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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A origem das duas Principais Escolas de Chan


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A história desde o início
O Sexto Patriarca Chan, Hui Neng, notando que um monge certo jovem gastava todo seu tempo livre sentado sozinho na sala de meditação, se aproximou dele e perguntou porque ele estava tão zeloso em sua prática.
- Porque eu quero me tornar um Buda. Respondeu o monge.
- Você pode fazer um espelho polindo uma pedra, mais cedo do que você pode fazer um Buda sentado em uma almofada. Disse Hui Neng.
Durante os anos de guerra, entre províncias e da tirania do império Qin, o Taoísmo continuou a florescer nas montanhas idílicas do Sul da China. As exigências espirituais da religião, no entanto, dificilmente poderiam ser satisfeitas pelas multidões que não vinham buscando a salvação eterna, mas sim um o refúgio contra as coisas mundanas. Como acontece normalmente com adeptos com fé não consolidada, procuraram atalhos. "Circular sêmen na corrente sanguínea" não é uma prática que se aprende entre terças-feiras sucessivas, nem entre os meses de terças-feiras sucessivas. A busca de soluções para problemas amorosos, produtos afrodisíacos, elixires de longevidade, e agentes químicos para desenvolver o Feto Imortal tornaram-se, na mente popular, uma grande obsessão. Assim fórmulas químicas logo começaram a substituir as frases voluptuosas de Lao Zi e Zhuang Zi e todo mundo queria se tornar um Imortal de forma instantânea.
Para ter controle sobre esta situação "caótica" o Imperador poderia facilmente ter seguido os Taoístas nas montanhas e acabado com eles. Mas ele não o fez. Em vez disso ele trouxe muitos adeptos para a sua corte e forneceu-lhes com as últimas tecnologias para o desenvolvimento do "Elixir Divino". Não querendo perder seu tempo com tolos ou neófitos, ele testou os adeptos. De acordo com a peculiar história, cada candidato era obrigado a inserir seu pênis em um copo de vinho e depois de levar a bebida até em sua bexiga. Assim os homens foram separados dos garotos.
Que os mestres realmente submeteram-se à este teste e como permaneceram tentando inventar o "Elixir Sagrado" da imortalidade, nos diz algo sobre os rumos que o Taoísmo estava tomando na época.
A metalurgia e a química taoísta, entretanto, haviam progredido o suficiente para produzir tais surpreendentes resultados "mágicos" o suficientes para induzir otimismo selvagem naqueles que queriam a imortalidade. Sem qualquer compreensão das leis da natureza, as pessoas realmente acreditavam que era possível uma efusão, e até mesto uma fonte da juventude. O Imperador havia tolerado o Taoísmo somente porque ele pretendia utilizá-lo para atingir a imortalidade.
Ele chegou a um fim curioso. Ele tinha um sonho no qual ele lutava contra um makara - uma criatura anfíbia associada ao Chakra Svadhisthana. O sonho o inspirou a participar do assassinato de uma baleia ou algum animal marinho de grande porte. Por razões que ninguém entendia, ele imediatamente ficou doente e morreu em poucas semanas após este sonho.
Uma rebelião camponesa rapidamente derrubou o que restava da dinastia Qin, e uma nova família assumiria o Império, os Han, (206 a.C. - 220 d.C.). A vida chinesa voltou ao normal, e na atmosfera mais relaxada, a pressão foi retirada dos ashrams taoístas. Assim, a vida monástica taoísta retornou à sua maneira pura.
Foi então, durante o império Han, que o budismo fez a sua entrada na China. Trilhou pelo norte, através da Rota da Seda transasiática e ao sul através das portas do mar, particularmente em Guangzhou (Cantão). A nova doutrina espiritual encontrou duas recepções totalmente diferentes.
Nas cidades do norte como todo o "poder e conhecimento", a classe dominante Confucionista, tendo reafirmado seu domínio político após a derrubada da dinastia Qin, rejeitou com altivez patrícia as várias escrituras budistas que foram lentamente sendo divulgadas. Eles consideraram os novos ensinamentos nada mais do que uma coleção de bárbaras superstições e de caráter antitético dentro de suas crenças sofisticadas.
No sul, onde as pessoas já eram bárbaras, as escrituras foram saudadas como uma variação agradável sobre temas da filosofia taoísta.
O Confucionismo do norte pregava as virtudes da identidade coletiva, da necessidade de o indivíduo de subordinar seus interesses aos da sua família e do clã. Um homem servia aos membros passados e presentes de sua família que, por sua vez, serviam a ele. Haviam responsabilidades e compensações coletivas. Em tal sistema as noções budistas da autossuficiência eram decididamente subversivas. Segundo o Confucionismo, nem mesmo o Filho do Céu funcionava como um indivíduo.
Partindo de qualquer ponto de vista Confucionista, a nova religião era censurável. Intelectuais, cujos estudos eram financiados pela família, consideravam o modelo do Buddha alarmante. O pensamento de que um nobre educado iria abandonar seu direito de primogenitura a fim de peregrinar -- como um mendigo! -- buscando a salvação de forma independente era pior do que desprezível. Além disso, reencarnação e karma foram taxadas claramente como blasfêmias bizarras. Os espíritos ancestrais de um homem passavam por uma prestação de contas. Não havia a possibilidade de um espírito não reclamado vagar a espera para habitar novos corpos, e, graças a espíritos muito elevados, ninguém necessitava da miséria adicional ou da realização de favores que uma retribuição cármica oferecesse. Magistrados tremiam com a perspectiva de que o castigo de um homem pudesse receber o aguardasse em uma vida além desta. Eles zombavam da sugestão de que qualquer sofrimento que imposto a um réu é dado somente pelas suas ações sem a necessidade de um julgamento de outro mundo. Os senhores da guerra não encontraram qualquer mérito no código da não-violência, e proprietários de terras, cujas fortunas dependiam do suor dos servos, não apreciaram a visão de milhares de mendigos em êxtase vagando por suas propriedades. Todas essas reações eram previsíveis: para qualquer classe superior, uma sociedade sem classes tem pouco a recomendá-la.
No interior, nas cidades populosas do norte, onde os invernos era longos e intensos, aqueles que controlavam os celeiros controlavam os destinos tanto dos homens como dos deuses. O buddhismo não poderia ir muito longe por tanto tempo, pois a classe dominante se voltou contra ele.
Mas no sul rural, a comida era abundante durante todo o ano e os mercados não eram monopolizados. Salvação através do esforço individual, o não-sectarismo e divórcio já eram legitimados pelo taoismo. Embora a falta de recursos para a compra de armas e uma necessidade de ser autossuficientes levaram a criação das artes marciais taoístas / indianas, uma natureza não-violenta era ainda uma característica indispensável do homem do Tao, e reencarnação dificilmente poderia representar uma ameaça para qualquer homem que acreditava que poderia obter a imortalidade na vida presente. A mendicância não foi considerada como uma atividade apropriada, mas como os Taoístas não eram, por definição, aristocratas confucionistas, eram muito acostumados a trabalhar. Para praticar a humildade não precisavam mendigar. Além disso, no pouco povoado sul, a remota distância dos monastérios taoístas resolvia o problema; não havia muitas pessoas ao redor para quem pedir esmolas.
Mas, quando a dinastia Han caiu em 220 d.C. e os bárbaros do norte invadiram e tomaram o poder, a velha guarda de Confúcio se tornou um inimigo do novo estado. O sucesso espetacular do buddhismo nas terras de onde tinha emigrado não passou despercebido pela nova elite. O Buddhismo ortodoxo achara acolhimento imediato na corte imperial. Todos saudaram as toneladas de escrituras que estavam sendo transportados nos lombos de camelos, cavalos e peregrinos.
O Buddhismo havia entrado no norte da China através de uma rota comercial. Em paralelo com este comércio havia crescido continuamente e se fortalecido uma classe de comerciantes e artesãos urbanos que operava fora do sistema feudal e das sutilezas e privilégios do Confucionismo. Uma vez que os servos não formam mercados, propositadamente para que não deixem de servir, os comerciantes ficaram felizes em apoiar qualquer instituição que promovesse a liberdade social, aumentando assim o volume de clientes, e defenderam também maior tolerância nas penalidades para transgressões.
Quando as dinastias não Chinesas do norte converteram-se ao budismo trouxeram consigo este agrupamento de comerciantes ansiosos e um pequeno exército de teólogos budistas e, para a felicidade destes, rapidamente descobriu-se na diversidade e inconsistência destas montanhas de escrituras importadas, um tesouro, um buraco de glória, uma matriz para a argumentação.
Várias escrituras surgiram como favoritos entre o clero norte: o Vinaya (normas que regem a vida monástica), que os abonava de serviços prestados ao império como impostos e serviço militar além da lei civil; o Sutra de Lótus, uma exposição da verdade Mahayana e o Lankavatara, sutra da doutrina da consciência. Mas tradução das escrituras canônicas não foi fácil. A língua estrangeira era mais filosoficamente sutil do que a língua nativa. Intérpretes locais desesperados tentaram aprisionar as levezas de nuance do sânscrito nas jaulas da prática chinesa. Suas representações eram muitas vezes deturpadas, desagradáveis e difíceis de compreender.
Estudiosos do Sul, por outro lado, tiveram algumas facilidades. Através de conversas informais sobre yoga, os conceitos metafísicos indianos já estavam incorporadas metafísica do Taoísmo.
Estudiosos do Norte, aderindo às tradições herdadas de cultura confucionista com uma atmosfera fria e cheia de formalidades, entravam em suas bibliotecas teorizando e questionando por horas a fio. Monges do Sul, independentemente se pobres ou não, não utilizavam o tempo em discussões. Eles buscaram a salvação através da atenção centrada no trabalho (Karma Yoga), através da meditação disciplinada ou através de renúncia, o método indiano de se retirar para "a floresta".
Além disso, o budismo do Norte nasceu entre política e em meio à grande população. Quando os governantes se converteram, as massas se converteram. Organização era necessária para gerenciar números, e o Budismo ortodoxo melhor funcionava como um veículo coletivo para a salvação ou pelo menos como meio para clérigos e leigos para controlar a multidão. O Budismo do Norte, então, viu a salvação em estudos das escrituras e no mérito adquirido pelo bom trabalho prestado aos templos, santuários, estátuas e tal. O Budismo do Sul foi e continuou sendo um veículo para uma viagem espiritual mais relaxada e solitária.
Logo depois de ter abraçado a nova religião, a classe dominante do Norte tinha novos motivos para lamentar ter esbanjando tanto afeto sobre ela. De acordo com as regras budistas, os mosteiros eram livres de impostos e os monges estavam isentos de qualquer atividade que pudesse, mesmo que remotamente, ser considerada como trabalho. Além disso, a angariação de fundos não era visto como trabalho e, em consideração à repulsa dos nativos por mendigos, sugeriu-se a solicitação gentil de doações em dinheiro ao invés de mendicância de alimentos. O dinheiro que poderia ter sido gasto em atividades seculares foi vertido em cofres budistas. Os monges, ao que parece, ofereceram muito em troca pelas doações que receberam. Além de ser elogiados publicamente por sua generosidade, os homens que queriam reencarnar em boa situação poderiam comprar seu caminho para esse objetivo através de realização de atos meritórios, ou seja, dar terra e dinheiro para as sanghas budistas. O poder de compra do clero em geral superou o das autoridades civis. Portanto, sem ter que contribuir com a sua moeda para os custos do governo ou seus corpos para a defesa nacional, a sangha tornou-se uma pomposa comunidade de homens e mulheres corpulentos, literalmente, já que a maioria na época não eram vegetarianos. Dentro de algumas centenas de anos, milhares de mosteiros budistas, recheados com dezenas de milhares de monges e monjas, que cobriam centenas de milhares de acres, apareceram em toda a China. No tempo que Bodhidharma chegou à China, o país podia se gabar, ou se desesperar, pelos seus cerca de 30 mil mosteiros habitados por aproximadamente dois milhões monges e monjas.
Como mosteiros e santuários competiram uns com os outros na opulência, fortunas em metais foram investidas em estátuas e objetos religiosos. Os templos possuíam dimensões palacianas e os sacerdotes e sacerdotisas que os habitavam eram e vestidos de maneira a fazer com que se sentissem em casa em tal ambiente luxuoso. Uma vez que sujar as mãos era proibido, precisavam de alguém para fazer os trabalhos. Mesmo uma alma simples poderia supor que a escravidão viola os preceitos budistas, mas milhares de escravos para os templos foram adquiridos ou recebidos como doações.
Para o desgosto dos comerciantes, mosteiros budistas se tornaram centros de serviços bancários, montepios, marketing e adivinhação. Para desespero dos reis e ministros de tesouraria, mais e mais riquezas, embora sob seus narizes, estava fora de seu alcance. E assim, sempre que mosteiros budistas se tornavam gananciosos ou eram obviamente construídos e administrados por famílias ricas para fins que não tinha nada a ver com a religião, os limites da tolerância oficial eram cruzados. Periodicamente terras e propriedades budistas eram confiscadas e consequentemente o contingente da Sangha diminuiu consideravelmente. Por fim, os sacerdotes que restaram foram forçados a tolerar acomodações mais simples sob condições espartanas. O menu sacerdotal foi drasticamente revisto: pratos de carne, simples ou extravagantes, foram permanentemente retirado do cardápio.
Enquanto centros monásticos eram ocasionalmente perseguidos, nas vilas o budismo prosperava. Seitas locais fizeram o que as seitas locais têm de fazer para sobreviver: eles adotaram deidades, cerimônias próprias e trocaram a veracidade das escrituras pelos pronunciamentos de adivinhos e os encantamentos de magos e curandeiros. Os templos eram o foco de cultura das aldeias, e as pessoas não costumavam vir a ele a fim de trabalhar, física ou mentalmente, para a realização da sabedoria. A maioria vinha pelas fofocas, risadas, curas, simpatias, comidas, excitação, e para obter o seu futuro previsto. A maioria veio, em suma, para se divertir.
Além da crítica de centros monásticos oficiais, no norte do Budismo também encontrou a oposição do seu rival em crescimento, o Taoísmo.
A Dinastia Han, que sucedeu a dinastia Qin, deliberadamente se recusou a renovar o seu flerte com o Taoísmo, que havia feito com que o Taoísmo ficasse livre da "Velha Guarda" quando a dinastia Han foi derrubada pela invasão dos bárbaros do norte, em 220 dC.

O Sétimo Mundo do Buddhismo Chan - parte 1 de 4
Capítulo 4: A orgiem das duas Principais Escolas de Chan
 http://xuyun.zatma.org/Portuguese/Dharma/Literature/7thWorld/c4p1.html

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O DESPERTAR DE INSTANTE A INSTANTE

 O processo do despertar existe também de instante a instante. Quando se está meditando e vem o sono, aos poucos se infiltram imagens, como se fossem símbolos ou a própria meditação, e então historinhas que parecem verdadeiras inspirações ou coisas reais, nos desviando da meditação para o sono e sonhos.
            Mas há um instante de claridade quando percebemos que aquilo é um sonho e despertamos. Se ficarmos nesse ‘espaço’ surgido estaremos meditando, concentrados agora.
            O mesmo ocorre mesmo com o menor ‘estalo’ no desenrolar da vida diária. Quando percebemos nossos desejos e emoções aproveitadoras se infiltrando com suas imaginações e planos. Se estivermos atentos e treinados nesse despertar, percebemos isso acontecer, notamos quando o sono toma conta. Então surge o estado atento no lugar do estar sendo conduzido cegamente por desejos ou emoções e no lugar do desejo em questão surge o desejo de estar atento e de ver o desejo. O desejo observado deixa de ser o agente para ser o observado. Há assim o autoconhecimento no lugar do simples processo do desejar e das emoções conflituosas que nos impulsionam a ações impensadas ou mais desejos sedentos.

            Então surge uma claridade, um despertar. Se permanecermos nessa claridade estamos diante da natureza pura de nossa consciência, luminosa e aberta.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Zen Budismo – História e influência.

Texto por: Victor Silvares – autor e administrador do blog Sadame – Graduando em Letras e Literatura Japonesa pela Universidade de Brasília
1 – Budismo

 O Budismo é uma religião criada na Índia, mas onde atualmente é o Nepal. O Budismo surge numa sociedade estagnada, onde o papel do indivíduo é determinado por sua casta, que lhe é transmitida por laços sanguíneos. A manutenção dessa estrutura é feita pelos costumes religiosos da sociedade Hindu. Com a incapacidade de ascensão e o engessamento social, uma nova estrutura começa a ser necessária.
 É exatamente neste contexto que por volta de 500a.c nasce Siddartha Gautama, que posteriormente é conhecido como Buda ou Shakyamuni. Siddartha faz parte da sociedade Hindu, e faz parte de uma família influente. Para que Siddartha possa assumir o comando desta família com sucesso, a verdade sobre o mundo lhe é escondida..Siddartha vive numa sociedade utópica onde todos são ricos, a doença e velhice não existem e a morte não é sequer um problema.
 Certo dia Siddartha tem contato com o mundo exterior e fica perplexo. As suas primeiras visões são pessoas com fome, doentes, velhos e pessoas mortas. Neste momento Siddartha deixa de ser apenas um Nobre e dá seus primeiros passos ao que posteriormente será chamado de Budismo.
 Siddartha não admite a verdade sobre o mundo, enquanto uns vivem com conforto e luxo, outros sofrem e são tratados como animais. Ao se deparar com essa dicotomia, Siddartha deixa sua vida luxuosa para que possa meditar sobre a humanidade. Ao se retirar de seu palácio, Siddartha tem contato com ascetas que vivem nas florestas, longe da civilização e de qualquer  materialismo. Siddartha se torna um desses ascetas e passa a viver de uma forma que todos os prazeres lhe são privados. Todo o seu tempo é destinado à meditação e à busca da iluminação e da verdade.
 Anos se passam e Siddartha não percebe nenhuma evolução, mas a verdade lhe parece próxima, já que ao viver no extremo luxo e na extrema negação dos prazeres nada lhe foi revelado, o que pouco à pouco se revela é a existência de um caminho do meio, ou seja, viver distante dos excessos. Com esta nova verdade, Siddartha ao meditar sobre um pé de figueira, atinge a iluminação, ou Nirvana, que é o termo traduzido do sânscrito. Neste momento passa a ser chamado de Buda, que significa ‘O Iluminado’.
 Buda passa a ensinar sua nova filosofia até os seus últimos dias, conseguindo assim muitos discípulos, que convencidos de seus ensinamentos passaram a transmiti-los de forma a criarem as primeiras sociedades monásticas ou Sangha.
 Na visão Hinduísta, Buda não criou uma nova religião e sim aparece como um avatar da divindade Vishnu, que vem ao mundo para acabar com os rituais de sacrifício que eram realizados até então. Siddartha é considerado o 9°(nono) avatar de Vishnu. Seu antecessor é Krishna (importante figura da religião hindu, tratada como dividade), 10° (décimo) avatar ainda está por vir.
 Esta é uma versão padrão de como surge o Budismo e como Siddartha atinge a iluminação. Como toda história religiosa alguns floreamentos são adotados, com o exemplo do Budismo Tibetano, ou Lamaísmo, onde ao nascer, Siddartha começa a andar, e onde dá seus passos flores de Lótus aparecem. Mas também é um fato que Siddartha é realmente uma figura histórica, e não apenas um personagem mítico.
 O Buda histórico não deixou nenhum sermão escrito, e transmitiu toda a sua filosofia de formal oral, posteriormente alguns discípulos passam a escrever seu ensinamentos, como é o caso do Concílio de Páli, onde após sua morte, seus discípulos se reuniram e ditaram todos os ensinamentos para que estes fosse registrados de forma escrita. Apesar desses acontecimentos, o Budismo não adota nenhum livro como cânone e algumas escolas, como a Zen, desprezam o conhecimento escrito.
 Os alicerces da filosofia Budista são dados pelas Quatro Nobres Verdades, que é o conhecimento primordial para que se possa compreender o Budismo. As Quatro Nobres Verdades são:
1 – A Verdade do Sofrimento – Viver é sofrer;
2 – A Verdade da Origem do Sofrimento – Todos os tipos de sofrimento tem uma origem comum, o desejo;
3 – A Verdade do Fim do Sofrimento – Ao renunciarmos o desejo, deixamos de sofrer;
4 – A Verdade do Caminho para o Fim do Sofrimento – O Nobre Caminho Óctuplo.
 A quarta nobre verdade nada mais é que a introdução a outro importante conceito para a compreensão do budismo, o Caminho Óctuplo é a manifestação do Caminho do Meio, verdade na qual levou Buda à Iluminação. O Caminho Óctuplo é:
1- Compreensão Correta;
2- Pensamento Correto;
3- Fala Correta;
4- Ação Correta;
5- Meio de Vida Correto;
6-Atenção Correta;
7-Sabedoria Correta;
8-Visão Correta.
 Posteriormente estes caminhos foram agregados da seguinte forma:
1- Compreensão Correta;
2- Pensamento Correto;
3- Fala Correta;
– Moralidade
4- Ação Correta;
5- Meio de Vida Correto;
6-Atenção Correta;
– Concentração
7-Sabedoria Correta;
8-Visão Correta.
– Sabedoria
 Baseados nesses princípios, o Budismo começa a se expandir pelo mundo. Os discípulos de Buda começam a expandir os seus ensinamentos, a ponto de que o conhecimento budista chega a toda a Ásia.
 Os diferentes modos de abordagem dão início a diferentes escolas budistas, existe uma ramificação inicial em que divide o budismo em três (3) vertentes
Mahayana¹ – Budismo que engloba a maioria das escolas. Se instalou basicamente no Leste Asiático em países como China, Coréia e Japão. Ex: Nichiren, Chan, Zen, Jodo Shu, Jodo Shin Shu;
Theravada – Budismo que se instalou no Sudeste Asiático em países como Tailândia e Indonésia, é o Budismo mais próximo do Budismo Primordial, e por este fato, é onde se encontra as escolas mais antigas de Budismo e algumas das escolas mais ortodoxas.
Vajrayana² – Budismo esotérico, na qual fazem parte as escolas Tibetanas, Shingon e Tendai.

¹Alguns estudiosos usam o termo Hinaiana para se referir ao Budismo Theravada, este termo surge de uma forma preconceituosa, mas hoje é usado sem esse intuito.² O Budismo Vajrayana é considerado em algumas obras, como uma ramificação do Budismo Mahayana.
 Existem discussões sobre o Budismo ser ou não um religião. Alguns o consideram apenas como filosofia, pois a não existência de uma divindade não o caracteriza como religião. Mas com o seu forte apelo a conceitos morais e regras de conduta estabelecidas, é deveras simples considerar apenas como filosofia e negar todo o seu lado religioso.

 2 – Budismo no Japão

 O Budismo foi introduzido no Japão, por meio da Coréia,  no ano de 552(Período Asuka). Não foi aceito de imediato e uma série de conflitos aconteceram para que este fosse aceito, conflitos estes que não diziam respeito apenas à religião, e sim a disputas de poder. Alguns nobres se encantaram pelos ensinamentos budistas. Provavelmente a causa para a instalação do Budismo entre os nobres fosse a quebra com os costumes Xintô, criando assim uma diferenciação entre a religião do povo e da nobreza. E foi o que de fato aconteceu, o Budismo se implanta primeiro na casa imperial, e no ano de 587 é declarado como religião oficial do estado.
 De fato, o Budismo foi um fator organizacional para o Japão. Introduzindo a escrita chinesa e sistematizando a sociedade. O termo Xintô só passou a existir após a introdução do Budismo no Japão, o termo foi criado para diferenciar o Budismo da religião nativa praticada no Japão. Não existindo centros de ensino sistematizados na sociedade até então, o Budismo passa a introduzir a cultura chinesa no Japão,  aos poucos os costumes, a arquitetura, as tecnologias, ciências, tecelagem , militarismo, entre outras influências. Também é importante ressaltar que à partir dos templos budistas, a escrita foi sendo desenvolvida  e ensinada, criando aos poucos uma escrita japonesa que se difere da chinesa.
 O Budismo aos poucos se adapta aos costumes Xintô e cria uma especie de simbiose religiosa, para se adaptar aos costumes japoneses, o Budismo toma emprestado alguns costumes e tradições. Aos poucos essas interações inter religiosas dão uma característica singular ao Budismo no Japão, que pouco a pouco vão o tornando diferente do Budismo praticado no restante da Ásia.
 Porém, as escolas implantadas não são genuinamente japonesas, precisando frequentemente de monges vindos da China para pregar seus ensinamentos. Alguns monges japoneses são mandados à China para estudar o Budismo. No Período Heian, estes monges passam a desenvolver um Budismo que está mais próximo da sociedade japonesa, há um sincretismo maior entre as os costumes nativos e pouco a pouco o Budismo passa a se instalar nas mais diversas partes do Japão. As principais escolas budistas deste período são a Shingon e Tendai.
 Mas o problema elitista ainda existe, as escolas Budistas são voltadas para a nobreza e estão intimamente ligadas a interesses políticos. No meio deste panorama escolas genuinamente japonesas passam a ser criadas. No período Kamakura temos a criação do Budismo Nichiren, expansão do Budismo Jodo Shu e Jodo Shin Shu, e a instalação das primeiras escolas do Budismo Zen no Japão. Do Período Meiji ao tempo presente, muitas escolas Budistas foram criadas, algumas criadas com novos conceitos, outra apenas como releitura das antigas religiões. Algumas escolas budistas passam a se envolver intimamente com a política.
 O Budismo Japonês é mais atrativo ao povo, pois sua prática é mais simples do que os complexos rituais praticados nas escolas mais antigas. Popularizando a salvação, o Budismo atinge um grande número de seguidores, quebrando as barreiras entre os nobres e o povo, no que se trata do Budismo. A escola Jodo Shu, também conhecida como Amidista, dá como o caminho para a salvação a devoção ao Amida Butsu, ou Buda da Luz Infinita. E o simples recitar do sutra “Namu Amida Butsu” tem o poder de levar a sua alma para a Terra Pura( Daí o nome, Jodo Shu, que significa literalmente Terra Pura). Já o Budismo Nichiren, ao recitar o título de um sutra, o Daimoku,  “Nam myoho rengue kyo”, torna a iluminação mais próxima. Ao compararmos com os rituais complexos, sistema de mandalas, sutras e mudras utilizados anteriormente, nos é claro porque o Budismo genuinamente japonês se torna cada vez mais atrativo.
 Atualmente, todas as escolas budistas no Japão são Mahayana, exceto raríssimas exceções. A escola com mais seguidores é a Jodo Shu, e a escola com mais templos é a Zen.

3 – Origem do Zen Budismo

 A origem do Zen Budismo nos leva aos primeiros ensinamentos do Buda Histórico. É contada a história que em um de seus ensinamentos, Siddartha apenas segura uma Lótus e nada diz. Apenas um dos seus discípulos presentes consegue entender esse ensinamento, seu nome é   Mahakashyapa. Diversas escolas acreditam que o Sutra da Lótus é o sermão mais importante dado por Siddartha, e nele reside a verdadeira compreensão do Budismo e da Iluminação.
 Mahakashyapa passa a ser o primeiro mestre Zen, seus ensinamentos são passados de forma oral, de mestre para discípulo até chegarem em Bhodiddarma no século V, o primeiro mestre Zen a sair da Índia e ir para a China, transmitir os ensinamentos de Buda.
 Conta-se que Bhodidharma após alguns episódios, medita durante nove (9) anos dentro de uma caverna, olhando apenas para a parede. Bhodidharma continua a transmitir o conhecimento Zen após o episódio em que um jovem corta seu próprio braço para mostrar a fé nos ensinamentos de Buda. Através de Bhodidharma, são contados seis (6) patriarcas que são os principais difusores do Zen na China:
– Bodhidharma (बोधिधर्म) (c. 440 – c. 528);
– Huike (慧可) (487 – 593);
– Sengcan (僧燦) (? – 606);
– Daoxin (道信) (580 – 651);
– Hongren (弘忍) (601 – 674);
– Huineng (慧能) (638 – 713).
 Destes patriarcas, os 2 últimos são os mais importantes para a compreensão do pensamento Zen. Conta-se que Hongren estava procurando um monge que pudesse sucede-lo com sucesso, na transmissão do Dharma. Para procurar tal pessoa, Hongren propõe em seu mosteiro que todos escrevam sobre a verdadeira natureza da iluminação. Todos os monges ficaram descrentes, pois acreditavam que o Monge Shenxiu não poderia ser batido. Logo, ninguém escreve o exercício proposto por Hongren. Como era de se esperar, apensar Shenxiu escreve, e seu texto é pregado em uma das paredes do templo.
 “O Corpo é a árvore de Bodhi,
 a mente é um espelho brilhante.
 Com cuidado a limpamos continuamente,
 sem deixar que o pó acumule”.
 Todos ficam perplexo, achando que nada poderá ser mais coerente que o escrito por Shenxiu, no entanto, no dia seguinte, ao lado do exercício de Shenxiu, aparece um desconhecido sem assinatura:
 “Bodhi não é uma árvore
 nem a mente um espelho brilhante
 Já que tudo é vazio em essência
 onde pode o pó acumular?”
 Sim, esta era a suprema verdade sobre a iluminação(Bodhi), mas o seu autor permanecia desconhecido. Posteriormente descobre-se que o autor era o cozinheiro do templo, Huineng, que era analfabeto, e havia pedido para um amigo escrever suas palavras. Huineng acaba por tornar-se o novo patriarca do Zen na China, mas alguns monges ficam descontentes e acabam por criar uma outra corrente Budista, onde Shenxiu é o verdadeiro patriarca. Esta escola é extinta em pouco tempo.
 Huineng é o último patriarca do Zen na China, e consegue expandir os ensinamentos de Buda por toda a China. Suas palavras são tidas como um marco na compreensão do Zen Budismo. Ao estudarmos linha por linha em paralelo ao texto de Shenxiu, podemos ter uma primeira compreensão do que é verdadeiramente o ensinamento Zen:
“O Corpo é a árvore de Bodhi”;
 “Bodhi não é uma árvore”;
 Enquanto Shenxiu afirma a necessidade de existência de um corpo para o caminho da iluminação, Huineng nega, a iluminação não precisa de um corpo.
“…a mente é um espelho brilhante”;
“nem a mente um espelho brilhante”;
Huineng agora nega a importância da mente no processo de iluminação.
“Com cuidado a limpamos continuamente,
sem deixar que o pó acumule”.
“Já que tudo é vazio em essência
onde pode o pó acumular?” .
 Enquanto Shenxiu prega a necessidade de um autocontrole da mente, Huineng diz que isto não deve existir, pois para o Zen não existem intermediários.
 É exatamente este o principal foco do Zen. Pouco palpável, mas é exatamente isto que o Zen prega, a quebra com a lógica, a mente não pode controlar o Zen, o Zen existe independente de qualquer coisa, de qualquer meio. O Zen não é tangível pela intelectualidade, para compreender o Zen deve se deixar de lado qualquer paradigma existente e apenas ser. Ao primeiro contato nos é difícil compreender, mas ao estudar os métodos Zen, e o Zen aplicado à algumas atividades, nos fica claro qual é sua finalidade, mesmo que isso não seja possível na visão Zen.

4 – Zen Budismo

 O termo Zen tem origem em Dhyanna, termo sânscrito que significa meditação. Ao ser introduzido na China, o termo Dhyanna tornou-se Ch’an, possivelmente este termo foi corrompido ao chegar no Japão, e por sua similaridade sonora tornou-se Zen. Porém Zen não carrega mais o sentido de meditar, para isto existe o nome Zazen, que seria o sentar Zen.
 O Zen Budismo, como em outras escolas, busca o caminho da iluminação. Esta iluminação, em japonês, recebe o nome de Satori ou Dai-Kensho. Dai-Kensho seria um estágio avançado da iluminação, enquanto Kensho é apenas uma iluminação parcial. O foco do Zen Budismo é dado na meditação, entretanto, cada escola tem uma metodologia sobre meditação.
 Alguns princípios utilizados no Zen são de grande importância para a compreensão deste. Um deles é o princípio da impermanência, ou seja, nada existe pra sempre. Outro princípio importante é o da Natureza Búdica, qualquer pessoas é um buda em potêncial, somos todos iluminados por natureza, porém temos que seguir este caminho de volta para a iluminação, esta iluminação nos dá uma visão sobre a verdadeira realidade de tudo. Este é a finalidade do Zen.
 O Zen tornou-se popular na China, crescendo absurdamente em número de templos, chegando ao ponto de que praticamente todos templos Budistas na China eram da escola Zen. Após crescer na China, o Zen atravessou as fronteiras, muitos templos foram criados no sudeste asiático e principalmente na Coréia.
 O Zen Budismo começou a ser introduzido no Japão entre os séculos XII e XIII, sua aceitação foi de certa forma rápida, como as escolas budistas japonesas, o Zen conseguia simplificar ainda mais a iluminação. Sendo fácil de praticar e sendo acessível à população japonesa, seja intelectualmente ou financeiramente. Criou-se também o acesso das mulheres à religião, chegando ao caso de mulheres tornarem-se mestres Zen e dirigirem mosteiros. Ou seja, o Zen entra no Japão com uma série de atrativos.
 Existe um número limitado de escolas Zen de expressão, restringe-se basicamente a Soto Zen e Rinzai Zen. Existem também a escola Obaku Zen, que foi introduzida no período Tokugawa, pelas famílias chinesas residentes no Japão, e atualmente foi criada em 1954 a escola Sanbo Kyodan Zen, que na verdade é uma releitura das escolas Soto e Rinzai.
 A Escola Rinzai, a primeira escola Zen a ser introduzida no Japão, é levada em ao Japão por Myoan Eisai em 1191. Inicialmente é uma releitura da escola chinesa Linji, mas posteriormente a escola Rinzai cria uma identidade tipicamente japonesa. A escola Rinzai é conhecida por ter um método abrupto, ou seja, que acelera o caminho para a Iluminação. A iluminação é dada através da meditação sobre os Koans, frases que fazem o praticante refletir sobre a verdade. Esta escola também dá ênfase no trabalha árduo. Por tais motivos o Zen é adotado rapidamente pela classe de Samurais, principalmente o Rinzai Zen, pois ao contrário de outras escolas, o Zen pode ser praticado em qualquer lugar, em silêncio, sem necessidade de grandes rituais. O foco da Rinzai Zen no trabalho árduo é adaptada à prática de artes marciais, o que torna atrai ainda mais a classe de Samurais a praticarem Zen. Pode-se dizer que o Zen define a identidade do Samurai.
 A Escola Soto Zen é a escola Zen com mais praticantes em todo o mundo. Foi criada por Dogen Zenji, e surge como uma releitura da escola chinesa Caodong, e assim como a Rinzai, adquire a identidade típicamente japonesa com o passar dos anos. Ao contrário da Rinzai, a escola Soto torna-se mais popular entre os camponeses. A escola Soto não faz o o uso de Koans, e também não faz uso de trabalhos árduos. O foco é dado na meditação sentada, ou Shikatanza, que significa “apenas sentar-se”. A escola também faz meditações andando ou Kinrin, e meditações enquanto realizam pequenas atividades, como preparar o almoço, essa meditação chamam-se Samu.
 No Zen como um todo, a meditação é o principal método utilizado para atingir-se o Satori, entre uma escola e outra apenas o enfoque da meditação é mudado, mas o Zen continua o mesmo. Entendendo os principais métodos de meditação, podemos compreender a realidade Zen.

5-Koan

 Koans são frases usadas pelos mestres, para forçar seus discípulos a compreender a verdade do Zen, algumas frases são famosas como:
 “Sabemos o som de duas mãos batendo uma na outra, mas qual o som de uma das mãos?”
 Meditando sobre Koans, o praticante consegue quebrar as barreiras que o prendem a realidade, não mais existem duas mãos, nem uma mão. As mãos são duas e “são” uma ao mesmo tempo. O uno e o dual coexistem. Esta é a realidade para o Zen, tudo que existe é Uno, mas ao mesmo tempo existe uma individualidade, e não obstante, o tudo torna-se nada. Difícil de entender ao primeiro contato, porém isso pode ser explicado com um outro Koan.
 “O Zen é como o reflexo da lua dentro de um lago.”
 Portando uma certa poesia, este Koan nos dá a verdade quando tentamos obter o zen de uma forma lógica. Um objeto glorioso como a lua pode entrar em um lago sem criar uma onda sequer, mas se tentarmos agarrar essa imagem deixaremos a água turva, de modo que não veremos mais a lua como ela é. Essa é a realidade que o Zen prega, a iluminação não pode ser obtida por um processo lógico. Este é um dos motivos na qual não existe um texto sagrado sobre o Zen, não há como expressá-lo de forma lógica, o Zen só pode ser vivido. Como diz esse próximo Koan.
 “As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta” .
 Este Koan é de mais fácil interpretação. Novamente a verdade é retratada como a lua, ao escrever, ou até mesmo falar sobre o Zen. Corre-se o risco de olharmos para o dedo ao invés da lua, ou seja. Este Koan diz dos perigos de se tornar um escravo das palavras, ao invés de contemplarmos a verdade, e além disso, por mais que um mestre possa apontar a lua, ele não pode olhar a lua pelo discípulo.
 Estes Koans começam a deixam claro a filosofia Zen, para se entender o Zen deve-se pratica-lo, pois ele não pode ser atingido por caminhos intelectuais. Ao sentar e meditar sobre os Koans, o praticante aproxima-se do Satori. Compreender o mundo como duas mãos que batem e fazem um único som.

 6- Zazen

 Zazen é o método de meditação usado pela Soto Zen, e ao contrário da Rinzai. Não se usam Koans. O Zazen procura o caminho inverso. Ao sentar não se deve ter nada na cabeça, os pensamentos não devem existir, e o mundo não será mais externo ao praticante. A prática do Zazen leva ao Shikatanza, ou seja, apenas sentar. Quando o praticante atingir o nível de que não faça mais nada além de sentar, ele estará apto a perceber a verdade do mundo. E assim, atingir o Satori.
 O Zazen deve ser praticado na posição de Lótus, colocando o pé direito sobre a coxa esquerda, e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Por ser uma posição difícil, também pode se praticar Zazen em Semi Lótus, onde só o pé esquerdo fica sobre a coxa direita. Também existe a posição Birmanesa, onde as pernas tocam o chão do joelho aos pés, pode-se realizar Zazen em Seiza, o modo japonês de se sentar ajoelhado, ou até mesmo praticar sentado, caso seja difícil para o praticante ficar numa das posições anteriores.
 O Zazen na escola Soto zen é praticado virado para a parede, ao contrário da escola Rinzai, onde os praticantes miram o centro do Dojo, com os olhos semi-fechados, não tão abertos ao ponto de dispersar e nem tão fechados ao ponto de dar sono. As mãos devem formar o Mudra Cósmico ou Dhyanna Mudra, onde a palma direita vira-se pra cima e a mão esquerda repousa sobre a mão direita, os polegares se tocam levemente. Este mudra deve ser realizado à altura do Hara, ponto este que fica 3 dedos acima do umbigo.
 Ao atingir o Satori, o praticante apenas senta, e mais nenhum sentimento, pensamento ou sensação irá atingi-lo. Assim pode-se ter a compreensão da realidade.
 Existe uma variação do Zazen, que chama-se Kinrin, onde o praticante anda lentamente, enquanto faz um mudra na altura do plexo solar. Existe também o Samu, onde o praticante faz uma atividade normal, como preparar o almoço ou varrer a casa, mas tentando atingir alguma iluminação. Em ambos os casos, a finalidade é a mesma do Zazen.

7-Zen

 O termo Zen, como já foi dito, tem sua origem no termo Dhyanna, que significa meditação. Apesar de não ter mais esse significado, a meditação continua sendo a essência do Zen Budismo. A escola Soto Zen muitas vezes diz usar o termo meditar por não existir um correspondente melhor. Mas compreendendo os métodos usados e finalidades, podemos retratar as escolas Zen como nulistas, ou seja, não existe uma grande atividade, e os praticantes se abstêm de qualquer coisa que aconteça. Qualquer assunto pode ser tratado com naturalidade, e independente do contexto, os praticantes Zen não manifestam nenhuma reação ou opinião sólida. O Zen também é retratado como religião iconoclasta, não dando importância a símbolos, escrituras ou a personagens históricos. Existem relatos de monges que queimam ou cospem em estátuas de Buda, isto pode ser interpretado de uma forma não saudável pela sociedade, além do mais, têm-se a impressão que os praticantes não tem respeito por seus mestres. As palavras são o meio mais poderoso de transmissão de Zen, mas algumas delas podem ser interpretadas de forma errônea, como já foi dito por um mestre Zen: “Se você encontrar o Buda, mate o Buda. Se você encontrar o Patriarca, mate o Patriarca”. Frases e ações como essas devem ser interpretadas com grande cautela.
 Como acontece com o Budismo em geral, existe a discussão sobre o Zen ser ou não uma religião. Discussões mais sérias são levantadas em torno do Zen, como por exemplo, se ele é realmente um escola Mahayana ou dá início a uma nova ramificação, ou ainda, o Zen ainda é Budismo, ou é uma filosofia nova baseada no Budismo? Questões como essas podem ser estudadas e nunca levantar uma resposta conclusiva.
 O Zen tornou-se popular e gerou uma esteriótipo japonês, onde todo japonês é Zen. O Japão como um país onde a sabedoria transborda, e como fonte de grande espiritualidade. Devemos reconstruir o conhecimento sobre o povo japonês, e evitar esse tipo de pré conceito. Alguns estudiosos afirma que o Zen é o produto genuíno da sociedade japonesa, a essência do povo japonês encontra-se no Zen. Será que figuras populares como o Samurai justo e corajoso são reais, ou apenas um construção idealizada? Será que o Japão sempre teve este comportamento, mesmo antes da introdução do Zen Budismo? O Zen Budismo reconstruiu o Japão, ou o Japão criou o Zen Budismo? Questões como essas devem ser levantadas para evitar uma idealização da sociedade japonesa..
 O Zen também é tema pra vários campos de estudo, não só a antropologia, linguística e história. A psicanálise tem estudos sobre o Zen, onde essa manifestação do desejo é dada como influência do Ego (Vontade e desejo, livre de qualquer conceito moral), e os métodos Zen como Koan e Zazen são instrumentos para construir um Superego(Superego é o que suprime o desejo, ou seja, suprime o Ego), em função do Id (Personalidade do Indivíduo).
 Muito se tem estudado sobre alguns costumes e artes Zen, como o Ikebana ou Kado, a arte dos arranjos florais. O chado(ou sado) ou chanoyu, a arte de servir e apreciar chás. O shodo, a arte da escrita. Ou até artes marciais como Aikido e Judo.

8- A arte e o caminho Zen

 Ao ser introduzido no Japão, o Zen Budismo leva consigo uma série de costumes e tradições que pouco a pouco passam a ser incorporadas à identidade Nippônica.
 A notável preocupação de encontrar o caminho da iluminação extrapola os ritos religiosos e é encontrada em atividades pouco ligadas ao Budismo. Algumas dessas práticas são levadas junto a introdução do Zen no solo japonês, como é o caso da arte do chá. Outras são criadas e desenvolvidas à partir de contextos filosóficos e históricos, como é o caso de certas artes marciais. Mas qual relação existe entre tomar chá e atingir a natureza búdica? Isso nos fica claro assim que compreendermos tais práticas.
 A arte do chá, Chanoyu ou Chado, foi levada ao Japão por monges chineses, estes cultuavam o hábito de tomar chá verde, tal chá já existia no Japão, mas a sua qualidade era contestável.
 O Zen pouco a pouco desenvolve um método cerimonial de se apreciar o chá. Esste método visa a evolução espiritual e a busca pelo caminho, como nos deixa claro o nome Chado, Cha significa Chá, enquanto Do tem o significado de caminho. Então o Caminho do Chá estabelece uma série de regras e uma norma de etiqueta que pode variar conforme a escola.  Em essência todas escolas seguem um padrão. Antes de começar o ritual do chá propriamente dito, os convidados caminham por um jardim zen, ondem contemplam a natureza, essa etapa visa a integração do homem à natureza, fortalecendo o principio de unidade que existe no Zen. Antes de entrar na sala de chá, os convidados lavam suas mãos e bocas. Este não é um gesto de asseamento e sim um gesto simbólico de quebra com o mundo material, após esta lavagem o convidado está apto a entrar na sala do chá. Ao entrar, o mundo deve ser esquecido, a única preocupação deve ser com a cerimonia. O chá deve ser apreciado, assim como os talheres e instrumentos usados, eventualmente se apreciam arranjos florais e pinturas sumiê.
 Ao se focar no chá, existe uma unidade entre o convidado e a cerimônia, os dois estão unidos intimamente, todas as ações são feitas com naturalidade e qualquer resquício do mundo exterior é deixado de lado.
 Essa idéia de unidade é exatamente o que o Zen procura, não existe distinção entre o que é chá e o que é homem, os dois são um só, e através da prática do Chado o praticante se torna apto a extrapolar esse conceito chá-homem para homem-universo.
 Outra prática interessante é o Ikebana ou Kado, Ka significa flor enquanto Do novamente significa caminho. O mesmo conceito do chá é aplicado aqui. Ao construir arranjos florais, o praticante torna tal prática tão natural, que é incapaz de distinguir o praticante do arranjo. Certas regras estéticas fazem parte do Ikebana, como o cuidado com os ramos usados, seus tamanhos e direções. A regra principal é buscar o equilibrio entre os três (3) galhos usados no arranjo. Mas no arranjo de Ikebana, os galhos não são apenas galhos, são símbolos que representam, o Céus, a Terra e o Homem. Ao buscar o equilibrio entre esses galhos, o praticante entra em equilibrio com a iluminação (Céu), com o mundano (Terra) e o consigo (Homem). Essa tríade é um conceito que foi englobado à partir do contato do Budismo com o Xintô.
 As Artes Marciais também tem sua preocupação com a iluminação. O Budo, onde Bu significa guerra, e Do significa caminho. Busca trazer a iluminação ao praticante, através do treino de técnicas de combate.
 O Budo é uma adaptação do Bujutsu, Jutsu significa arte ou técnica, a única finalidade do Bujutsu é formar soldados aptos ao combate armado e à mãos nuas. Com o final da segunda guerra, tais práticas perdem sua utilidade, e pouco a pouco as escolas marciais vão desaparecendo. Com uma releitura Zen do Bujutsu, o Budo surge, adaptando antigas técnicas de combate ao caminho Zen. Novamente o praticante deve atingir um elevado grau na arte, que é impossível distingui-lo da técnica. Não existe nenhum pensamento, todo o processo acontece de forma natural. Mais uma vez, buscando a iluminação, o praticante deve interpretar a sua naturalidade técnica como uma manifestação da postura que deve ser tomada em relação ao universo.
 Existe um crescimento exagerado das artes Zen, onde praticamente tudo pode ser praticado de uma forma a revelar o caminho da iluminação. Também existe grande especulação e inúmeros livros sobre o modo Zen de se executar ações diversas. Hoje podemos encontrar livros que relatam a mente Zen na manutenção de automotores, ou até mesmo na direção automobilística.

 9- O Zen e o mundo

 O Zen atualmente é praticado em quase todo o mundo, a escola com o maior número de monges fora do Japão é a Soto Zen. Após os anos 80, aumenta o  interesse do mundo na sociedade japonesa, onde muito da sua cultura acaba por se tornar uma moda. O mesmo acontece com o Zen.
 Com a popularização das artes marciais, dos samurais, ninjas e gueixas, o Japão se torna uma grande fonte de novidades. Em oposição ao que já existe no ocidente, os costumes japoneses são generalizados como espirituais, pacíficos. Muitas vezes podemos observar uma dicotomia entre ocidente/oriente – bem/mal. Muitas das características adoradas pelo ocidente, se deve a grande influência do Zen na sociedade japonesa.

Glossário
Amidismo – Outro nome dado à escola Jodo Shu, devido à sua devoção ao Amida Buda.
Bhodi – Iluminação.
Buda – O Iluminado, mas comumente o termo é usado pra se referir à Siddartha Gautama.
Bukkyo – Budismo.
Butsudo – Budismo.
Butsu – Buda.
Dai-Kensho – Maior nível que possa ser atingido pela iluminação.O mesmo que Nirvana ou Satori.
Daimoku – Sutra utilizado na escola Nichiren.
Dojo – Local onde se pratica a meditação. Literalmente é o “lugar do caminho”
Kensho – Primeiro estágio da iluminação, termo japonês.
Koan – Frases usadas para forçar a compreensão do Zen..
Kinrin – Meditação andando.
Lamaísmo – Budismo Tibetano praticado pelos Lamas.
Mudra – Símbolos que são realizados com as mãos ao se meditar.
Nirvana – Iluminação. O mesmo que Dai-Kensho ou Satori.
Samu – Um trabalho que é realizado com intuito de meditação.
Sangha – Comunidade monástica.
Sutra – Registros escritos das palavras proferidas por Siddartha Gautama.
Período Asuka – Período da história japonesa que corresponde de 552-710.
Período Heian – Período da história japonesa que corresponde de 794-1185.
Período Kamakura – Período da história japonesa que corresponde de 1185-1333.
Período Tokugawa –  Período da história japonesa que corresponde de 1615-1868
Zazen – Meditação Sentada.

Bibliografia.
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Anstalt. 1993. (Filme)
BRINKER, Helmut. “Zen na arte da pintura(o)”. São paulo: Pensamento
DUCKHEIM, Karlfried Garf. “O Culto Japonês da Tranquilidade”. São Paulo, Cultrix. 1992.
ENCICLOPÉDIA, Wikipédia. <http://pt.wikipedia.org/&gt;. Ultimo Acesso: 29/11/2009.
HAMMITZSCH, Horst. “O Zen na Arte da Cerimônia do Chá. São Paulo, Pensamento. 1996.
HERRIGEL, Engel. “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen.”. São Paulo, Pensamento. 2007.
______. “O Caminho Zen”. São Paulo, Pensamento. 1993.
HERRIGEL, L. Gusty. “O Zen na Arte da Cerimônia das Flores”.  São Paulo, Pensamento. 1995
HYAMIS, Joe. “O Zen nas Artes Marciais”. São Paulo, Pensamento. 1996.
HUMPHREYS, Christmas. “Zen- budismo”. Rio de janeiro: Zahar, 1977
KAMMER, Reinhard. “ O Zen na Arte de Conduzir a Espada”. São Paulo, Pensamento.  1995.
KATAGIRI, Dainin. “Retornando ao silêncio: a prática zen na vida diária”. São Paulo: Pensamento, 1988.
RAJNEESH, Bhagwan Shree. “Nem água, nem lua: Dez discursos sobre historias zen.” São paulo: Pensamento, 1973.
SCOTT, David; DOUBLEDAY, Tony. “ O Livro de Ouro do Zen”.Rio de Janeiro, Ediouro, 2000.
SUZUKI, Daisetz Teitaro. “Introdução ao Zen Budismo”. São Paulo, Pensamento. 2002.
______. “A Doutrina Zen Da Não Mente” São Paulo, Pensamento. 1989
______. “Zen and japanese culture”. Princeton: Princeton University, 1973
______. “Zen-budismo e psicanalise”. São paulo: Cultrix, 1970
SAKURAI, Célia. “Os Japoneses”. São Paulo, Contexto, 2008.
SUZUKI, Takeshi. “Budismo, do Primitivo ao Japonês”. São Paulo, Ed. do Escritor,1986
PEREIRA, Ronan A . “Religiosidade Japonesa: Sincretismo e Tolerância”. São Paulo, JBC. 2004
______ . “As Novas Religiões”. São Paulo, JBC. 2004
______ . “Religiosidade Japonesa no Brasil”. São Paulo, JBC. 2004
SUGAI, Vera Lucia. “O Caminho do Guerreiro- Volume I”. São Paulo, Gente. 2000.
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WATTS, Alan W. “O espírito do Zen”.  São Paulo, Cultrix, 1988.






terça-feira, 19 de setembro de 2017

Sutra da Total Aniquilação do Dharma Proferido pelo Buda

Traduzido do sânscrito para o chinês por uma pessoa desconhecida. Traduzido do chinês para o português pelo  Upasaka Pundarikakarna no verão de 2014.


Assim ouvi. Naquele momento o Buda estava em Kuśinagara e faltavam apenas três meses
para seu Parinirvāṇa. Junto com ele estavam monges e bodhisattvas. Muitos vieram até o local
onde o Buda estava e curvaram suas cabeças aos seus pés. Porém   o Honrado Pelo  Mundo
permaneceu imóvel, não proferiu nenhum ensinamento e sua radiância luminosa não mais era
emitida.
O Venerável Ānanda então curvou-se em reverência e dirigiu-se ao Buda dizendo, "Honrado
Pelo Mundo, antes e depois de ensinar o Dharma uma poderosa ema nação luminosa era
sempre vista, mas agora a Grande Assembleia não mais vê tal manifestação. Por que isso
acontece? Deve haver uma razão!"
O Buda, porém, permaneceu em silêncio. Apenas após ser questionado pela terceira vez o
Buda dirigiu-se a Ānanda [e disse], "Após o meu nirvāṇa, chegará o tempo em que o Dharma
será aniquilado e extinto. As Cinco Faltas Mortais (1) tornarão o mundo turvo (2) e o Reino de Māra
prosperará. Demônios se tornarão monges para deteriorar meu caminho e torná -lo confuso.
[Esses  monges]   serão apegados a roupas comuns e vão deleitar -se com kaṣāyas de cinco
cores. (3)
Eles beberão álcool e comerão carne, tirando vidas pela ganância de seu sabor. Neles
não haverá [verdadeira] compaixão e serão odiosos e invejosos uns com os outros. Contudo,
naquele tempo também haverá bodhisattvas, praticantes solitários e arhats que se esforçarão
no cultivo de méritos, em tudo sendo respeitosos e pacientes e as pessoas que se submeterem
à disciplina serão guiadas [por eles] sem distinção. Terão piedade dos men os favorecidos e se
lembrarão dos mais velhos, ajudando a erguer os que sofrem de suas adversidades. Eles
sempre orientarão as pessoas a honrarem os sutras e as imagens. Farão votos de gerar méritos
de virtude e bondade. Não causarão dano aos seres humanos , renunciando a si próprios em
prol dos outros seres vivos. Não serão orgulhosos nem pouparão esforços sendo pacientes e
gentis, agindo assim com todas as pessoas.
"Mas os monges servos de Māra, cheios de inveja, arquitetarão maldades para cal uniá-los,
expulsando-os de onde estiverem, não permitindo que fiquem em um único lugar. Nenhum
desses monges vai dar seguimento às práticas das virtudes budistas. Os templos budistas serão
como mausoléus (4) abandonados e nunca mais se recuperarão dos danos s ofridos. Somente
preocupados em acumular bens e posses, [esses monges] não incentivarão a prática de atos
meritórios.  Negociarão  bens,  terão  escravos  e  serviçais  que  lhes  cultivarão  os  campos,
[garantindo-lhes o sustento sem esforço]. Vão atear fogo nas mo ntanhas e florestas(5) ferindo
os seres vivos, sendo completamente desprovidos de compaixão. Seus escravos serão aqueles
que querem se tornar monges e suas serviçais serão aquelas que querem ser monjas. Não
cultivando  as  virtudes  budistas,  serão  depravados  e   indisciplinados, não distinguindo os
homens das mulheres (6). Dessa maneira farão com que o Budismo se torne inconsistente e
insípido para todos [que queiram aprender].
Alguns, para evitar a condenação de alguém, o farão tornar-se monge. Vão se considerar
Śrāvakas, mas sem praticar a disciplina e as regras da moralidade. A cada período lunar eles
repetirão os votos dos Preceitos, mas vão agir com indolência e não desejarão ouvir o Dharma.
Eles vão omitir partes dos sutras, desconsiderando aqui e al i, não querendo ensinar o texto
inteiro, nem terão o hábito de recitar os sutras. Ainda assim, mesmo que alguém os leia, nem
sequer uma palavra ou frase será entendida. Haverá aqueles de palavras fortes e consistentes,
mas [os monges de Māra] não consultarão os mais esclarecidos por serem orgulhosos e só
buscarem fama [ao invés do Dharma]. Não serão objetivos [em suas falas], mas terão trejeitos
suaves e elegantes, pois querem ser homenageados e receber oferendas.
Quando chegarem ao fim de suas vidas, os monges servos de Māra afundarão no Inferno Avici
por terem cometido as Cinco Faltas Mortais, renascerão como Fantasmas Famintos e Animais
sofrendo tudo que causaram por uma quantidade de kalpas iguais  a  quantidade de grãos de
areia do Ganges. E no  dia em que suas faltas se esgotarem eles renascerão em terras distantes
onde os Três Tesouros não existam.
Quando  cessar  o  desejo  pelo  Dharma,  as  mulheres  farão esforços constantes para gerar
Méritos(7), mas os homens serão indolentes e não dando   ouvidos ao Dharma. Vão considerar os
monges como a escória do mundo e serão incapazes de ter uma mente capaz de confiar.
Quando o desejo pelo Dharma declinar chegará o momento em que todos os Reinos Celestiais
chorarão.  O  período  das  secas(8) será  descontrolado  e  os  Cinco  Tipos  de  Grãos(9) não
amadurecerão. Vapores mortíferos se espalharão [pelo ar] causando a morte de muitos. As
pessoas comuns sofrerão duras punições sob o jugo dos governantes, que se oporão aos
princípios do Caminho. Todos pensarão   apenas em prazeres e distrações. As pessoas más
serão  tantas  quanto  as  areias  do  oceano.  Em  compensação,  as  pessoas  boas  serão
extremamente escassas, talvez uma ou duas.
Quando esse kalpa estiver se exaurindo, os dias e noites serão mais curtos   e a vida passará
cada vez mais depressa. Aos quarenta os cabelos já serão brancos. Os homens serão devassos
e sua energia vital vai se exaurir muito cedo, viverão no máximo até aos sessenta. Os homens
viverão menos, mas a vida das mulheres será mais longa . Mesmo que cheguem a setenta,
oitenta ou noventa, poucos chegarão aos cem anos de idade.
Grandes inundações(10) acontecerão de repente e serão imprevisíveis. As pessoas do mundo não
terão mais um coração confiante e desejarão que a existência seja   permanente. Dentre os
seres sencientes não haverá mais diferença entre os de casta superior e inferior e todos se
afundarão sendo arrastados [pela inundação] e devorados por monstros aquáticos.
Naquele tempo, embora existam bodhisattvas, praticantes solitários e arhats, os monges
servos de Māra vão expulsá- los e  persegui-los  não permitindo que participem das assembleias.
Por isso os três tipos de praticantes adentrarão às montanhas(11) cultivando práticas benéficas
em prol da humanidade. Autocontrolados, eles serão felizes e contentes e a duração de sua
vida será prolongada e os seres celestiais os guardarão e protegerão. Então o bodhisattva
Candraprabha(12) surgirá no mundo. Em sua companhia eles reerguerão o Budismo.
Após um período de ci nquenta e dois anos, o Śūraṃgama-sūtra(13) e o Pratyutpanna-samādhi
Sutra(14) serão os primeiros a desaparecer e em seguida são se poderá mais consultar as doze
divisões do cânone Budista, pois elas estarão completamente aniquiladas, nunca mais serão
vistas, nem  suas palavras lidas. [Neste momento, então] o manto monástico espontaneamente
se tornará branco.(15)
Quando meu Dharma cessar, será como uma lamparina cujo azeite está prestes a acabar. Sua
luz é mais e mais brilhante até que de repente é totalmen te  extinta. Assim também será a
aniquilação do meu ensino. Certamente, as dificuldades que virão serão incontáveis e se
perpetuarão por muitos incontáveis milhares  de anos.
Maitreya então descerá no mundo como um Buda. Os vapores venenosos [de o utrora] serão
extintos e o mundo será próspero e pacífico. A chuva cairá suave fazendo os Cinco Tipos de
Grãos crescerem exuberantes. As florestas crescerão novamente. Os seres humanos terão a
altura de oito pés e a vida de todos vai durar oitenta e quatro   mil anos. A quantidade de seres
sencientes salvos será incalculável. ”
O Venerável Ananda fez uma reverência e dirigiu-se ao Buda dizendo, "Qual deve ser o nome
deste sutra para que seja respeitosamente mantido na memória?"
O Buda então respondeu, "Ānanda, ele deve ser chamado de 'Sutra da Total Aniquilação do
Dharma' e deve ser ensinado a todos e seu verdadeiro significado deve ser bem esclarecido.
[Sua correta compreensão] vai gerar méritos incalculáveis."
Os quatro tipos de discípulos  ouviram esse sutra com tristeza e desgosto e todos despertaram
a aspiração pela Suprema e Excelsa Iluminação. Todos eles curvaram -se em reverência ao Buda
e deixaram o local.
Este é o Sutra da Total Aniquilação do Dharma Proferido pelo Buda.
1
pañcānantarya; 五無間業  As cinco  faltas mortais, parricídio, matricídio, assassinar um arhat, derramar
o sangue de um Buda, destruir a harmonia da sangha.
2
濁世  Mundo poeirento ou lamacento. Numa referência a impossibilidade de se enxergar a realidade.
Uma imagem interessante do mundo fenomênico coberto de uma camada de pó ou sujeira , assim não
se  vê  suas  verdadeiras  características.  A  poeira  é  a  ganância,  o desejo descontrolado, a futil idade,
falsidade, fraqueza ética e moral  que deixa tudo desagradável e impossível de definir.
3
O número cinco simbolicamente passa por  várias ideias e conceitos. Aqui, baseado nas regras budistas,
os monges eram proibidos de usar vestes que fossem tingida s com as cinco cores primárias (na cultura
local): azul, vermelho, branco, amarelo, preto.
4
O caractere usado aqui é o mesmo usado para descrever as tumbas imperiais onde os servos eram
enterrados vivos junto com seus senhores. Ou seja, o Budismo estaria  morto e enterrado e seus servos,
os monges malignos  e falsos estariam “sepultados” junto com seu mestre.
5
Achei curioso lembrar que as montanhas e florestas eram os locais onde ficavam os mosteiros.  Vão
prejudicar a capacidade de monges sinceros se agruparem, assim causando dano aos seres sencientes.
6
As mulheres ficavam separadas dos homens nos mosteiros.  Também havia regras diferenciadas no
trato entre homens e mulheres para os monges.
7
Seduzidas   pelo  ar  de  misticismo  do  falso  budismo,  elas  se  interessarão  mais  do  que  os homens.
Considerava -se o sexo feminino mais s uscetível a esse tipo de engodo enquanto o sexo masculino seria
mais voltado à lógica e racionalidade.
8
O Sutra do Lótus compara o Dharma com uma chuva que cai igualmente sobre todos.
9
Como dito acima, o número cinco, simbolicamente, permeia a literatura com vários sentidos. Como os
grãos são uma fonte de força e sustento, pode ser uma associação com os  五力  pañcabala, as cinco
forças, ou cinco poderes que são, confiança, zelo, memória (ou  lembrança), meditação e sabedoria.
10
O  mar,  grandes  águas  são  quase  sempre  símbolos  do  sofrimento  ou  confusão  mental,  medo  e
angústia.
11
Ou  seja,  solitários,  afastados  da  multidão  num  sentido  de  que  não  participariam  das  grandes
congregações.
12
Candraprabha Bodhisattva, ou Gakkō Bosatsu em japonês, Yuèguāng Pusa em chinês, Luz da Lua em
português,  é  um  personagem  que  também  é  visto  ao  lado  de  Nikkō  Bosatsu  (Luz  do  Sol) e servem o
Buda da Medicina.  O disco lunar que ele sustenta representa o conhecimento  penetrante e as  virtudes
do Buda e simboliza a aspiração à Iluminação.
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O Śūraṅgama Sūtra discute os conceitos de Yogācāra, Tathāgatagarbha e Budismo Esotérico. Faz uso
de lógica budista, com seus métodos de silogismo e Negação Quádrupla (sct. catu ṣ koṭi), popularizada
por Nāgārjuna. É um sutra Mahāyāna especialmente influente na escola Ch'an.
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O Pratyutpanna Samādhi Sūtra contém a primeira menção conhecida ao Buda Amitabha e sua Terra
Pura,  sendo  dito  que  é  a  origem das práticas da Terra Pura na China. É um   sutra Mahāyāna inicial,
provavelmente escrito por volta do século I AEC na área de Gandhara, noroeste da Índia.
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Branco era a cor  das vestes dos seguidores leigos. Ou seja, na ausência de verdadeiros monges, só

haverá seguidores leigos e eles tomarão a frente.