não vê um eu que lhe pertença que possa ser tratado como algo que pertence a outrem, exemplo, como um irmão, amigo, assistente, etc.; (iii) ele não vê o eu de outrem; (iv) ele não vê o eu de outrem que possa ser tratado como algo que pertença a ele.
Veja o AN VII.55. [Retorna]
[11] MA explica: “Se o ciclo de kamma não houvesse sido acumulado por mim, agora não existiria para mim o ciclo de resultados; se o ciclo de kamma não for acumulado por mim agora, no futuro não haverá o ciclo de resultados.” “O que existe, o que veio a ser” são os cinco agregados.[Retorna]
[12] MA diz que ele obtém a equanimidade do insight, mas considerando o verso 11 parece que também se tem em mente a equanimidade da base da nem percepção, nem não percepção.[Retorna]
[13] MA: Isso é dito com referência ao renascimento daquele que alcança a base da nem percepção, nem não percepção. O significado é que ele irá renascer no melhor, no mais elevado plano de existência. [Retorna]
[14] Nissaya nissaya oghassa nittharana. MA: O Buda explicou como um bhikkhu pode cruzar a torrente empregando como base (para alcançar o estado de arahant) qualquer uma das realizações do terceiro jhana até a quarta realização imaterial. [Retorna]
[15] MA: A pergunta de Ananda tem a intenção de obter do Buda um relato da prática de meditação de insight “direto” ou “seco” (dry insight) (sukkhavipassaka), através da qual se obtém o estado de arahant sem depender das realizações de jhana. [Retorna]
[16] Esa sakkayo yavata sakkayo. MA: isso é a identidade na sua totalidade – o ciclo nos três reinos de existência; não existe identidade fora disso. [Retorna]
[17] MA: tem-se em mente o estado de arahant alcançado através da meditação de insight “direta”. MT adiciona que o estado de arahant é chamado de “Imortal” porque tem o sabor do Imortal, tendo sido alcançado com base no Nibbana do Imortal. [Retorna]


Revisado: 6 Novembro 2013

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

AMOROSIDADE


Muitos hoje se aproximam do budismo por ser uma religião mais racional e prática, enxuta e pragmática em sua moralidade que contempla uma vasta gama de condutas com poucos treinamentos ou “preceitos”, sem nenhum aspecto metafísico a ser aceito ou crido de antemão e, embora talvez a religião mais extensa em seus livros sagrados, não possui uma sabedoria dogmática, tem quase nenhuma mitologia e mesmo em sua simbologia é clara e objetiva, na grande maioria das vezes explicadas imediatamente pelo próprio Buda, o que dificulta a diversidade de interpretações causadoras de celeumas como temos em relação a outros livros sagrados a exemplo da bíblia e do alcorão.

Isso também foi o que me aproximou do budismo, além de alguns outros fatores. Entre eles sempre destaco dentro dessa temática a quase singularidade de não ser uma religião revelada e de oferecer um método para ver por si mesmo, Buda diz “seja seu próprio mestre” e “não acredite só porque alguém disse ou porque eu estou dizendo”. O “faça você mesmo” e o “venha e veja”, são dois aspectos que, no meu entendimento, o budismo oferece e satisfaz qualquer pessoa que se aproxime dele e sinceramente experimente praticá-lo. Quer dizer, o Buda não dá uma série de informações nas quais você deva acreditar ou aceitar ou ver se está de acordo com o que você pensa; ele não se diz o dono da verdade e que você estará salvo se acreditar nele e condenado se duvidar. Ele nos convida a experimentarmos, em nossas vidas, a prática de uma forma de moral e de uma forma de meditação que nos levará gradualmente à felicidade e libertação da ignorância, do medo, do sofrimento, etc. e ele oferece um método eficaz para isso, e comprovaremos essa eficácia por nós mesmos, sem ter que acreditar cegamente, mas sim fazendo por nós mesmos e experimentando os seus resultados. Ele também não oferece uma sabedoria axiomática ou decorada com regras de ouro e explicações fabulosas, ele nos oferece uma sabedoria elevada em seus resultados, que deve ser estudada, compreendida, mas que só poderá ser comprovada em seus mais elevados objetivos se levamo-la à prática. Ele não diz “isto é assim, acredite porque eu sou Buda e vi por mim mesmo”, ele diz “venha e veja”, veja você mesmo, você deve ver o que ele vê e não simplesmente crer.

Entretanto, muitas vezes um pouco tarde vamos notar que o aspecto moral e da boa vontade é um aspecto primordial, ou seja, que vem primeiro no treinamento gradual, é a primeira prática a ser experimentada. Sem a “purificação da mente” não há budismo, e para que haja a purificação da mente devemos experimentar na prática a receita da virtude ética e moral do senhor Buda, experimentá-la a fim de comprovarmos seus resultados em nossa vida, mas não só isso, talvez até principalmente, para colhermos os frutos dessa conduta. Sem o que é traduzido geralmente como moradas divinas, que são as qualidades fundamentais que temos que desenvolver para avançar no caminho (amorosidade, compaixão, alegria altruísta e equanimidade), o ver por si mesmo permanecerá muito limitado. Nós não temos essas características ou capacidades desenvolvidas, é preciso aprendê-las e treiná-las, pois a verdadeira e definitiva purificação mental só é atingida através da meditação avançada, quando já se pode ver e compreender por si mesmo. Buda ensina um método para desenvolver essas qualidades, treinando-as, pois são a conduta correta em relação aos seres vivos, o que evitará o conflito, o sofrimento, a carência, a insegurança, etc. na vida no mundo; além de serem considerados estados sublimes nos quais se pode obter os reais benefícios das práticas e da meditação.  Aquele que desenvolver esses estados mentais, através da conduta e da meditação, obterá a felicidade. Esse sutta trata em forma de verso do primeiro desses estados (metta, amorosidade, também traduzido como amor-bondade, amistosidade ou simplesmente amor), de como cultivá-lo e de suas vantagens.

Sutta Nipata I.8

Karaniya Metta Sutta

Amor Bondade

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Quem é hábil no que é benéfico, desejando alcançar
aquele estado de paz, age assim:
capaz, correto, honrado,
com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância,

Satisfeito e fácil de sustentar,
sem ser exigente por natureza, frugal no seu modo de vida,
os sentidos acalmados, sábio,
moderado, sem cobiçar ganhos.

Não faz nada, mesmo que trivial,
que seja condenado pelos sábios.[
1]
Pense: felizes, seguros,
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Todos os seres vivos que existem,
fracos ou fortes, [
2] sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,

Visíveis e invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e por nascer:
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Que ninguém engane
ou despreze outrem, em nenhum lugar,
ou devido à raiva ou má vontade
deseje que alguém sofra. [
3]

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,
ama e protege o seu filho, o seu
único filho,
da mesma forma, abraçando todos os seres,
cultive um coração sem limites.

Com amor bondade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
Acima, abaixo e em toda a volta,
desobstruído, livre da raiva e da má vontade.

Quer seja parado, andando,
sentado, ou deitado,
sempre que estiver desperto,
cultive essa atenção plena:
a isto se denomina uma morada divina
no aqui e agora.[
4]

Sem estar aprisionado pelas idéias,
virtuoso e com a visão consumada,
tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,
ele não mais renascerá.[
5]

 



 

Notas:

[1] Como pode ser observado, os temas do sutta não correspondem exatamente às estrofes do poema. O primeiro tema – virtude ou disciplina moral – compreende do primeiro verso até a primeira metade do terceiro verso. A virtude, (sila), proporciona o sólido fundamento ético no qual se baseia o desenvolvimento da mente. As primeiras duas linhas dizem que essa base ética é tanto uma estratégia para alcançar o objetivo da iluminação bem como uma expressão do caráter da pessoa. É aceito como verdadeiro que todos os seres aspiram pela própria felicidade, todos querem ser felizes, e este sutta tem a intenção de ajudar as pessoas a alcançarem esse objetivo ensinando quais as qualidades de caráter benéficas que devem ser desenvolvidas com habilidade. Tudo que segue no sutta é uma série de descrições sobre como uma pessoa sábia e hábil, ou uma pessoa que deseja progredir na direção do objetivo, deveria se comportar no mundo. Uma lista de virtudes específicas é apresentada – gentil, não arrogante, moderado, etc. – seguida por um enunciado geral (“Não faz nada ...”) que engloba todas as demais virtudes que não foram especificadas em detalhe.

[2] Tasa va thavara, literalmente “em movimento” ou “estável”, mas o seu significado vai além do sentido literal. O que está implícito é que alguns seres estão em movimento porque estão agitados, insatisfeitos ou impulsionados pelo desejo e isso no contexto Budista compreende a noção de fragilidade ou fraqueza. De modo semelhante, quando alguém está firmemente estabelecido, tranqüilo e quieto, isso expressa uma condição de maior força e estabilidade. O amor bondade para com o primeiro tende para a compaixão pelo bem-estar dos mais fracos, enquanto que para com o último tende para a alegria altruísta pela capacidade dos fortes.

[3] Na metade do terceiro verso, a voz dos verbos muda para refletir a transição para a prática meditativa. Os verbos no imperativo, (“pense ...”), são usados para guiar a intenção no momento presente para a geração de amor bondade ou boa vontade. Enquanto que as virtudes no primeiro tema são apresentadas como conceitos, (“Ser capaz, correto ...”), a uma certa distância, aqui a linguagem é imediata e aponta diretamente para o cultivo do estado de boa vontade para com todos os seres. Isto alinha o poema com a prática de metta bhavana, ou meditação de amor bondade, e essas frases podem ser empregadas como guia para essa prática.

A geração de intenção é essencial na prática da meditação de metta, onde ela desenvolve o papel de moldar a qualidade da mente no momento presente. Ao invés de pensar em algo ou se recordar do passado, ou planejar o futuro, a pessoa adota naquele exato momento a qualidade mental de desejar o bem estar dos outros. Por conseguinte estamos passando da virtude geral para a meditação específica, para o cultivo deliberado de certos estados mentais e a intenção de manter presente um certo objeto na mente. Neste caso o objeto é o pensamento com respeito a todos os seres, enquanto que o estado mental com relação a esse objeto é a intenção ou desejo que todos os seres tenham felicidade e segurança.

A mudança de voz no sexto verso indica a descrição de algumas das diretrizes para a prática de ações benéficas.

[4] A meditação de metta é caracterizada como um dos quatro brahma viharas ou moradas divinas. Várias nuances de amor maternal são também empregadas para descrever os outros três brahma viharas ou qualidades divinas do coração: compaixão (tal qual uma mãe em relação a um filho doente), alegria altruísta (tal qual uma mãe em relação a um filho que vai em busca do seu lugar no mundo), e equanimidade (tal qual uma mãe ao ouvir sobre os eventos da vida de um filho adulto).

O nono verso estabelece uma relação crucial entre a meditação de metta e a meditação vipassana, (insight), através da clássica ênfase na atenção plena.

[5] O último verso do sutta desloca a ênfase da meditação para a realização da sabedoria – o plano mais elevado na aspiração Budista. Esse é o cume do caminho, a destinação que é alcançada quando a prática diligente de meditação é desenvolvida sobre uma base sólida de virtude. A ênfase é colocada na purificação da visão, a habilidade para ver com clareza. Menciona a eliminação do desejo como um elemento das experiências e nomeia a emancipação do renascimento como o fruto da iluminação.

 

 

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

No Budismo Todo Desejo é Ruim?



         Continuando a série de estudos sobre o desejo no budismo eis um texto que deve ser sempre levado em conta, talvez até como uma breve introdução ao tema. Outro detalhe a ser notado é a questão do prazer que normalmente se fazem falsas associações negativas, tanto ou mais até que na palavra desejo.

         Só posso atribuir isso a dois motivos: (1) uma confusão com as traduções especialmente feitas do inglês, pois a língua brasileira não dispõe de tamanha quantidade de termos equivalentes e traduz várias palavras em apenas duas, “desejo” e “ânsia”, desejo tem sido usado como tradução, não só de desire, mas também de wish, craving, yearning, longing, thirst e outras chegando até às mais absurdas, e, no caso de “prazer”, tem sido muito usada a tradução felicidade, não quando a origem é happiness ou blis, mas até mesmo quando é pleasure ou principalmente delight, ou a própria palavra pali que seria mais propriamente traduzida como prazer ou deleite; (2) outro motivo pode ser uma confusão ou tentativa de universalização de certos valores que na verdade seriam cristãos ou hindus e não budistas.

         A solução para esse dilema seria que mais pessoas estudassem as línguas originais dos textos como o pali e o sânscrito. O budismo não condena nem o desejo nem o prazer, mas certo tipo de desejo e certo tipo de prazer. Entenda mais lendo o texto.

 

No Budismo todo desejo é ruim?

Extraído de:

ABC do Budismo

Por

Michael Beisert

Respostas a algumas das dúvidas mais freqüentes sobre o Budismo

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O Buda disse que as pessoas não são felizes devido ao desejo e que o desejo é a causa do sofrimento humano. Isso significa que no Budismo todo desejo é considerado ruim?

O Buda reconheceu que o desejo é uma força poderosa nas nossas vidas e que a busca pelo prazer está profundamente enraizada na nossa mente. O Buda não negou isso, mas o que ele descobriu é que existem distintos tipos de desejo e distintos tipos de prazer.

Ele observou que não vale a pena buscar alguns tipos de prazer, pois eles acabam se revelando insatisfatórios pelo fato de sempre terminarem. Como diz o ditado, ‘tudo que é bom dura pouco.’ E quando termina, a reação natural é buscar mais, e como esse novo prazer também terminará, então essa busca acaba se tornando inútil e inglória. Além da impermanência, uma das características de todas as coisas, o Buda também descobriu que esses tipos de prazer, que não vale a pena buscar, apresentam perigos e desvantagens enormes, um deles, apesar da satisfação proporcionada, é o de despertar uma busca contínua por prazeres ainda mais intensos e duradouros. Uma boa ilustração desse processo são todos os tipos de obsessões e vícios que podem ser observados na sociedade. O outro tipo de perigo é o preço a ser pago e as consequências decorrentes da busca por esses tipos de prazer. E elas vão desde o esforço individual para ganhar o dinheiro para a obtenção desse tipo de prazer, depois o trabalho de protegê-lo e preservá-lo, chegando à criminalidade e outras enfermidades sociais; sem falar no impacto ambiental e nos conflitos interpessoais que podem até mesmo levar a guerras entre nações, etc.

Esses tipos de prazer são aqueles provenientes dos sentidos, os prazeres sensuais na terminologia Budista. Ao notar as desvantagens dos prazeres sensuais, o Buda se perguntou se haveria algum outro tipo de prazer que não sofresse dos mesmos tipos de problemas.

 

Ele descobriu duas coisas. Primeiro, há um outro tipo de prazer que não é sensual e que produz uma satisfação muito superior àquela dos prazeres sensuais, mas que ainda assim é impermanente. É o prazer dos jhanas. Os jhanas são estados de absorção profunda que produzem um intenso prazer na mente. As vantagens desse tipo de prazer em relação aos prazeres dos sentidos é que ele está sempre acessível, não pode ser comprado, ninguém poderá tirá-lo de você e que, portanto, não gera nenhum tipo de conflito.

Segundo, além dos jhanas, o Buda descobriu que há um prazer ainda maior, e o melhor de tudo é que ele não está sujeito à impermanência. É o prazer da libertação completa - nibbana.

Com relação ao desejo, o Buda identificou que há dois tipos de desejo, os hábeis e os inábeis. A melhor maneira de ilustrar a diferença entre esses dois é através de um símile empregado pelo próprio Buda. Imagine uma galinha que está chocando os ovos. Se ela desejar que os pintinhos rompam as cascas e nasçam com saúde, mas não cobrir os ovos e não os mantiver aquecidos da forma necessária, os pintinhos não irão nascer não importa quanto a galinha deseje isso. Por outro lado, se ela não desejar que os pintinhos nasçam, mas mesmo assim, se ela cobrir e aquecer os ovos da maneira necessária, os pintinhos, certamente, irão nascer. Ou seja, para obter certos resultados, há uma forma correta de fazer as coisas. Ter desejos que contrariam a maneira correta de fazer as coisas acaba sendo um obstáculo para a concretização do objetivo. No entanto, se o desejo for coerente com a maneira correta de fazer as coisas, então as chances de alcançar o objetivo serão maiores ainda.

O Buda identificou que os desejos pelos prazeres sensuais nos afastam de um prazer ainda maior e melhor, que são os jhanas; e por isso ele recomendou o abandono dos prazeres sensuais e a busca do prazer dos jhanas. E mais ainda, ele recomendou o abandono do prazer dos jhanas por um prazer ainda maior e melhor, que é nibbana.

Portanto, não há problema nenhum em desejar o prazer superior dos jhanas ou de nibbana. Mas é absolutamente tolo desejá-los e não fazer aquilo que é necessário para alcançá-los.

 

 

 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cinco dicas para quem está começando a meditar


03/20/2013 —

Alice Boyes

Sem dúvida você já ouviu dizer que meditar faz bem. No entanto, para muitas pessoas as descrições de meditação não são muito atraentes e parece ser uma coisa a mais para a qual você não tem tempo.

Aqui estão cinco dicas para quem está começando a meditar que ajudam a superar os problemas de (1) a falta de atrativo, e (2) parecer muito assustador.

1. Comece com 3-5 minutos (ou menos)

Alguns excelentes dados coletados de novos usuários do aplicativo *Lift goal-tracking app mostram que a maioria dos meditadores iniciantes começou com 3-5 minutos. Mesmo três minutos, pode parece um tempo enorme quando você começa a meditar; mas você pode começar com tempos até menores. Por exemplo, prestando atenção às sensações de três respirações completas.

2. Entenda o quê a meditação pode fazer por você, se tem problemas com estresse, ansiedade, irritabilidade ou ruminação

A meditação é uma ótima maneira de aumentar a capacidade de resistência ao estresse. Se sofre de ansiedade, a meditação irá ajudar a reduzir a sua tendência geral de super excitação fisiológica e a acalmar o sistema nervoso.

Na minha prática de terapia, os clientes que mais consideram a meditação útil são geralmente as pessoas que são propensas à ruminação. Isso faz sentido, uma vez que a meditação é basicamente focar sua atenção em alguma sensação (por exemplo, as sensações de respiração) e trazer de volta sua atenção a este foco, quando percebe que se afastou para “avaliar” (por exemplo, “Estou respirando muito rápido ? “) ou para outro assunto (por exemplo,” Eu tenho tanta coisa para fazer amanhã”).

A meditação pode ajudar a lidar com a irritabilidade, em parte, porque o ajuda a aprender a reconhecer que está tendo pensamentos negativos antes que você os deixe escapar de uma forma que acaba por gerar mais estresse para você (por exemplo, picuinhas com seu parceiro que acabam gerando uma briga) .

3. Compreenda os princípios da meditação

Meditadores iniciantes geralmente acham que o objetivo da meditação é chegar ao ponto em que podem se concentrar sem se distrair.

Um objetivo mais útil é tornar-se consciente mais rapidamente de quando sua mente se distrai.

Tornar-se consciente do que você está pensando é a base do sucesso da Terapia Cognitiva. Você não será capaz de reestruturar seus pensamentos se não tiver inicialmente desenvolvido a capacidade de identificá-los.

Outra meta útil para novatos na meditação é a de ser capaz de redirecionar sua atenção de volta para seu foco, sem criticar a si mesmo.

4. Faça meditação do seu próprio jeito

A maioria dos meus clientes não gostam de mp3 para meditar. Eles acham que são muito “new age”.

Como caminhar ajuda as pessoas a se concentrar e reduz a distração, uma meditação que envolve caminhada pode ser um ótimo ponto para começar.

Kelly McGonigal sugere uma meditação caminhando de 10 minutos, começando com alguns minutos prestando atenção a (1) as sensações do seu corpo ao caminhar, (2) as sensações de sua respiração, (3) as sensações de ar ou vento em sua pele, (4) o que você pode ouvir, e (5) o que você pode ver.

A seguir com 5 minutos de atenção aberta, onde se permite perceber e sentir tudo o que se apresentar à sua consciência. Não vá à procura de coisas para ouvir, ver, sentir etc. Basta observar o que quer que se apresente à sua consciência e deixar que seja naturalmente substituído por o que quer que surja na sequência, sempre que isso acontecer.

Durante esses momentos de  atenção aberta, se sua atenção derivar para pensamentos sobre o passado, o futuro ou avaliativos, volte o mais rápido possível a um dos pontos de foco para estabilizar a sua atenção.

Você pode adaptar estas instruções como quiser. Faça a sua própria prática. Você está no comando! Por exemplo, faça uma meditação caminhando em que você se concentra em um dos pontos de foco acima por 3 minutos e depois faça 3 minutos de atenção aberta.

5. Reduza o “tudo ou nada”

Realisticamente, há apenas uma pequena quantidade de pessoas que estará disposta a meditar de forma regular.

Outra abordagem é fazer a prática diária de meditação formais (como a meditação caminhando) por um período inicial, e então começar a incorporar a meditação em seu dia-a-dia de maneira informal.

Incorporar a meditação informal em seu dia pode incluir, por exemplo, prestar atenção às sensações de algumas respirações cada vez que for alternar tarefas.

Sustentar uma prática diária formal quando é iniciante (1) permite que você experimente diferentes tipos de meditação, (2) gera conforto e familiaridade suficientes com a meditação para que possa reiniciar a prática formal, caso esteja passando por uma fase de maior estresse ou ruminação, e (3) desenvolve compreensão suficiente sobre meditação para que possa desenvolver suas próprias idéias para práticas de meditação informais.

O gráfico abaixo (também de usuários do aplicativo *Lift goal-tracking app mostra que os meditadores iniciantes que praticaram durante 11 dias apresentaram mais de 90% de probabilidade de continuar. Perceba que a inclinação da curva começa a ficar mais plana em torno do dia 8. Cumprir a prática da meditação, pelo menos, por esse tempo é importante. Fazer um plano de 21 ou 30 dias de meditação é uma ótima maneira de começar.



Alice Boyes

 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

SATI

O ensinamento fundamental, a prática que está presente em todas as meditações, em todas as horas do dia e da noite, aquilo que levará a ver por si mesmo:

"Aquilo que vigia os vários fatores que podem surgir na meditação é sati, atenção vigilante. Essa qualidade sati é uma condição que, através da prática, pode ajudar os outros fatores a surgirem. Sati é vida. Sempre que não temos sati, quando estamos desatentos, é como se estivéssemos mortos. Se não tivermos sati, então o nosso discurso e ações são sem significado. Sati é simplesmente contemplação. É uma causa para o surgimento da conscientização de si e sabedoria. Quaisquer virtudes cultivadas serão imperfeitas se sati estiver em falta. Sati é aquilo que permite observar-nos enquanto estamos de pé, andando, sentados ou deitados. Mesmo quando não estamos em samādhi, sati deve estar presente inteiramente". ~ Ajahn Chah

domingo, 11 de agosto de 2013

Os Cinco Obstáculos Mentais e a Sua Subjugação


 
Textos seleccionados do Cânone Páli

Com comentários, compilação e tradução para Inglês por Nyanaponika Thera


Sumário

Introdução

Os Cinco Obstáculos

I.
Textos Gerais

II. Os Obstáculos Individualmente

1.
O Desejo Sensual

2.
A Má Vontade

3.
A Preguiça e o Torpor

4.
A Inquietação e o Arrependimento

5.
A Dúvida

Do Sutta Samaññaphala

I.
O Sutta

II.
O Comentário


Abreviaturas:

AN .... Anguttara Nikaya

MN .... Majjhima Nikaya

SN .... Samyutta Nikaya

Vism .... Visuddhimagga


Introdução

A libertação inabalável da mente é a meta mais elevada na doutrina do Buda. Aqui, libertação significa: a libertação da mente de todas as limitações, grilhões, e laços que a amarram à roda de sofrimento, no Círculo do Renascimento. Quer dizer: a purificação da mente de todas as corrupções, que desfiguram a sua pureza, a remoção de todos os obstáculos que a impedem de progredir, a partir do mundano (lokiya) com a consciência supra mundana (lokuttara-citta), isto é, a Arahatship.

Muitos são os obstáculos que bloqueiam o caminho do progresso espiritual, mas há cinco, em particular, que, sob o nome de obstáculos (nivarana), são frequentemente citados nas escrituras budistas:


Desejo Sensual (kamacchanda),

Má Vontade (byapada),

Preguiça e Torpor (Thina-MIDDHA),

Inquietação e Arrependimento (UDDHACCA-kukkucca) e

Dúvida (vicikiccha).


Eles são chamados de "obstáculos", porque entravam e envolvem a mente de muitas maneiras, obstruindo o seu desenvolvimento (Bhavana). De acordo com os ensinamentos budistas, o desenvolvimento espiritual é duplo: através de tranquilidade (samatha-Bhavana) e através de concentração (vipassana-Bhavana). A tranquilidade é adquirida pela concentração total da mente, durante as concentrações meditativas (jhana). Para alcançar essas concentrações, a superação dos cinco obstáculos, pelo menos temporariamente, é uma condição preliminar. É especialmente no contexto da realização das concentrações que o Buda frequentemente menciona os cinco obstáculos nos seus discursos.

Há cinco componentes mentais, que são fundamentalmente representativos da primeira concentração meditativa, e são por isso chamados factores de concentração (jhananga). Para cada um deles há, segundo os comentadores da tradição budista, um dos cinco obstáculos que é especificamente nocivo para eles, e exclui o seu maior desenvolvimento e aperfeiçoamento ao nível exigido pelo jhana, e por outro lado, o cultivo desses cinco factores além do seu nível médio será de um antídoto contra os obstáculos, preparando o caminho para jhana. A relação entre estes dois grupos de cinco, é indicada nesta antologia, sob a rubrica do respectivo impedimento.

Não só as concentrações meditativas, mas também em menor grau, a concentração mental, são prejudicadas por esses cinco obstáculos. Assim é a “vizinhança" ou concentração de (ou "acesso"), (upacarasamadhi), sendo a fase preliminar para a concentração, totalmente absorvida (appana), alcançada em jhana. Da mesma forma, excluída pela presença dos obstáculos, é a concentração momentânea (khanikasamadhi), que tem a força de concentração de vizinhança e é necessária para o desenvolvimento de concentração (vipassana). Mas além destes estágios superiores de desenvolvimento mental, qualquer tentativa séria de pensamento claro e puro de vida serão seriamente afectados pela presença desses cinco obstáculos.

Essa ampla influência nociva dos cinco obstáculos mostra a necessidade urgente de quebrar o seu poder através de esforço constante. Não se deve acreditar que é suficiente transformar a atenção de alguém para os obstáculos, apenas no momento em que se senta para meditar. Tal esforço de último minuto em suprimir os obstáculos, dificilmente será bem sucedido, a menos que seja ajudado pelo esforço anterior, durante a vida normal.

Aquele que aspira ardentemente à libertação inabalável da mente, deve portanto, escolher em definitivo uma “base de trabalho" importada, directa e prática: um kammatthana [1] no seu sentido mais amplo, em que a estrutura de toda a sua vida deve estar baseada. Uma segurança permanente para que a “base de trabalho” nunca se perca de vista por muito tempo, até porque, por si só, será um progresso considerável, incentivando o controlo e o desenvolvimento da mente, porque dessa forma o comando e as energias intencionais da mente serão reforçadas consideravelmente. Aquele que optou pela subjugação dos cinco obstáculos para um "trabalho de terreno" deve analisar qual dos cinco, mais forte, está em cada caso pessoal. Em seguida, deve-se observar cuidadosamente como e em que ocasiões, eles costumam aparecer. Deve-se ainda conhecer as forças positivas dentro da nossa própria mente, através do qual, cada um destes obstáculos pode ser melhor combatido e, finalmente, conquistado; e deve-se também examinar a vida, para qualquer oportunidade de desenvolver essas qualidades que, em sequência, serão indicadas sob os títulos de faculdades espirituais (indriya), os factores de concentração (jhananga), e os factores da iluminação (bojjhanga). Em alguns casos, os temas de meditação foram adicionados, o qual serão úteis na superação dos respectivos obstáculos.

No mundano (puthujjana), [2] no entanto, apenas uma suspensão temporária e parcial enfraquecimento dos obstáculos podem ser atingidos. A sua erradicação total e definitiva ocorre em estágios de santidade (ariyamagga):

A dúvida é eliminada na primeira fase, no caminho de entrada no fluxo (sotapatti-magga).

O desejo sensual, má vontade e arrependimento são eliminados na terceira fase, o caminho do não-retorno (Anagami-magga)

A preguiça e o torpor e agitação são erradicadas no caminho de Arahatship (arahatta-magga).

Daí a recompensa da luta contra os obstáculos, não ser unicamente limitada a tornar possível, um período mais curto ou mais longo de meditação, mas cada passo, a enfraquecer estes obstáculos, que nos levam mais perto da fase de santidade que é a libertação inabalável desses obstáculos.

Embora a maioria dos textos seguintes, traduzidos dos discursos do Buda e dos comentários, sejam dirigidos aos bhikkhus, eles são igualmente válidos para aqueles que vivem a vida mundana. Como os Mestres Idosos dizem: "O bhikkhu é mencionado aqui como um exemplo, de que se dedicam à prática do ensino. Todo aquele que se compromete a praticar, é aqui incluído no termo “bhikkhu”.
 
Traduzido de: http://www.accesstoinsight.org/lib/authors/nyanaponika/wheel026.html
O texto na íntegra se encontra em:
http://www.amentemente.com/Textos/Os%20Cinco%20Obstaculos%20Mentais%20e%20a%20Sua%20Subjugacao.html