Pesquisar este blog

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Ambattha e o Orgulho Ferido

Digha Nikaya 3

 Ambattha Sutta

Somente para distribuição gratuita


1.1 Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava perambulando por Kosala com uma grande sangha de bhikkhus até que por fim acabou chegando num vilarejo brâmane denominado Icchanankala, ficando na densa floresta de Icchanankala. Naquela ocasião, o Brâmane Pokkharasati estava vivendo em Ukkhattha, uma propriedade real com muitos habitantes, rica em pastagens, árvores, rios e grãos, uma concessão real, uma doação sagrada que lhe foi dada pelo rei Pasenadi de Kosala.[1]

1.2. E Pokkharasati ouviu: “Gotama, o contemplativo, o filho dos Sakyas, que adotou a vida santa deixando o clã dos Sakyas, está na densa floresta de Icchanankala. E acerca desse mestre Gotama existe essa boa reputação: ‘Esse Abençoado é sublime, digno, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, iluminado, sublime. Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta geração com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. Ele ensina o Dhamma, com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. É bom poder encontrar alguém tão nobre.’

1.3. Agora, naquela época Pokkharasati tinha um pupilo, o jovem Ambattha, que era um estudante dos Vedas, um mestre dos três Vedas com os seus mantras, liturgia, fonologia e etimologia e as histórias como quinto elemento; hábil em filologia e gramática, um perito em filosofia natural [2] e nas marcas de um grande homem, [3] reconhecido e aceito pelo seu mestre nos três Vedas, através das palavras: ‘O que eu sei, você sabe; o que você sabe, eu sei.’

1.4. E Pokkharasati disse para Ambattha: “Estimado Ambattha, Gotama o contemplativo  .... está habitando na densa floresta de Icchanankala. E acerca desse mestre Gotama existe essa boa reputação ... Agora, estimado Ambattha, vá ver o contemplativo Gotama para descobrir se esse relato é correto ou não, e se o Mestre Gotama é como dizem dele. Assim conheceremos o Mestre Gotama por seu intermédio.

1.5. “Senhor, como irei descobrir se esse relato é correto ou não e se o Mestre Gotama é como dizem?”
“Estimado Ambattha, as trinta e duas marcas de um grande homem foram transmitidas através dos nossos mantras e o grande homem que as possuir tem apenas duas opções. Se ele viver a vida em família ele se tornará um regente, um monarca justo que irá governar  de acordo com o Dhamma; [4] conquistador dos quatro pontos cardeais, que estabelecerá a segurança no seu reino e que possuirá os sete tesouros.[5] Que são: a Roda Preciosa, o Elefante Precioso, o Cavalo Precioso, a Jóia Preciosa, a Mulher Preciosa, o Tesoureiro Precioso e como sétimo o Conselheiro Precioso. Ele terá mais de mil filhos que serão corajosos e heróicos e que aniquilarão os exércitos inimigos. Ele governará, tendo conquistado esta terra circundada pelo mar, sem bastão ou espada, através do Dhamma. Mas se ele deixar a vida em família e seguir a vida santa, então ele se tornará um arahant, um Buda perfeitamente iluminado, aquele que remove o véu do mundo. [6] E eu, Ambatha, sou o transmissor dos mantras e você é o recebedor.

1.6. “Sim, senhor,” ele respondeu. Ele se levantou e depois de homenagear Pokkharasati, mantendo-o à sua direita, subiu na sua carruagem puxada por um jovem garanhão, acompanhado por vários jovens brâmanes, ele foi em direção à densa floresta de Icchanankala. Ele foi até onde a estrada permitia o acesso das carruagens e depois desmontou da sua carruagem e seguiu a pé.

1.7. Agora, naquela ocasião muitos bhikkhus estavam caminhando para cá e para lá ao ar livre. Então, Ambattha foi até eles e perguntou: “Veneráveis senhores, onde ele está agora, o Mestre Gotama? Nós queremos ver o Mestre Gotama.” 

1.8. Os bhikkhus pensaram: “Esse Ambattha é um jovem de boa família e um pupilo do respeitado Brâmane Pokkharasati. O Abençoado não se importaria em ter uma conversa com um jovem como esse.” E eles responderam para Ambattha: “Aquela, com a porta fechada, é a habitação dele. Vá até lá em silêncio, sem pressa, entre na varanda, limpe a garganta e bata na porta. O Abençoado abrirá a porta.”

1.9. Ambattha foi até a habitação com a porta fechada, entrou na varanda, limpou a garganta e bateu na porta. O Abençoado abriu a porta, Ambattha entrou, ambos se cumprimentaram com cortesia e o Abençoado sentou a um lado. Mas Ambattha ficou caminhando para cá e para lá enquanto o Abençoado estava ali sentado, dizendo de modo indistinto algumas palavras de cortesia, ficando em pé ante o Abençoado enquanto assim falava.

1.10. E o Abençoado disse para Ambattha: “Estimado Ambattha, você se comportaria dessa forma se estivesse conversando com os veneráveis e eruditos Brâmanes, mestres de mestres, assim como você se comporta comigo, caminhando e ficando em pé enquanto eu estou sentado, e dizendo de modo indistinto algumas palavras de cortesia?” “Não, Mestre Gotama. Um Brâmane deve caminhar com um brâmane que esteja caminhando, ficar em pé com um Brâmane que esteja em pé, sentar com um Brâmane que esteja sentado e deitar com um Brâmane que esteja deitado. Mas com relação aos contemplativos carecas, esses subalternos com a tez escura, descendentes dos pés do Ancestral, com eles é apropriado que se converse da forma como faço com o Mestre Gotama.”

1.11. “Mas, Ambattha, você veio até aqui em busca de algo. Qualquer que seja a razão pela qual você aqui veio, você deveria dar atenção para poder ouvir. Ambattha, o seu treinamento não é perfeito. A sua presunção por estar em treinamento se deve apenas à sua inexperiência.”

1.12. Mas Ambattha ficou furioso e irritado por ter sido chamado de mal-treinado e se dirigiu ao Abençoado com insultos e grosserias. Pensando: “O contemplativo Gotama tem má vontade em relação a mim,” ele disse: “Mestre Gotama, os Sakyas são cruéis, com a linguagem grosseira, irritáveis e violentos. Tendo uma origem servil, sendo  servos, eles não honram, respeitam, estimam, veneram ou homenageiam os Brâmanes. Com relação a isso não é apropriado que ... eles não homenageiem os Brâmanes.’ Essa foi a primeira vez que Ambattha acusou os Sakyas de serem servos.

1.13. “Mas, Ambattha, que mal lhe fizeram os Sakyas?”
“Mestre Gotama, certa vez fui a Kapilavatthu para tratar de negócios do meu mestre, o Brâmane Pokkharasati, indo para o salão de reuniões dos Sakyas. Naquela ocasião um grande número de Sakyas estavam sentados sobre assentos elevados no salão de reuniões, cutucando uns aos outros com os dedos, rindo e gracejando juntos, tive a impressão de que eles só estavam se divertindo às minhas custas, e ninguém me ofereceu um assento. Com relação a isso, não é apropriado que ... eles não homenageiem os Brâmanes.” Essa foi a segunda vez que Ambattha acusou os Sakyas de serem servos.

1.14. “Mas, Ambattha, até mesmo a codorna, essa pequena ave, pode piar o quanto quiser no seu próprio ninho. Kapilavatthu é o lar dos Sakyas, Ambattha. Eles não merecem censura por tão pouco.”
“Mestre Gotama, há quatro castas: [7] os Khattiyas, os Brâmanes, os comerciantes e os trabalhadores. E dessas quatro castas, três, os Khattiyas, os comerciantes e os trabalhadores, são totalmente subservientes aos Brâmanes. Com relação a isso, não é apropriado que .. eles não homenageiem os Brâmanes.” Essa foi a terceira vez que Ambattha acusou os Sakyas de serem servos.

1.15. Então, o Abençoado pensou: “Este jovem está se excedendo na ofensa aos Sakyas. E se eu lhe perguntasse o seu nome de clã?” Assim ele disse: “Ambattha, qual é o seu clã?” “Eu sou um  Kanha, Mestre Gotama.”
“Ambattha, em tempos passados, de acordo com aqueles que se recordam da linhagem ancestral, os Sakyas eram os senhores e você descende de uma escrava dos Sakyas. Pois os Sakyas consideram o Rei Okkaka como seu ancestral. Certa ocasião, o Rei Okkaka, que amava e estimava a rainha, desejando transferir o reino para o filho dela, baniu os seus irmãos mais velhos do reino - Okkamukha, Karandu, Hatthiniya e Sinipura. E estes, tendo sido banidos, se estabeleceram aos pés do Himalaia junto a uma lagoa com flores de lótus na qual havia um grande bosque de árvores teca. [8] E por temer contaminar a estirpe, eles coabitavam com as próprias irmãs. Então, o Rei Okkaka perguntou aos seus ministros e conselheiros: “Onde estão vivendo os príncipes agora?” e eles lhe disseram. Ouvindo isso o Rei Okkaka exclamou: “Eles são fortes como teca (saka), esses príncipes, eles são verdadeiros Sakyas!” E assim foi como os Sakyas obtiveram o seu conhecido nome. E o Rei foi um ancestral dos Sakyas.

1.16. “Agora, o Rei Okkaka tinha uma escrava chamada Disa, que deu à luz a um bebê negro. Esse bebê negro, ao nascer, exclamou: ‘Lave-me, mãe! Banhe-me, mãe! Livre-me dessa sujeira, assim irei lhe proporcionar muito benefício!’ Porque, Ambatha, assim como as pessoas, hoje, usam o termo demônio, (pisaca), como designação ofensiva, assim naquela época elas diziam negro, (kanha). E elas diziam: ‘Nem bem nasceu, ele falou. É um Kanha que nasceu, um negro!’ Assim em tempos passados ... os Sakyas eram os senhores e você descende de uma escrava dos Sakyas.”

1.17. Ao ouvir isso, os outros jovens disseram: “Mestre Gotama, não humilhe Ambatha com essa conversa dele ser descendente de uma escrava: Ambatha é bem nascido, de boa família, ele é muito estudado, bom orador, um erudito, capaz de se sair muito bem numa discussão com o Mestre Gotama!”

1.18. Então, o Abençoado disse para esses jovens: “Se vocês consideram que Ambattha é malnascido, não é de boa família, não é estudado, orador medíocre, não é um erudito, incapaz de se sair muito bem numa discussão com o Mestre Gotama, então deixem que Ambattha permaneça em silêncio, vocês discutirão comigo. Mas se vocês pensam que ele é ... capaz de se sair muito bem numa discussão com o Mestre Gotama, então deixem que ele discuta comigo.”

1.19. “Ambattha é bem nascido, Mestre Gotama ... Nós ficaremos em silêncio, ele prosseguirá.”

1.20. Então, o Abençoado disse para Ambattha: “Ambattha, eu lhe farei uma pergunta que você talvez não queira responder. Se você não responder ou evadir o assunto, ou ficar em silêncio, ou for embora, a sua cabeça irá se partir em sete pedaços. O que você pensa Ambattha? Você ouviu de veneráveis anciãos Brâmanes, mestres de mestres, de onde vieram os Kanhas, quem era o ancestral deles?” Nisso, Ambattha permaneceu em silêncio. O Abençoado perguntou uma segunda vez. Novamente Ambattha permaneceu em silêncio e o Abençoado disse: “Responda agora, Ambattha, agora não é o momento de ficar em silêncio. Se alguém for questionado com uma pergunta razoável pela terceira vez pelo Tathagata e ainda assim não responder, a sua cabeça se partirá em sete pedaços no mesmo instante. [9]

1.21. Agora, naquele momento o yakkha Vajirapani [10] segurando nas mãos um raio de ferro em chamas, incandescente e brilhante, apareceu no ar sobre a cabeça de Ambattha, pensando: “Se esse jovem Ambattha, que foi questionado com uma pergunta razoável pela terceira vez pelo Tathagata, ainda assim não responder, partirei a sua cabeça em sete pedaços neste instante.” O Abençoado viu Vajirapani e Ambattha também o viu. Então, Ambattha ficou amedrontado, alarmado e aterrorizado. Buscando abrigo, proteção e refúgio no Abençoado, ele disse: “Pergunte, Mestre Gotama, eu responderei.” “O que você pensa Ambattha? Você ouviu quem era o ancestral dos Kanhas?” “Sim, eu ouvi tal qual foi dito pelo Mestre Gotama, essa é a origem dos Kanhas, aquele foi o ancestral deles.”

1.22. Ao ouvir isso, os demais jovens fizeram ruído e vociferaram: “Então, Ambattha é malnascido, não é de boa família, nascido de uma escrava dos Sakyas, e os Sakyas são os senhores de Ambattha! Nós menosprezamos o contemplativo Gotama, pensando que ele não falava a verdade!”

1.23. Então, o Abençoado pensou: “É excessiva a forma como esses jovens estão humilhando Ambattha por este ser o filho de uma escrava. Devo ajudá-lo a sair disso.” Assim, ele disse para aqueles jovens: “Não menosprezem Ambattha em demasia por ele ser o filho de uma escrava! Aquele Kanha era um sábio poderoso. [11] Ele foi para o sul, [12] aprendeu os mantras com os Brâmanes de lá e depois foi até o Rei Okkaka e pediu a filha dele, Maddarupi, em casamento. O Rei Okkaka, furiosamente enraivecido, exclamou: ‘Então esse sujeito, filho de uma escrava, quer a minha filha!’ e colocou uma flecha no arco. Mas ele foi incapaz de disparar a flecha ou de removê-la. [13] Então, os ministros e conselheiros foram até o sábio Kanha e disseram: ‘Poupe o rei, Venerável Senhor, poupe o rei!’
‘O rei estará a salvo, mas se ele disparar a flecha para baixo, a terra irá tremer em toda a extensão do reino.”
‘Venerável Senhor, poupe o rei, poupe o reino!’
‘O rei e o reino estarão salvos, mas se ele disparar a flecha para cima, em toda a extensão do reino os devas não permitirão que a chuva caia por sete anos.’ [14]
‘Venerável Senhor, poupe o rei e o reino, e que os devas da chuva façam chover!’
‘O rei e o reino estarão salvos e os devas da chuva farão chover, mas se o rei apontar a flecha para o príncipe herdeiro, o príncipe estará completamente a salvo.’
Então os ministros exclamaram: ‘Que o Rei Okkaka aponte a flecha para o príncipe herdeiro, o príncipe estará completamente a salvo!’ O rei assim fez, e o príncipe ficou ileso. Então, o Rei Okkaka, aterrorizado e temeroso do castigo divino, [15] deu a sua filha Maddarupi em casamento. Portanto, jovens, não menosprezem Ambattha em demasia por ser um filho de uma escrava! Aquele Kanha era um sábio poderoso.”

1.24. Então, o Abençoado disse: “Ambattha, o que você pensa? Suponha que um jovem Khattiya se casasse com uma jovem Brâmane, e que dessa união nascesse um filho. Esse filho de um jovem Khattiya e uma jovem Brâmane receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Ele receberia, Mestre Gotama.”
“Eles permitiriam que ele participasse nos banquetes nas cerimonias funerárias ou nos alimentos cozidos no leite, ou nas oferendas para os devas, ou nos sacrifícios?” “Eles permitiriam, Mestre Gotama.”
“Eles ensinariam para ele os mantras ou não?” “Eles ensinariam, Mestre Gotama.”
“Eles manteriam as suas esposas cobertas ou descobertas?” “Descobertas, Mestre Gotama.”
“Mas os Khattiyas permitiriam que ele recebesse a consagração Khattiya?” “Não, Mestre Gotama.”
“Porque não?” “Porque, Mestre Gotama, ele não é bem-nascido por parte da mãe.”

1.25. “O que você pensa, Ambattha? Suponha que um jovem Brâmane se casasse com uma jovem Khattiya, e que dessa união nascesse um filho. Esse filho de um jovem Brâmane e uma jovem Khattiya receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Ele receberia, Mestre Gotama.” ... (igual ao verso 24) “Mas os Khattiyas permitiriam que ele recebesse a consagração Khattiya?” “Não, Mestre Gotama.”
“Porque não?” “Porque, Mestre Gotama, ele não é bem-nascido por parte do pai.”

1.26. “Portanto Ambattha, quer seja comparando um homem com um homem ou uma mulher com uma mulher, os Khattiyas são superiores e os Brâmanes são inferiores. O que você pensa, Ambattha? Suponha que um certo Brâmane, por ter cometido alguma ofensa, tenha sido declarado pelos Brâmanes como um fora-da-lei, tendo a cabeça raspada, com cinzas espalhadas sobre a cabeça, sendo banido do país ou cidade. Ele receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Não, Mestre Gotama.”
“Eles permitiriam que ele participasse ... nos sacrifícios?” “Não, Mestre Gotama.”
“Eles lhe ensinariam os mantras ou não?”  “Eles não ensinariam, Mestre Gotama.”
“Eles manteriam as suas esposas cobertas ou descobertas?’ ‘Cobertas, Mestre Gotama.”

1.27. “Mas o que você pensa, Ambattha? Se os Khattiyas tivessem do mesmo modo declarado um Khattiya como um fora-da-lei ... banido do país ou cidade, ele receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Ele receberia, Mestre Gotama.” ... (igual ao verso 24) “Eles manteriam as suas esposas cobertas ou descobertas?” “Descobertas, Mestre Gotama.”
“E esse Khattiya teria sofrido a mais extrema humilhação ao ser declarado como um fora-da-lei ... banido do país ou cidade. Portanto, mesmo que um Khattiya tenha sofrido a mais extrema humilhação, ainda assim ele é superior e os Brâmanes são inferiores.

1.28. “Ambattha, estes versos foram recitados pelo Brahma Sanankumara:

‘Os khattiya são os melhores dentre as pessoas
Para aqueles cujo padrão é o clã,
Mas aquele com a conduta e o conhecimento consumados
É o melhor dentre devas e humanos.’[a]

Esses versos foram recitados da forma correta, não incorreta, ditos da forma correta, não incorreta, conectados com o benéfico, não desconectados. E, Ambattha, eu também digo isso:

Os khattiya são os melhores dentre as pessoas
Para aqueles cujo padrão é o clã,
Mas aquele com a conduta e o conhecimento consumados
É o melhor dentre devas e humanos.”

[Fim da primeira seção]

2.1. “Mas, Mestre Gotama, o que é essa conduta, o que é esse conhecimento?”
“Ambattha, com relação à suprema conduta-e-conhecimento não há nenhuma referência à questão do nascimento ou do clã, ou à presunção que diz: ‘Você é tão digno quanto eu sou, você não é tão digno quanto eu sou!’ Onde há conversa sobre um matrimônio, sobre dar em casamento, é que há referência a esse tipo de coisa. Pois todo aquele, Ambattha, que está escravizado à noção de nascimento ou de clã, ou ao orgulho de uma posição social, ou de parentesco através do casamento, está muito distante da suprema conduta-e-conhecimento. Só com o abandono desses vínculos é que alguém pode compreender por si mesmo a suprema conduta-e-conhecimento.”

2.2 “Mas, Mestre Gotama, o que é essa conduta, o que é esse conhecimento?”
“Ambattha, um Tathagata surge no mundo, sublime, digno, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, iluminado, sublime. Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta geração com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. Ele ensina o Dhamma, com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. Um discípulo segue a vida santa e pratica a virtude (veja o DN 2, versos 41-62); ele guarda as portas dos meios dos sentidos, etc. (veja o DN 2, versos 64-74); alcança os quatro jhanas (veja o DN 2, versos 75-82). Assim ele desenvolve a conduta. Ele alcança vários insights, (veja o DN 2, versos 83-95), e a destruição das impurezas (veja o DN 2, versos 97 ) ... E além disso, não há nenhum desenvolvimento adicional de conhecimento e conduta que seja mais elevado ou mais perfeito.

2.3. “Mas, Ambattha, no desenvolvimento da suprema conduta-e-conhecimento há quatro caminhos que levam ao fracasso. Quais são esses? Em primeiro lugar, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, toma o seu bastão de carga [16] e mergulha nas profundezas da floresta pensando: ‘A partir de agora serei um daqueles que vive apenas das frutas caídas.’ Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o primeiro caminho que leva ao fracasso. Outra vez, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, sendo incapaz de viver apenas das frutas caídas, toma uma pá e um cesto e mergulha nas profundezas da floresta pensando: ‘A partir de agora serei um daqueles que vive apenas de raízes e tubérculos.’ [17] Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o segundo caminho que leva ao fracasso. Outra vez, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, sendo incapaz de viver apenas das frutas caídas, sendo incapaz de viver de raízes e tubérculos, prepara um santuário para o fogo, próximo a um vilarejo ou vila, e ali permanece servindo ao fogo.[18] Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o terceiro caminho que leva ao fracasso. Outra vez, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, sendo incapaz de viver apenas das frutas caídas, sendo incapaz de viver de raízes e tubérculos, sendo incapaz de servir ao fogo, constrói uma casa com quatro portas numa encruzilhada pensando: ‘Qualquer contemplativo ou Brâmane que venha dos quatro pontos cardeais, eu irei serví-lo e honrá-lo da melhor forma que possa.’ Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o quarto caminho que leva ao fracasso.

2.4. “O que você pensa, Ambattha? Você e o seu mestre vivem de acordo com a suprema conduta-e-conhecimento?” “De fato não, Mestre Gotama! Quem em comparação somos meu mestre e eu? Nós estamos distantes disso!”
“Muito bem, Ambattha, então você e o seu mestre, incapazes de alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, poderiam ir com os seus bastões de carga e mergulhar nas profundezas da floresta, com a intenção de viver das frutas caídas?” “De fato não, Mestre Gotama.”
“Muito bem, Ambattha, então você e o seu mestre, incapazes de alcançar a suprema conduta-e-conhecimento ... viver de raízes e tubérculos ... servir ao fogo ... construir uma casa ... ?” “De fato não, Mestre Gotama.”

2.5. “Portanto, Ambattha, não só você e o seu mestre são incapazes de alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, mas mesmo os quatro caminhos que levam ao fracasso estão além do seu alcance. E no entanto, você e o seu mestre, o Brâmane Pokkharasati, dizem estas palavras: ‘Esses contemplativos carecas, esses subalternos com a tez escura, descendentes dos pés do Ancestral, que conversa podem eles ter com os Brâmanes estudados nos Três Vedas?’ – muito embora você mesmo não seja capaz nem de dar conta das tarefas de alguém que fracassou. Veja, Ambattha, como o seu mestre o iludiu!

2.6. “Ambattha, o Brâmane Pokkharasati vive da generosidade e favor do Rei Pasenadi de Kosala. E no entanto, o Rei não permite que ele tenha uma audiência face a face. Quando conversa com o Rei ele assim o faz por trás de uma cortina. Com pode ser, Ambattha, que o mesmo Rei, de quem ele aceita essa renda legal e honesta, o Rei Pasenadi de Kosala, não o receba pessoalmente? Veja, Ambattha, como o seu mestre o iludiu!

2.7. “O que você pensa, Ambattha? Suponha que o Rei Pasenadi de Kosala estivesse montado num elefante ou num cavalo, ou na sua carruagem, em conferência com os seus ministros e príncipes sobre algum assunto. E suponha que o Rei se afastasse e um trabalhador ou o escravo de algum trabalhador viesse e, ficando ali em pé, dissesse: ‘Isto é o que o Rei Pasenadi de Kosala diz!’ Embora ele possa falar como o Rei falou ou discutir como o Rei discutiu, ele por isso seria o Rei ou mesmo um dos ministros do Rei?” “Com certeza não, Mestre Gotama.”

2.8. “Bem então, Ambattha, é exatamente a mesma coisa. Aqueles que foram, como você diz, os antigos brâmanes videntes, os criadores dos mantras, os compositores dos mantras antigos que antigamente eram cantados, falados e compilados, e que ainda hoje os brâmanes cantam e repetem, repetindo o que foi dito e recitando o que foi recitado – isto é, Atthaka, Vamaka, Vamadeva, Vessamitta, Yamataggi, Angirasa, Bharadvaja, Vasettha, Kassapa e Bhagu [19] – e cujos mantras se diz foram passados para o seu mestre e para você: no entanto, através disso você não se torna um sábio ou alguém que tenha habilidade no caminho de um sábio – tal coisa não é possível.

2.9. “O que você pensa, Ambattha? O que você ouviu ter sido dito pelos Brâmanes que são veneráveis, anciãos, os mestres dos mestres? Esses antigos brâmanes videntes ... Atthaka, ... Bhagu – eles desfrutavam banhados, perfumados, com o cabelo e barba aparados, enfeitados com grinaldas e coroas de flores, vestidos de branco, entregando-se aos prazeres dos cinco sentidos, assim como você e seu mestre agora fazem?” “Não, Mestre Gotama.”

2.10. “Ou eles comiam um arroz de primeira e muitos tipos de molhos e tipos de caril, assim como você e seu mestre agora fazem?” “Não, Mestre Gotama.”
“Ou eles se divertiam com mulheres enfeitadas com toucados, colares e longas saias, assim como você e seu mestre agora fazem?” “Não, Mestre Gotama.”
“Ou eles passeavam em carruagens puxadas por garanhões com os rabos e crinas trançadas, incitando-os com longas aguilhadas?” “Não, Mestre Gotama.”
“Ou eles se mantinham guardados em cidades fortificadas com estacas e valas, protegidos por homens com longas espadas ... ?” “Não, Mestre Gotama.”
“Portanto, Ambattha, nem você e tampouco o seu mestre são sábios, ou vivem de acordo com as condições que os sábios viviam. Mas com relação às suas dúvidas e perplexidades no que diz respeito a mim, você pode me perguntar que eu irei esclarecê-las.”

2.11 Então, saindo da sua habitação, o Abençoado começou a andar para cá e lá e  Ambattha fez o mesmo. E enquanto andava com o Abençoado, Ambattha procurou pelas trinta e duas marcas de um Grande Homem no corpo do Abençoado. E ele pode ver todas exceto duas. Ele ficou em dúvida e não podia ter certeza sobre duas dessas marcas, e não pôde chegar a uma conclusão sobre elas: sobre a genitália contida numa bainha e sobre o tamanho da língua.

2.12. Então, ocorreu ao Abençoado que: “Ambattha vê mais ou menos as trinta e duas marcas de um Grande Homem no meu corpo, exceto duas; ele tem dúvida e incerteza sobre duas dessas marcas e não pode chegar a uma conclusão sobre elas: sobre a genitália contida numa bainha e sobre o tamanho da língua.” Então, o Abençoado através dos seus poderes supra-humanos fez com que Ambattha pudesse ver a sua genitália contida numa bainha. Em seguida, o Abençoado esticou a língua para fora, lambendo ambas as orelhas e ambas as narinas e depois cobriu toda  a extensão da sua testa com a língua. Então, Ambattha pensou: “O contemplativo Gotama é dotado de todas as trinta e duas marcas de um Grande Homem, completas, sem faltar nenhuma.” Assim, ele disse para o Abençoado: “Mestre Gotama, posso ir agora? Eu tenho muitos afazeres, muitas coisas para tratar.” “Ambattha, faça aquilo que você julgar adequado.” Em seguida, Ambattha montou na carruagem puxada por um jovem garanhão e partiu.

2.13. Nesse ínterim, o Brâmane Pokkharasati estava sentado no seu parque com um grande número de Brâmanes, apenas esperando por Ambattha. Então, Ambattha chegou no parque e foi até onde a estrada permitia o acesso das carruagens e depois desmontou da sua carruagem e seguiu a pé até onde se encontrava Pokkharasati, cumprimentando-o e sentando a um lado. Então Pokkharasati disse:

2.14. “Bem, estimado jovem, você viu o Mestre Gotama?” “Eu vi, senhor.”
“O relato sobre o Mestre Gotama é correto ou não, o Mestre Gotama é como dizem ?” “O relato sobre o Mestre Gotama é correto, não incorreto; e o Mestre Gotama é como dizem, não de outra forma. Ele possui as trinta e duas marcas de um Grande Homem.”
“Mas houve alguma conversa entre você e o contemplativo Gotama?” “Houve, senhor.”
“E sobre o que foi a conversa?” Assim, Ambattha relatou a Pokkharasati tudo que havia ocorrido entre e ele e o Abençoado.

2.15. Em vista disso Pokkharasati exclamou: “Bem, que belo pequeno erudito, que belo homem sábio, que belo experto nos Três Vedas! Qualquer um que trate dos seus assuntos dessa forma deve com a dissolução do corpo, após a morte, renascer num estado de privação, num destino infeliz, no inferno! Você encheu o Venerável Gotama de insultos e como resultado disso ele apresentou mais e mais coisas contra nós! Você é um belo pequeno erudito ... !” Ele estava tão furioso e enraivecido que chutou Ambattha e queria de uma vez ir ver o Abençoado.

2.16. Mas os Brâmanes disseram: “É demasiado tarde, senhor, para ir ver hoje o Contemplativo Gotama. O Venerável Pokkharasati deve ir vê-lo amanhã.”
Então, Pokkharasati, tendo preparado vários tipos de boa comida na sua casa, saiu iluminado por tochas de Ukkattha para a floresta de Icchanankala. Ele foi até onde a estrada permitia o acesso das carruagens e depois desmontou da sua carruagem e seguiu a pé até onde se encontrava o Abençoado e ambos se cumprimentaram. Quando a conversa cortês e amigável havia terminado, ele sentou a um lado e disse:

2.17. “Venerável Gotama, o nosso pupilo Ambattha veio vê-lo?” “Ele veio, Brâmane.” “E houve uma conversa entre vocês?” “Sim houve.” “E a respeito do que foi essa conversa?”
Então, o Abençoado relatou a  Pokkharasati tudo que havia acontecido entre ele e Ambattha. Em vista disso, Pokkharasati disse para o Abençoado: “Venerável Gotama, Ambattha é um jovem tolo. Que o Venerável Gotama o perdoe.” “Brâmane, que Ambattha seja feliz.”

2.18-19. Então, Pokkharasati procurou pelas trinta e duas marcas de um Grande Homem no corpo do Abençoado. E ele pode ver todas exceto duas. Ele ficou em dúvida e não podia ter certeza sobre duas dessas marcas, e não pôde chegar a uma conclusão sobre elas: sobre a genitália contida numa bainha e sobre o tamanho da língua; mas o Abençoado pacificou a mente dele com relação a isso (igual aos versos 11-12). E Pokkharasati disse para o Abençoado: “Que o Venerável Gotama aceite de mim hoje uma refeição junto com a Sangha dos bhikkhus!” E o Abençoado concordou em silêncio.

2.20. Então, sabendo que o Abençoado havia concordado, Pokkharasati, fez com que se anunciasse a hora para o Abençoado: “É hora, Mestre Gotama, a refeição está pronta.” E o Abençoado carregando a sua tigela e o manto externo, foi com a Sangha dos bhikkhus até a casa de Pokkharasati e sentou num assento que havia sido preparado. Então, com as próprias mãos Pokkharasati serviu e satisfez o Abençoado com os vários tipos de boa comida, e os jovens brâmanes serviram os bhikkhus. Em seguida, quando o Abençoado havia terminado de comer e retirado a mão da sua tigela, Pokkharasati sentou a um lado, num assento mais baixo.

2.21 Então, o Abençoado transmitiu o ensino gradual ao Brâmane Pokkharasati, isto é, ele falou sobre a generosidade, sobre a virtude, sobre o paraíso; ele explicou o perigo, a degradação e as contaminações dos prazeres sensuais e as vantagens da renúncia. Quando ele percebeu que a mente do Brâmane Pokkharasati estava pronta, receptiva, livre de obstáculos e confiante, ele explicou o ensinamento particular dos Budas: o sofrimento, a sua origem, a sua cessação e o caminho. Tal qual um pano limpo, com todas as manchas removidas, irá absorver um corante de modo adequado, assim também, enquanto o Brâmane Pokkharasati estava ali sentado, a visão imaculada do Dhamma surgiu nele: “Tudo que está sujeito ao surgimento está sujeito à cessação.”

2.22. E Pokkharasati, tendo visto o Dhamma, alcançado o Dhamma, compreendido o Dhamma, examinado a fundo o Dhamma, superou a dúvida, eliminou a perplexidade, obteve a intrepidez e se tornou independente dos outros na Revelação do Mestre, dizendo: “Magnífico, Mestre Gotama! Magnífico, Mestre Gotama! O Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Eu, junto com meu filho, minha esposa, meus ministros e conselheiros, buscamos refúgio no Mestre Gotama, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. [20] Que o Mestre Gotama nos aceite como discípulos leigos que nele buscaram refúgio para o resto da vida. E sempre que o Venerável Gotama visitar outras famílias e discípulos leigos em Ukkattha, que ele também visite a família de Pokkharasati! Qualquer jovem brâmane que ali se encontre irá então homenagear e reverenciar o Venerável Gotama, arrumará para ele um assento e água, e se sentirá feliz por isso; e isso será para o benefício dele por muito tempo.”
“Muito bem dito, Brâmane.”

Abreviações:

DA      Digha Nikaya Atthakatha


Notas:
[1] Uma frase padrão que aparece com freqüência nos suttas, tal como no  DN 4.1, 5.1, MN 95.1, etc. [Retorna]

[2] Outra frase padrão. [Retorna]

[3] Para uma descrição dessas marcas (pr­é Budistas) veja o DN 30. Claramente elas são importantes para os Brâmanes para estabelecer as credenciais do ‘contemplativo Gotama.’ Veja também o MN 91. [Retorna]

[4] Veja DN 17.[Retorna]

[5] Veja DN 17.[Retorna]

[6] Loke vivattacchado: uma expressão difícil. O ‘véu' é a ignorância, etc.[Retorna]

[7] Esta divisão em quatro grupos mostra um estágio inicial do sistema de castas. Na época do Buda, na sua terra natal, os Khattiyas, (Nobres guerreiros), aos quais ele pertencia, ainda constituíam a primeira casta, com os Brâmanes em segundo lugar, embora estes últimos já tivessem se estabelecido como a casta superior nas regiões mais a oeste e estavam claramente lutando por esta posição na terra natal do Buda. O Buda com freqüência se refere a um agrupamento distinto: Khattiyas, Brâmanes, chefes de família e contemplativos. [Retorna]

[8] Sakasanda. A palavra saka também pode significar ‘erva,’ mas neste caso com certeza tem o outro significado de ‘teca.’ [Retorna]

[9] Uma ameaça curiosa que nunca é concretizada e deve certamente ser pré-Budista. [Retorna]

[10] Este yakkha, equiparado a Indra no DA, está preparado, igual ao MN 35.14, para concretizar a ameaça. Dessa forma, uma das antigas divindades é vista apoiando a nova religião. Em textos Mahayana encontramos um Bodisatva com o mesmo nome. [Retorna]

[11]Isi (em Sânscrito rsi, ocidentalizado como ‘rishi’). Deve ele ser identificado com Krishna (Sânscrito Krsna = Pali Kanha)?[Retorna]

[12]Dakkhina janapada: ocidentalizado como Deccan.[Retorna]

[13] De acordo com o DA, este era chamado o ‘feitiço Ambattha’.[Retorna]

[14] Um blefe de acordo com  DA: na verdade o feitiço era capaz apenas de evitar que a flecha fosse disparada.[Retorna]

[15] Brahmadanda: ‘castigo extremo’ (com um outro significado no DN 16.6.4).[Retorna]

[a] Veja o SN VI.11. [Retorna]

[16] Um bastão ou canga para carregar os pertences.[Retorna]

[17] Isto é, cavando as raízes e tubérculos, algo que o primeiro não fez.[Retorna]

[18] O fogo sagrado, ou talvez Aggi (Agni) o deus do fogo.[Retorna]

[19] Os antigos rishis associados com os mantras dos Vedas (de acordo com o DN 13.13). Com relação ao que segue veja também o  DN 27.22.  [Retorna]

[20] Pokkharasati ao que parece não havia consultado a esposa, família e dependentes. Quando Uruvela-Kassapa quis juntar-se à Sangha, o Buda fez com que ele primeiro consultasse os seus 500 discípulos. Mas é lógico que há uma grande diferença entre tornar-se um discípulo leigo e juntar-se à Sangha. [Retorna]


quarta-feira, 22 de junho de 2016

NIBBANA SUTTA

 -Nibbana Sutta -ANIII.55
Então o brâmane Janussoni foi até o Abençoado e depois de cumprimentá-losentou a um lado e disse:
"Mestre Gotama, é dito: 'Nibbana visível no aqui e agora, Nibbana visível no aqui e agora.' De que modo Nibbana é visível no aqui e agora, 
com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentadopelos sábios por eles mesmos?"
(1) "Brâmane, alguém excitado pela paixão, subjugado pela paixão, com a mente obcecada pela paixão intenciona pela própria aflição, pela 
aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele experimenta sofrimento mental e angústia. Mas quando a paixão é abandonada, ele não 
intenciona pela própria aflição, pela aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele não experimenta sofrimento mental e angústia, É 
desse modo que Nibbana é visível no aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser 
experimentado pelos sábios por eles mesmos.
(2) "Alguém tomado pela raiva, subjugado pela raiva, com a mente obcecada pela raiva intenciona pela própria aflição, pela aflição dos 
outros, ou pela aflição de ambos, e ele experimenta sofrimento mental e angústia. Mas quando a raiva é abandonada, ele não intenciona 
pela própria aflição, pela aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele não experimenta sofrimento mental e angústia. É desse modo 
queNibbana é visível no aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentado pelos 
sábios por eles mesmos.
(3) "Alguém deludido, subjugado pela delusão, com a mente obcecada pela delusão intenciona pela própria aflição, pela aflição dos outros, 
ou pela aflição de ambos, e ele experimenta sofrimento mental e angústia. Mas quando a delusão é abandonada, ele não intenciona pela 
própria aflição, pela aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele não experimenta sofrimento mental e angústia. É desse modo que 
Nibbana é visível no aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentado pelos 
sábios por eles mesmos.
"Magnífico, Mestre Gotama! Magnífico, Mestre Gotama! Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado 
em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou 
segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Eu busco refúgio no Mestre Gotama, no 
Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o Mestre Gotama me aceite como discípulo leigo que buscou refúgio para o resto da vida.".

BHAVANGA-SOTA e BHAVANGA-CITTA

Do Dicionário Budista - Manual de Termos Budistas e Doutrinários de Nyanatiloka.
Terceira edição revisada e ampliada editada por Nyanaponika.
Tradução: Teresa Kerr
Revisão: Arthur Shaker                                                            
BHAVANGA-SOTA  e  BHAVANGA-CITTA:    O  primeiro  termo  pode  ser
aproximadamente interpretado como ‘Corrente subterrânea que forma a Condição dos
Seres, ou  Existência’,  o  segundo  como  ‘Subconsciência’,  apesar  de,  como  ficará
evidenciado a  seguir, diferir,  em  diversos  aspectos,  do uso  do termo  comum  na
psicologia  Ocidental. Bhavanga  (bhava-anga),  o  qual  nos  trabalhos  canônicos,  é
mencionado  duas  ou  três  vezes  no Patthana,  é  explicado  nos  comentários  do
Abhidhamma  como a fundação  ou  condição  (karana)  da  existência  (bhava),  como
condição sine  qua  non da  vida,  tendo  a  natureza  de  um  processo,  lit.  um  fluxo  ou
corrente  (sota).  Assim,  desde  tempos  imemoriais,  todas  as impressões e  experiências
são,  como assim  dizer,  armazenadas,  ou  melhor  dizendo, estão  funcionando,  mas
ocultas para  a consciência  plena,  de onde  ocasionalmente  emergem como  fenômeno
subconsciente e se aproximam do limiar da plena consciência, ou cruzando-a se tornam
completamente  conscientes.  Esta  assim  chamada  ‘corrente  subconsciente  da  vida  ou
corrente subterrânea da vida’ é aquilo através da qual pode ser explicada a faculdade da
memória, os fenômenos psíquicos paranormais, crescimento mental e físico, Karma e
Renascimento, etc – Uma tradução alternativa seria ‘continuum-da-vida’.
Deve-se notar que bhavanga-citta é um karma- resultante estado de consciência (vipaka,
q.v.) e que, no nascimento como um ser humano ou nas formas superiores de existência,
ele é sempre resultado de karma bom ou saudável (kusalakamma-vipaka), embora em
vários  níveis  de  força  (v. patisandhi,  final  do  artigo).  O  mesmo  é  aplicado  para a
Consciência-Renascimento  (patisandhi)  e  Consciência  da  Morte  (cuti), as  quais  são
somente manifestações particulares da Subconsciência. – No Vis. XIV é dito:
“Logo que a consciência-renascimento (no embrião no momento da concepção) cessou,
então  surge  uma  similar  Subconsciência  com  exatamente  o mesmo  objeto,  seguindo
imediatamente sobre a consciência-renascimento e sendo o resultado deste ou daquele
Karma  (ação  volitiva  feita  no nascimento anterior e  lembrada  no  momento  antes  da
morte). E novamente um posterior estado semelhante de subconsciência surge. Agora,
não surgindo outra consciência para interromper a continuidade da corrente-da-vida, a
corrente-da-vida,  como  o  fluxo  de  um  rio,  surge  da  mesma  forma  novamente  e
novamente,  mesmo  durante  o sono  sem sonho  e  em  outros momentos. Dessa  forma
deve-se entender o contínuo surgimento desses estados de consciência na corrente-davida.” Cf. viññana-kicca. Para maiores detalhes v. Fund. II (App).

terça-feira, 24 de maio de 2016

As Características da Insubstancialidade ou do Não-Eu

Aqui mais um sutta sobre o ensinamento mais central do budismo, nas palavras do próprio Buda, anatta, a insubstancialidade (comumente traduzido ao pé da letra como não eu). Ao lado de sunna e sunnata esse termo tem sido provavelmente também o aspecto menos entendido do ensinamento, principalmente por aqueles de fora do budismo ou os que se aproximam com uma análise comum e superficial.
A dificuldade sobre a compreensão de anatta por alguém de fora é bastante compreensível, pois sem a experiência necessária é praticamente impossível um entendimento ao menos próximo do seu real significado. Se a pessoa não se esforça, se não pensa corretamente, se não vê corretamente também não vai meditar corretamente e por isso não vai compreender corretamente, isto é não surgirá nessa pessoa o insight ou a compreensão correta. Mas esse sutta é um modelo de um teste cientifico que o Senhor Buda oferece a quem sinceramente busca começar a entender e ver por si mesmo o que é anatta.
Ele pode ser aplicado tanto na meditação, quando aquietando nossa mente e atingindo um estado de maior clareza mental observamos os diversos elementos de nossa mente e de nossa experiência, quanto na nossa vida cotidiana sobre qualquer coisa que observarmos ou que dirigirmos nossa atenção e sinceramente procurando ali algum, certamente não encontraremos. Essa realidade é a mais fundamental de todas, a impessoalidade e insubstancialidade de todos os fenômenos, pois mesmo em Nibbana não se pode encontrar uma egoidade ou entidade pessoal ou identificação pessoal. As outras duas características da existência ao lado de anatta, anicca (impermanência) e dukkha (insatifatoriedade), são fruto da delusão, da ignorância, e são superadas com o despertar, quanto a anatta não há como dizer que cessa ou que continua, pois ninguém pode dizer se existe ou não existe na verdade o não-eu, ou a insubstacialidade fundamental, assim como poderia cessar aquilo que não é de fato?
Nibbana não pode ser tido como um eu ou como um não-eu, nem como meu, nem como meu eu, nem como meu não-eu, como é dito em outro sutta. Por isso a iluminação budista não consiste no atingimento de um “eu verdadeiro” ou “eu superior”, mas na libertação da ignorância, e do sofrimento, que só pode ser alcançado por uma transformação mental, uma purificação radical que extingue todos os obstáculos à verdade. Ver que a insatisfatoriedade e a impermanência são realidades é relativamente bem fácil, mas ver que não há um eu em nós nem em coisa alguma é mais difícil, porém acessível a quem se aproxime de forma correta. Aplique a fórmula se quiser verificar por si mesmo.


Samyutta Nikaya XXII.59
Anatta-lakkhana Sutta
As Características do Não-Eu
Para distribuição gratuita como um presente do Dhamma

Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava em Benares na Reserva de Caça em Isipatana. Lá ele se dirigiu ao grupo de cinco monges desta forma: “Bhikkhus” – “Venerável Senhor,” eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:

“A forma, bhikkhus, é não-eu. Pois, bhikkhus, se a forma fosse o eu, essa forma não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’ Mas porque a forma é não-eu, a forma conduz ao sofrimento e não é possível obter da forma: ‘Que a minha forma seja assim; que a minha forma não seja assim.’ 

“A sensação é não-eu...

“A percepção é não-eu...

“As formações são não-eu...

“A consciência é não-eu. Pois, bhikkhus, se a consciência fosse o eu, essa consciência não conduziria ao sofrimento e seria possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’ Mas porque a consciência é não-eu, a consciência conduz ao sofrimento e não é possível obter da consciência: ‘Que a minha consciência seja assim; que a minha consciência não seja assim.’ 

“O que vocês pensam, bhikkhus, a forma é permanente ou impermanente?

“Impermanente, senhor.

"E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?

“Sofrimento, senhor.

“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?

“Não, senhor.

“...A sensação é permanente ou impermanente?

“Impermanente, senhor.

“...A percepção é permanente ou impermanente?

“Impermanente, senhor.

“...As formações são permanentes ou impermanentes?

“Impermanentes, senhor.

“O que vocês pensam, bhikkhus, a consciência é permanente ou impermanente?

“Impermanente, senhor.

“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?

“Sofrimento, senhor.

“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: 'Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’? 

“Não, senhor.

“Portanto, bhikkhus, qualquer forma, quer seja do passado, futuro ou presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior, próxima ou distante: toda forma deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’

“Qualquer sensação...

“Qualquer percepção...

“Quaisquer formações...

“Qualquer consciência, quer seja do passado, do futuro ou do presente, interna ou externa; grosseira ou sutil; inferior ou superior; próxima ou distante: toda consciência deve ser vista como na verdade é, com correta sabedoria: ‘Isso não é meu, isso não sou eu, isso não é o meu eu.’

“Vendo dessa forma, o nobre discípulo bem instruído se desencanta com a forma, se desencanta com a sensação, se desencanta com a percepção, se desencanta com as formações, se desencanta com a consciência. Desencantado ele se torna desapegado. Através do desapego a sua mente é libertada. Quando ela está libertada surge o conhecimento: ‘Libertada.’ Ele compreende que: ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’”

Isso foi o que o Abençoado disse. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado. E enquanto essa explanação estava sendo dada, as mentes do grupo de cinco bhikkhus, foram libertadas das impurezas através do desapego.


Obs.: note a similaridade de mais este sutta com o Sutra do Coração, das tradições mahayanas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A CONDUTA

Nesse suttaa o Senhor Buda fala aos Brâmanes de Sala, o texto trás perguntas comuns, que nós hoje ainda fazemos e as respostas centram nas causas comportamentais do nosso devir, ou seja, do comportamento e seus resultados. Trás características comuns de outros suttas e muitos outros detalhes importantes.

Majjhima Nikaya 41

 Saleyyaka Sutta

Os Brâmanes de Sala

Traduzido do Pali para o inglês originalmente por Bhikkhu Nanamoli, editado e revisado por Bhikkhu Boddhi
Somente para distribuição gratuita como um presente do Dhamma


O local.

1. Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava perambulando por Kosala com uma grande sangha de bhikkhus até que por fim acabou chegando em um vilarejo brâmane denominado Sala.

A fama do desperto, suas características.

2. Os brâmanes chefes de família de Sala ouviram: “Gotama o contemplativo, o filho dos Sakyas, que adotou a vida santa deixando o clã dos Sakyas, que andava perambulando em Kosala com um grande número de bhikkhus chegou em Sala. E acerca desse mestre Gotama existe essa boa reputação: ‘Esse Abençoado é sublime, digno, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, iluminado, sublime.

Aqui a declaração do Buda sobre seu conhecimento. Quando se diz “este mundo” significa todo o universo; “com os seus devas, maras e brahmas, esta geração com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e o povo” significa o que ele viu por si mesmo após o despertar, desde as mais elevadas “dimensões da existência” até o nível mais comum, desde os devas (ou deuses) e seus mundos até os nossos, em toda sua extensão, isto é, não apenas um momento da existência, mas, como ele mesmo descreve em outros suttas as várias vidas de cada ser e as consequências de suas ações. E também se fala do que ele ensina e descreve-se o comportamento diferente dos que foram até ele.

“Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta geração com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e o povo. Ele ensina o Dhamma com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada.’ É bom poder encontrar alguém tão nobre.”

3. Assim os brâmanes chefes de família de Sala foram até o Abençoado. Alguns homenagearam o Abençoado e sentaram a um lado; alguns trocaram saudações corteses com ele e após a troca de saudações sentaram a um lado; alguns ajuntaram as mãos em respeitosa saudação e sentaram a um lado; alguns anunciaram o seu nome e clã e sentaram a um lado. Alguns permaneceram em silêncio e sentaram a um lado.

A causa das próximas vidas e de suas características. Isto é perguntado ao Buda tendo como base a religião dos brâmanes, não necessariamente uma experiência própria e de forma alguma uma experiência como a do Buda.

4. Uma vez sentados, eles disseram para o Abençoado: ‘Mestre Gotama, qual é a causa e condição porque alguns seres, com a dissolução do corpo, após a morte, reaparecem num estado de privação, num destino infeliz, nos reinos inferiores, até mesmo no inferno? E qual é a causa e condição porque alguns seres, com a dissolução do corpo, após a morte, reaparecem num destino feliz, até mesmo no paraíso?”

A resposta.

5. “Chefes de família, é devido à conduta em desacordo com o Dhamma, devido à conduta corrompida que alguns seres, com a dissolução do corpo, após a morte, reaparecem num estado de privação, num destino infeliz, nos reinos inferiores, até mesmo no inferno. É devido à conduta de acordo com o Dhamma, devido à conduta íntegra que alguns seres, com a dissolução do corpo, após a morte, reaparecem num destino feliz, até mesmo no paraíso.”

Eles não compreendem, pois não sabem o que faz isto acontecer nem como. Alguns achavam que os deuses julgavam as pessoas, outros que era um destino predeterminado, outros não acreditavam em coisa alguma, nem na consequência de seus atos. Eles também não entendem em detalhe o que foi dito.

6. “Nós não compreendemos em detalhe o significado da afirmação do Mestre Gotama, daquilo que foi dito de forma resumida sem explicar o significado em detalhe. Seria bom se o Mestre Gotama nos ensinasse o Dhamma de forma que nós pudéssemos entender em detalhe o significado da afirmação do Mestre Gotama."

Os três tipos de conduta que se detalham nos dez tipos de ações virtuosas e os dez tipos de ações censuráveis. Na verdade as questões morais e éticas apontadas por Buda são bem mais que questões desse tipo; elas são fundamentalmente questões que podemos chamar de comportamentais que vão principalmente corroborar o sucesso do caminho apontado pelo Buda. Isto significa que os elementos ou detalhes do elos do caminho óctuplo não são elementos isolados que apenas com mais ou menos ênfase vão levar o praticante ao despertar. Os elementos mesmo em seus detalhes são as causas e condições que em conjunto levam ao despertar, não são caminhos diferentes nem graduais, embora toma-los gradualmente de modo cumulativo seja uma boa maneira de começar; não se substitui um elo por outro ou um treinamento por outro em se tratando da moral. Os traduzidos erroneamente como preceitos não podem limitar todo o comportamente ético do budista, ertse vai muito mais além e envolve muito mais elementos. Buda aponta muitos detalhes da diciplina em vários suttas, a moral não é apenas um pre-requisito, é também um pre-requisito, porém, mais que isso já é uma purificaç~çao uma limpeza e organização iniciao que o praticante comprovará eficaz pela prática e a levará para o resto da vida. Isso não de uma forma rígida nem apegada, mas como um excelente veiculo para atravessar a correnteza do samsara. A balsa só é descartada depois que a travessia é feita, ou seja, após o despertar.

"Então, chefes de família, ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer."

"Sim, senhor," eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:

7. “Chefes de família, existem três tipos de conduta corporal em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida. Existem quatro tipos de conduta verbal em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida. Existem três tipos de conduta mental em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida.

8. “E quais, chefes de família, são os três tipos de conduta corporal em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida?[1]É o caso em que alguém tira a vida de outros seres, um homicida, sanguinário, dedicado a golpes e violência, demonstrando nenhuma piedade com os seres vivos.[2]Ele toma o que não é dado, ele toma, como se fosse um ladrão, os bens e propriedades de outros num vilarejo ou na floresta.[3]Ele se comporta de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; ele se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possuem esposo, protegidas pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Assim são os três tipos de conduta corporal em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida.

Observe acima o detalhamento inicial dos três primeiros grandes obstáculos. Em alguns suttas podem ser encontrados mais detalhes. Especialmente nos que se seguem essa explicação é mais detalhada ainda.

9. E quais, chefes de família, são os quatro tipos de conduta verbal em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida? [4]É o caso em que alguém emprega linguagem mentirosa; tendo sido chamado para uma corte, uma reunião, um encontro com seus parentes, com a sua corporação, com a família real, se assim for questionado como testemunha: 'Então, bom homem, diga o que você sabe,' se ele não souber, dirá, 'Eu sei'; se ele souber, dirá, 'Eu não sei'; se ele não viu, dirá, 'Eu vi'; se ele viu, dirá, 'Eu não vi'; com plena consciência ele conta mentiras em seu próprio benefício, pelo benefício de outros ou para obter algum benefício mundano insignificante. Ele emprega linguagem maliciosa; o que ouviu aqui ele conta ali para separar aquelas pessoas destas, ou o que ele ouviu lá conta aqui para separar estas pessoas daquelas; assim ele separa aquelas pessoas que estão unidas, ele cria divisões, ama a discórdia, se delicia com a discórdia, desfruta da discórdia, diz coisas que criam a discórdia. Ele emprega linguagem grosseira; ele emprega palavras que são grosseiras, duras, que magoam os outros, que ofendem os outros, próximas da raiva e que não favorecem a concentração. Ele emprega a linguagem frívola; ele fala fora de hora, diz o que não é fato, diz o que é inútil, diz aquilo que é contrário ao Dhamma e Disciplina; nas horas inadequadas ele diz palavras que são inúteis, irracionais, imoderadas e que não trazem benefício. Assim são os quatro tipos de conduta verbal em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida.

10. E quais, chefes de família, são os três tipos de conduta mental em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida? É o caso em que alguém é cobiçoso; ele cobiça os bens e propriedades dos outros, pensando, 'Ah, que aquilo que pertence aos outros seja meu!' Ou a sua mente possui má vontade e as suas intenções estão plenas de raiva: 'Que esses seres sejam mortos e assassinados, que eles cessem, faleçam ou sejam aniquilados!' Ou ele tem entendimento incorreto, vê as coisas de forma distorcida: 'Não existe nada que é dado, nada que é oferecido, nada que é sacrificado; não existe fruto ou resultado de ações boas ou más; não existe este mundo, nem outro mundo; não existe mãe, nem pai; nenhum ser que renasça espontaneamente; não existem no mundo brâmanes nem contemplativos bons e virtuosos que, após terem conhecido e compreendido diretamente por eles mesmos, proclamem este mundo e o próximo.' [1] Assim são os três tipos de conduta mental em desacordo com o Dhamma, conduta corrompida. Portanto, chefes de família, é devido à conduta em desacordo com o Dhamma, devido à conduta corrompida que alguns seres, com a dissolução do corpo, após a morte, reaparecem num estado de privação, num destino infeliz, nos reinos inferiores, até mesmo no inferno.

11. “Chefes de família, existem três tipos de conduta corporal em acordo com o Dhamma, conduta íntegra. Existem quatro tipos de conduta verbal de acordo com o Dhamma, conduta íntegra. Existem três tipos de conduta mental de acordo com o Dhamma, conduta íntegra.

12. E quais, chefes de família, são os três tipos de conduta corporal de acordo com o Dhamma, conduta íntegra? É o caso em que alguém, abandonando tirar a vida de outros seres, se abstém de tirar a vida de outros seres; ele permanece com a sua vara e arma postas de lado, bondoso e gentil, compassivo com todos os seres vivos. Abandonando tomar o que não seja dado, ele se abstém de tomar o que não é dado; ele não toma, como se fosse um ladrão, os bens e propriedades de outros num vilarejo ou na floresta. Abandonando a conduta imprópria com relação aos prazeres sensuais, ele se abstém da conduta imprópria com relação aos prazeres sensuais; ele não se envolve sexualmente com quem está sob a proteção da mãe, do pai, dos irmãos, das irmãs, dos parentes, que possuem esposo, protegidas pela lei ou mesmo com quem esteja coroada de flores por um outro homem. Assim são os três tipos de conduta corporal de acordo com o Dhamma, conduta íntegra.

13. E quais, chefes de família, são os quatro tipos de conduta verbal de acordo com o Dhamma, conduta íntegra? É o caso em que alguém, abandonando a linguagem mentirosa,  se abstém da linguagem mentirosa; tendo sido chamado para uma corte, uma reunião, um encontro com seus parentes, com a sua corporação, com a família real, se assim for questionado como testemunha: 'Então, bom homem, diga o que você sabe,' se ele não souber, dirá, 'Eu não sei'; se ele souber, dirá, 'Eu sei'; se ele não viu, dirá, 'Eu não vi'; se ele viu, dirá, 'Eu vi'. Assim com plena consciência ele não conta mentiras em seu próprio benefício, pelo benefício de outros ou para obter algum benefício mundano insignificante. Abandonando a linguagem maliciosa, ele se abstém da linguagem maliciosa; o que ouviu aqui ele não conta ali para separar aquelas pessoas destas, ou, o que ouviu lá ele não conta aqui para separar estas pessoas daquelas; assim ele reconcilia aquelas pessoas que estão divididas, promove a amizade, ele ama a concórdia, se delicia com a concórdia, desfruta da concórdia, diz coisas que criam a concórdia. Abandonando a linguagem grosseira, ele se abstém da linguagem grosseira. Ele diz palavras que são gentis, que agradam aos ouvidos, carinhosas, que penetram o coração, que são corteses, desejadas por muitos e que agradam a muitos. Abandonando a linguagem frívola, ele se abstém da linguagem frívola. Ele fala na hora certa, diz o que é fato, aquilo que é bom, fala de acordo com o Dhamma e a Disciplina; nas horas adequadas ele diz palavras que são úteis, racionais, moderadas e que trazem benefício. Assim são os quatro tipos de conduta verbal de acordo com o Dhamma, conduta íntegra.

14. E quais, chefes de família, são os três tipos de conduta mental de acordo com o Dhamma, conduta íntegra? É o caso em que alguém não é cobiçoso. Ele não cobiça as posses dos outros, pensando, 'Ah, que aquilo que pertence aos outros seja meu!' A sua mente não possui má vontade e as suas intenções estão isentas de raiva: 'Que esses seres possam estar livres da inimizade, aflição e ansiedade! Que eles vivam felizes!’ Ele tem entendimento correto e não vê as coisas de forma distorcida: ‘Existe aquilo que é dado e o que é oferecido e o que é sacrificado; existe fruto e resultado de boas e más ações; existe este mundo e o outro mundo; existe a mãe e o pai; existem seres que renascem espontaneamente; existem no mundo brâmanes e contemplativos bons e virtuosos que, após terem conhecido e compreendido diretamente por eles mesmos, proclamam este mundo e o próximo.’ Assim são os três tipos de conduta mental de acordo com o Dhamma, conduta íntegra. Portanto, chefes de família, é devido à conduta de acordo com o Dhamma, devido à conduta íntegra que alguns seres, com a dissolução do corpo, após a morte, reaparecem em um destino feliz, até mesmo no paraíso.

15. “Se, chefes de família, alguém que mantenha a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra, desejasse: ‘Ah, que na dissolução do corpo, após a morte, eu possa renascer na companhia de nobres prósperos!’ é possível que na dissolução do corpo, após a morte, ele renasça na companhia de nobres prósperos. Porque isso? Porque ele mantém a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra.

16-17. “Se, chefes de família, alguém que mantenha a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra, desejasse: ‘Ah, que na dissolução do corpo, após a morte, eu possa renascer na companhia de brâmanes prósperos! ... na companhia de chefes de família prósperos!’ é possível que na dissolução do corpo, após a morte, ele renasça na companhia de chefes de família prósperos. Porque isso? Porque ele mantém a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra.

18-42. “Se, chefes de família, alguém que mantenha a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra, desejasse: ‘Ah, que na dissolução do corpo, após a morte, eu possa renascer na companhia dos devas do paraíso dos quatro grandes reis! ... na companhia dos devas do paraíso dos trinta e três! ... dos devas Yama ... dos devas do paraíso de Tusita ... dos devas que se deliciam com a criação ... dos devas que exercem poder sobre a criação de outros ... dos devas do cortejo de brahma ... os devas da radiância [2] ... os devas da radiância limitada .... os devas da radiância imensurável ... os devas que emanam radiância ... os devas da glória  ... os devas da glória limitada ... os devas da glória imensurável ... os devas da glória refulgente ... os devas do grande fruto ... os devas aviha ... os devas atappa ... os devas sudassa ... os devas sudassi ... os devas akanittha ... os devas da base do espaço infinito ... os devas da base da consciência infinita ... os devas da base do nada ... os devas da base da nem percepção, nem não percepção!’ é possível que na dissolução do corpo, após a morte, ele renasça na companhia dos devas da base da nem percepção, nem não percepção. Porque isso? Porque ele mantém a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra.

43. “Se, chefes de família, alguém que mantenha a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra, desejasse: ‘Realizando por mim mesmo através do conhecimento direto, que eu possa aqui e agora entrar e permanecer na libertação da mente e libertação pela sabedoria que são imaculadas com a destruição de todas as impurezas!’ É possível que, realizando por si mesmo através do conhecimento direto ele possa aqui e agora entrar e permanecer na libertação da mente e libertação pela sabedoria que são imaculadas com a destruição de todas as impurezas. Porque isso? Porque ele mantém a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra. [3]

44. Quando isso foi dito, os brâmanes chefes de família de Sala disseram para o Abençoado: "Magnífico, Mestre Gotama! Magnífico, Mestre Gotama! Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Nós buscamos refúgio no Mestre Gotama, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o Mestre Gotama nos aceite como discípulos leigos que nele buscaram refúgio para o resto da sua vida."

Abreviações:

MA      Majjhima Nikaya Atthakatha

MT      Majjhima Nikaya Tika


Notas:
[1] Esta é uma doutrina moral materialista niilista que nega a vida após a morte e a conseqüência de kamma. “Não existe nada que é dado” significa que não existe fruto da generosidade; “não existe este mundo, nem outro mundo” significa que não existe renascimento neste mundo, nem num outro mundo; “não existe mãe, nem pai” significa que não existe fruto da boa conduta ou má conduta em relação à mãe e ao pai. O enunciado sobre contemplativos e brâmanes nega a existência de Budas e arahants.
[2] MA explica que “os devas da radiância” não é uma categoria separada de devas mas um nome coletivo para as três categorias que seguem; o mesmo se aplica aos “devas da glória.”
[3] Deve ser observado que a “conduta de acordo com o Dhamma” da forma como está descrita neste sutta é uma condição necessária para o renascimento nos planos superiores e para a destruição das impurezas, no entanto isso não quer dizer que essa é a única condição. O renascimento nos reinos que iniciam com os devas do cortejo de brahma requer a realização dos jhanas, o renascimento nas moradas puras (os cinco que começam com os devas de aviha) a realização do estágio daquele ‘que não retorna,’ o renascimento nos planos imateriais as correspondentes realizações imateriais (jhanas imateriais) e a destruição das impurezas requer a prática completa do Nobre Caminho Óctuplo até o caminho do arahant.