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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Temas para Contemplação

Anguttara Nikaya V.57
Upajjhatthana Sutta
Temas para Contemplação
Somente para distribuição gratuita

"Há esses cinco fatos que devem ser contemplados por todos com freqüência, quer seja mulher ou homem, leigo ou ordenado. Quais cinco?

"'Eu estou sujeito ao envelhecimento, não superei o envelhecimento.’ Esse é o primeiro fato que deve ser contemplado por todos com freqüência, quer seja mulher ou homem, leigo ou ordenado.

"'Eu estou sujeito à enfermidade, não superei a enfermidade'...

"'Eu estou sujeito à morte, não superei a morte'...

"'Eu me tornarei diferente, separado de tudo o que é querido e interessante'...

"'Eu sou o dono das minhas ações (kamma), herdeiro das minhas ações, nascido das minhas ações, relacionado através das minhas ações e tenho as minhas ações como árbitro. O que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso me tornarei o herdeiro'.

"Esses são os cinco fatos que devem ser contemplados por todos com freqüência, quer seja mulher ou homem, leigo ou ordenado.

"Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve contemplar com freqüência... que ‘Eu estou sujeito ao envelhecimento, não superei o envelhecimento'? Há seres que estão embriagados com a [típica] embriaguez dos jovens com a juventude. Por causa dessa embriaguez com a juventude, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo... com a linguagem... com a mente. Porém, ao contemplar com frequência acerca desse fato, essa embriaguez dos jovens com a juventude ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida...

"Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve contemplar com freqüência... que ‘Eu estou sujeito à enfermidade, não superei a enfermidade'? Há seres que estão embriagados com a [típica] embriaguez das pessoas saudáveis com a saúde. Por causa dessa embriaguez com a saúde, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo... com a linguagem... com a mente. Porém, ao contemplar com frequência acerca desse fato, essa embriaguez das pessoas saudáveis com a saúde ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida...

"Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve contemplar com frequência... que ‘Eu estou sujeito a morte, não superei a morte'? Há seres que estão com a embriaguez das pessoas com a vida. Por causa dessa embriaguez com a vida, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo... com a linguagem... com a mente. Porém, ao contemplar com frequência acerca desse fato, essa embriaguez das pessoas com a vida ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida...

"Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve contemplar com frequência... que ‘Eu me tornarei diferente, separado de tudo o que é querido e interessante'? Há seres que sentem cobiça e desejo pelas coisas que consideram queridas e interessantes. Por causa dessa cobiça, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo... com a linguagem... com a mente. Porém, ao contemplar com frequência acerca desse fato, esse desejo e cobiça pelas coisas que são queridas e atraentes ou é totalmente abandonado ou é enfraquecido...

"Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve contemplar com frequência... que 'Eu sou o dono das minhas ações (kamma), herdeiro das minhas ações, nascido das minhas ações, relacionado através das minhas ações e tenho as minhas ações como árbitro. O que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso me tornarei herdeiro'? Há seres que se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo... com a linguagem... com a mente. Porém, ao contemplar com frequência acerca desse fato, essa conduta prejudicial com o corpo, linguagem, e mente ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida...

"Agora, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Eu não sou o único sujeito ao envelhecimento, que não superou o envelhecimento, mas sempre que há seres, indo e vindo, falecendo e renascendo, todos esses seres estão sujeitos ao envelhecimento, não superaram o envelhecimento.' Ao contemplar com frequência acerca disso, o  caminho surge. Ele permanece fiel ao caminho, desenvolvendo-o e cultivando-o. Ao permanecer fiel ao caminho, desenvolvendo-o e cultivando-o, os grilhões são abandonados, as tendências subjacentes são destruídas.

"Além disso, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Eu não sou o único sujeito à enfermidade, que não superou a enfermidade’…”Eu não sou o único sujeito à morte, que não superou a morte’...’Eu não sou o único que me tornarei diferente, separado de tudo que é querido e interessante’....

"Um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Eu não sou o único que sou o dono das minhas ações (kamma), herdeiro das minhas ações, nascido das minhas ações, relacionado através das minhas ações e tenho as minhas ações como árbitro; que - o que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso me tornarei herdeiro, mas sempre que há seres, indo e vindo, falecendo e renascendo, todos esses seres são os donos das suas ações, herdeiros das suas ações, nascidos das suas ações, relacionados através das suas ações e têm as suas ações como árbitro. O quer que façam, para o bem ou para o mal, disso eles se tornarão herdeiros.’ Ao contemplar com frequência acerca disso, o caminho surge. Ele permanece fiel ao caminho, desenvolvendo-o, cultivando-o. Ao permanecer fiel ao caminho,  desenvolvendo-o e cultivando-o, os grilhões são abandonados, as tendências subjacentes são destruídas.”
Sujeito ao nascimento,
sujeito ao envelhecimento,
sujeito à morte,
pessoas comuns
sentem repulsa por aqueles que sofrem
daquilo a que elas mesmas estão sujeitas.
E se eu sentisse repulsa
por seres sujeitos a essas coisas,
não seria digno,
vivendo como eles vivem.

Enquanto mantinha essa atitude –
conhecendo o Dhamma
sem aquisições –
Eu superei toda embriaguez
com a saúde, juventude, e vida,
como aquele que vê
a renúncia como  segurança.

Em mim, a energia foi estimulada,
A Libertação foi vista claramente.
Não há modo
pela qual eu desfrutaria de prazeres sensuais.
Tendo seguido a vida santa,
não retornarei.






quinta-feira, 3 de setembro de 2015

[OS SEIS ANTÍDOTOS]


[1] Desenvolva a meditação que é o amor,
pois assim fazendo, o ódio será banido.
[2] Desenvolva a meditação que é a compaixão,
pois com isso, o dano será banido.
[3] Desenvolva a meditação que é a simpática alegria,
pois com isso, o desgosto será banido.
[4] Desenvolva a meditação que é a equanimidade,
pois com isso, a reação sensorial será banida.
[5] Desenvolva a meditação sobre o impuro,
pois com isso, o apego será banido.
[6] Desenvolva a meditação que é a percepção da impermanência,
pois com isso, a presunção "eu sou" será banida.

                                                        - Buda

Tradizido do inglês por Kalyanadhamma 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O QUE O BUDA NÃO ENSINOU EMBORA LHE ATRIBUAM

 “Resumi” esse interessantíssimo texto para apresentá-lo aqui com o intuito não só de desfazer confusões comuns que as pessoas têm quando começam a estudar o budismo, mas também que muitos estudiosos praticantes e mesmo monges eruditos têm e por vezes apregoam. Esse resumo é quase o texto na íntegra, baseado numa tradução encontrada na internet. A tradução tem problemas e erros que corrigi na medida do possível quando não os excluí completamente. Portanto quem quiser ler o texto na integra faz melhor pesquisando o original do autor.
Sempre existem pontos considerados temas complicados nas traduções como desejo, consciência, os corpos, sexualidade, etc., porém o texto me surpreendeu também com assuntos que eu pensava estar esclarecido por meus estudos ou palavras de autores e professores ou dicionários e glossários de pali. Espero que possa surpreender, no sentido comum da palavra, a outros estudiosos e estudantes. Por isso recomendo enfaticamente aos estudantes que também compartilhem com seus professores e conversem com eles a respeito procurando aprofundar os temas e a leitura no cânone sobre eles, pois não estou dizendo que esse autor esteja plenamente correto em cada detalhe de suas afirmações nem que tenha posições polêmicas ou erradas (e minha posição não teria a mínima importância no caso), mas que devemos realmente estudar melhor temas assim.

Sobre o autor: Christopher Titmuss, escritor e monge budista na Tailândia e Índia, ensina Meditação do Despertar e do Discernimento no mundo todo. Vive em Totnes, Devon, Inglaterra. Ele é o fundador e diretor do Dharma Facilitators Programme [Programa de Facilitadores do Dharma] e do programa Living Dharma [Dharma Vivo], um programa de aconselhamento online para praticantes do Dharma. Ele organiza retiros, participa de peregrinações (yatras) e conduz assembléias sobre o Dharma. Christopher tem ensinado em retiros anuais em Bodh Gaya, Índia, desde 1975, e conduz uma reunião anual sobre o Dharma em Sarnath desde 1999. Um instrutor do Dharma graduado no Ocidente, é autor de vários livros, como Light on Enlightenment [Luz na Iluminação], An Awakened Life [Uma Vida Desperta] e Transforming Our Terror [Transformando Nosso Terror]. Um batalhador pela paz e outras questões globais, Christopher é um membro do conselho consultivo internacional da Buddhist Peace Fellowship [Comunidade Budista da Paz]. Poeta e escritor, é co-fundador da Gaia House [Casa Gaia], um centro internacional de retiro em Devon, Inglaterra.

O QUE O BUDA NÃO ENSINOU
por: Christopher Titmuss

Conforme os textos, o Buda não ensinou:

1 – Abhidhamma.  Consistindo de sete livros, o Abhidhamma fornece uma classificação detalhada e analítica da mente e do corpo numa variedade de grupos e elementos. O Abhidhamma foi composto durante um longo período e não é a palavra do Buda, mas só uma interpretação. O Abhidhamma é uma entre um certo número de escolas budistas de interpretação dos Suttas.

2 – Aceitação. Nos 5 mil discursos do Buda não é possível encontrar uma palavra Páli para “aceitação”. Ele aponta mais para uma investigação profunda do que uma aceitação daquilo que não podemos mudar.

3 – Anicca, Dukkha e Anatta são a verdadeira realidade da existência. O Buda nunca fez tal afirmação a respeito da impermanência [anicca], da insatisfatoriedade [dukkha] e do não-eu [anatta]. Ele disse que estas são três características da existência. Se fossem a verdadeira realidade, não haveria alívio nem liberação. O Incondicionado é anatta [não-eu], mas não anicca ou dukkha.

4 – Crença em Deus. O Buda considera a crença no Deus Criador do monoteísmo como só mais uma das diversas espécies de crença religiosa. Ele a rejeitou, bem como a várias outras crenças religiosas. Na antiga Índia, o Deus criador era chamado Brahma. No entanto, o Buda apontou o caminho para permanecer com Brahma (Brahma Viharas). Brahma é um Deus entre os Deuses. A profunda e liberadora força de amor, compaixão, grata alegria e equanimidade revela uma permanência com Brahma, uma força criativa. O Buda nunca hesitou em seu foco na liberação completa, ao invés de uma experiência de união com Brahma.

5 – Estar no aqui e agora. O Buda não deu ensinamentos do tipo “estar aqui e agora”. Os especialistas budistas traduziram muito livremente “ditthe dhamme” como “aqui e agora”. “Ditthe” significa “visão” e “dhamme” refere-se ao Dharma, isto é, a todos os objetos (na mente e no mundo, passado, presente ou futuro), aos ensinamentos e à verdade. O Buda não reconheceu qualquer tipo de entidade egóica [self entity] nem adotou uma idéia de substância para o momento presente. “Ditthe dhamma” pode ainda significar “o ato de ver com atenção cuidadosa o Dharma”.

6 – Crença em Deus, um salvador, um livro sagrado, profeta ou guru. A linguagem de “Deus” é a linguagem do “Eu”. Afinal de contas, a crença em Deus e no Eu são os dois lados da mesma moeda, a primeira crença reconfirmando a segunda. Um “Deus Absoluto” não é uma grande questão nos Suttas porque ela não foi um ensinamento influente quando o Buda destacou o ver claramente, o amor desapegado (metta) e a compreensão da natureza da originação dependente. Ele não se opôs à linguagem de “Deus” (Brahma), como usada na Índia. Ele considerou a noção de Deus inteiramente dependente dos sentimentos, percepções e crenças. Não referiu-se a si mesmo como um profeta, guru, deidade ou avatar (encarnação de Deus). Não referiu-se a si mesmo como um mortal comum. Ele disse: Eu estou desperto. O Buda não apontou um sucessor antes de morrer. Ele ordenou que sua Sangha confia-se no Dharma.

7 – Causa. O Buda observou estritamente a originação dependente. Ele não adota uma causa e efeito simplista, de A para B, pensando algo como “esta técnica de meditação conduz diretamente à liberação”. O Buda referiu-se à causa (Páli, hetu) como uma condição distintiva (paccaya). Ele tendeu a colocar as duas questões juntas. Qual é a causa? Qual é a condição? (ko hetu ko paccayo) Numerosas causas ou condições para numerosos efeitos são mencionados nos Suttas. O Buda não aplica qualquer espécie de modelo simplista – “isto exclusivamente causará aquilo” – para o despertar. Ele se refere a um caminho direto (eke-yana) para o despertar.

8 – Escolha. A idéia de que somos sempre livres para fazer uma escolha não está de acordo com a experiência. Não escolhemos nascer, parar de envelhecer, de ficar doentes ou de sofrer dor. Não podemos escolher viver para sempre. Não podemos escolher ser felizes em cada momento do dia. Não podemos escolher os resultados dos eventos que realizamos em nossas vidas. Poderíamos pensar que fazemos escolhas livres e independentes somente para constatar mais tarde que a suposta livre escolha que fizemos acabou se tornando um pesadelo. Nossas supostas escolhas são limitadas. Fazemos escolhas sem conhecer as incontáveis condições que influenciam tais escolhas, ou do passado, presente, ou que poderiam surgir no futuro. Somos herdeiros de nosso karma e amarrados a nosso karma. Isso é uma escolha? O Buda enfatizou mais a intenção afetando corpo, fala e mente. Na clareza, naturalmente cultivamos ética, samadhi [poder de concentração] e sabedoria. A Sabedoria diz que neste caso não se sente haver qualquer escolha. É simplesmente algo conducente a um modo de vida liberado. Num sentido profundo, realmente não há uma escolha.

9 – Determinismo e fatalismo. O passado certamente pode determinar o processo de originação dependente. O fato de que o passado pode determinar o presente não significa que somos prisioneiros, porque o passado não é um agente que, afinal de contas, possa aprisionar-nos. Isto também significa que não há eventos que simplesmente ocorram sem causas e condições. O Buda também não ensina o fatalismo. Se o passado de modo absoluto determinasse nossa vida, então os ensinamentos das Quatro Nobres Verdades seriam irrelevantes. Seríamos um total prisioneiro de nosso passado. Novamente, não haveria liberação do passado, das forças não-resolvidas do karma. O Buda ensina a originação dependente e a liberação.

10 – Iluminação. A palavra “iluminação” não aparece em lugar algum dos textos budistas. Iluminação é um conceito Ocidental relacionado à era moderna no Ocidente. A palavra bodhi significa “despertar”. Ela vem da raiz budh - “acordar”. Soa arrogante dizer “eu estou iluminado”. Isso soa como crença em um “Eu” que diz “eu estou iluminado”, já que implica em um Eu chegando à Luz e que podemos apreciar aqueles que despertaram. Em Sete Fatores da “Iluminação” a palavra Páli é bojjhanga - bodhi, despertar e anga, aspectos de ou membros de. Uma década atrás eu escrevi um livro chamado Light on Enlightenment [Luz sobre a Iluminação]. Anos depois, um especialista Pali me fez a distinção entre despertar e iluminação. Vivendo e aprendendo!

11 – Fé. No sentido Ocidental, fé é frequentemente associada com fé religiosa, como a de que há vida após a morte ou ter fé em um livro sagrado, um profeta ou Deus. Não há palavra equivalente nos ensinamentos do Buda. Saddha, a palavra Páli traduzida como fé, ou às vezes confiança ou crença, significa sad - coração, dha - pôr ou colocar. Quando nosso coração se dirige à ação, como para explorar os ensinamentos, então saddha surge enraizada na direção do maior aprofundamento.

12 – Livre-arbítrio. Para a vontade ser livre teria que ser independente, suportada pelo Eu e não condicionada por circunstâncias interiores e exteriores. O Buda não ensina o livre-arbítrio. O Buda ensinou o caminho do meio entre livre-arbítrio e determinismo. Verdadeiramente, conhecer e perceber a originação dependente é liberar-se. Isso revela o vazio de um Eu real e das coisas reais.

13 – Escape. Os textos falam do escape do sofrimento. A palavra Pali nissarana significa saída. Nós geralmente associamos escape com evasão, com o medo que nos obriga a fugir de nós mesmos, da responsabilidade. Precisamos lembrar o suporte que o Buda deu-nos para encontrar a saída.
14 – Extinção do desejo. A palavra khaya geralmente traduzida como extinção, destruição ou dissolução, significa o “esgotamento” do desejo. No esgotamento do desejo, podemos envolver-nos em atenção sábia e ação sábia não corrompida com as preocupações do Eu e com aquilo que ele persegue.

15 – Cinco Preceitos. É extraordinariamente difícil encontrar o conjunto de Cinco Preceitos nos ensinamentos do Buda. Esta lista dos cinco aparece em uma única ocasião em um texto obscuro em todos os Suttas. O Buda nunca limitou sila (ética) a cinco preceitos. Ele falou muito mais extensamente sobre ética, sobre moralidade, do que tem feito a tradição budista. Ele falou a monges e monjas sobre a importância do controle dos sentidos, da purificação do meio de vida e do habilidoso uso de comida, vestimenta, abrigo e medicina como características igualmente importantes de sila. Foi conveniente para o rico que a tradição budista ignorasse o Buda e confinasse a ética aos cinco preceitos. O rico poderia buscar a gratificação sensual e privilégios incontidos assim que a tradição em grande parte excluiu-os como uma questão moral. O Buda ainda lista 10 caminhos de ação inábil e ação hábil, 3 de corpo, 4 de fala, 3 de mente (os 4 primeiros sendo a base dos 4 primeiros preceitos). MN 41, Saleyyaka Sutta.

16 – Interconexão. Isto implica que cada “coisa” está conectada a cada outra “coisa”. É uma ideia baseada em primeiro lugar na noção de que há alguma “coisa”. É o carro o motor? Não. Então, tire o motor. É o carro as rodas? Não. Então, tire as rodas. É o carro qualquer outra parte? Não. Então, jogue fora o resto das partes. O que restou do carro a ser conectado? Nada daquele “eu”. Há a convenção de que existe um carro. Muitas mulheres juntaram-se ao Buda no modo de vida renunciado da exploração do Dharma. Uma destas mulheres, chamada Vajira, experimentou pensamentos perturbadores na meditação.

Por quem este homem foi criado?
Onde está o Artífice do ser?
De onde o ser humano se originou?
Onde o ser humano cessa?
Então isto veio à sua mente.
Quem se dedicou a esta questão? Um ser humano ou um ser não-humano?
Ah, isso vem da tentação (Mara) para despertar medo e apreensão? Ela compreendeu.
A verdade despertou nela. Ela respondeu:
Exatamente como numa união de partes a palavra carruagem é usada.
Então, quando os agregados existem,
Há a convenção de um ser humano.
Então, foi dito ao final do discurso pela voz para despertar medo.
Vajira reconheceu-me e então a voz desapareceu dali completamente. SN. 1. pag. 230.

17 – A vida é sofrimento. Está é uma declaração incorreta da primeira nobre verdade. Novamente, não há tal declaração do Buda. Se isso fosse realidade, então não haveria escapatória. Quando o sofrimento surge na vida, é devido às condições. Quando as condições para o sofrimento não estão presentes, então o sofrimento não surge.

18 – Mantras. Os Mantras são geralmente uma prática devocional para um Eu Supremo, para um Deus ou que se utiliza da pura repetição de uma palavra para condicionar a mente a reduzir o estresse ou o pensamento excessivo. O Buda ensinou a experiência direta com a respiração, o corpo, os sentimentos, os estados da mente e o dharma ao invés de qualquer mantra como a prioridade da atenção. Mantras podem, entretanto, ser uma meditação útil para acalmar a mente.

19 – Metta é bondade amorosa. Muitos tradutores Pali definiram metta como bondade amorosa. O Pali-English Dictionary, da muito respeitada Pali Text Society, na Grã-Bretanha, usa a palavra “amor” para metta. Percepções da bondade dos monges budistas podem ter influenciado a moderna tradução de metta. O dicionário diz que metta deriva de mid - amar. Bondade amorosa é uma tradução inadequada. Metta expressa amor incondicional, amizade profunda e bondade ilimitada, aberta e sem amarras. O Buda falou a Anuruddha de liberação através do amor (metta ceto-vimutti) e novamente em Itivuttaka 27.19-21. Ananda também incentivou meditar nas características de metta para se atingir a liberação.

20 – Método e técnica para desenvolver Metta. No Metta Sutta, o Buda simplesmente revelou as qualidades, atitude e estado de ser de alguém profundamente fixado em metta. Amor sem limites é a marca de uma pessoa verdadeiramente realizada. O Buda apenas ensinou a direção de metta em todas as direções assim que se esteja desapegado. Metta, que é amor, é uma força transformadora e divina que compartilha características similares à liberação. Ambas, liberação e amor, não conhecem limites. Os métodos e técnicas modernas para desenvolver metta têm muito pouca relação com a realização de metta como uma imersão permanente. Apesar disso, a aplicação de métodos e técnicas para desenvolver metta pode ser muito proveitosa. Em seu livro clássico da tradição Theravada do século V, o Visuddhimagga (o Caminho de Purificação), o Venerável Acharya Buddhaghosa aproveitou algumas das afirmações do Buda e usou-as como frases para desenvolver metta. Ex.: “Possam todos os seres estar livres da inimizade. Possam eles viver venturosamente.”

21 – Atenção plena é o elo mais importante no Caminho Óctuplo. O Buda nunca isolou um elo acima dos outros. No Discurso sobre as Quatro Aplicações de Atenção Plena, ele disse que “atenção plena é cultivada até o ponto necessário para o conhecimento, a fim de se permanecer livre e independentemente no mundo”. Não há qualquer instrução nos ensinamentos do Buda para se estar “cônscio em cada momento”. É um empreendimento impossível. Tomar um dos aspectos do caminho e elevá-lo acima dos demais abandona a originação dependente. Isso daria caráter de Eu à atenção plena. No MLD 117, o Buda declarou que visão correta, esforço correto e plena atenção correta sustentam uma à outra enquanto fornecem uma explicação abrangente da sustentação mútua e dos significados de cada elo no Nobre Caminho Óctuplo.

22 – Prática momento a momento. O Buda não adota esse tipo de idéia. Ele defende a aplicação da plena atenção ao corpo, sensações, estado da mente e dharma. É um meio de realizar uma liberação eterna. Ele não ensina o concentrar-se na plena atenção para seu próprio benefício. Ele não admite qualquer tipo de egoidade à plena atenção. Não há palavras para “momento a momento” em qualquer dos Suttas. Desenvolvemos plena atenção juntamente com seis outros membros para atingir o despertar, a saber, investigação, energia, alegria profunda, tranquilidade, concentração meditativa e equanimidade, para chegar à verdadeira sabedoria da liberação. (MLD 118) [a sigla MLD que aparece aqui pela segunda vez vem na verdade da tradução da sigla MN (Majjhima Nikaya), 117 e 118 respectivamente, que tratam de forma bem abrangente o tema].

23 – Conhecer e perceber as coisas como elas são. Não proferido pelo Buda. Uma má tradução comum de yathabhutam-ñana-dassana. Esta célebre declaração do Buda significa literalmente “conhecer e perceber conforme o que vem a ser”. Bhuta vem da raiz bhu, vir-a-ser. Isso se refere à ação de conhecer e perceber. Não há menção de coisas nesta afirmação. Esta tradução correta é uma aproximação mais dinâmica e desafiadora do que a má tradução que sugere uma idéia fixa. “O que vem a ser” se refere à originação dependente.

24 – Nenhum Eu. O Buda permaneceu em nobre silêncio quando perguntado se havia um eu ou nenhum eu. Ele simplesmente declarou que corpo, sentimentos, percepções, formações mentais, incluindo os pensamentos, e a consciência não eram alguém e não pertenciam ao eu. Ele não ensinou o eu como sendo um veículo para a liberação da falsa percepção. Anatta literalmente significa “não-eu”; se o Buda tivesse dito “nenhum eu”, ele teria falado na-atta.

25 – A Unidade é a realidade fundamental. O Buda não negou a importância da Unidade. Ele se refere a ela na experiência de Brahma Viharas (Permanência Divina ou Presença de Deus). Ele não se refere a esta Permanência como realidade fundamental, uma vez que isso traz a noção de um Eu que se une a outro. O Buda refuta que O Todo é Um e igualmente refuta que O Todo é Muitos e aponta para a originação dependente. Em MLD 117, o Buda disse: a Unificação da mente, equipada com os outros sete elos do Caminho Óctuplo, é chamada nobre concentração correta com seus suportes e requisitos.

26 – Abrir-se ao desejo. O desejo (tanha), tanto quanto a ânsia e a sede que se seguem, conduz à insatisfatoriedade e ao sofrimento. O Buda nunca endossou uma idéia como a de se abrir ao desejo. O desejo resulta do contato, da identificação com sensações particulares que condicionam o desejo e alimentam o apego. A idéia de que podemos obter aquilo que desejamos sem vínculo com os resultados compromete os ensinamentos do Buda sobre a insatisfatioriedade do desejo. Abrir-se ao desejo emite uma mensagem aos consumidores budistas para que estejam abertos a seus desejos desde que, por meio deles, sigam sem ânsia. A paz temporária da mente que experimentamos quando somos bem-sucedidos em conseguir o que queremos é devida à suspensão temporária do desejo em nossa mente. Abrir-se ao desejo dilui os ensinamentos do Buda para adequá-los à ideologia Ocidental de ir atrás do que queremos. O Buda usa outras palavras para “desejo”, como dhamma-canda, zelo pelo dharma, quando referindo-se à intenção, práticas e ações necessárias para o despertar e a liberação.

27 – A Paixão (raga) deve ser erradicada. O Buda incentivou a paixão como Dhamma rage (Paixão pelo Dharma). Não devemos confundir raga com desejo. Ele referiu-se a abandonar qualquer raga que dá cor e distorce os objetos. A palavra raga significa dar cor ou tingir.

28 – Paramitas (Perfeições). O Buda não ensina as 10 Perfeições. Elas não são encontradas em nenhum lugar dos Suttas. Ele refutou a crença de que podemos alcançar uma perfeição da mente, não importa o quanto cultivemos dana (generosidade), ética, renúncia, sabedoria, energia, paciência, honradez, decisão, metta (amor, bondade amorosa) e equanimidade. As 10 Perfeições são encontradas nos comentários do Theravada e Seis Perfeições são encontradas na tradição Tibetana.
29 – Salvação pessoal. Salvação pessoal importa para aqueles que acreditam em um Eu que deva ser salvo.

30 – Renascimento. Não há nenhuma palavra nos ensinamentos do Buda que se traduza literalmente como renascimento. Esta noção parece vir da palavra Páli punnabbhava, que literalmente significa “novo vir-a-ser” [rebecoming]. No Kalama Sutta, um dos mais queridos de todos os discursos sobre a investigação, o Buda presume uma ideia provisória sobre o “novo vir-a-ser” ao invés de referir-se a isso como um fato indubitável. Há o “novo vir-a-ser” devido a estar-se amarrado à força do desejo.

31 – Reencarnação.
 O Buda refutou a crença numa alma, Eu [self] ou essência que vai de uma vida à outra. Nossa meditação não pode mostrar algo interno permanente a deixar o corpo ao chegar a morte.

32 – Visão correta. A palavra Pali para “correto”, no caso de “visão correta”, “intenção correta” e nos seis elos restantes no Nobre Caminho Óctuplo, é Samma. Samma significa “conducente” - conducente ao completo despertar. Uma visão conducente revela uma profundidade de compreensão do que é a liberação. Samma não tem qualquer implicação de um mandamento moral, de certo ou errado. Miccha Magga significa um Caminho Não-conducente que se segue na vida.

33 – Samatha (tranquilidade) e vipassana (discernimento) são práticas separadas uma da outra.
 O Buda nunca refere-se em nenhum lugar a samatha e vipassana como técnicas. Ele ensinou samatha-vipassana como qualidades de experiência e percepções essenciais para a compreensão do Dharma. Ele disse que algumas pessoas são desenvolvidas em ambas; algumas são desenvolvidas em tranquilidade; algumas são desenvolvidas em discernimento e algumas permanecem não-desenvolvidas em ambas. O Buda nunca disse que samatha (a consciência plena da respiração) é uma técnica e que Vipassana ou meditação do discernimento (consciência do corpo ou pensamentos que surgem) é outra técnica. Diferentes tradições budistas separaram uma da outra.

34 – A visão da impermanência é tudo o que importa. O Buda nunca tomou a exploração da impermanência isoladamente do resto do corpo de seus ensinamentos. Quanto à impermanência, incentivou uma perspectiva quíntupla – vemos a originação, o desvanecimento (de eventos, fenômenos, experiências, relacionamentos, etc), a satisfação, o risco e o caminho para fora do mundo da impermanência. A experiência de impermanência (anicca – literalmente “não-permanente”) está disponível como um passo em direção ao desapego.

35 – Partícula subatômica (kalapas). O Buda não ensinou o desenvolvimento do poder de concentração (samadhi) na meditação a fim de experimentar partículas subatômicas. A palavra kalapas não aparece em nenhum lugar dos suttas. O Buda não sustentou tais coisas, como visões materialistas ou não-materialistas.

36 – A Verdade está dentro de você. Nunca declarado pelo Buda. Ele disse que preservamos a verdade quando não fazemos reinvindicações de a possuirmos. A verdade não está dentro, nem dentro de outro, nem no meio. Nós não podemos encontrar uma coisa chamada Verdade interior. A verdade é aquilo que nos desperta (bodhi-sacca), a verdade da sabedoria (sacca-ñana). Não é uma entidade substancial que alguns têm e outros não têm.

37 – Vipassana como uma técnica. Não há nada nos ensinamentos do Buda indicando que Vipassana seja uma técnica. A palavra simplesmente significa “discernimento” [insight, seria melhor traduzido como compreensão]. Um momento de discernimento é um momento de vipassana que pode surgir em qualquer lugar a qualquer momento. A tranquilidade sustenta o discernimento e o discernimento sustenta a tranquilidade. Calma e discernimento indicam liberação.

38 – Eu Real. Diversos professores budistas mais graduados inevitavelmente usam em suas conferências e escritos o conceito de Eu Real. Não há nada que valide um Eu Real. Quem ou o que internamente determina o que é esse meu Eu Real e o que não é esse meu Eu Real?

39 – Dieta vegetariana. O Buda estava mais interessado no que saía de nossas bocas, do que naquilo que entrava nelas. Ele não se opôs que os buscadores renunciados recebessem carne para comer, desde que animais não fossem mortos por eles. (MLD 55) [MN 55]. Na Índia vegetariana todos os dias andarilhos, iogues, sadhus e ascetas muito, muito raramente tocam carne. Os hindus tratam as vacas na Índia com reverência sagrada por seu modo tranquilo e seus laticínios. É improvável que os hindus oferecessem à Sangha desabrigada do Buda qualquer coisa com aspecto de carne – isto é, animais, aves ou peixe. O Buda necessitaria revisar radicalmente sua visão hoje a respeito da ingestão de carne. Há crueldade para com os animais em nossos grandes matadouros. Animais são abastecidos com uma dieta prejudicial. Vacas, ovelhas, porcos e aves consomem uma enorme quantidade de comida, quer confinados em fábricas animais, quer ocupando terras valiosas que poderiam fornecer grãos, frutas e vegetais. Milhões de budistas entoam para salvar todos os seres sencientes e dispensar bondade amorosa aos animais, aves e peixes, mas continuam a comê-los, geralmente no dia-a-dia.

40 – Meditações com visualização. O Buda forneceu práticas diretas para vermos e conhecermos por nossas próprias experiências o que vem a ser, ao invés de aplicar sobre a experiência visual figuras, imagens ou arquétipos mentais. Do mesmo modo que com os métodos para metta, o uso de práticas com mantras, visualização, podem, contudo, ser uma forma muito benéfica de meditação.

41 – Nós criamos nossa própria realidade. O Buda nunca fez essa declaração. Você vê essa frase atribuída ao Buda em posters e calendários. É uma idéia bizarra. Pode a mente criar o céu, a terra, a natureza e incontáveis seres sencientes? A crença de que criamos nossa própria realidade é uma projeção primitiva. Não podemos criar nem mesmo nosso próprio sofrimento. A noção de “eu” e “meu” simplesmente surge com condições que têm um suporte. As condições da originação dependente dão forma à realidade. A mente não pode criá-la. O Eu substituiu Deus, o Criador, pelo Eu, o Criador. É outra projeção. Isso vem da má tradução do primeiro verso do Dhammapada. O buda disse que “todos os dharmas são fabricados pela mente”. Isso significa que a mente constrói o Eu pelo que é percebido. A mente concede substância, essência, alma ou egoidade àquilo que é originação dependente.

42 – Atenção sábia. Uma tradução simples. As palavras Páli são yoniso-manasikara. Yoni é o útero da mãe. Manas é mente. Kara é ação. É a ação da mente que emerge da profundeza de nosso ser. Yoni é usada metaforicamente. Manas é mente. Kara é ação. Yoniso-manasikara indica o estabelecimento da mente.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

NIBBANA

Dos “conceitos” mais centrais, essenciais, apresentados pelo Buda, o que mais causa espanto ou desconcerto no ocidental, geralmente é o de Nibbana (Nirvana em sânscrito). Na verdade é um tema difícil mesmo para orientais budistas, mesmo para muitos monges. A palavra conceito está entre aspas porque Nibbana não é um conceito, mas exatamente o que não pode ser conceituado. Para ser mais fiel às palavras do Senhor Buda temos que reconhecer que Nibbana não é definível, só pode ser compreendido pela experiência direta dele (seja gradativa ou imediata). Nibbana é descrito como “profundo, difícil de ver e difícil de compreender, (...) que não pode ser alcançado através do mero raciocínio” (MN 26.19).

Muitos ocidentais gostam de equivaler Nibbana à ideia de um Deus (que apenas não seria criador como o dos monoteístas ocidentais), seria um deus transcendente, porém mais imanente do que propriamente um fazedor ou gerador de tudo; seria impessoal, como o deus de alguns gnósticos, por exemplo. Essa ideia não pode ser facilmente descartada ou admitida, afinal existem tantas diversas concepções sobre um deus absoluto no ocidente como existem concepções sobre nirvana no oriente; dizer que nenhuma delas se equivalha é no mínimo precipitado. Porém mais importante é saber que Nibbana, objetivo último do budista, não pode ser simplesmente entendido ou definido, mas sim que nós temos que conhecer pessoalmente, experimentá-lo gradualmente e não nos conformarmos com as primeiras visões que se nos apresentem ou que experimentamos.

Muito relacionado com esse termo temos anatta, traduzido comumente como não-eu, que se refere tanto à insubstancialidade de tudo quanto à impessoalidade; precisamente à ausência de um eu, ego ou egoídade; de uma entidade ou essência imutável e eterna em qualquer coisa, inclusive em nós, e, portanto também, de um possuidor de qualquer coisa. Mas Nibbana é a única coisa que transcende isso. É preciso que se diga que Nibbana é apontado pelo Senhor Buda como “o imortal”. Buda fala de Nibbana como sendo a outra margem, o fim do cativeiro, a praia segura, e outras tantas descrições, e em se tratando do tema em questão, ele é seguro porque é imutável, satisfatório, imortal. Buda não disse que tudo é transitório, insatisfatório e insubstancial, ele disse que tudo no mundo tal como vivenciamos é assim, porém que há uma esperança, uma saída dessa realidade condicionada, mutável, mortal, insatisfatória. Essa saída é precisamente Nibbana.

Um guia sobre a experiência de Nibbana é a descrição dada por Buda. Esse pequeno sutta trata disso. Ele mostra como Nibbana é a saída do cativeiro condicionado, limitado, insatisfatório, ilusório, mortal; do mundo que vivemos. Ele é uma adaptação das traduções encontradas no site www.acessoaoinsight.net e de alguns livros de Antônio Carlos Rocha.

Udana VIII.3
Nibbana Sutta
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Em certa ocasião o Abençoado estava em Savatthi, no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Naquela ocasião, o Abençoado estava instruindo, estimulando, encorajando e motivando os bhikkhus com um discurso do Dhamma relativo ao Nibbana. Os bhikkhus – receptivos, atentos, focando toda a sua atenção, ouviam o Dhamma.
Então, dando-se conta do significado disso, o Abençoado nessa ocasião exclamou:
"Existe, bhikkhus, o não nascido, o que não é advindo, o que não é feito, o que não é condicionado. Se não existisse o não nascido, o que não é advindo, o que não é feito, o que não é condicionado, não haveria esperança de emancipação do nascido - do advindo, do feito, do condicionado. Porém precisamente porque há o não nascido, o que não é advindo, o que não é feito, o que não é condicionado, a emancipação do nascido, do advindo, do feito, do condicionado é possível."



quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Caminho para o Imperturbável

Aneñjasappaya Sutta
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1. Em certa ocasião o Abençoado estava entre os Kurus numa cidade denominada Kammasadhamma. Lá ele se dirigiu aos monges desta forma: "Bhikkhus." – "Venerável Senhor," eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:
2. “Bhikkhus, os prazeres sensuais [1são impermanentes, vazios, falsos, enganosos; eles são ilusórios, a tagarelice dos tolos. Os prazeres sensuais aqui e agora e os prazeres sensuais nas vidas que virão, as percepções sensuais aqui e agora e as percepções sensuais nas vidas que virão – ambos são igualmente o reino de Mara, o domínio de Mara, o engodo de Mara,A RESERVADescrição: http://cdncache-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png de caça de Mara. Por conta deles, estes estados ruins e prejudiciais como a cobiça, má vontade e a presunção surgem, e eles constituem uma obstrução para o nobre discípulo que aqui se encontra em treinamento.
(O IMPERTURBÁVEL) [2]
3. “Nesse sentido, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Os prazeres sensuais aqui e agora e os prazeres sensuais nas vidas que virão ... constituem uma obstrução para o nobre discípulo que aqui se encontra em treinamento. E se eu permanecesse com a mente abundante e transcendente, tendo superado o mundo e tomado uma firme decisão com a mente. [3Quando eu fizer isso, não haverá mais estados mentais ruins e prejudiciais em mim como a cobiça, má vontade e presunção, e com o abandono destes a minha mente estará ilimitada, imensurável e bem desenvolvida.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. [4Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para o imperturbável. [5Este, bhikkhus, é declarado o primeiro caminho dirigido para o imperturbável.
4. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte:[6‘Existem prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão; qualquer que seja a forma material, toda forma material compreende os quatro grandes elementos e a forma material derivada dos quatro grandes elementos.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim com freqüência, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para o imperturbável. Este, bhikkhus, é declarado o segundo caminho dirigido ao imperturbável.
5. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte:[7‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão – ambas são igualmente impermanentes. Aquilo que é impermanente, não vale a pena se deliciar nele, não vale a pena recebê-lo, não vale a pena se agarrar nele.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para o imperturbável. Este, bhikkhus, é declarado o terceiro caminho dirigido ao imperturbável.
(A BASE DO NADA)
6. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: [8‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão, e percepções do imperturbável – são todas percepções. Onde todas essas percepções cessam sem vestígios, isso é a paz, isso é o sublime, isto é, a base do nada.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base do nada. Este, bhikkhus, é declarado o primeiro caminho dirigido à base do nada.
7. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo, dirigindo-se à floresta, ou à sombra de uma árvore, ou a um local isolado, considera o seguinte: ‘Isto está vazio de um eu ou daquilo que pertence a um eu.’ [9Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base do nada. Este, bhikkhus, é declarado o segundo caminho dirigido à base do nada.
8. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Isso poderá não ser; isso poderá não ser meu. Isso não será; isso não será meu. Eu estou abandonando aquilo que existe, que veio a ser.' [10Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nesta base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança o imperturbável agora, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base do nada. Este, bhikkhus, é declarado o terceiro caminho dirigido à base do nada.
(BASE DA NEM PERCEPÇÃO, NEM NÃO PERCEPÇÃO)
9. “Novamente, bhikkhus, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão, percepções do imperturbável e percepções da base do nada – são todas percepções. Onde todas essas percepções cessam sem vestígios, isso é a paz, isso é o sublime, isto é, a base da nem percepção, nem não percepção.’ Ao praticar dessa forma e permanecer assim freqüentemente, a sua mente adquire confiança nessa base. Uma vez que haja completa confiança, ele ou alcança a base da nem percepção, nem não percepção, ou então decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria. Na dissolução do corpo, após a morte, é possível que a consciência dele, conduzindo ao renascimento, possa passar para a base da nem percepção, nem não percepção. Este, bhikkhus, é declarado o caminho dirigido à base da nem percepção, nem não percepção.”
(NIBBANA)
10. Quando isso foi dito, o venerável Ananda disse para o Abençoado: “Venerável senhor, aqui um bhikkhu está praticando assim: ‘Se isso não tivesse sido, isso não seria meu; isso não será e isso não será meu. O que existe, o que veio a ser, isso eu estou abandonando.’ [11Dessa forma ele obtém a equanimidade. [12Venerável senhor, esse bhikkhu realiza Nibbana?”
“Um bhikkhu aqui, Ananda, poderá realizar Nibbana, um outro bhikkhu aqui poderá não realizar Nibbana.”
“Qual é a causa e razão, venerável senhor, porque um bhikkhu aqui poderá realizar Nibbana, enquanto que outro bhikkhu aqui poderá não realizar Nibbana?”
“Aqui, Ananda, um bhikkhu pratica da seguinte forma: ‘Se isso não tivesse sido, isso não seria meu; isso não será e isso não será meu. O que existe, o que veio a ser, isso eu estou abandonando.’ Assim ele obtém a equanimidade. Ele se delicia nessa equanimidade, a recebe, permanece agarrado a ela. Ao agir assim, a sua consciência se torna dependente disso e se apega a isso. Um bhikkhu, Ananda, que está influenciado pelo apego não realiza Nibbana.”
11. “Mas, venerável senhor, quando um bhikkhu se apega, a que ele está se apegando?”
“À base da nem percepção, nem não percepção, Ananda.”
“Quando um bhikkhu se apega, venerável senhor, parece que ele se apega ao melhor objeto de apego.”
“Quando esse bhikkhu se apega, Ananda, ele se apega ao melhor objeto de apego, pois esse é o melhor objeto de apego, isto é, a base da nem percepção, nem não percepção. [13]
12. “Aqui, Ananda, um bhikkhu pratica da seguinte forma: ‘Se isso não tivesse sido, isso não seria meu; isso não será e isso não será meu. O que existe, o que veio a ser, isso eu estou abandonando.’ Assim ele obtém a equanimidade. Ele não se delicia nessa equanimidade, não a recebe, não fica agarrado a ela. Como ele não age assim, a sua consciência não se torna dependente disso e não se apega a isso. Um bhikkhu, Ananda, que está sem apego, realiza Nibbana.”
13. “É maravilhoso, venerável senhor, é admirável! O Abençoado, de fato, nos explicou como cruzar a torrente na dependência de um apoio ou outro. [14Mas, venerável senhor, o que é a nobre libertação?” [15]
“Aqui, Ananda, um nobre discípulo considera da seguinte forma: ‘Prazeres sensuais aqui e agora e prazeres sensuais nas vidas que virão, percepções sensuais aqui e agora e percepções sensuais nas vidas que virão, formas materiais aqui e agora e formas materiais nas vidas que virão, percepções das formas aqui e agora e percepções das formas nas vidas que virão, percepções do imperturbável, percepções da base do nada e percepções da base da nem percepção, nem não percepção – isso é a identidade até onde se estende a identidade. [16Isto é o Imortal, isto é, a libertação da mente através do desapego.’ [17]
14. “Portanto, Ananda, eu ensinei o caminho para o imperturbável, eu ensinei o caminho para a base do nada, eu ensinei o caminho para a base da nem percepção, nem não percepção, eu ensinei o caminho para cruzar a torrente na dependência de um apoio ou outro, eu ensinei a nobre libertação.
15. “Aquilo que por compaixão um Mestre deveria fazer para os seus discípulos, desejando o bem-estar deles, isso eu fiz por você, Ananda. Ali estão aquelas árvores, aquelas cabanas vazias. Medite, Ananda, não adie, ou então você irá se arrepender mais tarde. Essa é a nossa instrução para você.”
Isso foi o que disse o Abençoado. O venerável Ananda ficou satisfeito e contente com as palavras do Abençoado..



Notas:
[1] MA diz que se tem em mente ambos, os prazeres sensuais objetivos e as contaminações sensuais. [Retorna]
[2] Veja o MN 105 – nota 6, aqui também parece que o termo “imperturbável” abrange só o quarto jhana e as duas primeiras realizações imateriais. [Retorna]
[3] MA explica: “tendo superado o mundo da esfera sensual e tendo decidido com uma mente que tem nos jhanas o seu objetivo.” [Retorna]
[4] MA explica a frase “a sua mente adquire confiança nessa base” com o significado de que ele alcança ou o insight que tem como objetivo o estado de arahant, ou o acesso ao quarto jhana. Se ele obtiver o acesso ao quarto jhana, isto se torna a sua base para alcançar o “imperturbável,” isto é o quarto jhana em si. Mas se ele obtiver o insight, então ele decide pelo aperfeiçoamento da sabedoria através do aprofundamento do insight para alcançar o estado de arahant. A decisão pelo “aperfeiçoamento da sabedoria” pode explicar porque tantos versos deste sutta, embora culminando com as realizações advindas da concentração, estão expressas através de frases apropriadas para explicar o desenvolvimento do insight. [Retorna]
[5] MA explica que este trecho descreve o processo de renascimento de alguém que não conseguiu alcançar o estado de arahant depois de ter alcançado o quarto jhana. A “consciência conduzindo ao renascimento”, (samvattanikam viññanam), é a consciência resultante através da qual aquele ser renasce, e ela possui a mesma natureza imperturbável da consciência produtora de kamma que alcançou o quarto jhana. Como a consciência do quarto jhana é que irá determinar o renascimento, este ser irá renascer num mundo celestial correspondente ao quarto jhana.
Na versão paralela dos Agamas em chinês (MA 75) aparece este trecho:
"Em um momento posterior, com a dissolução do corpo e o fim da vida, devido a essa anterior inclinação mental, ele certamente irá realizar o imperturbável."
Não há menção no MA 75 da expressão "a “consciência conduzindo ao renascimento”, (samvattanikam viññanam)". [Retorna]
[6] MA diz que esta é a reflexão de alguém que alcançou o quarto jhana. Como ele inclui a forma material entre as coisas a serem superadas, se ele alcançar o imperturbável, terá alcançado a base do espaço infinito, e se ele não alcançar o estado de arahant irá renascer no mundo do espaço infinito. [Retorna]
[7] MA diz que esta é a reflexão de alguém que alcançou a base do espaço infinito. Se ele alcançar o imperturbável, terá alcançado a base da consciência infinita e irá renascer naquele mundo, se não tiver alcançado o estado de arahant. [Retorna]
[8] Esta é a reflexão de alguém que alcançou a base da consciência infinita e tem como objetivo alcançar a base do nada. [Retorna]
[9] MA chama isto de vacuidade com duas pontas – a ausência de um “eu” e “meu” – e diz que este ensinamento sobre a base do nada é exposto por meio do insight ao invés da concentração, que foi a abordagem da seção anterior. No MN 43.33, é dito que esta contemplação conduz à libertação da mente através da vacuidade. [Retorna]
[10] MA chama isto de vacuidade com quatro pontas e explica da seguinte forma: (i) ele não vê o seu eu em nenhum lugar; (ii) ele não vê um eu que lhe pertença que possa ser tratado como algo que pertence a outrem, exemplo, como um irmão, amigo, assistente, etc.; (iii) ele não vê o eu de outrem; (iv) ele não vê o eu de outrem que possa ser tratado como algo que pertença a ele.
Veja o AN VII.55. [Retorna]
[11] MA explica: “Se o ciclo de kamma não houvesse sido acumulado por mim, agora não existiria para mim o ciclo de resultados; se o ciclo de kamma não for acumulado por mim agora, no futuro não haverá o ciclo de resultados.” “O que existe, o que veio a ser” são os cinco agregados.[Retorna]
[12] MA diz que ele obtém a equanimidade do insight, mas considerando o verso 11 parece que também se tem em mente a equanimidade da base da nem percepção, nem não percepção.[Retorna]
[13] MA: Isso é dito com referência ao renascimento daquele que alcança a base da nem percepção, nem não percepção. O significado é que ele irá renascer no melhor, no mais elevado plano de existência. [Retorna]
[14] Nissaya nissaya oghassa nittharana. MA: O Buda explicou como um bhikkhu pode cruzar a torrente empregando como base (para alcançar o estado de arahant) qualquer uma das realizações do terceiro jhana até a quarta realização imaterial. [Retorna]
[15] MA: A pergunta de Ananda tem a intenção de obter do Buda um relato da prática de meditação de insight “direto” ou “seco” (dry insight) (sukkhavipassaka), através da qual se obtém o estado de arahant sem depender das realizações de jhana. [Retorna]
[16] Esa sakkayo yavata sakkayo. MA: isso é a identidade na sua totalidade – o ciclo nos três reinos de existência; não existe identidade fora disso. [Retorna]
[17] MA: tem-se em mente o estado de arahant alcançado através da meditação de insight “direta”. MT adiciona que o estado de arahant é chamado de “Imortal” porque tem o sabor do Imortal, tendo sido alcançado com base no Nibbana do Imortal. [Retorna]


Revisado: 6 Novembro 2013

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

AMOROSIDADE


Muitos hoje se aproximam do budismo por ser uma religião mais racional e prática, enxuta e pragmática em sua moralidade que contempla uma vasta gama de condutas com poucos treinamentos ou “preceitos”, sem nenhum aspecto metafísico a ser aceito ou crido de antemão e, embora talvez a religião mais extensa em seus livros sagrados, não possui uma sabedoria dogmática, tem quase nenhuma mitologia e mesmo em sua simbologia é clara e objetiva, na grande maioria das vezes explicadas imediatamente pelo próprio Buda, o que dificulta a diversidade de interpretações causadoras de celeumas como temos em relação a outros livros sagrados a exemplo da bíblia e do alcorão.

Isso também foi o que me aproximou do budismo, além de alguns outros fatores. Entre eles sempre destaco dentro dessa temática a quase singularidade de não ser uma religião revelada e de oferecer um método para ver por si mesmo, Buda diz “seja seu próprio mestre” e “não acredite só porque alguém disse ou porque eu estou dizendo”. O “faça você mesmo” e o “venha e veja”, são dois aspectos que, no meu entendimento, o budismo oferece e satisfaz qualquer pessoa que se aproxime dele e sinceramente experimente praticá-lo. Quer dizer, o Buda não dá uma série de informações nas quais você deva acreditar ou aceitar ou ver se está de acordo com o que você pensa; ele não se diz o dono da verdade e que você estará salvo se acreditar nele e condenado se duvidar. Ele nos convida a experimentarmos, em nossas vidas, a prática de uma forma de moral e de uma forma de meditação que nos levará gradualmente à felicidade e libertação da ignorância, do medo, do sofrimento, etc. e ele oferece um método eficaz para isso, e comprovaremos essa eficácia por nós mesmos, sem ter que acreditar cegamente, mas sim fazendo por nós mesmos e experimentando os seus resultados. Ele também não oferece uma sabedoria axiomática ou decorada com regras de ouro e explicações fabulosas, ele nos oferece uma sabedoria elevada em seus resultados, que deve ser estudada, compreendida, mas que só poderá ser comprovada em seus mais elevados objetivos se levamo-la à prática. Ele não diz “isto é assim, acredite porque eu sou Buda e vi por mim mesmo”, ele diz “venha e veja”, veja você mesmo, você deve ver o que ele vê e não simplesmente crer.

Entretanto, muitas vezes um pouco tarde vamos notar que o aspecto moral e da boa vontade é um aspecto primordial, ou seja, que vem primeiro no treinamento gradual, é a primeira prática a ser experimentada. Sem a “purificação da mente” não há budismo, e para que haja a purificação da mente devemos experimentar na prática a receita da virtude ética e moral do senhor Buda, experimentá-la a fim de comprovarmos seus resultados em nossa vida, mas não só isso, talvez até principalmente, para colhermos os frutos dessa conduta. Sem o que é traduzido geralmente como moradas divinas, que são as qualidades fundamentais que temos que desenvolver para avançar no caminho (amorosidade, compaixão, alegria altruísta e equanimidade), o ver por si mesmo permanecerá muito limitado. Nós não temos essas características ou capacidades desenvolvidas, é preciso aprendê-las e treiná-las, pois a verdadeira e definitiva purificação mental só é atingida através da meditação avançada, quando já se pode ver e compreender por si mesmo. Buda ensina um método para desenvolver essas qualidades, treinando-as, pois são a conduta correta em relação aos seres vivos, o que evitará o conflito, o sofrimento, a carência, a insegurança, etc. na vida no mundo; além de serem considerados estados sublimes nos quais se pode obter os reais benefícios das práticas e da meditação.  Aquele que desenvolver esses estados mentais, através da conduta e da meditação, obterá a felicidade. Esse sutta trata em forma de verso do primeiro desses estados (metta, amorosidade, também traduzido como amor-bondade, amistosidade ou simplesmente amor), de como cultivá-lo e de suas vantagens.

Sutta Nipata I.8

Karaniya Metta Sutta

Amor Bondade

Somente para distribuição gratuita.
Este
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De outra forma todos os direitos estão reservados.

 



Quem é hábil no que é benéfico, desejando alcançar
aquele estado de paz, age assim:
capaz, correto, honrado,
com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância,

Satisfeito e fácil de sustentar,
sem ser exigente por natureza, frugal no seu modo de vida,
os sentidos acalmados, sábio,
moderado, sem cobiçar ganhos.

Não faz nada, mesmo que trivial,
que seja condenado pelos sábios.[
1]
Pense: felizes, seguros,
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Todos os seres vivos que existem,
fracos ou fortes, [
2] sem exceção,
compridos, grandes,
médios, curtos,
sutis, grosseiros,

Visíveis e invisíveis,
próximos e distantes,
nascidos e por nascer:
que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança.

Que ninguém engane
ou despreze outrem, em nenhum lugar,
ou devido à raiva ou má vontade
deseje que alguém sofra. [
3]

Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida,
ama e protege o seu filho, o seu
único filho,
da mesma forma, abraçando todos os seres,
cultive um coração sem limites.

Com amor bondade para todo o universo,
cultive um coração sem limites:
Acima, abaixo e em toda a volta,
desobstruído, livre da raiva e da má vontade.

Quer seja parado, andando,
sentado, ou deitado,
sempre que estiver desperto,
cultive essa atenção plena:
a isto se denomina uma morada divina
no aqui e agora.[
4]

Sem estar aprisionado pelas idéias,
virtuoso e com a visão consumada,
tendo subjugado o desejo pelo prazer sensual,
ele não mais renascerá.[
5]

 



 

Notas:

[1] Como pode ser observado, os temas do sutta não correspondem exatamente às estrofes do poema. O primeiro tema – virtude ou disciplina moral – compreende do primeiro verso até a primeira metade do terceiro verso. A virtude, (sila), proporciona o sólido fundamento ético no qual se baseia o desenvolvimento da mente. As primeiras duas linhas dizem que essa base ética é tanto uma estratégia para alcançar o objetivo da iluminação bem como uma expressão do caráter da pessoa. É aceito como verdadeiro que todos os seres aspiram pela própria felicidade, todos querem ser felizes, e este sutta tem a intenção de ajudar as pessoas a alcançarem esse objetivo ensinando quais as qualidades de caráter benéficas que devem ser desenvolvidas com habilidade. Tudo que segue no sutta é uma série de descrições sobre como uma pessoa sábia e hábil, ou uma pessoa que deseja progredir na direção do objetivo, deveria se comportar no mundo. Uma lista de virtudes específicas é apresentada – gentil, não arrogante, moderado, etc. – seguida por um enunciado geral (“Não faz nada ...”) que engloba todas as demais virtudes que não foram especificadas em detalhe.

[2] Tasa va thavara, literalmente “em movimento” ou “estável”, mas o seu significado vai além do sentido literal. O que está implícito é que alguns seres estão em movimento porque estão agitados, insatisfeitos ou impulsionados pelo desejo e isso no contexto Budista compreende a noção de fragilidade ou fraqueza. De modo semelhante, quando alguém está firmemente estabelecido, tranqüilo e quieto, isso expressa uma condição de maior força e estabilidade. O amor bondade para com o primeiro tende para a compaixão pelo bem-estar dos mais fracos, enquanto que para com o último tende para a alegria altruísta pela capacidade dos fortes.

[3] Na metade do terceiro verso, a voz dos verbos muda para refletir a transição para a prática meditativa. Os verbos no imperativo, (“pense ...”), são usados para guiar a intenção no momento presente para a geração de amor bondade ou boa vontade. Enquanto que as virtudes no primeiro tema são apresentadas como conceitos, (“Ser capaz, correto ...”), a uma certa distância, aqui a linguagem é imediata e aponta diretamente para o cultivo do estado de boa vontade para com todos os seres. Isto alinha o poema com a prática de metta bhavana, ou meditação de amor bondade, e essas frases podem ser empregadas como guia para essa prática.

A geração de intenção é essencial na prática da meditação de metta, onde ela desenvolve o papel de moldar a qualidade da mente no momento presente. Ao invés de pensar em algo ou se recordar do passado, ou planejar o futuro, a pessoa adota naquele exato momento a qualidade mental de desejar o bem estar dos outros. Por conseguinte estamos passando da virtude geral para a meditação específica, para o cultivo deliberado de certos estados mentais e a intenção de manter presente um certo objeto na mente. Neste caso o objeto é o pensamento com respeito a todos os seres, enquanto que o estado mental com relação a esse objeto é a intenção ou desejo que todos os seres tenham felicidade e segurança.

A mudança de voz no sexto verso indica a descrição de algumas das diretrizes para a prática de ações benéficas.

[4] A meditação de metta é caracterizada como um dos quatro brahma viharas ou moradas divinas. Várias nuances de amor maternal são também empregadas para descrever os outros três brahma viharas ou qualidades divinas do coração: compaixão (tal qual uma mãe em relação a um filho doente), alegria altruísta (tal qual uma mãe em relação a um filho que vai em busca do seu lugar no mundo), e equanimidade (tal qual uma mãe ao ouvir sobre os eventos da vida de um filho adulto).

O nono verso estabelece uma relação crucial entre a meditação de metta e a meditação vipassana, (insight), através da clássica ênfase na atenção plena.

[5] O último verso do sutta desloca a ênfase da meditação para a realização da sabedoria – o plano mais elevado na aspiração Budista. Esse é o cume do caminho, a destinação que é alcançada quando a prática diligente de meditação é desenvolvida sobre uma base sólida de virtude. A ênfase é colocada na purificação da visão, a habilidade para ver com clareza. Menciona a eliminação do desejo como um elemento das experiências e nomeia a emancipação do renascimento como o fruto da iluminação.

 

 

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