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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Uma Sessão de Perguntas - parte 1

Uma sessão de perguntas feitas pelos estudantes a Ryokan Hiroshi

Estou aqui hoje à disposição da ordem para todo o tipo de pergunta. Comecemos sem delongas!

1. O senhor sendo um roshi ou um mestre zen apresenta alguma visão para nós que não somos do zen e mesmo que não são budistas que nos convenceria a praticar a psicologia budista ou a didática ou a meditação? Que vantagens temos nós da ordem em praticar isso?

[Um momento de riso]

R. Bem, eu já sabia que essa pergunta surgiria... Mas veja que o senhor colocou de uma forma que são muitas perguntas em uma. Tenho muitas observações sobre ela. É uma pergunta importante.

Primeiro, eu não sou um mestre zen, não uso mais esse termo (ou título) de roshi, e aqui na ordem, nessa fraternidade pelo menos uma regra é que não há mestre, ninguém pode ser chamado mestre, se eu ainda fosse "mestre zen" é um erro você me chamar de mestre mesmo assim, já que também ensino aqui na ordem. É uma reverência para comigo e irreverência para com a ordem, está invertido aí, é errado. Então saiba que não é porque não uso o termo simplesmente, mas você conhece a regra, eu estou aqui ensinando, ensino aqui, então jamais poderia me chamar de mestre. Por outro lado compreendo que você não me chamou no presente, que sua intenção não era dizer que sou "sendo", mas que fui ou fui tido como, no passado, "tendo sido". Mas é preciso que eu esclareça para outros, mas você se referiu a minha posição no zen, na sua pergunta, então devo explicar para todos.

Segundo, que depois que deixei as obrigações da ordem zen ingressei numa ordem que prepara pessoas de qualquer religião, para o zazen e para ser um "mestre zen", ou seja, um professor zen, seja qual for sua religião ou escola (não vou citar o nome porque apesar de existirem algumas escolas assim no Japão vou fazer algumas críticas construtivas a essa escola aqui). 

Eu não vim aqui convencer, só apresentar algumas ferramentas nas quais sou especialista, diga você; outros professores vão apresentar outras; você é que vai avaliar a que é que vai ser útil para o seu objetivo.

No objetivo geral da ordem, tem relação com o aprimoramento do uso de uma ferramenta fundamental, que você já tem e mal utiliza, a principal ferramenta de todas eu diria, a consciência, que você vai estar mais consciente pela atenção, pelo tipo de atenção, pela concentração, e assim por diante.

Esqueci o resto da pergunta...

[Alguém lê uma anotação pessoal da pergunta]

Ah sim!

O mais importante vou dizer agora. Mas primeiro preciso dar uma breve advertência. No mundo hoje as pessoas estão com pressa e muito contaminada com um pensamento mau, danoso, "que vantagem eu terei nisso", é isso que o pensamento, o marxismo cultural, incutiu em todas as pessoas, porque ele diz que as pessoas pensam em termo de vantagem, mas isso não é verdade. Você tem que perguntar a essas pessoas, já que elas pensam que é assim, qual é a vantagem que ela está tendo em pensar assim, que vantagem quer tirar para si em lhe ensinar tal coisa estúpida? Porque nós somos algo, não somos? Qual a vantagem disso? Porque o insatisfeito com a vida não então se mata? Não estou dizendo que se mate hein! Porque o insatisfeito consigo mesmo resolve fácil, se mata e pronto. Não. Nós estamos num determinado estado de consciência. Nós somos algo e você faz assim, muita coisa, porque é o que você é, porque é o que você é agora, porque você é gente, porque você se tornou meditativo, simplesmente por isso. Por que eu me tornei meditativo? Porque eu me tornei meditativo. Pronto. No zen dizem porque meditamos: porque meditamos. Não é para que. Essa é a resposta. Essa pseudo inteligência que quer sempre ganhar algo é o caminho oposto, é estupidez. Você faz e pronto, porque você quer, porque você gosta, porque você é, e pronto. No zen não se procura vantagem, não procura provocar algo, é o contrário. Você falou de zen, então eu digo isso, no zen é o contrário, você aquieta. Tem um cara que chamam mestre, não é porque ele é o sábio, é como a brincadeira de "o mestre mandou", tem o mestre para você não precise se preguntar por que, você obedece e pronto. Hora de levantar, hora de trabalhar, hora de comer, hora de sentar [zazen], hora de andar, hora de deitar, hora de começar tudo de novo...

Perguntaram a um mestre zen porque ele andava de uma lado para o outro [praticando a meditação andando] se já era iluminado, ele disse, "porque já sou iluminado". A pessoa surpresa e sem entender perguntou porque ele andava assim antes, ele disse "porque eu não era iluminado". Entende?

Então, essa é uma razão para praticar. 

Mas se você é agnóstico, ateu ou cético você precisa praticar para ver isso, para ter uma experiência pessoal convincente e uma compreensão da realidade tal qual é ou expandir sua visão, seu meio de investigação. Não se trata de zen ou de budismo, se trata da verdade, você precisa de ajuda, para vê-la. Alguns irmãos aqui, muitos, eram assim e entraram na ordem para isso, para descobrir isso, uns pela fé, uns pelo observação empírica, outros pela lógica ou por tudo isso somado, que é o certo, eles mudaram de ideia. Uma razão é para ver isso, que ensina a escola.

Veja que Buda não ensinou isso diretamente, mas se juntar algumas partes do que ele disse sobre isso, você tem esse resultado. Ações que fez têm um significado nisso. Seria muito longo e complexo mostrar isso aqui e agora, que envolve vários textos, e ainda mais não seria suficiente. 

Não ser suficiente entender o que está escrito é outra razão. Para muitos é assim. 

Você precisa apreciar por si mesmo. Aí você pode argumentar que Buda não explicou, mas alguns patriarcas e autores zen, e até de outras escolas explicou isso muito bem e que você já entendeu e já está satisfeito. Não está. Lá no fundo, numa madrugada escura ou no meio da depressão ou das notícias ruins do mundo vai surgir uma dúvida, dependendo do seu estado de consciência você não vai satisfazer aquela dúvida, ela existe. Então isto é outra razão, para que não reste dúvida, porque a dúvida é um obstáculo. E vocês aqui sabem que com dúvida não se vai longe, não se dá um passo significante.

Você pode dizer que está bem na sua religião sem interferência do método de outra ou que se contenta com a sua fé e que ela é suficiente. Isto é bom, mas depende da fé em que. A fé é bom, e suficiente, mas só se ela estiver na coisa certa. Se ela estiver errada? De nada serve, é lixo, enganação. Se, digamos, coincidentemente, aquilo que você tem fé é verdadeiro você acertou o grande prêmio. Mas se você colocou ela em coisa errada, de que adianta? Você está perdido. Suponha que você depositou a fé num totem de pedra e seus amuletos e talismãs sua vida toda, você teria perdido uma vida numa mentira. O que ganhou com isso? Que experiência? Lamentável. Então para eliminar essa dúvida essa prática também é recomendada, é útil. Não é duvidar da sua fé, mas imagine algumas fés erradas que existem e logo você vai entender, é uma coisa prática, não é filosófico-dogmático, você vai se dirigir para uma certa coisa, não para os objetos de sua fé, a princípio é outra coisa e no final só é que você vai constatar que é igual. A procura do verdadeiro.

Ainda eu poderia falar dos outros usos na ordem, um ´por um. Mas vocês devem saber. O primeiro é a questão do estar consciente, você foca no espírito, na consciência, sua mente se liga à realidade das coisas, a realidade é espiritual, não é material. Do contrário você estaria ligando a mente às impressões mais fortes, a materialidade e qual o resultado disso? Você sabe o que acontece com a matéria. 

O segundo motivo é que é uma psicologia. As outras escolas, inclusive de budismo, acreditam que você vai limpando o espelho até ele ficar limpo e depois ele está limpo para sempre. Mas isso não acontece, você precisa estar vigilante o tempo todo e não deixar a poeira assentar no espelho de novo, ou seja, as impurezas mentais, mesmo quando arrancadas totalmente, elas voltam, pois o espelho sempre reflete a imagem, e o espelho está no mundo agora, e no mundo tem poeira, e se você permitir tudo volta novamente, então é um treino, vigilância e limpar o espelho. Você precisa tomar banho todos os dias. É simples. Você precisa limpar a mente todos os dias. Isso é um auxílio, um processo intencional e racional, que vai colaborar com o trabalho espiritual na ordem, e em qualquer religião verdadeira inclusive. Veja que não estou nem falando do produto final, só do processo.

E por último, o mais mundano de tudo, é uma terapia. Aí entramos em longos detalhes e inúmeras aplicações que não cabe aqui, mas para cada pessoa um caso. A pessoas estão doentes, a humanidade está doente, e não é agora, é sempre, isso é um desvio de Nirvana, as pessoas poderiam estar numa vida de harmonia e conhecimento, mas estão num mundo de caos e ignorância que tem pouca sabedoria. Cobiça, aversão e ignorância são a causa desse estado de coisas, de mundo, de seres. Em última análise a terapia vai curar essa doenças, esse desvio. Mas ela começa com passos que vão curar os derivados desse trio maléfico aqui agora. 

Isto é bom para a vida, a convivência, a compreensão, a liberdade, o trabalho bem feito, a família equilibrada, a saúde, a paz, e o desenvolvimento de seus potenciais. Você não precisa se apegar a isso, pois isso não é tudo, é só uma pequena coisa, uma pequena parte, um barquinho, uma ferramenta, mas se toma isso como religião, o barquinho, você estará errado, é uma terapia, uma ajuda para a cura.

Então você tem que estar um tempinho do dia numa tarefa atento, olhando a consciência, como tudo estando e sendo fenômeno na consciência, estar ciente disso, lembrado, e observando tudo, vigilante, ao que acontece na mente, vendo os fenômenos na mente. Isso é só um início, um treino, mas que tem que funcionar desde a primeira vez, não é para o futuro. Em muitas escolas é para o futuro, mas para a nossa é agora. Isso então é duas coisas: instantâneo e gradual (as duas escolas zen se dividiram e cada uma ficou com só uma metade, sem entender o zen, sem o zen). Por isso eu sou zen e por isso eu não sou zen. [Zen porque ficou com tudo inteiro, não-zen porque o que se chama zen ficou só com metade].

Muitos aqui sabem como ensino a meditar andando, e sabem que existe o zazen, sentado. Sentar é apenas para aquietar o corpo, o corpo é o balde, a mente é a água. Mas você não é nem o balde nem a água, então porque se preocupar com isso? Bem, essa era uma questão inicial da escola da não-mente. Nós falamos apenas de costume, não vamos entrar aqui nessa questão. Mas se você só meditar sentado vai demorar, porque você ainda está se identificando com a mente, você é o que olha para o fundo do balde através da água, não é o balde, nem é a água. É claro que vai precisar aquietar um pouco para ver o fundo do balde no início, mas depois que você já o viu, já o conhece, para que vai ficar olhando para o fundo do balde? Não tem nada aí! Você já viu o fundo, os lados e já viu a uma refletida na água. Mas você já viu seu próprio rosto? Você já viu todo o resto que o balde com água pode refletir se você sai andando? Então meditar andando é um treino para a vida. Você precisa olhar para fora do balde, para si mesmo, para o universo todo que existe agora e antes e depois, descobrir as leis, descobrir o desconhecido. Então se desapegue desse balde com água pelo amor de Deus!

Foi isso que Buda ensinou na minha concepção. 

Ele ensinou a olhar para fora, fora do seu ponto de vista habitual, de balde ou de água, de um novo ponto de vista, solto, livre, do ponto de vista do espelho que pode refletir o infinito, infinitamente, do ponto de vista da consciência infinita. O zen está dizendo que Buda ensinou a olhar para dentro, mas não é só isso, isso é uma ínfima parte. O zen está dizendo como Hermes, que tudo que tem fora está também dentro, mas vai demorar muito de você só olhar para esse lado, se desapegue dos lados, do sujeito-objeto, você acredita mesmo que vai sustentar isso vidas e vidas? Por isso o zen verdadeiro ensina uma iluminação para já, não é esperar um satori no futuro. Na verdade não existe dentro e fora. Tudo é consciência, tudo é na consciência, olhe para você ver se não é, aí me diga. Isso é iluminação.

Muito depois você vai ver que isso são mensagens, esses reflexos, aí tem coisa do agora futuro também, que tudo tem um significado, mas agora não, agora isso é tudo e por muito tempo você só precisa disso e de estar voltando ao seu professor e trocando experiências, ele vai orientar o que for preciso. São dessas maneiras que esse ensinamento ajuda, não há que convencer, a pessoas vai se quiser quando estiver conhecendo. O convencimento não é algo que devamos tentar com isso e a vantagem é: pare de procurar vantagens, vantagens são tolices, não existem vantagens. Assista. Aquiete.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A Prática Incessante

Gyoji, a prática incessante

Seshin de Rohatsu de 1986

por Ryotan Tokuda

"Os rostos originais dos Buddhas e Patriarcas não podem ser vistos. O rosto original, ossos e medula dos Buddhas e Patriarcas também, como também não parecem ir ou vir. Devemos examinar a prática incessante de um só dia. Portanto, cada dia é precioso. Se vivermos em vão durante 1.000 anos, acabamos nos aborrecendo com os meses e os anos. Isto é um tris-te desperdício de tempo. Mesmo 1.000 anos de escravidão dos sentidos são redimidos por um só dia de prática incessante. Uma vida corporal de um só dia é a possessão mais valiosa de todas. Portanto, se vivermos somente um dia e possuirmos a função de todos os Buddhas, um dia é mais útil que reencarnar durante incontáveis vidas. Por isto, se o problema da vida e morte não foi decisivamente resolvido, não devemos desperdiçar um só dia sequer. Um só dia é um grande tesouro a ser altamente cotado, é melhor, muito melhor que um pe-daço de jade ou as jóias de um dragão. Sábios do passado contavam um só dia mais que seus próprios corpos e mentes. Devemos refletir calmamente sobre isto. E descobrimos algo de mais precioso que a jóia que concede todos os desejos ou riquezas. Mesmo um só dia em uma vida de cem anos não pode ser devolvido ou tomado de volta. Existirá algo que possamos fazer, alguma ação, algum método para que o recuperemos? Tal não existe. Se desperdiçamos tempo, somos enredados como a pele enreda o corpo. Santos e sábios davam mais valor a cada dia e a cada mês que às suas próprias vida e ao seu país. Se o tempo for desperdiçado, seremos cativados pelo status e pela fortuna do mundo impermanente. Se evitarmos, viveremos no Caminho. Se tivermos determinação, não passaremos um só dia inutilmente. Pratiquemos e proclamemos o Caminho! Portanto, tenha em mente que os Buddhas e Patriarcas não gastam um dia sequer em prática inútil. Durante os dias tranqüilos de primavera, sentemos perto de uma janela cheia de luz e reflitamos sobre tal. Em noites de outono, de chuva fina, fiquemos em um choupana simples de floresta e nos concentremos na prática. Sentimos falta de tais tesouros porque não temos a prática. Como pode a virtude da prática ser tempo roubado? Nada nos é roubado. A virtude de muitos kalpas é roubada? O que causa o conflito entre o tempo e nós mesmos? O ressentimento, porque a nossa prática é insuficiente. Não devemos nos permitir sermos condescendentes demais conosco mesmos. Isto causa auto-ressentimento. Os Buddhas e Patriarcas também têm ligações de gratidão e de amor. Eles, contudo, as abandonam. Eles têm muitos relacionamentos, mas os abandonam. Mesmo que lamentemos, não podemos nos aborrecer com nossas relações com os outros. Se não cortarmos os liames de gratidão e de amor, os laços de gratidão e de amor nos cortarão fora. Se temos apegos com a gratidão e com o amor, devemos assim proceder. Ter apegos nos mostra que devemos cortar tais coisas.

Esta é a continuação do capítulo do Sobogenzo , capítulo Gyoji, a prática incessante. Aqui, vamos passando rápido, ele está falando sobre a importância da prática. Como se estivesse dizendo: falar sobre Zen, depois de algumas leituras, uma pessoa inteligente consegue falar, por isto existem vários tipos de Zen. O "Zen de salão" para os ocidentais. Às vezes leram alguns livros sobre o assunto e gostaram muito. Parece piada, né? Koans, etc., estas coisas são impressionantes! Fica-se impressionado e narra-se estas coisas num salão qualquer de sociedade. Com as damas, tomando café, tomando chá, batendo papo, e aí falando sobre Zen. "Isto é Zen!" Parece muito bonito, mas o fato é que nada tem a ver com ele. Por isto, às vezes precisamos em vez de boca, falar com o corpo. A boca pode mentir. Mas o que corpo está fazendo é que esclarece as coisas completamente, ao invés da fala. Então, pratiquemos quietos, mas sem cessar. O praticante Zen falante, principalmente durante o sesshin, guarda o silêncio com aquela cara... Mas se começa a falar muito, então prejudica não somente a si mas aos outros também. Depois do seshin pode-se falar, ao terminar o retiro. Assim é o Mosteiro Zen e a prática com os colegas. Depois, aqui no texto, fala-se sobre o tempo, sobre a impermanência; nós os sentimos muito pouco em muito poucas ocasiões. Quando há jovens, eles não entendem o sofrimento dos mais velhos. Quando se tem saúde, não se entende o sofrimento dos doentes. Quando tem-se força, saúde e beleza, tem-se orgulho e vaidade e não se entende o sentimento de outras pessoas. Mas estas coisas todas não dependem de si mesmo. Apenas acontecem, mas isto não é algo que dure para sempre. Logo depois... até ontem era um rapaz moço, mas hoje já está de barba branca. Isto nunca mais se pode ter de volta. Todos sabem disso. Mas sentir na alma, poucos podem.

Mestre Dogen coloca os quatro tipos de cavalos: 1) O que vendo a sombra do chicote, já começa a cavalgar; 2) O que o chicote tem que tocar a pele; 3) O outro cavalo, o chicote tem que cortar até a carne; 4) O último, o chicote tem que cortar a carne e chegar até o osso, senão, ele não sente. Isto significa que quando a pessoa encontra a morte num jornal todos os dias, é um problema dos outros. Mas se encontrar a morte de alguém mais próximo, lamenta-se: "Ele era jovem, não deveria ainda ter morrido." Depois, quando é um parente, pessoas mais íntimas, sente-se, sente-se muito e se chora. Mas depois de algum tempo, se esquece novamente. Agora , ele é aquele cavalo que só sente quando o chicote corta a carne ou o osso quando chega o seu momento. Tem que morrer amanhã. Não adianta. E assim temos os quatro tipos de cavalos.

Neste caso, o Buddha Gautama era uma pessoa muito sensível. Apesar de ser um príncipe, estava passando na cidade e vendo tudo. O Rei, seu pai, preocupado, lhe falou: "Vá passear para se divertir." E passeando, ele encontrou um velho. "Quem é este?" Um camarada respondeu: "É um velho!" Com as costas curvadas, não conseguia andar, era um velho. "O que é velho?" "Ah, todo mundo fica velho com a idade, ninguém disto escapa." "E eu também vou ficar assim?" "Pois é claro que sim! Aqueles que são nascidos, envelhecem." "Ahhh!" Sentido, ele voltou ao palácio. No dia seguinte, passeando por um outro lado, se deparou com um doente sendo carregado, suportando dores, e perguntou novamente: "O que vem a ser?". "Isto é um doente". " O que é um doente?". "Enquanto temos físico, ficamos doentes". "Então eu também vou ficar assim?". "É claro! Como todo mundo". Isto é muito simbólico, mas ele, perfeito, com saúde, jovem, viu a doença e o envelhecimento dentro de sua juventude. Encontrando com mortos sendo conduzidos ao cemitério: "O que é isto?" "Isto é a morte." "O que é a morte?". "O que é a morte? Todo mundo morre, nasce e morre." . "Eu também?". "Claro, todo mundo morre". E a quarta vez, saindo do castelo, encontrou-se com um monge, andando tranqüilamente. "Quem é este?". "Este é um monge". "Ah, talvez este seja o meu caminho". E assim o jovem príncipe estava traçando a direção de sua vida. Abandonar, renunciar. Até um dia sair do castelo. Este relacionamento amoroso, pessoal mais forte, pai e mãe, esposa, filho,etc., é uma coisa bonita, mas ao mesmo tempo agarra e amarra. Existem leigos que vivem sozinhos, solteiros.

Hoje em dia monges também podem casar. Mas antigamente, realmente se dedicando ao Caminho, todos pelo menos uma vez cortavam todas as relações. Este tipo de coisa é muito difícil. Existem koans para isto: " o dedinho mindinho". O dedinho está amarrado com uma linha de costura, uma linha vermelha. Porque é que não se pode cortar a linha? O koan é este. "Porque não se pode cortar uma linha vermelha?" Puxando um pouco se pode romper esta linha. Aqui existe um relacionamento com as pessoas. Cortar requer força. Mas havendo sentimento, desligar-se é difícil. É realmente difícil. Mas o mundo é assim. Na vida de monges, se renuncia. Abandona-se. Neste momento é a própria força ou a força dos outros. Um fio vermelho significa a relação com a família, a mulher; é real-mente difícil cortar. Mas o tempo que é tão precioso é uma coisa do mundo, mundana... Por isto, uma vez despertado surgirá esta necessidade. E quando sentir, aí surgirá o impulso de tudo largar. O trabalho, suas tarefas e funções; mas a barreira é sempre este relacionamento mais íntimo... Esta questão é mais para monges... Hoje em dia, os monges casam, mas eu digo que o casamento de um monge não é um casamento qualquer. Claro, todo mundo é assim, principalmente monges, não é uma questão de casar por acaso. Tendo-se uma certa idade, aí se deseja casar. Por que casar? Porque ficar sozinho é muito chato. Fica-se solitário. Ou talvez para alguns seja uma questão de confiança dada à sociedade. Isto é a resposta, o casamento. Mas não, aqui se trata de um amor mais profundo. Depois disto, existe alguém mais além, e isto não é por acaso. Aqui são poucos os monges, mas despertando, assustam-se com alguma coisa mais profunda, talvez a impermanência. Quando se está realmente com este sentimento, uma energia enorme leva-nos em frente.

De certa maneira, as pessoas se tornam enfim escravas dos cinco sentidos. Comida boa, escutar música, ver coisas bonitas, ler livros preciosos, arte, teatro. Mas o que acontece é que o tempo passa tão rápido que assusta. Se morrer aos setenta, oitenta anos, até que tudo bem, mas às vezes morremos tão jovens, até os bebês podem morrer. Neste momento nós realmente reagimos: "O que é isto?". O monge Ikkyu, muito cínico, andava com um crânio na ponta do bastão de peregrinação durante o Ano Novo. O ano Novo no Japão é como o Natal aqui. Aqui todo mundo fala "Feliz Natal"; ou então, "Feliz Ano Novo". Mas porque razão "feliz"? Completando o ano, a morte está chegando mais perto. "Ah, não fale isto sobre o Ano Novo! Ano Novo é uma coisa boa, você está falando em morte? Por favor, fale uma coisa alegre, mais agradável." Então ele disse: "Primeiro morre o avô, em seguida morre o pai e em terceiro lugar morre o filho." "Ah, morre todo mundo?" . "Sim, mas morrendo nesta ordem, avô, pai e filho, está muito bom. Se o filho morrer primeiro do que o pai ou o avô, isto seria uma tristeza". Por isto, os monges para sentirem a impermanência, faziam certos tipos de meditações no cemitério, vendo cadáveres; quando vinham desejos sexuais, iam lá e olhavam. Viam os corpos e os cadáveres.

Na Índia jogavam-se os cadáveres no cemitério, não enterravam, não faziam cremação. Aquela moça bonita morreu, ela ainda pode despertar desejo, mas logo depois, um dia, quando está quente, não leva nem 24 horas, começa a correr líquido, um sangue meio aguado, e começa a inchar e a mudar a cor, vermelho meio roxo, manchas; se morreu acidental-mente com água ou com fogo é mais terrível. Como eu sou monge, já encontrei vários tipos de mortes. Fui várias vezes ao Instituto Médico Legal. É uma coisa terrível. Os corpos ficam nas gavetas, na geladeira. Totalmente nus. E geralmente todo mundo está cortado de cima abaixo e mal costurado. Todos iremos para lá. Não importa se ricos ou pobres. Nem se é inteligente, não importa, tem que passar por lá, tirar todo a roupa e so-mente uma etiqueta no peito. Este corpo cheira, cheira, e passa lá um dia, três dias, uma semana... com mau cheiro. Comendo depois peixe assado, grelhado, a carne não entra mais na boca. É o mesmo cheiro, nós nos lembramos. A carne, coisas inchando e começando a abrir, com bichos; começam a vir moscas, aparece o osso, um cachorro vem e leva um pedaço. Daqui a pouco vem o vento e leva tudo. Neste momento, com o que você está apegado? Este é o outro lado da realidade. Aí vem aquele susto, a questão: "O que é a vida e o que é a morte?". "O que é o amor?". "O que é a eternidade?". "O que é o absoluto?". Estes tipos de perguntas, quando uma vez surgem, não passam mais. Se não resolvemos este sofrimento espiritual, não encontramos a paz. Mas raramente este tipo de questionamento acontece, porque neste mundo há tanta coisa bonita, tanta coisa boa, tanta coisa divertida.

Um viajante encontrou com bichos, uma onça, um tigre, leões, panteras; aí fugiu para dentro de um poço que ele por acaso descobriu. E se segurou ali dentro em um cipó; quando olhou para baixo, havia um outro bicho, uma serpente venenosa, esperando de boca aberta. Desesperado, segurava apenas a corda. E aí apareceram dois ratos, um branco e um preto, e começaram a comer o cipó. Quando acabaram de roer, ele caiu. E lá no fundo do poço encontrou uma flor aberta, que deixava cair néctar; aí ele recebeu o mel com a língua: "Ah, que doce!" E naquele momento o viajante esqueceu todos os perigos. O que é isto? Estes quatro bichos são os pontos cardeais, são os quatro sofrimentos: 1) a vida é sofrimento, 2) o envelhecimento é sofrimento, 3) a doença é um sofrimento, 4) e a morte é um sofrimento. E o cipó, ao qual ele estava agarrado, é o tempo; o dia é o rato branco e a noite é rato negro. Dia e noite. E os outros animais... A flor no poço o que é? A flor é a vida que dá as sensações para satisfazer os desejos: comida, música, estes tipos de desejos de bens materiais, sexo, etc, etc. Os jovens estão procurando alguma coisa, mas não sabem o que. Não sabem onde encontrar. Sexo, suspense. Com estas sensações instantâneas, estão esquecendo certas coisas e, inconscientemente, estão querendo fechar os olhos para outras. Então, cada vez mais estas outras coisas são mais fortes. Com isto eles querem esquecer a realidade. Mas quem despertou não pode esquecer. Naturalmente, sozinho ele começa a se afastar das pessoas e começa a meditar sozinho. Porque dentro dele aconteceu alguma coisa errada. Alguma coisa errada. Com o que realmente se pode contar? Começa a pensar: sobre seu pai, dinheiro, casa, carro, esposa, filho. Para certas pessoas a resposta é positiva: "eu tenho dinheiro, eu tenho casa, eu tenho pai." Mas para alguém mais esclarecido, realmente com que se pode contar? Nem a nós mesmos podemos conduzir livremente. Tudo despende uma força enorme. A isto se chama impermanência. Nós batemos o han, o han é um tambor de madeira, não sei se vocês notaram, primeiro bate-se sete vezes com o mesmo distanciamento entre cada batida, depois carreira rápida, depois bate-se cinco vezes, depois carreira, depois três vezes mais. E assim o nosso tempo é cada vez menor: 7,5,3,1,0. Zero. Zero! Quando é zero é a hora do adeus. Aí se vai embora. Falando desta maneira, as pessoas podem pensar: "O Budismo é tão pessimista! Por isso que eu não gosto. Tem cheiro de morte". Mas não é. Para realmente vivermos neste mundo, pelo menos uma vez ou outra, ou em alguma ocasião, é bom pensar um pouco. Pensamos que temos muito tempo pela frente. Não! Metade já se foi, passou. 2/3 já se passaram. Dentro da história japonesa, dentro da literatura, há uma palavra, goavai, que significa: as coisas lamentáveis deste mundo. Sentindo a impermanência, mais lamentável ainda. É um sentimento. Mas esta filosofia quando chega a ser mais profunda, através dos monges Zen, fica ainda mais acentuada. Como eu expressei, vendo as coisas que vi no limite deste mundo, até onde se pode gozar?

Ainda temos um pouco de tempo. Têm perguntas, sobre este assunto?... É por isto, dentro da história do Zen, que os monges abandonam suas famílias. Isto é perigoso. Este pensamento e esta filosofia, são muito perigosas hoje em dia, para os jovens principalmente, que tão facilmente se separam. Antigamente, o Sexto Patriarca cuidava de sua mãe com muito amor e ainda assim abandonou tudo. Difícil de abandonar e abandonou. É isto. Não é como hoje, que as pessoas estão tão pouco ligadas, tão irresponsáveis. Não é neste sentido. Por isto, se for uma pessoa qualquer, então não deve brincar, "ah, eu agora sou monge!". "E agora novamente vou voltar a ser leigo!". "Ah, não deu certo, então eu sou monge novamente". É desta forma que as pessoas estão brincando, quando na verdade isto é uma coisa muito séria. Por isto até agora, os grandes mestres são realmente heróis. Cortaram aquilo que não podia ser cortado. Por isto naturalmente, o treinamento deles dentro do mosteiro é diferente dos demais monges. Porque cobram de si mesmos e dos outros também as situações e as mudanças bruscas. Tem que ser sério mesmo. É assim a teoria que diz que nós devemos dedicar 99% ao treinamento; agora cortando, depois renunciando ao mundo. Amor todo mundo tem, mas este amor é limitado, apenas à sua esposa, apenas ao seu próprio filho; se o filho brigar com o filho do vizinho, em seguida começa a briga dos pais. Falam muito também, especialmente os militares, em amor à pátria, e o que é o amor à pátria? Amar a sua pátria... então começa a guerra, e gritando no campo de batalha, os filhos se vão. Vejam o resultado da Argentina: a guerra das Malvinas. É o amor limitado a si mesmo ou aos vizinhos, pátrias, estados; mas o verdadeiro amor é muito mais, uma coisa universal. Os monges, cortando estes amores particulares, penetram no amor universal ou fraternidade, uma coisa maior, e vivem neste mundo mais amplo. Esta é a missão dos monges. Não é apenas fugir da responsabilidade deste mundo. Vem agora uma outra espécie de responsabilidade de não acabar com este treinamento, a prática incessante de todos os Buddhas e Patriarcas que chegou até nós. Neste caso, isto se chama grande compaixão, já não é mais amor. É grande compaixão. É em cima disto que monges vivem. Se os monges não a tiverem, apenas quiserem ganhar uma iluminação particular, sabedoria, não terão verdadeira compaixão. No fundo, no fundo, há que se ter esta grande compaixão. Neste caso, ela não tem limites de espaço, ocidente ou oriente, sul ou norte, um país ou outro país. Não tem esta diferença de país, distância, de espaço e não tem limite de tempo, passado, presente e futuro. Aquele amor de Jesus Cristo, até agora vive. Quantas pessoas foram salvas com isto? Buddha, Confúcio, Sócrates, estas grandes figuras da humanidade, apareceram, sacrificando as suas vidas particulares e se ofereceram a todos os seres e, com isto, estão numa outra dimensão, num outro nível de pensamento, ajudando fora das coisas do mundo, em outro mundo sagrado. Este é o mundo do Dharma, como nós o chamamos; neste caso, a grande compaixão sem limites cobre tudo, todos os seres humanos, todos os seres viventes, inclusive as plantas. Esta é a filosofia fundamental budista, por isto este trabalho ecológico, com o meio ambiente, voltado para a natureza, no fundo está baseado nesta filosofia; não somente seres humanos, mas o amor, a compaixão, alcança até os bichinhos, até as plantas. Não matar, mas dar a vida pelas coisas, até as coisas materiais, insensíveis, até os bens materiais. Até isto: dar a vida até por estes objetos. Se maltratar, isto quebra, precisa então consertar. Mas se tratar bem, este relógio funciona por anos e anos sem quebrar. Então está se dando a vida, para o gravador, para o cobertor, colchões, esteiras, tapetes, etc, tudo. Não matar, significa dar a vida para as coisas. Então, deste jeito, mudam-se todos os conceitos e muito mais além ainda, mais além. Então, este amor sem limites cobre tudo, passado, presente e futuro e o espaço também, e ainda é incansável. Incansável, significa que es-tamos querendo ajudar e salvar, mas não querem aceitar, porque estão bêbados e estão adormecidos. Queremos ajudar, mas não aceitam, porque estão apegados às coisas do mundo, não escutam, não reconhecem. Não desanime, não pare, vá, vá, mesmo com muito sacrifício e muitas dores, mas não canse, vá, constantemente. As pessoas não têm natureza de Buda? Como salvar este tipo de gente? Não quero abandonar ninguém. Todo mundo tem que ser salvo. É a filosofia do Bodhisattva. Esta filosofia do Bodhisattva é incansável. Corajosa. A qualquer tipo de dificuldade pode-se fazer frente. Sozinho. Esta é a dignidade dos monges. Se não a tiver, é melhor voltar para casa. Morar com sua família, lar, aquela comida quentinha, música, aquele sorriso bonito, é bom. Depois daquela grande negação, vem esta grande aceitação, a constatação de que o mundo é todo maravilhoso. Tudo é maravilhoso. Depois de passar por isto, nós sentimos claramente. Senão, com pouco treinamento, brigando sempre, vamos nos separar. Deixemos de brincar com estas coisas agora. O Shobogenzo, a prática incessante, é para isto, não é para saber de nada mais. Zen, aqueles koans interessantes, isto não é Zen de salão, tomando chá, não, é algo que parece estar abrindo a sua barriga, saindo dos intestinos e andando, arrastando-se a dor. Senão é melhor ficar parado e viver neste mundo. Tomar banho, ir para o cinema.

Temos um pouco mais de tempo. Têm perguntas? Não sei se entenderam, perguntem para não haver mal entendidos nesta parte de renúncia ao mundo. Por favor, as senhoras aqui ficam muito preocupadas, não é isto. O Budismo Mahayana é muito amplo com a compreensão de suas famílias. Podem seguir o Caminho, não necessariamente sozinhos. O caminho é muito amplo, muito amplo, pode-se ir com 2, com 3, com um grupo, todos juntos. Mas algumas pessoas, realmente poucas, levaram aquele susto... estes homens não tem jeito, despertam. Se não houver perguntas sobre este assunto muito sério... Desculpe, mas temos que encarar esta seriedade, porque está no texto.





https://www.sotozencuritiba.org/Gyoji.php




quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Apresentação do ciclo de palestras do retiro longo

Do livro, sendo transcrito, PALESTRAS DE UM MESTRE ZEN NÃO-ZEN E NÃO MESTRE
Por Ryokan Hiroshi

Apresentação

Amigos, irmãos, frati. Eu estou aqui nesse círculo de palestras e retiro longo da ordem para falar sobre vários temas relacionados a dhyana. Primeiro é sobre o próprio dhyana, dhyana escola, dhyana processo, e dhyana estado. Como na visão da nossa escola. Então falar de duas ordens que agora se interpenetram, especialmente nessa ocasião, e parte dos estudos, a ordem dhyana e a ordem O.I.T.O. aqui diante dessa fraternidade. Então, segundo sobre a ordem e a fraternidade que quase todos vocês aqui estando fazem parte.

Terceiro, também sobre a influência da que se chama matriz, nesse caso especificamente a matriz cultural, seus obstáculos, seus não-obstáculos, suas facilidades e dificuldades e um pouco como aproveitar bem isso. Também sobre os princípios e fundamentos disso, do que é o mundo no que coincide a visão da escola dhyana com a visão da escola da ordem O.I.T.O.. Do que é o mundo e sua origem e seu final e sua finalidade, então qual a relevância disso para os outros que são cristãos, gnósticos, hermetistas, kabalistas, taoistas e yogues, rosacruzes, não só budistas. 

Situando o ensinamento 

A ordem 8 costuma agora apresentar quatro ou cinco pontos de vista religiosos autênticos, mas eu, e recomendo isso, costumo apresentar nesses sete, porque você não pode dizer que o gnóstico-cristão, o cristão e o gnóstico sejam uma visão, são diferentes, e em cada um [desses tipos] as várias subdivisões também diferentes; também você não pode enquadrar todos os kabalistas como somente herméticos, somente, cristãos, somente gnósticos...

O que torna essas vias iguais não é também a visão, mas sim o objeto visado. Embora cada uma tenha uma visão desse mesmo objeto e é o mesmo objeto, queiram ver os teóricos perdidos no espaço, na subjetividade do ponto de vista humano, histórico, cultural, queiram ver ou não, nada altera. O objeto visado é:
1. A verdade
2. O incondicionado
3. O eterno

Cada linha de pensamento tem uma ideia e um nome de como seja isso: Deus para os cristãos, o Uno para os gnósticos, o Um para os hermetistas (ou Nous), Ein soph para os kabalistas, o Tao dos taoísatas, o Eu para os yogues, o Dharmakaya para os budistas (por isso eu e alguns dividimos em sete grandes religiões "da ordem"). 

Para todos esses o objeto tem esses três elementos, é [1]verdadeiro, é certeza, é verdade, não existe sombra, nenhuma ilusão, nenhum engano nele, então para nós é onisciente. Outros discutem teorias, como se a perfeição pudesse incluir inconsciência, acaso, não intencionalidade, ser levado a; pelo que apresentam as pessoas ficam iludidas e não veem o que não apresentam, essas lacunas, esses absurdos. 

É [2] incondicionado, não depende de nada, ele mesmo é o princípio de tudo, não é fruto de nada, não é composto, não é surgido, e para nós [da escola dhyana e da ordem O.I.T.O.], só é condicionado a si mesmo, portanto é algo em si, um eu verdadeiro, substancial, imutável e sendo imutável é [3] eterno. É eterno no tempo e antes do tempo e se houver um depois do tempo e no atemporal, estável, constante. Buda fala isso, tanto no cânone theravada como nos outros. Mas no theravada há controvérsia se o Nirvana é eu ou não-eu também. Para nós não há dúvida porque para a escola dhyana é absurdo que Nirvana seja igual à ilusão, igual ao mundo, ou seja, não-eu.

No ensinamento do Buda como é Nirvana?

Portanto budisticamente falando é "substancial", real, eu; é imutável, e é satisfatório, ou seja, o contrário das três características da existência, bem parecido com o que propõe a escola jonang, e a yogachara e a cittamatra (que pensam que é a mesma escola essas duas). 

É Nirvana, Nirvana só pode ser o oposto do que é a existência condicionada, pois é incondicionado, tudo que vemos é insatisfatório, Nirvana e completamente satisfatório, tudo que vemos é mutável e transitório, Nirvana é eterno, até aí Buda disse com certeza, mas também tudo que vemos é insubstancial, não-eu, e Nirvana é verdadeiro e verdadeiro eu. Só algumas escolas falam que Buda disse isso, outras que só os tantras, ou a forma espiritual de Buda, ou só nas entrelinhas porque não pode ser dito. Não sei.  Fato registrado para todas as escolas é que Buda disse que a obsessão pela ideia de não-eu é tão errada quanto a da ideia de eu e conduz ao pior tormento, a vida no mundo sem forma, do qual é muito difícil sair. Você quer ir para o mundo sem forma? Então quem está meditando para atingir o não-eu tenha cuidado, pare, estará se condenando se continuar.

Por isso o zen fala de eu verdadeiro de achar o nosso verdadeiro eu, porque ele vem de nossa escola dhyana, nós dizemos isso. Dhyana é estar no nosso verdadeiro eu, estar no espírito, uno com Nirvana. Entenda que não existe dualidade na realidade última, então não existe dualidade entre Nirvana e dharmakaya, é uma coisa só, essa é a visão da escola dhyana que é a visão filosófica consciência apenas (cittamatra). 

Veja, consciência apenas, não inconsciente apenas. Essa consciência é onisciente e tudo que podemos ser e fazer é ver que somos parte dela, unos com ela, ela é incompreensível para nós assim como o Ein ou Ain dos kabalistas, como o Tao, como Deus. Não é como os tântricos dizem, não! Primeiro eles vão se tornar super poderosos, primeira ilusão, segundo eles vão se tornar Budas, segunda ilusão e terceiro eles vão diluir e desaparecer no dharmakaya se tornar o próprio dharamakaya, terceira ilusão (O dharmakaya já está completo e perfeito, já tem todos nós que buscamos a verdade, nós precisamos aprender [a] ver isso em vez de estar discutindo o que Buda disse). Você se identificar com uma coisa é se ligar a ela não se transformar nela, muitos no mundo estariam transformados em carros... ou cargos... [ri da piada e do trocadilho] 

Nós somos budas é agora, não é amanhã, nunca é amanhã, só precisamos ver isso. Mas não quer dizer um Buda Shakyamuni, quer dizer um buda, o buda você mesmo. Nós somos budas e nós não somos budas, simultaneamente. Na ilusão não somos, mas é só ilusão, na realidade, e só é de fato a realidade, já somos. É o paradigma da simultaneidade proposto aqui pela ordem nossa, de vocês, sim. Mas não estou dizendo como os vajrayanas que todos já somos ou inevitavelmente seremos. Não. Quem disse isso? Muitos perdidos na roda do samsara, muitos no inferno, muitos rodando... não sei para onde vão. Eu sei para onde vai quem busca uma direção, ele vai nessa direção. A personalidade morre, nosso negócio é agora.

Essa é a ideia de nossa escola e veja porque se encaixa bem com a ideia da  escola [da ordem]. Existem teses, inclusive de pessoas aqui presentes sobre isso. Agora vejamos isso na visão geral da ordem... Será nossa próxima aula?

quarta-feira, 6 de junho de 2018

UM DISCURSO INSPIRADOR


De Ryokan Hiroshi


Um dos temas que fui mais chamado para apresentar foi sobre como conciliar a meditação no mundo conturbado de hoje. Eu recuso muitas vezes esse tema. Porque esse tema não existe, é totalmente falso, como se diz... falacioso.

Que mundo conturbado? Você tem tudo em suas mãos, você tem tempo. Você abre a torneira e sai água. A um século atrás não era tão fácil. Quando você lê a vida nos mosteiros, tinha que buscar água longe ou cavar um poço, se tivesse água ali. Cavalos, bois e carroças são lentos, hoje tem carro, ônibus, bicicleta, avião. Pense nas cidades na idade média, a dificuldade de se ter os nutrientes. Pense na ilha [(Japão)] depois da bomba. Ou antes também, tudo dependia do mar, dos peixes, das baleias, pouco nutriente na agricultura. Pense na China ou Vietnã quando quase tudo era apenas plantação de arroz, e os quilômetros de caminhada atravessando aqueles charcos para ouvir um monge, muitas vezes ignorante, mas era um tesouro raro, hoje você a internet, tudo na mão. 

Reflita sobre isso cada vez que lavar as mãos. Como isso foi difícil por milênios. Tudo era mais trabalhoso, levava muito mais tempo. Quando você lê a Torah, imagine aquelas pessoas ali no deserto, tinham que procurar um oásis, uma terra fértil, ter gado, não tinha caça, não tinha madeira, não tinha chuva! E tinha uma lei que mandava lavar as mãos antes das refeições. Sim precisava uma lei, porque era difícil, e imagine se todo mundo, que comia com a mão, não lavasse e um ficava doente, e lavava a mão ali na bacia, outro pegava, e outro. Hoje: torneira, detergente, álcool gel. O povo de hoje é muito mole, muito vítima, muito desejo.

Onde está o mundo conturbado? 

Onde está o mundo conturbado? Eu digo, na mente, a mente nunca está satisfeita, está sempre inventando problemas, sempre vendo problemas. Quando você pára e faz cinco minutos de "meditação andando" você vê que está em paz, que nenhum daqueles problemas que pensava ter está presente ali, naquele momento. Por isso entendo que as pessoas peçam que eu ensine a meditar no mundo conturbado. Por isso estou falando aqui tanto desse tema da cultura, pois vocês foram capturados por ela na teia, e colocaram a lente dela nos seus olhos, e convenceram que você está sendo injustiçado e que tem lutar para conseguir, lutar, lutar e lutar. E dhyana é o contrário disso. "Eu larguei o fardo"...

Quando Buda diz isso é no momento que descreve a iluminação. Mas você não quer entender a linguagem. Você só quer enquadrar nessa linguagem que você é condicionado. Quando Buda diz isso ele está dizendo que a primeira coisa que precisa fazer é largar o fardo. Se não não entra no caminho. Porque se não não entra em Nirvana. Quer entrar em Nirvana hoje mesmo? Largue o fardo! 

Isso é para ser feito agora, para entrar na iluminação, pisar o pé dentro do clarão.

"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé". Quando Paulo diz isso está no fim da caminhada. Mas de novo a linguagem. Entenda, foi aí que ele entendeu (?). Combati, passado, ele esteve combatendo o mal nele, não lutando com os outros, não lutando para obter seus direitos, seus bens, seu sucesso. Acabei a carreira, ele acabou para você, para que você veja, você tem que acabar a carreira hoje, não deixar para amanhã, porque se não o que você quer não faz, e faz aquilo que não quer, exatamente como Paulo no início, a luta boa só é uma, o bom combate, outros são maus, e o bom combate é o de dentro, da purificação (a palavra que incomoda). 

Guardei a fé. Largou o resto, largou o fardo, guardou a fé. A fé é tão importante, e mais importante, que qualquer pouquinho dela faz grandes coisas para a eternidade. No sutra do Lótus está escrito que se mesmo uma criança brincando de ter fé, despertar por um instante a fé em Buda ela atingirá a iluminação. O que é isso? É o poder da fé. É o que ela faz em você. O que desperta. Significa que se por um momento você quer a transcendência da ilusão, e você crê que existe, que há um desperto, eterno, um despertar, um não sofrer, um confiável e certo... um dia você o alcançará. Mas nem por isso negligencie o necessário, não estou dizendo isso. Mas que mundo conturbado depende totalmente de sua mentalidade isso é um fato. É você, a multidão de pensamentos, sentimentos e reações que criam o mundo conturbado que não existe.

Eu não ensino meditação

Primeiro que mundo conturbado de hoje não existe para você que vem até um professor e senta numa cadeira ou almofada no ar condicionado, que vem com seu carro ou de ônibus ou bicicleta, que lavou as mãos antes de comer, que mora numa casa e consome os nutrientes necessários pro seu dia (também nada garante, você pode ser rico e ter uma doença mortal, tem gente agora só esperando a morte, nesse momento...). Aqui você não está na Síria, no Paquistão, na faixa de Gaza, nem em nenhuma país árabe, nem em nenhum país destruído em guerra, nem sob proibições de onde ir, o que pensar, o que ler e o que aprender como já foi e ainda é em muitos lugares.

Segundo, que eu não ensino meditação. As pessoas estranham que no zen é tudo diferente do resto do budismo. Principalmente quando se conhece o budismo porque ainda tem a linguagem, os termos.

Enquanto outras escolas estão obcecadas com o não-eu o zen fala de verdadeiro eu, o zen fala de Deus, de auto conhecimento, de auto observação de si mesmo e ao mesmo tempo diz "que si mesmo?". O zen é cheio de paradoxos. Eu posso explicar um a um desses depois, mas o maior aparente paradoxo do zen é que não ensina meditação. Sim, tudo isso do zen está na sua origem, dhyana. O zen diz que meditar é pensar, refletir, e até se deixar inspirar por. Fomos nós que dissemos isso.

Dhyana não é pensar nem não pensar, nem parar de pensar, nem suspender o processo do pensamento. Dhyana é estar na posição certa. Que o zen foi muito inteligente em desenvolver isso mais um pouco criando a posição de zazen como símbolo, materialização, no corpo também de uma posição certa. Mas a posição certa principal é na mente. Você desloca do agente para o observador.
Você desloca o agente, mente, para o passivo, consciência.

Significa que você não se identifica com a mente mas com o espírito, a consciência que testemunha como dizem os upanishads. Entrar em dhyana, perdoem a expressão, não é a mente estar atenta observando a própria mente, deixe isso para os psicólogos ou ocultistas. Entrar em dhyana é estar consciente da mente, na consciência, consciente da consciência como diz o theravada, ou seja, da consciência e dos processos que acontecem nela como eles são, isto é, como processos da mente que se nos apresentam à nós, à consciência. Pare de viver na mente.

Quando você senta apenas se dedica um pouco mais a isso, você não senta para meditar, você senta para aquietar tudo, corpo e mente, e poder ver melhor. Não é um ritual religioso, é um procedimento científico, se é que se pode chamar... porque é um método de ficar ciente, de observar e ficar ciente da situação, do que é.

Praticando estar na consciência é tudo, toda a prática. Quando perguntaram a Buda o que os monges praticavam ele respondeu que comiam, cozinhavam, defecavam, sentavam ,levantavam. "Mas isso qualquer um faz!", exclamaram, "qual é a diferença?" A diferença é que ele está consciente que come quando está comendo, consciente que está cozinhando quando cozinha, consciente que está defecando...

Poslúdio

Não entendemos porque mudaram o ensinamento do Buda para outros. O ensinamento é esse. A nova posição de vida é ver que você é consciência, não mente, não corpo, não matéria. Você é espírito, como dizem aqui. O tempo todo. Permanecer assim. E o que é dhyana? São as várias gradações de permanecer nesse estado consciente, até a última que é Nirvana, onde você vê que tudo é consciência e está livre de todas as impurezas e obstáculos e sofrimento. Nisso difere nossa visão da zen.

Eu sei que vocês estão querendo ouvir a palavra satori, e o que ela significa, mas não é uma boa didática agora. Isso mistura idéias de outra escola. No zen há essa mistura. No dhyana não. satori é outra coisa para nós. Quando estiver falando dessas outras coisas falarei de satori.

Portanto, não force a mente a permanecer consciente, a mente tem que aquietar, deixe-a... Você já está consciente agora, tudo que tem que fazer é estar consciente disso, atento, consciente. consciente que está consciente, consciente da consciência, isto é, do que está acontecendo, seja qualquer coisa, como consciência, seja sensação, lembrança, pesamento, sentimento. Quando está assim já é igual a Buda. A diferença está nas gradações do alcance do conhecimento, é algo totalmente diferente, que a maioria não considera, e das sensações, e dos sentimentos. Isso é nosso próximo tema.

Não é bom dizer assim, nas eu já disse certo, aqui uma variação, para quem não entendeu a primeira forma de dizer que usei. As pessoas estão esperando ver outro mundo, diferente, bonito e colorido, acham que ver as coisas como elas são são é ver algo mais em suas próprias mentes... Não, é ver as coisas, essas coisas mesmo inclusive, se você não vê essas coisas como vai ver outro mundo? Não é ilusão, e é ilusão, se você não vê com a consciência é ilusão, é reprodução mental, com sabor, com gosto, com sentimento, tudo que não tem na coisa. Estão procurando outro mundo, mas essas são suas sensações, seu mundo, não tem como sair dele agora, descanse, não vá enlouquecer, isso é desejo por mais, acalme que já tem muito, "menos é mais". Precisa tirar. Essa agitação, é mental...

Mundo conturbado geralmente é a mesmo a desculpa "não tenho tempo". Meditar é a mesma desculpa "estou cansado". Agora essa desculpas não tem mais lugar. Agora não tem desculpa.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

DHYANA NA CULTURA JUDAICO-CRISTÃ - parte 2


Por Ryokan Hiroshi

[Esse não foi o título original, não houve título, foi apenas uma continuação da palestra anterior. Os títulos e subtítulos foram colocados por este editor e tradutor]

E na nossa cultura contemporânea?


A dificuldade de muitos é justamente o aqui agora, ou seja, o meio, o lugar, a contemporaneidade e a cultura. Olhe, você, a partir de agora, não tem que se preocupar com nada disso. Começou a libertação.

Na verdadeira cultura judaico-cristã, por exemplo, Jesus ensinou a mesma coisa. Então agora vemos que ninguém prestou muita atenção nisso. Jesus insistiu na vigilância constante, Paulo insistiu na importância disso. Não temos problema algum com o ensinamento de Jesus, que sendo desperto completamente deu o ensinamento para quem o aceite e então cumpra isso (não desconsiderando os outros aspectos de seu ensinamento, é claro). Não existe o obstáculo que estão vendo, qualquer cultura, qualquer atividade, qualquer estado de consciência humano normal, comum, pode cultivar atenção e consciência, e pode, cultivar dhyana.

Muita gente tem problemas por estar praticando errado ou ensinando errado ou ouviu alguém ensinando errado. Uma coisa centrada no "eu estou observando" ou pior "eu estou no controle", sem comentários, muito ruim, muito ruim. Muito relaxado também é problema. Evocando a consciência biológica também é ruim. Atiçando o ego, ou a si mesmo, isso é o instinto de sobrevivência, que vai causar aflição, ansiedade, tensão, se fosse assim poderiam fazer ativando a consciência com alguma droga ou cafeína ou chá por exemplo [(chá verde)]. Restringindo só ao aqui agora também é errado... Tem muito mais jeitos errados do que certos.

A influência da cultura, das opiniões e das tradições sobre a prática


A cultura de outros elementos completamente fora de qualquer religião, mas tidos como religião é que é um problema. Vou falar o tema da cultura aqui. Veja que no budismo é muito pior para se determinar o que é budismo e em que se fundamenta. Nós temos uma posição, mas existem muitas outras. No cristianismo existem dois lados bem distintos. Num temos a tradição como fundamento, assim, católicos, ortodoxos e a maioria das igrejas do oriente que no geral dizem que a religião é determinada pelo que diz a tradição, a igreja, seus representantes maiores; no outro lado temos conservadores, protestantes, batistas e evangélicos em geral que fundamentam a religião nas escrituras. Uns nem gostam da palavra religião, mas chamam de outras coisas como evangelho, boa nova, palavra de Deus. Eles não gostam de ser chamados de religiosos.

No budismo já foi assim também. Mas isso se perdeu. Hoje tem budistas brigando pelo direito de dizer que budismo é uma religião, não uma filosofia, não uma psicologia, etc. (eles devem ter muita raiva de nós). Alguns budistas falam que Buda não ensinou budismo, mas simplesmente o dharma, o ensinamento. Uns vão mais longe e dizem que budismo é uma invenção dos seguidores. A primeira visão é certa sem dúvida, a segunda vai depender do modo como a pessoa encare o ensinamento e de que lado está (se é praticante ou não do dharma ou parte dele).

Mas qual é a dificuldade que é maior no budismo? Ninguém define em que se fundamenta essa "religião", uns dizem que é na tradição, a grande maioria; outros dizem que é nos suttas e na tradição oral; outros que é só nos sutras; outros que é nos sutras e na tradição; outros que é só em certos sutras, ou numa certa coleção de sutras, ou só no Sutra do Lótus; outros que é só na tradição oral via linhagem, outros dizem que é na tradição oral, mas que tal linhagem não existe e não é necessária; outros que é a realização de seus mestres ou patriarcas, suas experiências ou o que é passado delas numa linhagem ininterrupta; outros dizem que os sutras até são importante, mas os tantras são os ensinamentos superiores; outros que só o que foi passado oralmente entre altos iniciados é o que determina; outros falam em giros da roda e que só o terceiro giro é o que o budismo é de fato, etc. etc.. Veja que são muitas visões diferentes para nossas cabecinhas ocidentais. É complicado demais.

Mas não era assim. Lá no Japão temos algumas escolas que abraçam algumas dessas visões, mas hoje existe a tendência de receber de alguém toda uma educação e então fundar sua própria escola; e outra que já existia que está forte agora de tentar restaurar um budismo puro, inicial, ou de algum ponto da história onde se considerou puro. E existem pessoas como nós, que depois de aprendizado longo numa escola ou de passar por várias escolas considera que nada disso existia antes, mas o simples "ide" do Buda. Às vezes a pessoa tinha passado relativamente bem pouco tempo recebendo ensinamento e Buda já os enviava, ou para a floresta, ou para ensinar. Isto aconteceu. Não existe nada errado em nenhuma dessas posições porque todos tem essa liberdade, mas é errado dizer que os outros estão errados, pois no tempo do Buda não existiam essas coisas.

Então vejam o quanto a questão cultura e rótulos é prejudicial. Muitas escolas seccionaram o ensinamento e definiram arbitrariamente o que era ou não palavras atribuídas a Buda e quais eram os ensinamentos. Então cultura, meus amigos do dharma, é uma criação que vai se tornando quase autônoma e engolindo seus expoentes. É algo muito prejudicial crer em algo assim, "defendemos nossa cultura, nossas raízes", porque o importante é que defendamos a verdade e se não sabemos vamos procurar, não porque alguma coisa é linda ou foi transmitido por nossos ancestrais. Eu sei bem como é isso, e isso dá base a qualquer coisa, qualquer coisa que se diga tradição, que passou por uma linhagem secreta ou que foi preservada numa caverna. Nada disso é selo de verdade, nem antiguidade, nem tradição, nem número de pessoas, nem estética, nada, nada disso atesta nada.

É muito prejudicial existirem tantos rituais que não geram uma experiência sequer de dhyana, nem um lapso, ou que a pessoa sente por anos e não atinja nada. Está cometendo um erro. Está fazendo como Bodhidharma antes de se libertar desse fardo cultural e da tradição. Sentar horas em meditação numa atitude mental errada é apenas prejudicial e perda de tempo. Treinou o erro. Depois falaremos maneiras boas de fazer isso da maneira produtiva. Mas o mais importante é fazer isso que falei nos outros momentos. É o cotidiano, não são as viagens e encontros e retiros, tudo isso é distração, pouco proveito se auto impressionar atoa. O importante é a atitude diante de tudo. Você está consciente aqui agora? Você está comigo?

Você quer mesmo saber a verdade?


Assim veja que não existe uma cultura dhyana, mas uma cultura dhyana é praticamente tudo que há em comum e verdadeiro ou que restou em todas as escolas que podem ser ditas budistas. Porque nem as quatro nobres verdades são um consenso mais. Algumas escolas falam que isso foi só para os discípulos iniciais ou os menos capazes. Outras dizem que a base é só o caminho óctuplo; outros que só os paramitas... Só sobrou dhyana. Será mesmo? Alguma escolas centram em preces, recitações, mantras, invocações e já dispensaram a prática direta para chegar em dhyana. Então não é uma certeza que restou. Elas buscam dhyana por outros artifícios e são tantos artifícios que já esqueceram o que estão procurando. Talvez fosse melhor mudarem de ramo, trabalharem com folclore e turismo, não digo isso como ofensa, digo isso como para vocês e outros um aviso. Digo aqui entre nós.

Mas se chegar até eles que seja para um bem, um lembrete que fica mais bem gravado se for assim espinhoso, para que lembrem do que realmente estão buscando e se estão mesmo fazendo isso ou querendo ter uma vida prazerosa e divertida cheia de exotismo, escorado no que deveria ser uma terapia justamente para nos mostrar as ilusões dessa coisas, dos ritualismos, das asceses, da dependência de mestres, títulos, crenças supersticiosas, iniciações místicas e autorizações. Ou por outro lado fuga, indiferença, irresponsabilidade, ou acensão profissional, careira, sucesso, dinheiro, sim tem gente que usa o budismo dessa forma, para ajudar nessas coisas.

Quero que reflitam todos isso pessoalmente. Porque muitos se fascinaram com a ideia do ocidente de religião e pensaram "nós temos que fazer o mesmo" e esqueceram seu objetivo. Eu pergunto se pessoalmente não estamos fazendo o mesmo ao contrário, fascinados com as coisas do oriente, escolhendo essa prática por sua estética, pela cultura oriental, ou para relaxar, ou esquecer dos problemas. Grande obstáculo. Se for por razões desse tipo temos um grande obstáculo. karma ruim. Deveríamos adicionar esse caminho em nossa vida se visamos nos libertar de ilusões, medos, incertezas ou simplesmente por razão nenhuma, seria muito melhor do que os outros daquele tipo "cultural". Deveríamos escolher esse caminho para vermos alguma verdade. Você quer mesmo saber da verdade?

E dhyana tem a ver com isso, é isso, é uma visão, da verdade.

A posição da nossa escola


Qual é a posição da escola dhyana? É nenhuma das anteriores, nenhuma dessas apresentadas e um pouco de cada uma. Dhyana é uma espécie de restauracionismo (eu já sei que "restauracionismo" aqui significa outra coisa em matéria de religião, mas eu digo no sentido da palavra) que remete à tradição oral principalmente, até negando em alguns casos a autenticidade de muitas escrituras, inclusive sua necessidade, sua datação (mas o conteúdo é bem mais importante que a datação, e provavelmente anterior à escritura, em sua forma oral). Ela parece depender da realização ou da experiência de "mestres", mas não é o caso. Definitivamente.

Ela depende de ter de fato aprendido a praticar chegando a resultados, a ensinar e a ter em mente os princípios, depois do estudo e experiência por um tempo razoável, como sete, oito anos.

Ela só depende do ide de Buda. Buda mandou seus discípulos ensinarem, não apenas os arhats, não apenas os bodhisatvas, não apenas os budas, não apenas os monges, mas todos os discípulos que receberam de fato seu ensinamento. Assim independe totalmente da tradição, linhagem, escrituras, realizações, cargos, qualquer um que aprendeu a essência do dhyana, na teoria e na prática deve ensinar.

E nós ensinamos isso, o ensinamento, o dharma, não uma religião, não uma tradição, não é uma linhagem, não são livros sagrados... Nós ensinamos dhyana depois de termos dedicado pelo menos cinco anos de vida ao estudo e prática diária e de instante a instante. Dez anos é um bom tempo.

Hoje gostam de dizer mestres, professores e até gurus. Você já viu alguém dizer "mestre Bodhidharama"?  Os nomes ajudam, mas também atrapalham.

A escola dhyana histórica teve suas características que tentamos preservar na vida cotidiana de pessoas comuns. Hoje conserva o fundamento e a prática que o comprova. Nós que derivamos da escola dhyana histórica e do que foi preservado por outras escolas como zen, tendai, theravada... Para nós o fundamento, que foi passado junto com outros elementos pela tradição oral, que foi registrado embora não com estrita exatidão e pureza em sutras. É o que se enconta em escrituras inclusive, e alguns tratados registram também elementos e análise desse dharma.

Não é perfeito, não é satisfatório, não é como num conto fabuloso, mas é o que temos. Temos que ser verdadeiros e realistas. É o que restou da corrupção das eras previstas pelo Buda (Na qual estaríamos agora vivendo o terceiro período, da sombra do dharma, ou como alguns mais "otimistas" dizem, o segundo, do reflexo do dharma).

Esses são o dhyana. [(Esses elementos)]. O caminho, os paramistas, as características da existência, os três fundamentos dana, sila, bhavana, o caminho óctuplo, entre outros e finalmente o incondicionado. E isto, estes são os mais importantes, são os fundamentos da escola dhyana, e dhyana é também o fundamento de toda ela.

PERGUNTAS


P. É intrigante essa visão de não religião e de terapia. Isto está em conformidade com a época do Buda, era assim, já que você tenta resgatar um budismo primitivo?

R.Não sabemos. Não totalmente. Mas nem há como saber também. Não estamos dizendo que isto é tudo ou que era assim antes. Essa é nossa visão. Não conhecemos poderes de voltar no tempo e ver como foi. Não damos garantias douradas como muitas escolas. Mais pé no chão como diz. A base é que falamos do que parece ser certo e garantido, outras coisas, se tiver dúvida, preferimos ver sem dar certezas que não temos ou como costume, como tradição, adição, erro de tradução, etc.. Mas o que é certo é o que vemos e temos experimentado. Então não é uma promessas de uma libertação futura ou de um Nirvana longínquo e difícil de ser alcançado, mas de uma libertação dia a dia, de um Nirvana cotidiano onde vamos penetrando e nos familiarizando cada vez mais com ele. É isso que importa, não teorias e certezas sobre o passado.

P. Você falou em Jesus e que ele ensinou isso. Jesus é um buda?

R. Sim.

P. Então Jesus não ensinou outra religião, bem diferente do budismo?

R. Deixe continuar a primeira pergunta sua que vai clarear. Na nossa visão Jesus é um buda, porque buda é desperto, Jesus é desperto, Jesus viveu desperto. Mas isso pode não ser muito simpático para cristão. Então é delicado. Tem que ser sensível se deve dizer isso.

Respondendo a segunda pergunta a primeira clareia. Primeiro buda não ensinou uma religião. Porque ele não explicou que ou se nós saímos de Nirvana, e então devemos RE-tornar para lá. Ele não explica hora nenhuma a origem de nossa consciência, só dessa consciência limitada e condicionada que vem com o que se chama doze elos. Só diz que existe um anterior consciente. Segundo eu não sei se Jesus ensinou uma religião. O caso é diferente. Buda ensina uma terapia, para agora. Jesus fez algo para proporcionar a salvação da vida eterna, ele não disse "deixe de ser judeu e seja cristão". Nirvana é eterno? É, o fim do sofrimento é eterno. Talvez seja a mesma coisa no final. Mas não é esse o ponto. O meu ponto é que Buda ensina uma prática em que você pode conseguir algo ou não, um fruto completo ou não. Que não acho possível hoje esse fruto completo. Jesus ensina um caminho que você pode conseguir ou não, um fruto que você pode ter completo ou não. Mas ele é quem salva, ele é quem faz o trabalho. É diferente. Buda como um pai que conduz. Jesus é o pai que ele mesmo leva os filhos. Buda não salva, Jesus salva. Buda ensina exercícios, Jesus não ensina exercícios. Você pode complementar em sua mente um com o outro, mas não podemos fazer uma leitura assim de um pela visão do outro sem arriscar a estar errando ou até ofendendo.

P. Perdão, eu não entendi. É muito estranho tudo isso. Como assim? Vocês creem que Jesus seja salvador?

R. Sim. Tentarei por de forma simples, já que estou tratando de uma terapia universal dentro da chamada cultura cristã. Não existem judeus messiânicos? Eles aceitam Jesus como salvador, mas mantêm seus costumes judaicos, sua higiene mental, etc.. Aqui nessa ordem, por exemplo, existem pessoas que são budistas cristãos. Eles aceitam Jesus e a bíblia, mas mantêm seus costumes e práticas budistas. Também existe muito mais o contrário, Cristãos que se utilizam de práticas budistas, de sua higiene mental, etc.. É simples.

Não é por você sentar num café, no Café Mestiço, na Avenida Paulista, todo dia, que você vai virar um paulista. Vão falar com você e ouvir seu sotaque nordestino. O que estou dizendo é que nem Jesus nem Buda nunca disseram "rapaz, você tem que mudar de religião". Buda ensinou práticas para atingir certas coisas, Jesus veio salvar todos que o aceitam como senhor e salvador e se arrependem do caminho do pecado. Ambos ensinam o arrependimento como meio, por exemplo. Mas Jesus veio pagar nossas dívidas impagáveis e Buda nos ensinar a se libertar do sofrimento. É bem diferente. Não podemos dizer que os dois ensinam a mesma coisa embora hajam pontos em comum. Mas assim como os judeus viviam sob uma lei, Buda também ensinou uma lei e as pessoas viviam sob essa lei (a qual ele dispensou no dia de sua morte). Nós também não nos intrometemos nas religiões de outros para mostrar como são segundo a nossa visão. Mas podemos até conversar dentro de limites como estamos falando agora. O fato sobre dhyana é os dois ensinaram, aí tudo bem. Mas talvez Jesus tenha ensinado um dhyana para a vida cotidiana, centrada, na lembrança dele e de seu ensinamento até a morte e ir para o céu então lá sim você será despertado e glorificado. Enquanto que se você quer ver as coisas como realmente são antes de morrer o dhyana de Buda pode ajudar para isso.

P. Parece muito frio. Só isso?

R. Dizem que os de origem lá da ilha do extremo oriente são frios (rizadas). Mas brasileiros tem sangue quente. Talvez a cultura tenha fantasiado e colorido demais, esse é o problema. As viagens nova era, místicos, espíritas, ocultistas, talvez exageraram um pouco, um pouquinho. Criando abismos entre o que estava mais próximo e plano. Perguntas sobre o tema?

P. Eu não entendi a relação consciência-apenas com um salvador, como Amida no budismo shin ou terra-pura, no caso aqui Jesus. Você poderia explicar melhor?

R. Claro. É muito simples. Estamos diante de duas doutrinas em que seus membros dizem "somos todos um". A diferença é que aqui no ocidente quando se diz todos se refere a todo mundo. No oriente geralmente se refere aos da mesma filosofia, no cristianismo se refere aos crentes, pois eles têm que aceitar o sacrifício de Jesus para ser um com Jesus, certo? Então como você pode me dizer que um não pode se sacrificar pelo outro? Como você pode me falar de pagar karma individual se na realidade somos todos um? Quando saímos dessa ilusão, estamos livres do Karma. Então a explicação é essa, na realidade temos uma só mente, falta você reconhecer isso. Cittamatra, consciência apenas é geralmente traduzida aqui como mente única, que também é tradução correta. Então todos temos dívidas impagáveis certo? Mas vem um que não tem dívida alguma e paga nossa dívida. O que acontece? A dívida foi paga. É pena que alguns não aceitem e queiram devolver o sacrifício, "oh, eu não preciso dele, pagarei minha dívida eu mesmo ao longo de vidas e vidas". Isto é escolha.

Assim é a salvação de Jesus. Amida é um modelo disso, mas sendo que se tornou, e fez um paraíso onde você vai aprender e ser liberto depois, o que Buda disse com a história de Amida no passado foi o que está acontecendo hoje: seu karma, sua dívida é impagável, você precisa de um salvador. Ora, sua mente é minha mente, a dívida foi paga quanto mais cedo eu aceitar isso, mais cedo esse pagamento vem para minha mente, eu sofro com Jesus, eu morro com ele, eu ressuscito com ele, sua memória é a minha memória, sua mente é a minha mente, sua consciência é a minha consciência, estou salvo... deu para entender?

P. Sim. Esplêndido! Muito obrigada.

P. Você falou de barreira cultural e de superar. Acredita que é possível para todos superar barreiras culturais e entender ou aceitar tudo isso?

R. Sim e sim. Eu vim hoje falar justamente que a barreira cultural não existe, é uma ilusão. Foram as pessoas iludidas que criaram mais e mais "barreiras culturais", como rituais paramentados e caros que duram horas a fio e você não vê nenhum buda sair no final, a pessoa não despertou nenhum pouquinho, está é cansada e sonolenta, esgotada. Tirando essas coisas fora, essas capas, não existe barreira cultural, a instrução é simples, o entendimento é simples. Mas atingir a real compreensão e vivência pode levar tempo. Acabo de mostrar esses dias que não existe [conta nos dedos], 1) a cultura que se atribui existir nesse país, (2) que a que existe, ela não é uma barreira, (3) que não existe incompatibilidade entre cristianismo e dhyana, (4) que tudo é questão de linguagem e consciência, (5) que a prática de dhyana quebra a barreira da linguagem, se ela existir.

Vocês menosprezam a capacidade de suas mentes mente porque desconhecem, é tudo questão de uso e desuso, tudo questão de exercício. Suas mentes tem uma capacidade enorme inexplorada e pouco usada. A consciência é infinita, mas as pessoas estão sempre limitando ela com um conhecimentozinho, um entendimentozinho, um ... né? Não, isso é auto identificação com uma parte muito pequena da mente. Amor a características, aparências; apego, à ilusão do eu e de sua auto preservação. A preocupação constante em perdê-lo. A barreira cultural não existe para nenhum dos ensinamentos que citei aqui. Mas para superar qualquer aparente barreira cultural só temos que superar a barrira da linguagem. Isso se supera pelo estudo por um lado e por dhyana por outro, porque dhyana você olha antes do nome, na realidade das coisas na consciência. Nomes e títulos podem ser barreiras. Aqui está a cura para essa limitação, dhyana.

P. O senhor fala de uma visão, epistemologicamente falando, sobre uma certeza, de conhecer uma realidade como realmente as coisas são e fala de uma realidade condicionada que se manifesta num fluxo de consciência que nega ser uma visão solipsista. Poderia esclarecer mais sobre este tipo de conhecimento ou conhecimento e o que nos garante ou dá essa certeza que essa realidade que vemos e acreditamos ser real é distorcida, e que essa outra que veremos é que é real, em suma, o que nos dá essa certeza, de que esse conhecimento é seguro?

R. Boa pergunta. Ótima. Queria poder responder assim com esse resumo final que perguntou "o que nos da essa certeza?". Começarei por ela, mas as outras são perguntas diferentes concorda? Bem se você for criterioso, nada [nos dá essa certeza]. Nada pode proporcionar certeza. Buda fala de convicção. Essa convicção é dada pela relação experiência-ensinamento, o que é só um ou outro não dá certeza, só quando formos todos budas. Convicção aqui é uma sensação que temos na experiência mais uma convicção no ensinamento, ou seja, por um lado é questão de fé, de confiança n que foi ensinado. Mas isto é um assunto logo e não tem tanta importância para sua questão. Como falei no início a primeira coisa que temos que ver é que estamos imersos, influenciados por uma cultura e que essa cultura é que nos dá uma noção do que é a realidade. Mas essa noção pode estar completamente errada, como mostrei, até a noção de que cultura é a que estamos imersos está errada, é um auto-engano, uma ilusão.

As pessoas não tentam seguir os mandamentos ou o que a bíblia diz, quase todos falam palavrões, contam mentirinhas e até cometem pequenos delitos de vez em quando, e aprecia a maioria dos elementos dessa cultura que são em sua enorme maioria contrários aos princípios judaicos e cristãos e acreditam que vivem numa cultura judaico-cristã, alguns até se dizem oprimidos pela cultura judaico cristã. Temos que perguntar em que mundo esta pessoa está vivendo ou qual o problema mental que ela está tendo, claro que indiretamente e de forma bem delicada, pois precisam de ajuda. Opressão cultural era o que acontecia no período feudal por exemplo, seja na Europa antes, ou no Japão, ou no quase recente Tibet.

Pois bem, isso faz parecer que cada um vive em seu mundo particular e compartilha boa parte desse com outros que pensam de modo semelhante. Veja que até aqui é linguagem e visão. Como você vê e como você expressa o que lhe parece. Mas suponha que você confiou no ensinamento de Buda ao ponto de experimentá-lo apenas em certa medida, para ver. Como vai avaliar?

Sua avaliação será dentro de parâmetros. Buda já dá os parâmetros que ele apresenta como os corretos, que você confia porque ele é Buda e vivenciou o que diz. Então essa duas análises casadas vão moldando uma nova visão. Essa visão tem elementos religiosos, por precisar da confiança, mas é com fim terapêutico, Buda vem trazer um remédio, para um problema mental em que todos estão doentes. Quando você faz da medicina uma religião começa a ter problemas, foi isso que aconteceu na história. E não é nem uma coisa só nem outra. Não é uma verdade assim porque sim, porque Buda disse, nem é uma certeza completa e cientificamente comprovada como outros pintam. É um conhecimento com uma certa segurança, mas não é uma pura crença, nem uma total comprovação irrefutável. É um remédio.

Vamos pular tudo e dizer que você agora já é experiente. O que garante que o que estrá vendo ou experimentando seja real, ou não sejam outras ilusões como as que tinha antes ou alucinações? Até certo ponto, é apenas a relação fé-experiência, ou seja, a confiança no Buda e a convicção dada pela experiência, uma só dessas pode levar a caminhos errados.

Vamos pular de novo e dizer que você já está bem avançado. Ainda haverá esses mesmos componentes, mas em número e diversidade maiores. É isso que dá a certeza mais e mais. Mas ainda é   dependente, condicionada. Só quando atingir e permanecer em dhyana muda a categoria de conhecimento. Você vai ver conhecimento e conhecedor como uma coisa só definitivamente. O espírito saberá completamente as coisas do espírito como disse Paulo. Ou seja você vê diretamente que tudo é consciência o tempo todo sem decair. Aí mudou. Isso a rigor é no paranirvana, depois da morte dessas formas aparentes e desse mundo ilusório. Isso é entrar em Nirvana.

A segurança epistemológica é uma só do principio ao fim: a consciência e que tudo que se conhece é nela. Só que no começo é restrito ao redor e a seus conhecimentos e você entra nesse estado e volta. Depois segue gradativamente, transcendendo esse limite de lugar, de tempo e de apenas seu conhecimento, até que tem todos os conhecimentos possíveis, bastando para isso intencionar com sua mente conhecê-los. Essa é a descrião psicológica dada por Buda.

P. O senhor já atingiu a iluminação?

R. Sim e não, isto é, às vezes.

Não existe na realidade atingir a iluminação. Todos já somos budas agora, mas não somos nessa consciência limitada. Somos budas já quando estamos em espírito, ou seja, na consciência pura. Mas isso é diferente de Nirvana. Nirvana é quando não há mais separação entre a consciência plena e a consciência individual, quando "tendo deixado de lado toda cobiça e aversão desse mundo, plenamente atento, plenamente consciente, penetrarmos em Dhyana", há acesso, e união, à plenitude da consciência, você não deixa de ser um indivíduo, mas sua consciência é plena, não há limite, não há separação, no mais, já sabe que não é possível descrever "né"?

A diferença das escolas dhyana e descendentes das outras é que você experimenta isso agora, não no futuro somente, você é cada vez mais prático em ser buda, você penetra gradativamente cada vez mais em Nirvana desde a primeira vez que senta. Você conhece a iluminação aos poucos, todo dia, vai se acostumando a ser um buda...

P. É como Jesus e o Espírito Santo?

R. Sim. Mas o cristão consegue isso bem mais fácil, só que geralmente não está consciente disso. Os budistas a princípio conseguem raramente, por pouco tempo e com dificuldade, mas geralmente consciente disso.

P. São complementares?

R. Para muitos sim.

P. Seu nome é um nome de mestre ou de iniciado?

R. Não, é próprio. Não usamos o título de mestres. O que é iniciado eu não sei, talvez os irmãos aqui da ordem possam falar melhor sobre isso.

P. A posição da escola a que se refere é um consenso geral ou há algum mestre ou líder? Nós de outras religiões podemos mudar de religião e seguir sua escola?

R. Não e não e pergunta complicada. Boas perguntas.

Não existe consenso geral na escola, cada um é livre desde que mantenham os fundamentos da extinta escola dhyana, se existe um consenso é este, mas nem chega a ser um consenso ou fruto, já que existiu há centenas de anos dessa forma. Nós apenas escolhemos essa forma.

Então não existe um líder, um chefe geral. As pessoas se reúnem periodicamente e compartilham estudos, pesquisas, experiências, histórias e se despedem. Não há o que ser decido ou mudado, organização, votações. Existe uma assembleia ou um conselho que se reúne quando a escola volta à ativa, em alguma momento da história. No caso meu, essa escola pesquisou e preservou esses ensinamentos e práticas e eu os encontrei, escolhi e adotei. Bem simples. Bem mais que outras escolas pelas quais passei.

"Nós de outras religiões podemos mudar de religião e seguir sua escola?" Não. Como expliquei eu não considero como uma religião, não é uma religião, embora alguns tenham a liberdade de considerar. Também disse que não tinha que mudar de religião, frisei bastante que Buda não disse "vai ter que mudar de religião". Você segue a escola como alguém que vai ao psicólogo ou a um curso, sobre algumas matérias para o seu próprio bem viver; não existem monastérios, cultos, estátuas, rituais, roupas, ornamentos... nenhuma característica de religiosidade, é exatamente como no tempo de Buda, pessoas que se encontravam, fala e práticas, só, mais nada. Se não existem mais regras monásticas, também não podem existir monges. Espero ter esclarecido bem isso...

Não havendo mais perguntas.

Que todos tenham uma boa noite, estou muito grato pela atenção, perguntas e tudo mais.

Gasshô



sábado, 26 de maio de 2018

DHYANA NA CULTURA JUDAICO-CRISTÃ - parte 1


Por Hyokan Hiroshi

[Esse não foi o título original, não houve título, foi apenas uma continuação da palestra anterior. Os títulos e subtítulos foram colocados por este editor e tradutor]

Introdução


Tenho ouvido que dhyana é um fenômeno cultural, que é restrito à cultura oriental ou até mesmo a uma certa época, que não é apropriado para nossa cultura, ou que pela disseminação da meditação mindfulness está se tornando um fenômeno em nossa cultura. Bem, a primeira coisa que temos que notar é a cultura em que estamos inseridos. No geral os mesmos que dizem tais coisas também dizem que vivemos em uma cultura judaico-cristã, mas se observarmos a nossa cultura não poderemos constatar nada disso.

Precisamos questionar, primeiro o que seria cultura. E então o que seria judaico-cristã. Hoje nas Américas temos muitos países ditos cristãos. Mas com exceção dos países da América do Norte nós não podemos falar realmente em uma cultura judaico-cristã. Talvez no máximo um sincretismo cultural onde muitos elementos já foram naturalizados e entendidos como cristãos ou mesmo judaicos. Mas que não são na verdade.

Cultura, sem querer entrar em definições precisas, é uma transmissão de costumes, conhecimentos, moral, artes. Se olharmos para os países da América Latina e procurarmos seu referencial na cultura judaica, ou cristã, ou na Bíblia, pouca coisa vamos encontrar além de algumas palavras e frases de efeito, mas não necessariamente significando a mesma coisa. Os costumes, nossos costumes (posso dizer porque vivo muito aqui), são totalmente diferentes de costumes dessas culturas. Se formos falar de desenvolvimento cultural ou derivação é ainda pior, pois historicamente vemos que nossa cultura se assemelha mais a um desenvolvimento da cultura greco-romana pagã do que da cultura dos primeiros cristãos. Difere muito na América do Norte onde são muitos os judeus e muitos os cristãos, senão a grande maioria, que realmente seguem o fundamento de sua religião, tanto culturalmente quanto em fidelidade aos princípios ou fundamentos. Talvez lá até possamos arriscar em falar de uma certa cultura judaico-cristã estabelecida.

É justamente sobre isso que falo hoje, dos fundamentos, e dos princípios. Hoje quero falar do princípio, o que fundamenta o cultivo da prática que visa dhyana [(jhanas)]. O que fundamenta uma prática espiritual é a mesma coisa que fundamenta uma cultura? Isto pode ser uma regra? Podemos falar que nossa cultura favorece um certo desenvolvimento cultural ou que ele possui algum fundamento espiritual ou prático-espiritual? São todas perguntas que não pretendo responder, mas é interessante, porque dhyana também é uma cultura.

Quando olhamos para as Américas Latinas temos um sincretismo, onde em parte domina uma linguagem tida como cristã, mas muitos elementos, crenças, ações, rituais, princípios, moral, ditos pagãos, quer dizer que vêm do que os cristãos antigos consideraram assim. "Pagãos" é no sentido de religiões primitivas que são dominadas pelo animismo, muitos deuses, forças, barganha com seres sobrenaturais, uso de estátuas e objetos de poder, divindades e finalmente superstições.

O que estou mostrando é que se por um lado muita coisa é questão de linguagem e significados, por outro, a linguagem em si pode ser muito perigosa e enganadora, pois é por causa dela que cremos em ilusões e temos como realidade coisas que não são, e isto que falei é um bom exemplo.

Estou falando isso porque no budismo não é diferente. Se olharmos para o budismo, seja do norte ou sul da Ásia, mas mais notadamente no Norte, vemos a mesmíssima coisa, e coisa pouca do budismo original. Não podemos falar de uma cultura budista, principalmente em países como a China, a Índia, as Coreias, enfim. Temos um sincretismo da mesma forma que há no Tibet e Nepal onde você vê tantos elementos da cultura e das religiões ancestrais que se você estuda o budismo sabe que você tem que procurar muito até ver algo realmente budista, embora tudo esteja impregnado de relação ao budismo através da linguagem.

Então veja que isso, cultura isso ou aquilo, é uma ilusão, uma barreira que devemos superar, novamente estou falando da barreira de uma classificação, um nome (e isto é assunto bem budista), que limita e quase se opõe ao significado real das coisas. Isto é um rótulo e as pessoas terminam acreditando no rótulo sem examinar o conteúdo. Dhyana é o combate disso e das barreiras também que nos dividem, das classificações. Dhyana quer mostrar a realidade, então como vai debater diante de nomes errados?

Primeiro temos que olhar o que temos de fato. 


Qual é o fenômeno que está ocorrendo, antes da linguagem, porque se não fizermos isso passamos a um subjetivismo sem fim. Primeiro temos que olhar o que temos de fato.

Então a primeira coisa é retirar essa visão de que há uma cultura isso ou aquilo, isso é uma generalização perigosa, e falsa. Existem elementos que podemos citar, comportamentos, tradições, religiosidades, etc.. Que podem ser transmitidos não exata e uniformemente que em seu conjunto pode ser chamado de cultura, mas que de fato não existe em conjunto, são elementos que se inter-relacionam. É como uma floresta, não existe floresta, é apenas como chamamos o conjunto de árvores, plantas, animais. O que existem são árvores, unidades que estão em relação.

Precisamos parar aqui pois chegamos ao primeiro ponto importante, metodológico. Dhyana viu que tudo que temos está em dependência, primeiro da consciência, e agora, nesse segundo momento estamos vendo: da linguagem. Então precisamos detectar o fenômeno antes da linguagem.

Apesar do próprio fenômeno poder ser considerado também como linguagem, precisamos vê-lo puro, antes do nome, como ele de fato é, um objeto da consciência, precisamos fazer essa redução fenomenológica, se é que se pode chamar assim, na nossa percepção, para olharmos para as coisas com mais pureza e sem rótulos, antes da percepção até, pois essa trás a identificação, pois o rótulo, ele depende do preconceito, de um conhecimento prévio condicionado, de um somatório de impressões que podem estar distorcendo a realidade. Que podem até muito bem estarem erradas.

Então para discernir é preciso não discriminar, não rotular, não destacar, apenas lançar o olhar e esse olhar agora tem que ser para dentro, pois sabemos que o fenômeno se desenrola na nossa consciência. Precisamos discernimento, e isso agora é discernir as coisas como são na realidade. Se parássemos aqui e disséssemos que dhyana é isso estaríamos criando um mundo de pessoas retardadas, isto é só uma pequena parte inicial. Na primeira vez falamos que tudo é consciência, agora falamos que tudo é linguagem e como a linguagem é um condicionante e limitante, podendo ser enganadora, temos que captar a consciência pura antes da linguagem. Resumindo. Agora sigamos em frente.

Assim é com cultura, não existe cultura, existe uma transmissão, feita por pessoas, de alguns elementos. Cultura é simplesmente o conjunto de transmissões, assim como a floresta é o nome do conjunto de indivíduos. Se existir cultura você é uma vítima, não tem jeito, o monstro vai devorar a todos. E se é assim eu sou um tentáculo do monstro, enfiando em vocês mais uma parte do veneno que vai consumir boa parte de sua vida, como fui vítima no passado quando fizeram o mesmo comigo, afinal é a cultura que faz, independente de seus elementos, ela seria cultura isso ou aquilo. Mas o bom é que não existe coisa, tal generalização que seja válida a respeito de absolutamente nada então vamos ao que interessa. Você anda na floresta, é um nela, não tem todas as árvores, não vê todos os bichos, só os do caminho por onde você vai.

Não existe cultura dhyana


Já observaram que não existe cultura dhyana? E dhyana é uma cultura. Eu disse que dhyana é uma cultura. Dhyana é uma forma de viver. A forma de viver ligado, como dizem, porém não tenso, alerta, presente. É uma cultura, totalmente diferente da comum, que se procura distração, alguém quer se distrair. Quer um trabalho que o agrade, mas não para estar atento e presente nele, mas para estar distraindo-se com ele. É muito estranho. Isso não é doentio? Ou não é assim? Uns querem aproveitar o tempo, outros querem um passa tempo, como assim?!

Mas dhyana não é assim, não se automatiza, não se distrai, ela tem que ser cultivada de instante a instante, assim é uma cultura porque dhyana temos que cultivar, de instante em instante estar atento. Mas não é estar atento de qualquer maneira ou a qualquer coisa. É prestar atenção às coisas, as do mundo, inclusive nós mesmos, consciência, corpo e mente, como elas são em sua verdadeira natureza: inconstantes, insatisfatórias, insubstanciais, condicionadas; e como nossa consciência na verdade é, pura, Nirvana.

Não existe cultura dhyana, ainda não inventaram, porque é algo trabalhoso para uns, prazeroso para outros, mas não são todos que querem, aliás são poucos. É como cultura rock, ou cultura zen, ou cultura gospel, não  são todos que querem, mas nem por isso ela deixa de ser cultivada por quem quer ou gosta ou por quem entende seu objetivo ou por quem almeja seu objetivo, mas ao contrário dessas, ela é muito particular, nem num centro zen você vai ver as pessoas compartilhando dhyana, é algo bem particular, apesar de alguns grupos terem mecanismos de ficar lembrando uns aos outros, tocando sinos... Não existe como transmitir dhyana de uma pessoa para outra, de um grupo para outro. Porque não existe nem como ensinar, porque ela não pode ser ensinada, porque ela tem que ser descoberta individualmente, tudo que fazemos é dar algumas instruções sobre como manter a atenção ou como praticar o zazen, por exemplo, e então alguém poderá fazendo isso chegar a dhyana.

Não existe dhyana cultura porque ela é um estado de mente alerta, um dos estados de mente alerta, que tem que ser feito com equilíbrio e ensinado com muita responsabilidade. Porque não é simplesmente estar aqui agora como se tem ensinado, isso seria muito prejudicial e exigiria muito esforço. Dhyana é um estado não tenso, não estressante, não é pressão psicológica. Eu sempre imagino a pessoa num presídio praticando esse tipo de meditação "para estar feliz eu tenho que estar presente aqui aqui agora de instante a instante". Imagine, a liberdade mental foi a única lhe sobrou e ela ali "tenho que permanecer preso, tenho que permanecer aqui nessa prisão", parece piada. O método de dhyana também não tem a ver com não pensar nem esvaziar completamente a mente.

O presente tem em si o passado e o futuro, o aqui contém relação, lembrança, memória de outros lugares, tudo isso acontece na mente, quando se diz estar presente aqui agora de instante a instante quer dizer estar consciente de tudo que ocorre na consciência e que tudo ocorre na consciência, sejam os objetos sensoriais, puramente mentais ou mesmo o vazio. O agora não existe isolado, o aqui tampouco, nem dhyana é solipsismo, existem outras pessoas, outros fluxos de consciência, "tudo é apenas uma projeção da minha consciência", quem pensa assim tem um problema, tem uma ideia muito grande de eu e meu, está precisando urgente praticar dhyana da forma correta.

Dhyana não é uma religião ou uma escola de psicologia ou de filosofia, é uma terapia. Nessa terapia a pessoa vai se livrar justamente das falsas projeções sobre si mesmo e sobre tudo mais. Mas é uma terapia que todos precisam, principalmente os orientais, porque em nossa cultura eles se adaptam a quase tudo, é como se mesmo as mais tolas e prejudiciais ilusões pudessem ser todas bem aceitas de alguma forma, por isso a meditação fez mais sucesso lá. Aqui as pessoas são mais objetivas no sentido de metas, obstáculos e sua superação. Se um ocidental se depara com um problema de saúde ou de emprego, por exemplo, imediatamente ela pensa em formas de resolver e superar isso. Por muito tempo os orientais foram como aquele flechado da história do Buda "deixe eu ver se é isso mesmo? Será que estou mesmo doente, será que preciso mesmo de um emprego? Eu tenho um karma ruim para pagar. É melhor aceitar. Será que isso não é uma lição para que eu aprenda a me desapegar e meditar, não seria melhor eu desapegar disso? É melhor eu me acostumar logo com essa situação antes que comece a sofrer". Brincadeirinha, mas é bem por aí.

Dhyana é cultura


Dhyana é uma cultura. Porque dhyana tem que ser cultivada. Não é apenas estar presente e atento, tem que lembrar de estar atento, observando, consciente vigiando. Nos evangelhos aparece uma série de vezes a palavra vigiar e quando vem junto com orar ela vem antes. Vigiar é mais importante no sentido que vem primeiro, tudo mais para ser bem feito precisa que a pessoa esteja atenta, presente, consciente, vigilante, lembrado.

É preciso também estar lembrado que está ali e o que está fazendo, veja que a noção de presente não é deslocada de passado, não é como um sem memória que esquece cada segundo anterior, isto seria terrível, então se você aprendeu que Dhyana é uma concentração no presente apenas, por favor esqueça isso. São pessoas que foram ensinadas errado ou que são irresponsáveis que ensinam essas coisas.

E agora temos um terceiro ponto, que prova isso, pois tudo tem consequência, e tudo que é, é consequência de um momento anterior (tudo é condicionado, é uma característica desse mundo). Sim, porque somos humanos, não temos a visão de Deus, onisciente, isto é, de todos os tempos, todos os instantes e lugares presentes aqui agora. Buda também não disse que tinha esse tipo de consciência, nem que Nirvana era se tornar um deus ou algo do tipo. A onisciência de um buda está relacionada com o tempo e com uma individualidade, porque em sua onisciência também permanece a consciência de todo o fluxo anterior de consciência com o qual ERA identificado, por isso mesmo não se pode dizer que ele existe nem que deixou de existir, apenas que se libertou do samsara, que é o mundo triplo, dos ciclos de sofrimento.

E o que é dhyana? É o estado crescente em que a consciência vê as coisas diretamente como são, ou seja, não sofrimento, não transitório, não insubstanciais, isto é, Nirvana. Dhyana é primeiro o vislumbre, depois entrar, entrar e permanecer um tempo, até que no último estágio permanecer nessa visão, em Nirvana. E o que é Nirvana? É a realidade única, completa, plena, permanente, imutável, incondicionada, livre, pura, original, sem ilusão.

"Permanecendo completamente atento e plenamente consciente", veja que Buda trata de duas coisas distintas, atenção e consciência, atenção é um ato, é para nós, seres, consciência é um objeto.

Onde os seres vêem objetos múltiplos, o iluminado não vê diferente, mas ele vê consciência apenas.