“Resumi” esse
interessantíssimo texto para apresentá-lo aqui com o intuito não só de desfazer
confusões comuns que as pessoas têm quando começam a estudar o budismo, mas
também que muitos estudiosos praticantes e mesmo monges eruditos têm e por
vezes apregoam. Esse resumo é quase o texto na íntegra, baseado numa tradução
encontrada na internet. A tradução tem problemas e erros que corrigi na medida
do possível quando não os excluí completamente. Portanto quem quiser ler o
texto na integra faz melhor pesquisando o original do autor.
Sempre existem pontos
considerados temas complicados nas traduções como desejo, consciência, os
corpos, sexualidade, etc., porém o texto me surpreendeu também com assuntos que
eu pensava estar esclarecido por meus estudos ou palavras de autores e
professores ou dicionários e glossários de pali. Espero que possa surpreender,
no sentido comum da palavra, a outros estudiosos e estudantes. Por isso
recomendo enfaticamente aos estudantes que também compartilhem com seus
professores e conversem com eles a respeito procurando aprofundar os temas e a
leitura no cânone sobre eles, pois não estou dizendo que esse autor esteja plenamente
correto em cada detalhe de suas afirmações nem que tenha posições polêmicas ou
erradas (e minha posição não teria a mínima importância no caso), mas que
devemos realmente estudar melhor temas assim.
Sobre o autor:
Christopher Titmuss, escritor e monge budista na Tailândia e Índia, ensina
Meditação do Despertar e do Discernimento no mundo todo. Vive em Totnes, Devon,
Inglaterra. Ele é o fundador e diretor do Dharma Facilitators Programme
[Programa de Facilitadores do Dharma] e do programa Living Dharma [Dharma
Vivo], um programa de aconselhamento online para praticantes do Dharma. Ele
organiza retiros, participa de peregrinações (yatras) e conduz assembléias
sobre o Dharma. Christopher tem ensinado em retiros anuais em Bodh Gaya, Índia,
desde 1975, e conduz uma reunião anual sobre o Dharma em Sarnath desde 1999. Um
instrutor do Dharma graduado no Ocidente, é autor de vários livros, como Light
on Enlightenment [Luz na Iluminação], An Awakened Life [Uma Vida Desperta] e
Transforming Our Terror [Transformando Nosso Terror]. Um batalhador pela paz e
outras questões globais, Christopher é um membro do conselho consultivo
internacional da Buddhist Peace Fellowship [Comunidade Budista da Paz]. Poeta e
escritor, é co-fundador da Gaia House [Casa Gaia], um centro internacional de retiro
em Devon, Inglaterra.
O QUE O BUDA NÃO
ENSINOU
por: Christopher
Titmuss
Conforme os textos, o Buda não ensinou:
1 – Abhidhamma. Consistindo de sete livros, o Abhidhamma fornece
uma classificação detalhada e analítica da mente e do corpo numa variedade de
grupos e elementos. O Abhidhamma foi composto durante um longo período e não é
a palavra do Buda, mas só uma interpretação. O Abhidhamma é uma entre um certo
número de escolas budistas de interpretação dos Suttas.
2 – Aceitação. Nos 5 mil discursos do Buda não é possível encontrar
uma palavra Páli para “aceitação”. Ele aponta mais para uma investigação
profunda do que uma aceitação daquilo que não podemos mudar.
3 – Anicca, Dukkha e Anatta são a verdadeira realidade da existência. O
Buda nunca fez tal afirmação a respeito da impermanência [anicca], da
insatisfatoriedade [dukkha] e do não-eu [anatta]. Ele disse que estas são três características
da existência. Se fossem a verdadeira realidade, não haveria alívio nem
liberação. O Incondicionado é anatta [não-eu], mas não anicca ou dukkha.
4 – Crença em Deus. O Buda considera a crença no Deus Criador do
monoteísmo como só mais uma das diversas espécies de crença religiosa. Ele a
rejeitou, bem como a várias outras crenças religiosas. Na antiga Índia, o Deus
criador era chamado Brahma. No entanto, o Buda apontou o caminho para
permanecer com Brahma (Brahma Viharas). Brahma é um Deus entre os Deuses. A
profunda e liberadora força de amor, compaixão, grata alegria e equanimidade
revela uma permanência com Brahma, uma força criativa. O Buda nunca hesitou em
seu foco na liberação completa, ao invés de uma experiência de união com
Brahma.
5 – Estar no aqui e agora. O Buda não deu ensinamentos do tipo
“estar aqui e agora”. Os especialistas budistas traduziram muito livremente
“ditthe dhamme” como “aqui e agora”. “Ditthe” significa “visão” e “dhamme”
refere-se ao Dharma, isto é, a todos os objetos (na mente e no mundo, passado,
presente ou futuro), aos ensinamentos e à verdade. O Buda não reconheceu
qualquer tipo de entidade egóica [self entity] nem adotou uma idéia de
substância para o momento presente. “Ditthe dhamma” pode ainda significar “o
ato de ver com atenção cuidadosa o Dharma”.
6 – Crença em Deus, um salvador, um livro sagrado, profeta ou guru. A
linguagem de “Deus” é a linguagem do “Eu”. Afinal de contas, a crença em Deus e
no Eu são os dois lados da mesma moeda, a primeira crença reconfirmando a
segunda. Um “Deus Absoluto” não é uma grande questão nos Suttas porque ela não
foi um ensinamento influente quando o Buda destacou o ver claramente, o amor
desapegado (metta) e a compreensão da natureza da originação dependente. Ele
não se opôs à linguagem de “Deus” (Brahma), como usada na Índia. Ele considerou
a noção de Deus inteiramente dependente dos sentimentos, percepções e crenças.
Não referiu-se a si mesmo como um profeta, guru, deidade ou avatar (encarnação
de Deus). Não referiu-se a si mesmo como um mortal comum. Ele disse: Eu estou
desperto. O Buda não apontou um sucessor antes de morrer. Ele ordenou que sua
Sangha confia-se no Dharma.
7 – Causa. O Buda observou estritamente a originação dependente.
Ele não adota uma causa e efeito simplista, de A para B, pensando algo como
“esta técnica de meditação conduz diretamente à liberação”. O Buda referiu-se à
causa (Páli, hetu) como uma condição distintiva (paccaya). Ele tendeu a colocar
as duas questões juntas. Qual é a causa? Qual é a condição? (ko hetu ko
paccayo) Numerosas causas ou condições para numerosos efeitos são mencionados
nos Suttas. O Buda não aplica qualquer espécie de modelo simplista – “isto
exclusivamente causará aquilo” – para o despertar. Ele se refere a um caminho
direto (eke-yana) para o despertar.
8 – Escolha. A idéia de que somos sempre livres para fazer uma
escolha não está de acordo com a experiência. Não escolhemos nascer, parar de
envelhecer, de ficar doentes ou de sofrer dor. Não podemos escolher viver para
sempre. Não podemos escolher ser felizes em cada momento do dia. Não podemos
escolher os resultados dos eventos que realizamos em nossas vidas. Poderíamos
pensar que fazemos escolhas livres e independentes somente para constatar mais
tarde que a suposta livre escolha que fizemos acabou se tornando um pesadelo.
Nossas supostas escolhas são limitadas. Fazemos escolhas sem conhecer as
incontáveis condições que influenciam tais escolhas, ou do passado, presente,
ou que poderiam surgir no futuro. Somos herdeiros de nosso karma e amarrados a
nosso karma. Isso é uma escolha? O Buda enfatizou mais a intenção afetando
corpo, fala e mente. Na clareza, naturalmente cultivamos ética, samadhi [poder
de concentração] e sabedoria. A Sabedoria diz que neste caso não se sente haver
qualquer escolha. É simplesmente algo conducente a um modo de vida liberado.
Num sentido profundo, realmente não há uma escolha.
9 – Determinismo e fatalismo. O passado certamente pode determinar
o processo de originação dependente. O fato de que o passado pode determinar o
presente não significa que somos prisioneiros, porque o passado não é um agente
que, afinal de contas, possa aprisionar-nos. Isto também significa que não há
eventos que simplesmente ocorram sem causas e condições. O Buda também não
ensina o fatalismo. Se o passado de modo absoluto determinasse nossa vida,
então os ensinamentos das Quatro Nobres Verdades seriam irrelevantes. Seríamos
um total prisioneiro de nosso passado. Novamente, não haveria liberação do
passado, das forças não-resolvidas do karma. O Buda ensina a originação
dependente e a liberação.
10 – Iluminação. A palavra “iluminação” não aparece em lugar algum
dos textos budistas. Iluminação é um conceito Ocidental relacionado à era
moderna no Ocidente. A palavra bodhi significa “despertar”. Ela vem da raiz
budh - “acordar”. Soa arrogante dizer “eu estou iluminado”. Isso soa como
crença em um “Eu” que diz “eu estou iluminado”, já que implica em um Eu
chegando à Luz e que podemos apreciar aqueles que despertaram. Em Sete Fatores
da “Iluminação” a palavra Páli é bojjhanga - bodhi, despertar e anga, aspectos
de ou membros de. Uma década atrás eu escrevi um livro chamado Light on
Enlightenment [Luz sobre a Iluminação]. Anos depois, um especialista Pali me
fez a distinção entre despertar e iluminação. Vivendo e aprendendo!
11 – Fé. No sentido Ocidental, fé é frequentemente associada com fé
religiosa, como a de que há vida após a morte ou ter fé em um livro sagrado, um
profeta ou Deus. Não há palavra equivalente nos ensinamentos do Buda. Saddha, a
palavra Páli traduzida como fé, ou às vezes confiança ou crença, significa sad
- coração, dha - pôr ou colocar. Quando nosso coração se dirige à ação, como
para explorar os ensinamentos, então saddha surge enraizada na direção do maior
aprofundamento.
12 – Livre-arbítrio. Para a vontade ser livre teria que ser
independente, suportada pelo Eu e não condicionada por circunstâncias
interiores e exteriores. O Buda não ensina o livre-arbítrio. O Buda ensinou o
caminho do meio entre livre-arbítrio e determinismo. Verdadeiramente, conhecer
e perceber a originação dependente é liberar-se. Isso revela o vazio de um Eu
real e das coisas reais.
13 – Escape. Os textos falam do escape do sofrimento. A palavra Pali
nissarana significa saída. Nós geralmente associamos escape com evasão, com o
medo que nos obriga a fugir de nós mesmos, da responsabilidade. Precisamos
lembrar o suporte que o Buda deu-nos para encontrar a saída.
14 – Extinção do
desejo. A palavra khaya geralmente
traduzida como extinção, destruição ou dissolução, significa o “esgotamento” do
desejo. No esgotamento do desejo, podemos envolver-nos em atenção sábia e ação
sábia não corrompida com as preocupações do Eu e com aquilo que ele persegue.
15 – Cinco Preceitos. É extraordinariamente difícil encontrar o
conjunto de Cinco Preceitos nos ensinamentos do Buda. Esta lista dos cinco
aparece em uma única ocasião em um texto obscuro em todos os Suttas. O Buda
nunca limitou sila (ética) a cinco preceitos. Ele falou muito mais extensamente
sobre ética, sobre moralidade, do que tem feito a tradição budista. Ele falou a
monges e monjas sobre a importância do controle dos sentidos, da purificação do
meio de vida e do habilidoso uso de comida, vestimenta, abrigo e medicina como
características igualmente importantes de sila. Foi conveniente para o rico que
a tradição budista ignorasse o Buda e confinasse a ética aos cinco preceitos. O
rico poderia buscar a gratificação sensual e privilégios incontidos assim que a
tradição em grande parte excluiu-os como uma questão moral. O Buda ainda lista
10 caminhos de ação inábil e ação hábil, 3 de corpo, 4 de fala, 3 de mente (os
4 primeiros sendo a base dos 4 primeiros preceitos). MN 41, Saleyyaka Sutta.
16 – Interconexão. Isto implica que cada “coisa” está conectada a
cada outra “coisa”. É uma ideia baseada em primeiro lugar na noção de que há
alguma “coisa”. É o carro o motor? Não. Então, tire o motor. É o carro as
rodas? Não. Então, tire as rodas. É o carro qualquer outra parte? Não. Então,
jogue fora o resto das partes. O que restou do carro a ser conectado? Nada
daquele “eu”. Há a convenção de que existe um carro. Muitas mulheres
juntaram-se ao Buda no modo de vida renunciado da exploração do Dharma. Uma
destas mulheres, chamada Vajira, experimentou pensamentos perturbadores na
meditação.
Por quem este homem foi criado?
Onde está o Artífice do ser?
De onde o ser humano se originou?
Onde o ser humano cessa?
Então isto veio à sua mente.
Quem se dedicou a esta questão? Um ser humano ou um ser não-humano?
Ah, isso vem da tentação (Mara) para despertar medo e apreensão? Ela
compreendeu.
A verdade despertou nela. Ela respondeu:
Exatamente como numa união de partes a palavra carruagem é usada.
Então, quando os agregados existem,
Há a convenção de um ser humano.
Então, foi dito ao final do discurso pela voz para despertar medo.
Vajira reconheceu-me e então a voz desapareceu dali completamente. SN. 1. pag.
230.
17 – A vida é sofrimento. Está é uma declaração incorreta da
primeira nobre verdade. Novamente, não há tal declaração do Buda. Se isso fosse
realidade, então não haveria escapatória. Quando o sofrimento surge na vida, é
devido às condições. Quando as condições para o sofrimento não estão presentes,
então o sofrimento não surge.
18 – Mantras. Os Mantras são geralmente uma prática devocional para
um Eu Supremo, para um Deus ou que se utiliza da pura repetição de uma palavra
para condicionar a mente a reduzir o estresse ou o pensamento excessivo. O Buda
ensinou a experiência direta com a respiração, o corpo, os sentimentos, os
estados da mente e o dharma ao invés de qualquer mantra como a prioridade da
atenção. Mantras podem, entretanto, ser uma meditação útil para acalmar a
mente.
19 – Metta é bondade amorosa. Muitos tradutores Pali definiram
metta como bondade amorosa. O Pali-English Dictionary, da muito respeitada Pali
Text Society, na Grã-Bretanha, usa a palavra “amor” para metta. Percepções da
bondade dos monges budistas podem ter influenciado a moderna tradução de metta.
O dicionário diz que metta deriva de mid - amar. Bondade amorosa é uma tradução
inadequada. Metta expressa amor incondicional, amizade profunda e bondade
ilimitada, aberta e sem amarras. O Buda falou a Anuruddha de liberação através
do amor (metta ceto-vimutti) e novamente em Itivuttaka 27.19-21. Ananda também
incentivou meditar nas características de metta para se atingir a liberação.
20 – Método e técnica para desenvolver Metta. No Metta Sutta, o
Buda simplesmente revelou as qualidades, atitude e estado de ser de alguém
profundamente fixado em metta. Amor sem limites é a marca de uma pessoa
verdadeiramente realizada. O Buda apenas ensinou a direção de metta em todas as
direções assim que se esteja desapegado. Metta, que é amor, é uma força
transformadora e divina que compartilha características similares à liberação.
Ambas, liberação e amor, não conhecem limites. Os métodos e técnicas modernas
para desenvolver metta têm muito pouca relação com a realização de metta como
uma imersão permanente. Apesar disso, a aplicação de métodos e técnicas para
desenvolver metta pode ser muito proveitosa. Em seu livro clássico da tradição
Theravada do século V, o Visuddhimagga (o Caminho de Purificação), o Venerável
Acharya Buddhaghosa aproveitou algumas das afirmações do Buda e usou-as como
frases para desenvolver metta. Ex.: “Possam todos os seres estar livres da
inimizade. Possam eles viver venturosamente.”
21 – Atenção plena é o elo mais importante no Caminho Óctuplo. O
Buda nunca isolou um elo acima dos outros. No Discurso sobre as Quatro
Aplicações de Atenção Plena, ele disse que “atenção plena é cultivada até o
ponto necessário para o conhecimento, a fim de se permanecer livre e
independentemente no mundo”. Não há qualquer instrução nos ensinamentos do Buda
para se estar “cônscio em cada momento”. É um empreendimento impossível. Tomar
um dos aspectos do caminho e elevá-lo acima dos demais abandona a originação
dependente. Isso daria caráter de Eu à atenção plena. No MLD 117, o Buda
declarou que visão correta, esforço correto e plena atenção correta sustentam
uma à outra enquanto fornecem uma explicação abrangente da sustentação mútua e
dos significados de cada elo no Nobre Caminho Óctuplo.
22 – Prática momento a momento. O Buda não adota esse tipo de idéia.
Ele defende a aplicação da plena atenção ao corpo, sensações, estado da mente e
dharma. É um meio de realizar uma liberação eterna. Ele não ensina o
concentrar-se na plena atenção para seu próprio benefício. Ele não admite
qualquer tipo de egoidade à plena atenção. Não há palavras para “momento a
momento” em qualquer dos Suttas. Desenvolvemos plena atenção juntamente com
seis outros membros para atingir o despertar, a saber, investigação, energia,
alegria profunda, tranquilidade, concentração meditativa e equanimidade, para
chegar à verdadeira sabedoria da liberação. (MLD 118) [a sigla MLD que aparece
aqui pela segunda vez vem na verdade da tradução da sigla MN (Majjhima Nikaya),
117 e 118 respectivamente, que tratam de forma bem abrangente o tema].
23 – Conhecer e perceber as coisas como elas são. Não proferido
pelo Buda. Uma má tradução comum de yathabhutam-ñana-dassana. Esta célebre
declaração do Buda significa literalmente “conhecer e perceber conforme o que
vem a ser”. Bhuta vem da raiz bhu, vir-a-ser. Isso se refere à ação de conhecer
e perceber. Não há menção de coisas nesta afirmação. Esta tradução correta é
uma aproximação mais dinâmica e desafiadora do que a má tradução que sugere uma
idéia fixa. “O que vem a ser” se refere à originação dependente.
24 – Nenhum Eu. O Buda permaneceu em nobre silêncio quando
perguntado se havia um eu ou nenhum eu. Ele simplesmente declarou que corpo,
sentimentos, percepções, formações mentais, incluindo os pensamentos, e a
consciência não eram alguém e não pertenciam ao eu. Ele não ensinou o eu como
sendo um veículo para a liberação da falsa percepção. Anatta literalmente
significa “não-eu”; se o Buda tivesse dito “nenhum eu”, ele teria falado
na-atta.
25 – A Unidade é a realidade fundamental. O Buda não negou a importância
da Unidade. Ele se refere a ela na experiência de Brahma Viharas (Permanência
Divina ou Presença de Deus). Ele não se refere a esta Permanência como
realidade fundamental, uma vez que isso traz a noção de um Eu que se une a
outro. O Buda refuta que O Todo é Um e igualmente refuta que O Todo é Muitos e
aponta para a originação dependente. Em MLD 117, o Buda disse: a Unificação da
mente, equipada com os outros sete elos do Caminho Óctuplo, é chamada nobre
concentração correta com seus suportes e requisitos.
26 – Abrir-se ao desejo. O desejo (tanha), tanto quanto a ânsia e a
sede que se seguem, conduz à insatisfatoriedade e ao sofrimento. O Buda nunca
endossou uma idéia como a de se abrir ao desejo. O desejo resulta do contato,
da identificação com sensações particulares que condicionam o desejo e
alimentam o apego. A idéia de que podemos obter aquilo que desejamos sem
vínculo com os resultados compromete os ensinamentos do Buda sobre a
insatisfatioriedade do desejo. Abrir-se ao desejo emite uma mensagem aos
consumidores budistas para que estejam abertos a seus desejos desde que, por
meio deles, sigam sem ânsia. A paz temporária da mente que experimentamos
quando somos bem-sucedidos em conseguir o que queremos é devida à suspensão
temporária do desejo em nossa mente. Abrir-se ao desejo dilui os ensinamentos
do Buda para adequá-los à ideologia Ocidental de ir atrás do que queremos. O
Buda usa outras palavras para “desejo”, como dhamma-canda, zelo pelo dharma,
quando referindo-se à intenção, práticas e ações necessárias para o despertar e
a liberação.
27 – A Paixão (raga) deve ser erradicada. O Buda incentivou a
paixão como Dhamma rage (Paixão pelo Dharma). Não devemos confundir raga com
desejo. Ele referiu-se a abandonar qualquer raga que dá cor e distorce os
objetos. A palavra raga significa dar cor ou tingir.
28 – Paramitas (Perfeições). O Buda não ensina as 10 Perfeições.
Elas não são encontradas em nenhum lugar dos Suttas. Ele refutou a crença de
que podemos alcançar uma perfeição da mente, não importa o quanto cultivemos
dana (generosidade), ética, renúncia, sabedoria, energia, paciência, honradez,
decisão, metta (amor, bondade amorosa) e equanimidade. As 10 Perfeições são
encontradas nos comentários do Theravada e Seis Perfeições são encontradas na tradição
Tibetana.
29 – Salvação pessoal. Salvação
pessoal importa para aqueles que acreditam em um Eu que deva ser salvo.
30 – Renascimento. Não há nenhuma palavra nos ensinamentos do Buda
que se traduza literalmente como renascimento. Esta noção parece vir da palavra
Páli punnabbhava, que literalmente significa “novo vir-a-ser” [rebecoming]. No
Kalama Sutta, um dos mais queridos de todos os discursos sobre a investigação,
o Buda presume uma ideia provisória sobre o “novo vir-a-ser” ao invés de
referir-se a isso como um fato indubitável. Há o “novo vir-a-ser” devido a
estar-se amarrado à força do desejo.
31 – Reencarnação. O Buda refutou a crença numa alma, Eu [self] ou
essência que vai de uma vida à outra. Nossa meditação não pode mostrar algo
interno permanente a deixar o corpo ao chegar a morte.
32 – Visão correta. A palavra Pali para “correto”, no caso de
“visão correta”, “intenção correta” e nos seis elos restantes no Nobre Caminho
Óctuplo, é Samma. Samma significa “conducente” - conducente ao completo
despertar. Uma visão conducente revela uma profundidade de compreensão do que é
a liberação. Samma não tem qualquer implicação de um mandamento moral, de certo
ou errado. Miccha Magga significa um Caminho Não-conducente que se segue na
vida.
33 – Samatha (tranquilidade) e vipassana (discernimento) são práticas separadas
uma da outra. O Buda nunca refere-se em nenhum lugar a samatha e
vipassana como técnicas. Ele ensinou samatha-vipassana como qualidades de
experiência e percepções essenciais para a compreensão do Dharma. Ele disse que
algumas pessoas são desenvolvidas em ambas; algumas são desenvolvidas em tranquilidade;
algumas são desenvolvidas em discernimento e algumas permanecem
não-desenvolvidas em ambas. O Buda nunca disse que samatha (a consciência plena
da respiração) é uma técnica e que Vipassana ou meditação do discernimento
(consciência do corpo ou pensamentos que surgem) é outra técnica. Diferentes
tradições budistas separaram uma da outra.
34 – A visão da impermanência é tudo o que importa. O Buda nunca
tomou a exploração da impermanência isoladamente do resto do corpo de seus
ensinamentos. Quanto à impermanência, incentivou uma perspectiva quíntupla –
vemos a originação, o desvanecimento (de eventos, fenômenos, experiências,
relacionamentos, etc), a satisfação, o risco e o caminho para fora do mundo da
impermanência. A experiência de impermanência (anicca – literalmente
“não-permanente”) está disponível como um passo em direção ao desapego.
35 – Partícula subatômica (kalapas). O Buda não ensinou o
desenvolvimento do poder de concentração (samadhi) na meditação a fim de
experimentar partículas subatômicas. A palavra kalapas não aparece em nenhum
lugar dos suttas. O Buda não sustentou tais coisas, como visões materialistas
ou não-materialistas.
36 – A Verdade está dentro de você. Nunca declarado pelo Buda. Ele
disse que preservamos a verdade quando não fazemos reinvindicações de a
possuirmos. A verdade não está dentro, nem dentro de outro, nem no meio. Nós
não podemos encontrar uma coisa chamada Verdade interior. A verdade é aquilo
que nos desperta (bodhi-sacca), a verdade da sabedoria (sacca-ñana). Não é uma
entidade substancial que alguns têm e outros não têm.
37 – Vipassana como uma técnica. Não há nada nos ensinamentos do
Buda indicando que Vipassana seja uma técnica. A palavra simplesmente significa
“discernimento” [insight, seria melhor traduzido como compreensão]. Um momento
de discernimento é um momento de vipassana que pode surgir em qualquer lugar a
qualquer momento. A tranquilidade sustenta o discernimento e o discernimento
sustenta a tranquilidade. Calma e discernimento indicam liberação.
38 – Eu Real. Diversos professores budistas mais graduados
inevitavelmente usam em suas conferências e escritos o conceito de Eu Real. Não
há nada que valide um Eu Real. Quem ou o que internamente determina o que é
esse meu Eu Real e o que não é esse meu Eu Real?
39 – Dieta vegetariana. O Buda estava mais interessado no que saía
de nossas bocas, do que naquilo que entrava nelas. Ele não se opôs que os
buscadores renunciados recebessem carne para comer, desde que animais não
fossem mortos por eles. (MLD 55) [MN 55]. Na Índia vegetariana todos os dias
andarilhos, iogues, sadhus e ascetas muito, muito raramente tocam carne. Os
hindus tratam as vacas na Índia com reverência sagrada por seu modo tranquilo e
seus laticínios. É improvável que os hindus oferecessem à Sangha desabrigada do
Buda qualquer coisa com aspecto de carne – isto é, animais, aves ou peixe. O
Buda necessitaria revisar radicalmente sua visão hoje a respeito da ingestão de
carne. Há crueldade para com os animais em nossos grandes matadouros. Animais
são abastecidos com uma dieta prejudicial. Vacas, ovelhas, porcos e aves
consomem uma enorme quantidade de comida, quer confinados em fábricas animais,
quer ocupando terras valiosas que poderiam fornecer grãos, frutas e vegetais.
Milhões de budistas entoam para salvar todos os seres sencientes e dispensar
bondade amorosa aos animais, aves e peixes, mas continuam a comê-los,
geralmente no dia-a-dia.
40 – Meditações com visualização. O Buda forneceu práticas diretas
para vermos e conhecermos por nossas próprias experiências o que vem a ser, ao
invés de aplicar sobre a experiência visual figuras, imagens ou arquétipos
mentais. Do mesmo modo que com os métodos para metta, o uso de práticas com
mantras, visualização, podem, contudo, ser uma forma muito benéfica de
meditação.
41 – Nós criamos nossa própria realidade. O Buda nunca fez essa
declaração. Você vê essa frase atribuída ao Buda em posters e calendários. É
uma idéia bizarra. Pode a mente criar o céu, a terra, a natureza e incontáveis
seres sencientes? A crença de que criamos nossa própria realidade é uma
projeção primitiva. Não podemos criar nem mesmo nosso próprio sofrimento. A
noção de “eu” e “meu” simplesmente surge com condições que têm um suporte. As
condições da originação dependente dão forma à realidade. A mente não pode
criá-la. O Eu substituiu Deus, o Criador, pelo Eu, o Criador. É outra projeção.
Isso vem da má tradução do primeiro verso do Dhammapada. O buda disse que
“todos os dharmas são fabricados pela mente”. Isso significa que a mente
constrói o Eu pelo que é percebido. A mente concede substância, essência, alma
ou egoidade àquilo que é originação dependente.
42 – Atenção sábia. Uma tradução simples. As palavras Páli são
yoniso-manasikara. Yoni é o útero da mãe. Manas é mente. Kara é ação. É a ação
da mente que emerge da profundeza de nosso ser. Yoni é usada metaforicamente.
Manas é mente. Kara é ação. Yoniso-manasikara indica o estabelecimento da
mente.