Pesquisar este blog

domingo, 14 de junho de 2020

O que ensinamos?

Por Ryokan Hiroshi


Olá, amigos, estudantes, interessados, sejam bem vindos. Vocês estão aqui para mais uma vez, ou primeira vez, ter uma introdução sobre nossos assuntos, nossa prática, nosso significado. E já, como sempre, todo o básico já, para ir desenvolvendo. O que ensinamos?

Primeiro vou dizer o que é que dizemos, para dizer o fazemos e porque fazemos e então o que ensinamos. É uma perspectiva bem melhor assim, porque não é dogmática, é prática. Estou aqui para apresentar a perspectiva da psicologia do Buda, sua abordagem ou suas abordagens, melhor dizendo. E antes de apresentar o que diz a psicologia de Buda é preciso saber o que diz Buda e o que diz a tradição e porque...

O que dizemos?


Dizemos que todos os seres estão aqui sujeitos ao sofrimento e ao prazer, assim como estão também ignorantes de muitas coisas. Entre elas o principal, o que sou eu? Como é que eu funciono?  Onde estou? Para onde vou?

Estas questões não são só minhas. Mas dizem há também outras. Outras perguntas para nós não tem importância primária, mas vou dizê-las porque vocês aqui sempre dizem, "de onde eu vim?", "quem eu sou". Uma pergunta sem muito propósito e outra errada. Para que você quer saber de onde veio? De que serve essa informação? Ou, o que você vai fazer com ela? Primeiro você precisa saber porque está perguntando isso. Saber sua origem pode ajudar a descobrir O QUE é você... Não tão mal! Agora essa pergunta ganhou um propósito.

Mas quem é você? Essa [é uma] pergunta errada. Atrapalha tudo. "Quem" é uma coisa que muda, no tempo, de ponto de vista, mas pior é: "quem" é o que? O que você quer dizer com quem? Uma pessoa? A personalidade? Sua mente? A consciência? Uma certa parte de uma delas? Todo o conjunto do seu ser? O eu?...

Então uma coisa que Buda perguntaria é "que eu?". E Buda diz que não há "eu"...

Me mostre o "eu" primeiro e então eu digo quem você não é!

(Você não vai conseguir me mostrar eu algum. Eu gosto do zen, eu uso o zen porque é a melhor linguagem para mim, por muitos anos eu fui zen. Todo mundo nota...) Eu vou lhe fazer uma pergunta: o que nós dizemos para você?

[Silêncio e olhares, ele olha para cada um em particular]

Nós dizemos que você não tem manual de instruções sobre você, nem sobre esse mundo, nem sobre a vida... Nós dizemos que você não sabe o que é você e nem como você funciona. Nós dizemos que você não sabe para onde vai. Este é o que queremos dizer, esse é nosso significado, de estar aqui, para transmitir... E nós dizemos que isso não está certo, não é correto. Vamos estudar essa "deficiência psicológica"?

Então trazemos esse ensinamento que é chamado dharma. Dharma (ensinamento) é medicina para esse estado de existir e de saber. Só isso. Muitos dizem "ah, budismo, uma religião...". Budismo não é uma religião. É uma palavra inventada, no ocidente, para "ensinamento de Buda" [(Budha dharma)]. E "Buda" que é isso? É uma palavra para dizer "aquele que despertou". É o que levou o carimbo: "curado".

[Ele explica isso escrevendo as palavras e os conceitos na lousa]

Curado de que? Da cegueira (ignorância dessas coisas), da cobiça e da aversão; e do efeito disso; foi aquele que se curou do sofrimento... dizem... Canonicamente falando isso é apenas uma dedução, pois quando ele saiu sem despertar ainda foi à procura disso. Perdoem minha abordagem, mas não é bem assim, essas palavras não são bem traduzidas, adequadas, esqueçam tudo o que ouviram baseado nelas.

Nesse aspecto é mais que o "ser uma religião" porque é uma metodologia detalhada para resolver um certo problema, bem específico. O fato é que o que dizemos é que é uma abordagem, o ensinamento é uma terapia, para esse tipo de cura. Tudo que foi resumido numa palavra, dukka, insatisfação, insatisfatoriedade, que gostam de dizer "sofrimento". Essa foi a busca de Sidharta, antes de se tornar o Buda, resolver esse problema, mas ele encontrou outras coisas também no caminho.

Curar dukkha... Dukkha é nascimento, dor, adoecer, separar-se do que se ama, estar ligado ao que se tem aversão, é decadência, envelhecimento, morte... Assim ele definiu, vejam, não sou eu que estou dizendo. E a causa disso tudo é a ignorância. Seria muito dificil mostrar descrever as cores para cegos de nascença, ou ensinar as notas [musicais] para os surdos de nascimento, então Buda criou uma abordagem especial.

Mas o dharma também não é uma filosofia, e há um problema e algo a ser feito. É também um "o que fazer com isso agora".

Então o primeiro ponto é que dizemos que temos essa herança, essa tradição, desse tipo de medicina para as dores da alma, vamos dizer em linguagem do ocidente, sofrimento, insatisfatoriedade. Mas não é sobre isso só que é o dharma, é sobre paz, comportamento, pureza, conhecimento, relações... São muitas coisas a serem feitas e ou alcançadas. É bem pragmático se gostarem da palavra (eu não gosto, mas não encontro outra).

Então, primeiro ponto, bem aberto, bem amplo, há o budha dharma, o ensinamento de Buda.

Que primeiro é uma medicina. Terapia. Ele nasce assim.

Podemos dizer que na prática é um método, e um modo de viver.

Então isso gera uma filosofia, uma filosofia de vida. E um "modo de ver".

Enfim temos as tradições.

Que depois, se pode dizer, "foi tomada", como religião. Mas são as escolas de pensamento e método, são as escolas diferentes de filosofia. Muito mais certo dizermos que a tradição se dividiu em diversas escolas. Então em um último estágio nós temos essa visão de escolas em diferentes tradições (depois posso dar exemplo). E nelas entram definições próprias também tanto adotadas de concílios gerais quanto de seus próprios concílios...

Ok, o que dizemos... Nós estamos com uma visão embassada.

Então nós dizemos que estamos doentes, e que essa doença tem uma causa, e que, é difícil, mas se eliminarmos essa causa ela desaparece. Mas existe uma terapia que leva à cura!

Ei, eu sei que todos aqui já conhecem as quatro nobres verdades, que parafrasiei agora, não vou ter que repetir. Mas para os novos... Vamos?

Há...
Dukkha
Mas dukkha tem uma causa...
Ignorância-cobiça-aversão é a causa
Mas existe a cessação de dukkha
A cessação da ignorância-cobiça-aversão
E existe um caminho para a cessação de dukkha
O nobre caminho octuplo

E isso é o fazemos, percorremos esse caminho óctuplo. Nós fazemos o caminho óctuplo para nos libertarmos da ignorância-cobiça-aversão e sua s consequências. Conscientes disso até aqui...

O que fazemos


Ok, budismo não é religião, religião é religação, retorno, budismo, que também não existe, qual é nome certo? Isso, dharma do Buddha. Porque não se liga a nenhum deus, nem ser, nem retorna a nenhum lugar, não se religa.

Só que se pensarmos que esse procedimento nos leva a nossa verdadeira natureza pura antes da queda, antes da ignorância; então se ela é a verdadeira nós já tínhamos! Estão religa. A questão é antes existia um nós? E se existia esse estava ligado à natureza original? Buda diz que não, não havia esse nós, esse eu separado, ele é uma ilusão. Mas vamos com calma, chegaremos já nesse ponto. Porque aqui chegamos num nó desse dhamma [(palavra pali para o sânscrito "dharma")]. E dharma não é uma filosofia, isso foi um método usado por Buda para a pessoa largar o falso e poder encontrar o verdadeiro.

O dharma é tratamento psicólogico. Uma terapia. Uma medicina. Hoje nós poderíamos bem colocar ali no meio da "medicina oriental". "Ah, uma é medicina chinesa, hum, uma é tai-chi, outra é yoga, outra é ayuvédica, ah, tem outra, dharma do Buda". Buda se disse médico. Por que?

Porque estamos doentes, a cegueira e a doença,  ignorância das perguntas que eu fiz é a doenca: que sou, como funciono, onde estou, para onde vou? Só que essa cegueira ou ignorância no dharma não é pela ausência de um saber, mas pela presença de um obstáculo que impede de ver. É como uma névoa que nos turva e nos esconde a realidade.

A causa é um vírus, uma estrutura alienígena à nossa natureza original e essa estrutura é composta de dois opostos: cobiça, desejo, apego, ganância de um lado, e do outro lado ódio, aversão, ressentimento, rancor.

[Indo à lousa para escrever algo] (Vocês estão notando que eu gosto do número quatro não é? Por isso vou colocar ele em dobro agora...)

Mas existe cura para isso. E Buda ensinou um jeito! Se chama "nobre caminho óctuplo". É o que fazemos sobre isso.

[Desenhou uma roda do dharma e escreveu em ordem:]

  1. Compreensão Correta(Samyag-drsti);       
  2. Pensamento Correto(Samyak-samkalpa);
  3. Fala Correta (Samyag-vac);        
  4. Ação Correta (Samyak-karmanta);
  5. Meio de Vida Correto (Samyag-ajiva);      
  6. Esforço Correto (Samyak-vyayama);
  7. Atenção Correta (Samyak-smrti);      
  8. Concentração Correta(Samyak-samadhi).

Isto é o que ensinamos, a realizar esse caminho, basicamente é isso. Porque é isso que fazemos. Pessoas aqui de todas as culturas, de todas as etinias, de todas as religiões ou sem religião, não importa. Essa [é a]  terapia para tratar esse problema humano.

O que ensinamos?


Então ensinamos isso. Vamos ver passo a passo cada ensinamento desse caminho óctuplo. Mas não é só isso, temos outro lado do ensinamento, que veremos após esse, como os paramitas, por exemplo. Vamos comecar pelo primeiro, "reta compreensao". Outra forma melhor de dizer o primeiro é "visão correta" ou "consciência correta". O primeiro é o ponto de partida. Como ensinamos a ver corretamente nessa tradição?

Você precisa ver as coisas como elas são para que seu "apego-aversão" diminua. Apego não é simplesmente gostar, querer, é "apego sedento" que estamos falando, que dá uma falsa sensação de posse, ou que busca possuir, e de identidade-identificação com a coisa possuída, aparentemente possuída ou desejada. Chama-se "desejo-apego". "Aversão" é mais fácil de ser entendido, pois é o que é, aversão, repulsa, ódio, intolerância...

Primeiro ensinamento prático


Como é que praticamos a consciência correta? Primeiramente é percebendo que toda coisa e fenômeno nessa natureza tem três características: tudo é impermanente, insubstancial e consequentemente insatisfatório. Insubstancial é não ter existência nem realidade em si mesmo nem por si mesmo, ser definido por conjuntos, agregados, de condições, causas e relações, dependente, portanto não-eterno e não-eu, ou seja disprovido de um ser real em si, condicionado. E nós e todos os que amamos estamos incluídos nessas três características, portanto não temos um eu próprio, em si mesmo, mas agregados mentais condicionados fruto das mesmas causas, condições e relações, portanto impermanente, portanto insatisfatório.

Sim, nós não somos um eu, segundo Buda, nós temos um eu impermanente, insubstancial, insatisfatório, nem sempre presente, chamado eu convencional... No zen falamos que o objetivo é conhecer o verdadeiro eu. E uns perguntam se o verdadeiro eu é o não eu. Que pergunta mais zen! Mas não. O verdadeiro eu é o que é eterno em nós, é isso que precisamos encontrar e conhecer nessa etapa, chamado em todo mahayana (inclusive no nosso bodhisatvayana) de "nossa verdadeira natureza" ou natureza verdadeira da mente ou da consciência, ou também chamada de consciência-apenas na escola zen (apesar que existe outra visão de outra escola aí, que diz que não há eu algum nem mente alguma nem  consciência, mas está errada, e Buda nunca ensinou isso, é invenção; e outra diz que anatta ou anatma é não-alma em vez de não eu, todos sabemos que Buda nunca disse que não tínhamos alma, mente, de jeito nenhum [a palavra alma vem do latim anima que é a tradução do termo grego psique, mente, Buda nunca falou que não tínhamos mente]). Essas são as três características da existência, se você observar vai vê-las em tudo e em todos.

Pronto, primeira lição. Vejam isso...

Isso é o que ensinamos a entender e a fazer.

Para esta manhã é isso que temos, mais tarde continuamos, com a segunda lição.

Mas por agora eu preciso de suas perguntas...
As coisas mais importantes eu falo nas respostas às perguntas geralmente...

Perguntas


P. O senhor falou que budismo não é uma religião então porque alguns se dizem da religião budista e como é que eu faço para me tornar um budista sem ser da religião budista?

R. Boa pergunta. Duas perguntas, na verdade. Respondendo a primeira. Por que uns se dizem da religião budista? Porque ainda não despertam...

Quando você despertar deixará de ser budista, zen, ou qualquer coisa referida a isso, isto é uma ferramenta, como uma chave de mecânico. Depois que você faz o reparo que precisa com ela você sai por aí dizendo "agora eu sou um chaveiro", ou "agora eu sou mecânico"? Espero que não.

Eles aprenderam assim. Eu ensino de outro jeito logo no começo porque eu fui budista de várias escolas, terra pura, a da minha familia, tientai, soto, rinzai, tendai, theravada, shin, sanbo kyodan... Outras passei por elas também, mas como a primeira sem muito aprofundamento, e só pude me aprofundar no shin [terra pura] quando me aprofundei no bodhisatvayana, quando estava fora dela, quando você se identifica com algo isso gera obstáculo, apego, atrapalha, você cria um novo "eu budista", um novo muro em sua prisão.

Então não é preciso se tornar budista de modo algum, isso pode até atrapalhar. Você pode fazer melhor se tornando um praticante, isto é, praticante do ensinamento. É assim que falamos. Isto é o que deve fazer tanto o que quer ser "budista" quanto o que não quer ser "budista", quer apenas usufruir do treinamento...

A palavra religião nem existia no budismo por séculos. E até hoje, apesar de menos, você verá, pessoas de outras religiões na China, Coréia, Japão, Tailândia sendo assíduos praticantes do budismo, especialmente no sanbo zen você tem até monges, padres, sacerdotes de outros sistemas...

Se a pessoa segue uma religião é melhor que continue, descobrirá muito mais coisas sobre si mesma se não tomar a prática como uma religiosidade. A religiosidade é apenas um desencargo de consciência, para as pessoas que só seguem a si mesmas, que não se adaptam a verdades, regras, disciplinas que não sejam as suas próprias, que não querem ir nem um pouco além de suas margens de conforto, nem tem compromisso com a verdade, só unicamente com o prazer. Religião é algo bem mais sério. Não algo para ficar quicando de uma para outra ou para tomar apenas parcialmente. Nós aqui na ordem não brincamos com a religião dos outros.

Por isso a sua segunda pergunda é muito importante. A maioria das escolas exigem que se tenha um professor ou mesmo uma iniciação para se tornar praticante. Mas isso parece brincadeira. Quer dizer que não posso praticar isso se me fizer bem? Eu não penso assim. Buda disse que um bhikshu ou um brahmane é todo o que ouve o ensinamento e pratica, não disse que é todo que tem um professor ou iniciação.

E existem os sutras. Existem iniciações e permissões especiais para os mais avançados, mas para ser um praticante o principal é seguir os cinco preceitos, não quatro, não três, cinco. É o começo de tudo. Gostam de chamar aqui de treinamentos, isso é uma confusão, são preceitos, não treinamentos. Ouvir o dharma e aplicar o ensinamento, e para se considerar um praticante a condição é tomar os cinco preceitos, a diciplina moral. Sem isso não adianta nada, esqueça.

São três coisas que você precisa fazer. A primeira é essa. Tem que tomar os preceitos, adotá-los como lei. A outra é o tríplice treinamento:

1. Sila, virtude;
2. Samadhi, concentração e
3. Panna, ou prajna, sabedoria

Agora sim, treinamentos. Esses são os treinamentos.

 E tem que seguir os três fundamentos (sila, virtude; dana, generosidade e bhavana desenvolvimento da mente). Fundamentos, ou seja, sem isso deixa de ser o dharma.

Observe que é um método que tem a purificação da mente como ferramenta, mas também como objetivo e resultado. "Fazer o bem, evitar o mal e purificar a mente, estes são os ensinamentos de todos os budas". Você tem essa sentença também na Bíblia duas vezes, uma na Antiga Aliança e outra na Nova Aliança. E agora? Se os médicos passam para você um remédio que tem três substâncias ativas porque só as três juntas curam, você vai na farmácia e compra um que tenha apenas uma das substâncias ou duas porque o remédio é caro ou alguma substância é amarga e o que acontece? Você vai morrer! Não adianta.

[Risos]

Quem me procurar querendo aprender a meditar eu vou ver primeiro se a pessoa quer purificar a mente, se ela quer ser boa, amorosa. Se não, eu a enxoto. Meditar não serve para nada. O remédio só faz efeito com os preceitos, fundamentos e treinamentos, e estes você ainda vai ter que aprofundar depois em sua recuperação, com mais treinos, os paramitas e o voto do bodhisatva são o ápice da virtude, complementam o treinamento.

Os preceitos e treinamentos sozinhos fariam ainda bem melhor efeito que a concentração sozinha. Seria melhor que ele me procurasse para que eu ensinasse a ser uma pessoa boa, inofensiva ou generosa ou que me pedisse para tomar só os preceitos. Eu fico muito triste se numa turma algum confessa que está só interessado em "aprender a meditar". Tais pessoas são más, egoístas, e não sabem disso, se sentem zen, trancendentais, e não querem nem ouvir o outro, não há interesse pelo outro, são materialistas, querem se sentir bem, só isso.

Quase todas as escolas falam sobre tomada de refúgio como prerrogativa, mas algumas poucas escolas não, outras ainda pelo menos não fazem disso uma exigência. Isso é uma tradição que surgiu depois de alguns concílios, especialmente os ecumênicos, como exigência para os monges. Era uma tradição da Índia antiga, se chama tomar refúgio no mestre, no professor, aquele passa a ser o cuidador, o defensor, tudo, como um pai para um filho, o pai entregava o filho àquele, que seria um pai para ele e os outros como sua família. Os samanas podiam ser individualmente um refúgio para seus discípulos, pois esses abandonavam as velhas crenças, os sacrifícios em troca da proteção dos devas, os deuses da Índia, nesse caso haveria um líder e responsável pelos outros, que seria professor e eles o obedeceriam... No budismo passou a haver as três jóias como refúgio. Foi um remédio. Mas o verdadeiro refúgio era apenas na verdade (também chamada dharma). Se você obriga a pessoa a tomar refúgio no Buda, novamente temos uma religiosidade, a pessoa mal conhece o que Buda ensinou e já o toma como um deus da verdade e um protetor pessoal. Nós não devemos fazer tais exigências de uma fé cega.

P. No budismo mahayana ainda existe o refúgio no guru sempre?

R. Muitas escolas mahayanas continuaram com esse costume, mas também adicionaram ao refúgio nas três joias ainda o refúgio no guru e nos três reais refúgios, ou joias internas, a natureza búdica interior, a verdade transcendente, e aos iluminados do passado. Angumas escolas do vajrayana extendem isso ainda a outros níveis de refúgio ou de entendimento. Eu prefiro encarar como níveis de penetração no entendimento de um refúgio real do que como três tipos de triplo refúgio literais.

Isso tudo foi para satisfazer o culto a ancestrais que havia em  algumas regiões, ou às divindades que passaram a ser vistas agora como budas ou emanações do Buda Eterno em outra. Eu não recomendo essa prática e nós não exigimos nenhum tipo de refúgio. Buda disse [que] seja cada um refúgio para si mesmo. Parece duro, mas existem alguns aspectos bem duros no ensinamento. Buda disse, quando eu me for vocês têm o dharma... Ele não disse que ia nos guiar de um outro mundo. Nem disse que ia nos ajudar. O religioso budista tem seu refúgio no dharma. Isso não é uma regra nova, nem geral. Como recebi transmito. Se colocar isso como condição o dharma se fecha. Como o dharma é uma yoga não pode ser exclusivista, pois é uma ciência antiga. O dharma do taoísmo e do budismo e da yoga são dharmas "não-exclusivistas". Existem outros dharmas exclusivistas, não é problema, faz parte de sua condição, aqui não há essa condição, mas a condição de tomar os preceitos existe. Você não pode de jeito nenhum se dizer um praticante e sair se embriagando, mentindo, roubando. Não!

Existem ainda como eu disse o ensinamento das 6 perfeicoes para os iniciantes e 10 (12 ou 14, depende). Usamos 14 porque existem sutras em que não coincidem os dez resultando em acréscimos, mas podem também ser incluídos como aspectos dos 10.

E por última condição você precisa assimir o compromisso consigo mesmo de praticar as três únicas práticas que tornam você um praticante: a diciplina que inclui os preceitos e a prática moral, o ser generoso, dar sempre, se colocar sempre em último lugar, servir (especialmente no bodhisatvayana) e por último a concentração, que chamam de meditação, mas inclui consciência correta, atenção correta e concentração correta.

Recapitulando: preceitos, fundamentos e compromisso (esse compromisso pode ser com um professor, ou através de uma iniciação ou consigo mesmo em sinceridade). Daí você recebe os treinamentos e vai praticando, aprofundando e recebendo mais, e assim por diante.

Basicamente é isso todo o necessário para ser um praticante.

P. Mas não existe uma dimensão de fé, que pode ser entendida como religiosa?

R. Até podemos admitir alguns aspectos, como a fé, a confiança no professor. Mas você precisa dessa fé de qualquer modo para qualquer coisa. Se estuda medicina vai ter confiar, em alguma medida pelo menos, no professor, nos livros nos sinais que foi instruido a interpretar como sendo isso e aquilo. Se vai a uma cidade desconhecida você compra um mapa. Porque você confia no mapa? Pura fé. Você pode dizer "mas aí é diferente", você já estudou ciências sociais ou humanas? Para nós, é tudo baseado em fé. Aa! Não acredita? É porque você nao teve que estudar psicologia como eu!

Como eu disse antes o que define religião é a questão de religar-se a algo, geralmente um ser supremo, um estado anterior, um local. Não é se há fé ou não há fé. Muita coisa na vida é pura crença e não é religião. No budismo existem escolas até que falam de uma terra pura, mas não de um retorno, outras falam de um Buda Eterno, mas você não estava antes com ele. A questão do refúgio pode ser uma questão de fé, ou de religião, mas a origem desta prática, é totalmente diferente, o objetivo é outro.

Você pode ter a religião que quiser, isso aqui não interfere, isso interfere como um psicólogo, um psicanalista e um psiquiatra, trabalhando juntos, para você deixar de ser escravo de certos pesadelos que levarão sua vida a um colapso!

Fui bem exagerado agora, não? Não, eu penso assim mesmo. Não sei como se pode viver sem saber para onde vai, seja depois da morte ou daqui a alguns anos, nem em que tipo de pessoa vou me transformar, ou se vou estar em paz ou em conflitos e sofrimentos. Então eu não posso mais ser zen, não é verdade?

[RISOS]

P. Eu sou cristão e tenho um amigo da religião afro... Ele tem suas obrigações com orixás. De mim não posso ter outro refúgio que não seja Jesus Cristo, que não seja Deus triuno... Mas digamos que vou ser um praticante 100% do que é ensinado numa tradição por meu interesse na cultura se eu fosse dessa cultura, vamos supor, ou interesse no aspecto psicológico. Como conciliar? Isto seria possível? Porque parece possível da forma como o senhor apresenta.

R. Não tem problema. Você só vai precisar encontrar uma escola que aceite isso caso você queira oficialmente seguir tudo dentro da tradição. Mas não ha necessidade disso.

Em algumas tradições ou escolas sim, porque algumas você tem que receber uma iniciação, vão exigir isto, noutras você tem que prometer fidelidade e exclusividade, noutras a obrigação da tomada de refúgio. Essas escolos podem incluir tudo isso junto, são a maioria. Você teria que encontrar uma escola, como a sanbo zen por exemplo ou alguma do budismo primordial, ou algumas zen que não veja problema, por exemplo.

Mas o mais adequado nesse caso pode ser participar de uma ou duas escolas e estudar várias e se dedicar àquilo que você quer, se psicologia psicologia, se tradição tradição. Você pode ter problemas se a tradição for esotérica, pois provavelmente você não vai penetrar ou se deixarem você penetrar não vão mostrar tudo, sempre vão ver você como de outra tradição ou religião ou cultura ou mesmo como infiltrado, pode causar suspeita, de espião.

No geral, é porque aqui no ocidente o budismo é muito diferente do oriente, aqui se destaca muito a tradição, a oralidade, e se diz que lá é assim. Mas na maioria das escolas o mais valorizado são os sutras. Depois da partida do buda o mais referenciado é o dharma. Os sutras são a expressão mais completa do dharma, para a maioria das escolas. Em muitas deve ser lido o mesmo sutra em todas as reuniões, numas cantando as sílabas e muitas ate na língua original. A autoridade maior depois do Buda é o sutra. E você tem também em muitas o refúgio no guru ou professor que dificulta.

Mas apesar disso o mais importante nas tradições originalmente é seguir o ensino. E o ensino está nos sutras. Você pode ser um praticante solitário em qualquer lugar (existem até tradições de monges completamente solitários). Buda disse isso, essa é a herança e a autoridade. Está acima de professor e linhagens. Você pode se dedicar a qualquer coisa, o todo, ou partes, qualquer aspecto que queira aprender, ou ser um budista completo ou mesmo fundar uma sangha, só a partir dos sutras se você tem estudo suficiente ou se você quer formar uma justamente para estudarem juntos. Foi o próprio Buda que ensinou que seria dessa maneira. O que você não pode é se dizer um praticante e não praticar os preceitos e os fundamentos.

É claro que muitas tradições vão colocar outras coisas, como listas de linhagens que realmente não chegam ao Buda, ou mistérios ocultos nos textos. Eu fui de escola esotérica, sei disso. Mas ao contrário, os sutras são muito claros, muito bem explicados, não há dificuldade. A dificuldade só pode estar em sua mente se não entende. Então precisa buscar alguém ou uma escola.

O que podenacontecer é que em alguma religião possa haver fundamentos contraditórios aos fundamentos do dharma. Por exemplo se a religião tem como obrigações matar ou mandar matar, sacrifícios. O preceito do dharma de não matar de não matar se refere a todos os seres. Esse exemplo é bem claro. Mas podem haver outros fundamentos que não estejam tão claros, a pessoa deve ter uma boa orientação.

Mas se não há contradição siga com as obrigações de sua religião e evite o que vai contra ela, só isso basta para consciliar. Aqui nessa ordem muitos fazem isso, uns querem ir além da  psicologia budista e penetrar mais na tradição e fazem isso ainda. Nao é empecilho ao resultado como muitos dizem. Isso é uma superstição. Que sem refúgio ou sem exclusividade não se chega aos resultados é falso. Quando ouvir isso de algum professor duvide. Quando você não pratica [é que] você não chega a resultados!

P. Eu sou de outra religião não poderia tomar refúgio porque isso seria contrário a ela. É bom saber isso. Mas se tiver práticas ou alguma coisa que fira minha religião posso expor isso e posso não praticar?

R. É só não praticar isso. Ninguém precisa saber. Mas se quiser expor ou discitir isso não tem problema. Você só não pode ser praticante e fazer coisas que vão contra os princípios que já falei. Por exemplo, você não pode matar amimais, nem ser um açougueiro ou ladrão ou lobista. Não deixe sua religião a não ser que veja que ela é prejudicial a você ou aos seres, por exemplo causando sofrimento, matando, enganando, como prática...

P. Pelo que eu entendi eu não posso praticar apenas uma coisa, por exemplo, meditação, mas deixar os preceitos de lado...

R. Pode. Mas para que? Vai ser inútil e até prejudicial. A purificação é uma condição para que alcance alguma coisa na meditação por exemplo, ser generoso também é. Alguém que quer meditar e matar, roubar, mentir, falar palavras baixas ou ofensivas, ter relações sexuais impróprias ou se embriagar é só um egoísta mimado que quer aparecer ou fugir da culpa ou do sofrimento. Ele vai para o inferno. Meditar para que?

Existem escolas que não exigem nada. No zen não é assim. Se você não cumprir as exigências ao entrar nem pode sentar. É assim na vida. No shingon existem rituais a serem feitos cheios de rigor, se a pessoa detesta rituais obterá muito pouco ali.

Umas [escolas] vão deixando a pessoa ir testando os preceitos, gostam da tradução "treinamento" em vez de preceito, porque não os cobra responsabilidades. Se eu ver um aluno meu chingando ou falando palavrão ele só entra na sala se pedir perdão e se mostrar arrependido. Se roubar alguém eu o expluso. Se você chutar o sofá porque tropeçou na quina e ainda chingá-lo, vai ter que examiná-lo, se quebrou, e consertar, e pedir desculpas a ele calma e sinceramente, isto sim é treinamento, não agredir é preceito. Entendeu agora?

Tem que cumprir os três pré-requisitos. Mas chegará o momento de falar mais dessa parte. Alguma pergunta dento do tema exposto?

P. [Do próprio Hiroshi] Sabendo que estamos tratando de algo prático, o que vocês aprenderam hoje? Quem resume numa frase?

R. [De Davi Allen] Devemos procurar ver assim: tudo que nós experienciamos e chamamos de existente é passageiro e desprovido de realidade própria em si mesmo e por isso insatisfatório.

Hiroshi: Ótimo.


...

GASSHÔ






quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Vigência do Dharma por Buda

A Profecia sobre a Redução da Vigência do Dharma por Buda

por Octavio da Cunha Botelho
74883_464839106940_263212646940_5350177_3749270_n
Gravura reproduzindo o momento em que Pajapati Gotami insiste com Buda para ser ordenada a primeira monja budista.
            Quando lemos livros ou artigos escritos por adeptos ou por simpatizantes budistas, é possível encontrar estes autores se vangloriando do fato de Buda ter sido o primeiro, na história das religiões, a ordenar mulheres como monjas, elogiando assim o seu caráter tolerante com as mulheres. Entretanto, com base em uma investigação história imparcial e rigorosa, esta vanglória poderá ser infundada. Pelo que é possível verificar a partir dos textos religiosos, das inscrições e das descobertas da arqueologia, os dois primeiros líderes religiosos a ordenarem mulheres como monjas foram Mahavira, reformador do Jainismo, e Buda, fundador do Budismo. Ambos foram conterrâneos e contemporâneos, nos séculos VI e V a.e.c., sendo que o primeiro foi um pouco mais velho. Os dados não são abundantes e tampouco muito específicos, mas, tal como algumas passagens dos textos budistas deixam entrever, a ordem das monjas jainistas (sadhwis) foi fundada primeiro que a ordem das monjas budistas (bhikkhunis), ao mencionarem a existência de outras seitas que admitiam mulheres como ascetas, cujas referências podem ser às comunidades monásticas dos jainistas. O Kalpa Sutra, um dos mais importantes textos jainistas, informa que na época de Mahavira existiam 36 mil monjas (Jacobi, 1994: 267). Certamente, o número é exagerado, mas é capaz de, pelo menos, confirmar que já existiam monjas jainistas quando Buda ordenou a primeira monja budista, a sua tia e mãe de leite, Pajapati Gotami (a mãe de Buda, a rainha Maya, faleceu logo após seu nascimento, portanto ele foi amamentado e criado pela sua tia Pajapati Gotami), tal como uma passagem do Cullavagga menciona, mais especificadamente, no trecho onde são relatados os fatos que cercaram a ordenação desta devota budista.
Demora no registro escrito
            Na antiguidade indiana, época quando e local onde surgiu o Budismo, era comum os textos religiosos serem memorizados e transmitidos apenas oralmente durante muitas gerações, práticas que não foram diferentes com a tradição budista. As datas mais sugeridas para o nascimento e a morte de Buda são: 563 a.e.c. e 483 a.e.c. respectivamente, porém estas datas são controvertidas, a maioria dos autores coloca a data da morte (paranirvana) entre os anos 487 e 480 a.e.c. Após seu falecimento, os textos budistas foram conservados na memória dos monges e transmitidos apenas oralmente por cerca de quatro séculos até a passagem para a forma escrita no século I a.e.c., durante o Quarto Concílio Budista, convocado pelo rei cingalês Vattagamani no Sri Lanka (Hazra, 1982: 50 e Winternitz: vol. II, 1993: 10 e 21). A tradição cingalesa afirma que cerca de quinhentos monges trabalharam na tarefa de recitar e de copiar os textos durante este evento.
            Transcorrido tão longo tempo de transmissão oral e tanta demora até o registro escrito, é difícil acreditar na intocável originalidade do conteúdo. Akira Hirakawa denuncia: “Durante este tempo, os cânones mantidos pelas várias escolas foram expandidos e alterados”. E explica mais adiante: “Uma vez que um longo período transcorreu entre a época das compilações originais doSutra Pitaka e do Vinaya Pitaka e a época quando eles vieram a existir na forma atual, eles não podem ser restaurados em suas formas originais. Trechos mais antigos e mais novos dos textos foram misturados nos cânones em uso atualmente” (Hirakawa, 1990: 70). Então, em virtude desta demora na compilação escrita e a multiplicação de seitas logo nos primeiros anos, é comum encontrarmos um mesmo texto budista com conteúdos diferentes, quando comparadas as redações de distintas correntes. Portanto, esta ocorrência não é diferente com os textos do Vinaya Pitaka (coleção de textos budistas sobre as regras monásticas).
1108737475_3463
Monjas (bhikkhunis) budistas em oração no Nepal
O tanto que estes textos foram alterados, durante os quatro séculos de transmissão oral, não é possível se saber com exatidão agora, apenas conseguimos obter uma pista quando comparamos as diferenças na redação, de um mesmo texto compilado das versões anteriormente memorizadas por diferentes correntes. Esta demora na fixação por escrito e a multiplicação de seitas budistas nos primeiros séculos, com cânones distintos e redações diferentes, levou Edward Conze a desconfiar da originalidade: “Das palavras verdadeiras do Buda nada foi deixado” (…) “a seleção do que foi preservado é devido mais ao acaso do que às considerações de antiguidade e de mérito intrínseco” (…) “O ‘evangelho original’ está além de nosso alcance agora” (Conze, 1996: 08-9). E ainda mais: “O historiador que quiser determinar o que foi realmente a doutrina de Buda, se encontra literalmente diante de milhares de obras, que afirmam todas elas virem diretamente de Buda, e que, no entanto, contém os ensinamentos mais diversos e conflitantes”. (…) “O certo é que só se pode chegar ao extrato mais antigo das escrituras existentes através de inferências e de conjecturas”. (…) “Todas estas intenções de reconstruir um budismo ‘original’ só têm uma coisa em comum. Todas estão de acordo em que a doutrina de Buda não era o que os budistas entenderam o que ela era” (Conze, 1997: 34).
Tripitaka (Tipitaka)
            Trata-se do nome das três coleções (pitakas) de textos do Budismo mais antigo. Elas divergem conforme a corrente, portanto abaixo será usada a classificação da versão páli, por ser a que será utilizada na análise da profecia de Buda mais abaixo, cuja divisão é a seguinte:
A) Vinaya Pitaka (Coleção de Regras Monásticas), formada pelos textos:
  1. Patimokka
  2. Suttavibhanga
  3. Mahavagga
  4. Cullavagga
  5. Parivara
B) Sutta Pitaka (Coleção de Sermões de Buda), formada pelos textos:
  1. Digha Nikaya
  2. Majjhima Nikaya
  3. Samyutta Nikaya
  4. Anguttara Nikaya
  5. Khuddaka Nikaya
C) Abhidhamma Pitaka (Coleção de Textos Especulativos) formada por:
  1. Dhammasangani
  2. Vibhanga
  3. Dhatukatha
  4. Puggalapannatti
  5. Kathavatthu
  6. Yamaka
  7. Tika-patthana e
  8. Duka-patthana
A coleção de textos Vinaya
A Coleção de Regras Monásticas (Vinaya Pitaka) sobreviveu em sete cânones, cujos nomes das correntes vinayas, com a língua original e a língua na qual o texto sobreviveu entre parênteses, são enumerados abaixo (Prebish, 1994: passim e Sujato, 2012: 21):
A) da tradição Mahasanghika:
  1. Mahasanghika (Sânscrito, sobreviveu em tradução chinesa)
  2. Lokuttaravada (Sânscrito, sem tradução)
B) da tradição Sthavira:
  1. Mahaviharavasin (Páli, sobreviveu na língua original)
  2. Dharmaguptaka (Gandhari, sobreviveu em tradução chinesa)
  3. Mahisasaka (Sânscrito, sobreviveu em tradução chinesa)
  4. Sarvastivada (Sânscrito, sobreviveu em tradução chinesa)
  5. Mulasarvastivada (Sânscrito, sobreviveu nas traduções chinesa e tibetana).
A ordenação da primeira monja budista
14_-__Kanakprabhaji___Nuns_in_Morning_Prayer_02
Diferente de como muitos budistas se vangloriam, a ordem das monjas (sadhwis) jainistas foi fundada antes da ordem budista de monjas (bhikkhunis).
            Dos textos que formam a coleçãoVinaya (Regras Monásticas), interessa-nos aqui o capítulo X do Cullavagga, onde é relatada a história da ordenação da primeira monja por Buda, sua tia e mãe de leite, Pajapati Gotami. Este relato diverge em alguns detalhes quando comparamos as redações dos diferentes cânones doVinaya, de maneira que aqui será utilizada a versão páli do cânone Mahaviharavasin, seguida pela corrente Theravada (Rhys-Davids, 1989: 320s; Warren, 1995: 441-7 e Horner, 2001: 352s). Esta recensão relata que, depois de insistir por três vezes com Buda, para que as mulheres pudessem abandonar seus lares e entrarem para a vida monástica no SanghaPajapati Gotamise dirigiu para Vesali, onde se encontrava Buda, para então tentar mais uma vez. Chegando lá, acompanhada de cerca de quinhentas mulheres da região de Sakhya, com a cabeça raspada, com os pés descalços, com os membros empoeirados, com o rosto coberto de lágrimas, se colocou do lado de fora do pórtico do portão de entrada. Ao vê-la assim, Ananda, o discípulo e assistente de Buda, perguntou-lhe o motivo daquela aparência e daquele choro. Ela respondeu que estava assim porque Buda não lhe permitiu entrar para a vida monástica. Então, Ananda, decidiu interferir e se dirigiu ao local onde estava Buda para tentar mais uma vez, informando que sua tia, madrasta e mãe de leite, a grande Pajapati Gotami, estava no portão chorando porque desejava se tornar monja, mas não lhe foi permitida a entrada na ordem monástica. Daí, Ananda fez a solicitação da entrada deGotami na ordem por mais três vezes, o que o Buda recusou novamente. Enfim, Ananda fez então uma solicitação eloquente e comovente, o que finalmente resultou na aceitação do Buda, porém na condição de que Pajapati Gotami aceitasse previamente as Oito Regras Importantes (Atthagarudhammas).
            Estas regras para as monjas são seguidas até hoje nos países onde se conserva a ordem das monjas budistas (bhikkhunis), porém elas são bombardeadas por críticas das feministas que as consideram carregadas de sentimentos discriminatórios, depreciativos e preconceituosos com relação à mulher. Das oito regras, bastarão mencionar aqui apenas as duas mais discriminatórias e subjugadoras:
Regra 1: “Uma monja, que foi ordenada mesmo que seja por um século, deve reverenciar respeitosamente, levantar-se do seu assento, saudar com as mãos juntas, realizar a devida homenagem a um monge ordenado, mesmo que seja naquele mesmo dia. Esta regra deve ser honrada, respeitada, reverenciada, venerada, nunca ser transgredida durante sua vida” (Horner, 2001: 354 e Sujato, 2012: 47).
Regra 8: “De hoje em diante, advertência de monges pelas monjas é proibida, (enquanto) advertência de monjas pelos monges não é proibida” (Horner, 2001: 355).
            Obviamente, nem todos percebem estas regras acima com olhos aprovadores. Janice D. Willis, as avalia da seguinte maneira: “Estas oito regras especiais para mulheres servia para deixar claro o status separado e inferior das monjas comparado ao dos monges” (Willis, 1985: 62). Mais adiante, comentado sobre a oitava regra, ela acrescenta: “Claramente, tal regra pretendeu solidificar para sempre o lugar subordinado das mulheres dentro da Ordem Budista. Ainda mais, além de um período probatório de dois anos para as monjas, havia mais regras estabelecidas para elas do que para os monges. Também, frequentemente acontecia que os monges incorriam em menos punições que as monjas, por uma espécie idêntica de ofensa (Willis, 1985: 80).
A profecia da redução da vigência do Dharma
buddha 3
Buda profetizou que, com a entrada das mulheres na ordem monástica, a duração do Dharma seria reduzida em 500 anos.
            Após aceitar as ordenações dePajapati Gotami e das suas companheiras, Buda se dirigiu ao seu discípulo Ananda e proferiu a seguinte profecia preconceituosa de que: “se as mulheres não tivessem deixado suas casas e se tornado monjas, o verdadeiro dhammateria durado por mil anos. Agora, uma vez que as mulheres deixaram suas casas e se tornaram monjas, a verdadeira religião (dhamma) não durará muito tempo, durará somente quinhentos anos” (Rhys-Davids, 1989: 325; Warren, 1995: 447 e Horner, 2001: 356). Em outras palavras, as mulheres são o motivo para o encurtamento da duração da verdadeira religião em quinhentos anos, ao invés de durar mil anos, durará apenas quinhentos anos, em virtude da entrada das mulheres na ordem monástica. Uma curiosidade é que esta profecia só aparece com esta redação, onde é especificado o número de anos da redução da vigência do Dharma (verdadeira religião), na versão páli do cânone dos Mahavaharavasins, enquanto que, nos textos dos outros cânones não aparece assim. Por exemplo, na versão sânscrita do cânoneMulasarvastivada, a redação deste trecho é mais enxuta e aparece assim: “Exatamente, ó Ananda, o domínio do Dharma, se as mulheres abandonarem suas casas para se tornarem monjas, não continuará por muito tempo” (Paul, 1985: 84).
            Esta profecia pode ter tido efeitos em alguns países orientais de predominância budista, pois nalguns deles a ordem monástica das monjas (bhikkhunis) foi extinta há alguns séculos, tais como na Tailândia, no Sri Lanka e em Mianmar (antiga Birmânia), porém sobrevive precariamente no Tibet, na China e com um tanto mais de vigor em Taiwan. Existem alguns esforços para se restabelecer a ordem das monjas naqueles países onde foi extinta, mas as tentativas têm resultado em vão, sendo assim, as aspirantes precisam viajar para outros países para serem ordenadas.
            Acusar as mulheres pelo motivo do declínio de uma religião soa absurdo nos dias de hoje, quando as mulheres têm demonstrado grande capacidade e habilidade nas tarefas externas, enquanto que no passado só cumpriam, quase exclusivamente, tarefas domésticas, sendo que, muitas delas ocupam hoje alguns dos mais importantes cargos de liderança no mundo, fato inimaginável na época de Buda.
            Agora, se acreditarmos nesta profecia preconceituosa, ela deixa duas conclusões. Se Buda pretendeu dizer que a verdadeira religião (Dharma) é o mesmo que Budismo e que iria durar no máximo quinhentos anos, seu fim não aconteceu no prazo por ele apontado, uma vez que a religião budista existe há cerca de 2.500 anos e ainda é florescente em muitas partes do mundo, inclusive passou a ser objeto de crescente interesse no Ocidente a partir do século XX. Se ele, por outro lado, pretendeu dizer que, depois dos primeiros quinhentos anos, o Budismo não seria mais uma verdadeira religião, resta então investigar o que é enfim este Budismo atual, pois sem uma explicação convincente para esta última hipótese, parecerá que é uma religião com o prazo de validade vencido.
Obras consultadas
CONZE, Edward. A Short History of Buddhism. Oxford: Oneworld Publications, 1996.
______________ El Budismo: Su Essencia y su Desarrollo. México: Fondo de Cultura Económica, 1997.
HAZRA, Kanai Lal. History of Theravada Buddhism in South-East Asia: with Special Reference to India and Ceylon. New Delhi: Munshiram Manoharlal Publishers, 1982.
HIRAKAWA, Akira. A History of Indian Buddhism: from Sakyamuni to Early Mahayana. Honolulu: University of Hawaii Press, 1990.
HORNER, I. B. Women Under Primitive Buddhism. London: George Routledge and Sons, 1930.
___________ (tr.) The Book of the Discipline (Vinaya Pitaka), vol. V (Cullavagga). Oxford: The Pali Text Society, 2001.
JACOBI, Hermann (tr.). Jaina Sutras, Sacred Books of the East, vol. 22. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1994.
PAUL, Diana Y. Women in Buddhism: Images of the Feminine in Mahayana Tradition. Berkeley: University of California Press, 1985, p. 77-94.
PREBISH, Charles S. A Survey of Vinaya Literature. Taipei: Jin Luen Publishing House, 1994.
RHYS-DAVIDS, T. W. and H. Oldenberg (trs.). Vinaya Texts, part III (Sacred Books of the East, vol. 20). Delhi: Motilal Banarsidass, 1989, p. 320s.
SUJATO, Bhikkhu. Bhikkhuni Vinaya Studies: Research & reflections on monastic discipline for Buddhist nuns. Santipada, 2012.
WARREN, Henry Clarke. Buddhsim in Translations. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1995.
WILLIS, Janice D. Nuns and Benefectresses: The Real Role of Women in the Development of Buddhism em Women, Religion and Social Change. Yvonne Y. Haddad (ed.). Albany: State University of New York Press, 1985, p. 59-85.
WINTERNITZ, Maurice. A History of Indian Literature, vol. II. Delhi: Motilal Banarsidass Publishers, 1990.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A história do theravada


Desde o início deste blog tenho defendido o theravada (a escola à qual eu mesmo seguia a mais de uma década) como a escola mais antiga e mais ortodoxa. Apenas transmiti a informação tal qual recebi da tradição e confirmada por muitas outras escolas e por extensa pesquisa neste sentido.

Mas se todas as outras escolas que confirmam isso (ainda que hajam muitas que neguem também) estiverem erradas? Geralmente elas receberam essa informação da própria escola theravada e não há muita razão para que elas duvidassem isso enquanto escolas religiosas. Mas enquanto estudante de história obviamente temos que ir muito além disso. Se você colocar as palavras história e theravada em um buscador na internet, provavelmente você terá umas dez páginas de de opções que apenas vão de alguma maneira dar razão à lenda que a escola theravada é a mais antiga e que tem ligação com os primeiros concílios. Mas se você buscar textos, artigos históricos, pesquisas arqueológicas e históricas que partam de informações mais acuradas e investigadas nas fontes e documentos antigos teremos uma outra história, bem diferente dessa propagandeada antiguidade do theravada.

Para iniciarmos esta série sobre a história do theravada deixo aqui um video do amigo André Munis que me ajudou muito a encontrar mais informações sobre essa verdadeira história e constitui também um resumo do que tenho achado até agora. Assista, talvez seja muito surpreendente para você caso conheça a história comum apresentada por sites ou pelos próprios adeptos da escola theravada. Eu já vinha fazendo esta pesquisa quando era participante do theravada, devido a antiguidade de muitos textos que constituem o cânone chinês que (estranhamente?) são mais antigos que os do cânone pali, considerado o mais antigo. Não quis publicar para não contrariar ou chocar meus amigos theravada, mas depois experimentar suas reações sectárias quando você não concorda com e até acusações gratuitas sem qualquer fundamento, percebi que a grande maioria não desenvolve uma real amizade e pior ainda compaixão ou mesmo empatia pelos seus amigos, pelo contrário, a amizade e gentileza se reduz ao período de concordância ou de silêncio dos discordantes. A questão é que não lhes interessa a verdade, mas o que diz a tradição, embora os monges mais liberais são exautados mesmo rompendo até com os princípios mais básicos do dhamma. Por favor assista esse primeiro vídeo. Trari evidência de pesquisadores sérios que vão confirmar algumas coisas desse primeiro video.


https://www.youtube.com/watch?v=AyfFdHa3ug8&t=42s

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O COMEÇO



Numa sala com um pequeno tablado Ryokan entra balançando as mãos em saudação e diz, em voz suavemente cantada no seu sotaque japonês-americano, "meu nome é Ryokan Hiroshi, venho aqui como professor itinerante a convite de vocês"... E enquanto escrevia uma lista de temas num quadro dizia seu objetivo: ..."para estudarmos esses temas e outros que surgirão, eu falarei antes, apresentando e ensinando, pois vocês me tem por especialista, e depois conversaremos. Mas antes vamos às apresentações de cada um de vocês, por que estão aqui?"

Então ele sentou numa beira do tablado e foi mirando e apontando as pessoas segundo algum critério que transparecia no seu olhar, o que, ao final se percebeu, era por idade. As pessoas diziam seus nomes e a razão de estarem ali sentados naquelas cadeiras escolares como ele bem frisou conscientizando as pessoas de suas presenças ali e de suas razões pessoais para isso.

Essa abordagem próxima, atenta e impressionante atraiu tanto a atenção das pessoas que nenhum dos estudantes tem essa lista de temas, ninguém anotou, todos estavam concentrados naquela figura, talvez encantadora por sua simplicidade e inteligência. Depois disso ele apagou o quadro e escreveu um tema diferente do que figurava como primeiro da lista. E esse alguns anotaram, "Apresentação".

APRESENTAÇÃO

Bom dia, meus amigos, já fomos todos apresentados e conto com sua atenção e amizade para conversarmos sobre o tema que apresentarei hoje aqui, sucintamente, porque é um tema que vai em muitos conhecimentos, sobre a proposta clínica e terapêutica do médico, como se chamou a si mesmo, o Buda. Essa proposta, indo direto ao assunto, se pode classificar em três abordagens que são três momentos e, ao mesmo tempo, três desenvolvimentos que já estavam na verdade implícitos no primeiro.

Primeiro temos a buda-terapia auto [centrada], que é a forma que todos conhecem e se tornou a prática religiosa das religiões budistas praticamente em todas que é a chamada meditação; depois temos a abordagem realmente religiosa, decodificada para a maioria como devocional ao Buda, aos budas para outros, aos budas e bodhisatvas para outros, a um certo buda do passado para outros e a um certo buda do futuro para outros (que já veio, no entender de uns, e que virá no entender de outros, então observe que cada escola de budismo está preocupada apenas com sua linha e nenhuma fará um estudo como este nem jamais abordará o que abordaremos aqui hoje porque é uma visão de dentro e de fora de todas as escolas, como se fosse ciência da religião praticamente, mas feita por cientistas que passaram por todas as escolas em seu conjunto); depois finalmente temos a buda-terapia centrada no outro ou em todos os seres ou no caminho do bodhisatva como é conhecido.

Já devem ter notado que o estágio do meio é bem mais complexo e realmente, exigirá muito mais informação, é complicado, por isso deixarei por último, já que não teremos tempo de aprofundar nenhum deles, que pelo menos seja visto quando já tiverem uma ideia do que é o budismo na visão oriental, sua prática e seus resultados (algo que deveria ser sempre observado).

Então como foi pedido resumirei minhas teses apresentadas sobre o assunto para dar conhecimento pelo menos de sua existência e de que existem muitos estudiosos e muitas posições diferentes e que não existe consenso algum, como se quer fazer parecer, sobre determinados temas que geraram escolas filosóficas. Tudo que se conhece de budismo hoje não vem de nenhuma escola original única específica mas de combinações e desenvolvimentos da informação de um número de escolas que surgiram logo no inicio do budismo.

Com Buda ainda vivo já haviam duas escolas, ambas seguindo o ensinamento do Buda, uma que se formou nas andanças do Buda por terras mais distantes e lá permaneceu, e uma que o acompanhou desde o início até o fim da trajetória, sendo que nessa mesmo houve pelo menos uma grande cisão, com o Buda ainda vivo. Então na verdade seriam três escolas, mas esta não foi considerada mais seguindo o Buda então são duas. Isto fica mais explícito ou famoso no Sutra do Lotus, mas aparece em muitos outros suttas e sutras, é só prestar atenção.

Só que esta dissidência, que deixou de receber o restante dos ensinamentos, considerando-o como desnecessário para eles que eram já seguidores por muitos anos, influenciou muito as outras que surgiram depois, pois os monges que encontraram essa divisão deram bastante crédito a esses outros, que obviamente haviam vivido ao lado do Buda por muitos anos. Outro ponto é que essa dissidência gerou grupamentos diferentes o que resultou em grupamentos diferentes também de ensinamentos e de pensamento. E isso também aconteceu com as outras duas divisões originais. Não é nosso objetivo aqui hoje detalhar isso nem dar nome a essas escolas, mas só mostrar a diversidade de pensamento e sua origem no princípio do que se convencionou chamar budismo já.

Então vejam que não há como não ter havido confusão, por causa de um acontecimento desse... Portanto cada escola trás a sua verdade, não quer dizer dizer que alguma detenha o conhecimento certo, autêntico e completo, também não quer dizer que não, nem que tudo que existe possa ser relativizado em relação a escolas. Não, Buda existiu e ensinou ensinamentos, que são como são, o que se diz que ele disse não altera o que ele realmente disse, existe obviamente ali muito, muito mesmo, do que ele disse.

Por isso um cânone budista não é como um cânone cristão, algo que possa ser tido como em teologia, inerrante apesar de trabalho humano de escrita, mas [sim] como trabalho humano de escrita que contém não exatamente o que Buda disse, mas da forma como foi transmitido pela tradição oral e posteriormente anotado. Esclarecido esse ponto, então entendam com isso o porque de minha abordagem, como se fosse de fora, para apresentar aos que estão de fora: porque vocês estão de fora, mesmo os que aqui são budistas, pois estão dentro de sua própria visão ou da visão de sua escola e de fora de todas as outras escolas, ou seja, da maior parte do que se chama budismo. Mais tarde verão que não existe tanta intersecção assim entre as escolas como o convívio faz parecer.

A TERAPIA CENTRADA NO INTERIOR OU AUTO-CENTRADA

Dito isso posso passar ao ponto que quase todas as escolas, 80% eu diria, mais ou menos, estão de acordo, sobre a necessidade da técnica, seja ela como for, que se chama meditação (afinal estou aqui para falar de meditação e como vocês podem convidar um professor que não ao menos gosta da palavra meditação para falar de meditação? Veremos). Não quero falar de visões de escolas aqui, mas apenas do ensinamento puro e simples como está registrado, seu aspecto prático.

A meditação é uma prática extremamente fácil. O ensino errado dela como uma prática difícil é apenas um erro didático (claro os professores budistas não tiveram que estudar didática nem psicologia, nem oratória, etc.). Esse erro consiste em confundir o resultado mais profundo com a própria prática. A prática é extremamente fácil, seu resultado, a concentração (Buda nunca falou em meditação) é que é difícil para nós quando estamos destreinados nisso. A controvérsia surge apenas [1] no que é essa concentração, e [2] quais são os seus níveis necessários e [3] para que ou por que precisamos praticar a concentração, chamada aqui no ocidente de meditação (não vou tocar nesses pontos controversos [1 e 2], isso vocês descobrirão por si mesmos se praticarem, somente falo do último [do 3], "para que"). Ou seja, há grande confusão por causa do uso dessa palavra, que confunde a prática com seu resultado. No oriente geralmente não existe tanta confusão porque são duas palavras diferentes, bhavana, a prática, o procedimento, para se atingir dhyana, ou a concentração. Um dos motivos para que eu use mais a palavra dhyana...

Meditar, a prática, consiste simplesmente em prestar atenção. Estão surpresos? É isso mesmo que vocês ouviram, a prática da meditação é só e simplesmente prestar atenção. A ferramenta mais importante da prática é a atenção. Buda não invetou isso, é claro. Ele praticou o que lhe foi ensinado, só que ele foi a resultados diferentes, ele tinha outras buscas diferentes daquelas de seus professores. Mas em todas as culturas essa prática existe, cada uma envolta em seus próprios procedimentos.

Aqui vocês tem essa herança judaica muito forte, os judeus meditam, o seu procedimento é meditar na lei dia e noite, ou seja, é focar a atenção no conhecimento da lei e no seu cumprimento, no comportamento o tempo todo de acordo com a lei. Os cristãos herdaram em parte essa meditação, mas muito menos, pois seu procedimento é mais dividido em duas partes, meditar na escritura, ou seja, ler remoendo, recebendo a inspiração divina, lentamente e com plena atenção e a outra é bem parecida, eu diria que igual nesse aspecto, à budista, que é estar todo o tempo vigilante, e mais, como se Jesus fosse voltar a qualquer momento, com a lembrança do Cristo também como habitando seu corpo, dentro, e como modelo de comportamento, externamente, e ainda, aliado a isso, em oração todo o tempo.

No Egito e na Grécia antigos a meditação derivada da escola hermética era refletir longa e concentradamente sobre um assunto considerado superior. Hermes relata isso logo no inicio de seu Corpus Hermeticum, como estava compenetrado, refletindo acerca dos mistérios da existência, de Deus e dos seres, e sua mente foi como que arrebatada, e nisso se baseia a meditação hermética. Em yoga, que, apesar de ainda não sistematizada na época, influenciou muito a vida e a forma de meditar do Buda, a atenção se dirige ao corpo, à respiração, e então só depois no mais profundo, como o budista entra logo no início, [atenção] na mente e na consciência, seu funcionamento, etc.. Semelhantemente no taoismo, a contemplação passiva dos fenômenos, da natureza, semelhantemente  entre os indígenas aqui da Norte América, semelhantemente a outras culturas que podem ser chamadas xamanísticas...

O problema é que as pessoas não conhecem muito a história do oriente e lançam tudo isso muito para trás no tempo, mas todas essas coisas praticamente pertencem ao mesmo milênio surgindo em lugares diferentes, mas mais tarde com a expansão do comércio e das conquistas se encontrando no mundo palestino, também ao norte da Índia e no mundo helenista onde se popularizam em comparação com o que eram antes. Como Patanjali sistematizando yoga mais ou menos no ano 150 a.C.; o conhecimento hermético entre a elite grega em Alexandria; o budismo também provavelmente encontrou os essênios e com certeza mais tarde os cristãos e depois os gnósticos. Haviam monges itinerantes budistas no mundo helenista da época em que Jesus estava andando por ali e provavelmente eles constataram semelhanças e diferenças entre os procedimentos tanto que surgem três vertentes bem diferentes mais ou menos a partir daí. Surge a do budismo tântrico que dizem ter sido influenciado por hinduísmo, certamente por yoga, politeísmo, panteísmo; também surgem o budismo que enfatiza o caminho do bodhisatva, talvez até influenciado pelo cristianismo; e uma corrente que se aproximava mais do estilo de vida mais simples do budismo inicial influenciado muito especialmente pelo taoismo, mas também provavelmente pelo mundo helênico como se pode ver na arte na China da época que tinha sua relações comerciais e no uso de termos e conceitos mais ocidentais pelos eruditos budistas.

Mas no budha-dharma, no ensinamento de Buda, há um procedimento indispensável, por isso ele sistematizou esse procedimento e criou um trinamento intensivo, durante parte do dia para o desenvolvimento desse treinamento, que tem dois momentos, o treinamento em si e a vivência do que foi treinado no dia a dia, isso é toda a budha-terapia em sua abordagem que primeiro quero falar, esse treinamento. Vamos a ele.

O TREINAMENTO FORMAL

Aqui está uma frase do Buda encontrada no Digha Nikaya, vamos ler juntos: “Impermanentes são as coisas condicionadas, sujeitas à origem e cessação. Tendo surgido, elas são destruídas, a sua cessação é a verdadeira bem-aventurança.” [(usei a tradução mais conhecida encontrada em www.acessoaoinsight.net para maior exatidão)] Não há dúvida no budismo sobre isso, sobre esse assunto. Mas vamos prestar atenção ao que diz.

Nos devemos obedecer aos preceitos e treinar ninguém transcende isso. Um desperto não ultrapassa isso, porque quando ele está livre ele não consegue mais não cumprir os preceitos, parece uma contradição, mas é isto, quando ele está livre, desperto ele não transcende os preceitos nem o treinamento, pois ele naturalmente os cumpre e já está treinado.

Por outro lado vamos prestar atenção ao que diz: "Impermanentes são as coisas condicionadas, sujeitas à origem e cessação."  Ele não está falando de cultivo, de treino, todas as coisas condicionadas, treinadas, cultivadas são condicionadas, são surgidas e devem desaparecer porque "tendo surgido, elas são destruídas, a sua cessação é a verdadeira bem-aventurança." Veja bem, elas, todas, vão desaparecer, e mais, seu desaparecimento é a verdadeira bem aventurança. Isto é o princípio do paradoxo aplicado à iluminação, mas isso é outro assunto, pois aqui temos que ver quem está treinando e quem será liberto, o condicionado está treinando, o eu [(ego)] está treinando e obedecendo para que o verdadeiro eu seja liberto, o incondicionado seja liberto. O que vai despertar? O que vai ser libertado? Aquilo que nunca esteve preso, aquilo que nunca foi apagado, nunca dormiu, nunca sonhou. O que é isso? O incondicionado, o não alterado, o não mutável, o permanente, nas palavras de Buda, O Eterno. O que está aí dentro de você, mas você não tem acesso, permanece como que morto, não é a consciência biológica, não é a consciência animal, independe disso, é a consciência pura, que não surge na dependência de matéria e mente nos doze elos, é o que o zen chama de verdeiro eu, que os cristãos chamaram de Cristo dentro [(ou Cristo interno nas traduções latinas e tradições místicas)], que os hermetistas chamaram de nous [(ou "seu próprio nous" com letra minúscula)], e assim por diante.

Eu tenho que falar assim porque Buda o chamou simplesmente de incondicionado. E não diferenciou o incondicionado de Nirvana, nem de Dharmakaya, a não ser em pouquíssimos sutras, como os Tathagatagarbha-sutras, e isto ficou muito difícil para os ocidentais e para os japoneses também, por isso fazemos comparações e as tradições tântricas do Japão também deram diferentes nomes, para entendermos o que Buda está chamando de desperto, de buda, de liberto, de tathagata. Thathagata é o que assim veio e assim retornou, que nunca se alterou, que permanece idêntico ao que sempre foi, puro, incontamindo como é descrito em alguns suttas, vazio de todas as impurezas, de toda dependência (pois incondicionado), de sofrimento, de toda e qualquer mudança, variação, impermanência. A destruição do que é condicionado, ou seja, visões errôneas da realidade que criam o mundo de ilusão, é a verdeira bem-aventurança, visões errôneas, sentimentos errôneos, desejos errôneos...

Que adianta eu dizer isso amigos, algo tão filosófico? Para que vocês não caiam no erro de quase todos os budistas do oriente, de estarem cultivando a atenção vigilante [(mindfulness)] no eu ou do eu ou do eu biológico. Não é essa consciência que precisa ser percebida, é a consciência sutil, aquela que está sempre presente, por trás de todas as outras e de todos os estados, mesmo no sonho sem sonhos (ou escuridão sem memórias ou nada). Vocês estão identificados com a mente ou com o corpo, com a consciência biológica, não vai adiantar reforçar isto, vai piorar, vocês tem que acordar para a consciência verdadeira que independe do corpo e da mente, é para isso todo o método e todo o discurso de Buda, não para outra coisa. O que vocês me dizem?

Platéia: Me parece complicado para nós ocidentais entendermos as definições que não são definições do Buda, as definições negativas, que vão descrever as coisas pelo que elas não são, tais como não-eu e Nirvana, ou se isso é um estado ou algo. É que me parece muito difícil, eu mesmo tenho receio, temo praticar algo que não tenho definido qual o resultado a longo prazo ou a curto prazo. O que devemos procurar? Qual é o objetivo? Eu vejo que isso não é definido na meditação quando se ensina.

Resposta: Geralmente no começo não, a pessoa tem que ir vendo por si mesma. Eu considero uma didática não boa. Depois que você está treinado e tranquilizar a mente e atingir alguma concentração deve dirigir sua mente ou para os graus dhyana ou para percepções específicas do ensinamento como as três marcas da existência, os doze elos da originação interdependente, etc.. O problema é que só ensinam isso para monges ou no máximo em alguns casos para pessoas muito experientes. Também discordo dessa didática. Logo no começo a pessoa tem que saber o que fazer e para onde vai com sua mente e consciência. Se não fica perdido, afinal tudo que conhecemos se encontra na consciência, ainda que não esteja aparecendo no momento...

P. Mesmo assim eu acho difícil, em comparação com outros sistemas, que a pessoa se anime para praticar algo que o levará a uma espécie de anulação de si mesma.

R. Não precisa ser assim. Isso pode acontecer numa escola mal dirigida, mal orientada, ou numa escola que é uma distorção (como existem de fato). O uso da concentração como falei tem objetivos, de conhecimentos e compreensões específicas, e você pode usar também como ferramenta para seus objetivos pessoais e desobstruções pessoais, porque o processo da meditação antes de tudo é de remoção de obstáculos. Isto que está falando pode ser uma questão da linguagem. Veja...

A escola dhyana, o chan, o zen talvez tenham sido as primeiras a investir na solução do problema da limitação da linguagem em expressar as realizações espirituais. Por um lado através de paradoxos, questões complicadas e aparentemente insolúveis como os koans, gestos, ações, ações simbólicas, por outro lado através de um densa produção intelectual e filosófica que procurava explicar justamente o inexplicável em muitos de seus pontos. É nessa literatura que vai tratar os mesmo fenômenos com novos termos sem se preocupar muito com os tradicionais, mas buscando termos que expressem mais o tipo de realização que eles se propunham e muitos haviam realizado.

Então temos a experiência do "verdadeiro eu" em vez de a "experiência do vazio de um eu"; o "auto-conhecimento" ou "conhecimento de si mesmo" em vez do conhecimento "das coisas como realmente são"; "esquecer de si" em vez de mindfulness simplesmente ou de "consciente da consciência" ou do "lembrar-se de si" de outros; consciência-apenas ou mente-única (uns dizem) e até Deus no lugar de Nirvana ou incondicionado, muitas vezes. Se vocês observarem bem, isso parece até uma heresia, trocando as definições negativas antigas (o que a escola [zen] da não-mente vai tentar resgatar depois), por conceitos positivos. Mas na verdade observe que todos os primeiros conceitos não tem referencial na experiência nem no mundo tal qual conhecemos, não existe como ter uma ideia deles, essa mudança de termos vai dar uma ideia a pessoa daquele que buscamos. Isto é apenas uma ferramenta, pois, como alguém vai dedicar a vida a uma libertação a qual sequer pode conhecer as características? Ou como você disse bem, como alguém vai se dedicar a algo que parece ser descrito como uma aniquilação de si mesmo?

Para os ocidentais isso fica fácil de entender se compararmos às palavras de Cristo, quer ver?

"Negue-se a si mesmo", parafraseando, "Quem perder sua vida por amor a mim vai ganhá-la, mas quem agarrá-la vai perdê-la". É quase o mesmo. Entendeu agora como num passe de mágica?

P. Sim. Verdade.

R. Essas escolas são na verdade primeiro uma nova linguagem, não uma nova escola, uma nova filosofia. Mas eles procuram dar o entendimento da mesma coisa. Veja, não tem como você ter uma ideia das "coisas como realmente são" se você nunca viu as coisas como realmente são e só conhece as impressões, aparências, ilusões, tem que haver um referencial ao menos na linguagem. O que é atenção plena [mindfulness]? Pergunte a si mesmo se já teve essa experiência. Como é o não-eu [non-self]? Não é, você não vai encontrá-lo, não vai encontrar um "não-eu". Como é Nirvana?Como vou saber como é isso para que eu possa querer isso? Acontece que aquele encontro de culturas que falei proporcionou isso, ver no outro, o que é seu próprio, imaginar que é o mesmo, mas com outra explicação, sob outra perspectiva, ou pelo menos algo similar e usar então uma ferramenta muito utilizada pelo Buda, comunicar o incomunicável através de símiles, e agora temos novos símiles. Isto pôde também resultar em novos conhecimentos e até inovações técnicas. Uma nova forma de compreender também proporcionou outras novas compreensões, algumas se incorporaram à tradição, outras geraram novas tradições, outras transcenderam a tradição entrando nos campos da filosofia, psicologia; outras apenas foram vistas e comentadas nessas tradições e meios budistas e não-budistas.

P. Eu não vejo essa prática como você falou nos cristãos, nem vejo que eles tenham esse entendimento, eu não vejo relação com o budismo.

R. Eu falei de cristãos, não de denominações que se dizem cristãs, não de pessoas que se dizem cristãos, não de instituições. Todo cristão deve estudar a bíblia, e tudo isso que falei é bem claro lá, todos que estudam a bíblia sabem disso, devem ter um comportamento, que obedeça os mandamentos incluindo os de Jesus, que não escandalize a outros, deve ser sempre vigilante, meditar e orar constantemente, etc., tudo que falei e mais muitas coisas. Os que não praticam ou nem sequer sabem disso podem ser chamados cristãos? Não. Mas eles se dizem cristãos. O mesmo ocorre no budismo. Não pense que é diferente, são pessoas. Você sabe como é no oriente? Lá muitos se dizem budistas mas não sabem o que é dana, sila e bhavana, não estudam os ensinamentos, não meditam, não cumprem os preceitos nem se dedicam a alcançar os paramitas, e existem escolas e instituições assim como existem no cristianismo que não ensinam a essência do ensinamento, como há no cristianismo instituições que não ensianam os fundamentos, essas não ensinam os fundamentos budistas, mas coisas muito diferentes como rituais e mantras. Existem pessoas que simplesmente assistem a cultos e nada praticam, outros que simplesmente se dizem budistas por ter nascido numa família budista. Eu diria até que são uma maioria, que se enquadra em alguma dessas características ou em todas elas. Essas pessoas que agem assim e essas instituições podem ser chamados budistas? Não.

O problema aqui é que todos acreditam que nasceram numa cultura cristã e que sabem o que é o cristianismo, mas não sabem. A mesma coisa os críticos acadêmicos não conhecem o que criticam, não estudam o que criticam, como podem criticar? Ou só podem criticar e atribuir histórias e características que não existem. A mesma coisa os que vêem o budismo como uma forma de adoração a Buda e que Buda é como um Deus, isto está correto? E se eu disser que existem pessoas que se dizem budistas que pensam assim? Então vocês vão culpar essas pessoas ignorantes da visão errada das outras pessoas, certo? Exatamente as mesma coisas acontecem, em todo lugar, porque somos humanos, imersos em maya, ilusão, malícia e ignorância. O conhecimento proporcionado pelo simples estudo já evitaria boa parte desses enganos.

Além dessa relação (negativa aqui), está claro que a prática comum de todos os exemplos que dei é dirigir a atenção para um foco, todos estão praticando uma concentração em algo, é este o ponto. A prática é a mesma embora mude [a] o objeto de meditação ou [b] a interpretação do que ele é ou [c] o método pelo qual se dirige a atenção ou [d] a interpretação das experiências obtidas. Você levou em consideração todas essas variáveis? Geralmente as pessoas não as considera, simplesmente vão lá e pensam sob apenas uma delas, uma única ótica. Se não tem consciência do similar também terá pouca ou nenhuma consciência das variáveis e vice-versa (coisa de pesquisador). Além disso todos os sistemas que falei tem uma norma moral, semelhante inclusive, uma dieta mental, e todos propõem temas e leis sublimes eternas. Eu não posso exigir que percebam como um cientista da religião ou um psicólogo ou antropólogo, por isso mesmo estou mostrando isso, de forma bem simples e resumida, digerida, pois apesar de não haver necessidade de se aprofundar nisso, é necessário que reconheçamos os pontos que devemos ver de agora em diante, que não é mais o mesmo foco superficial de antes. Todas essas religiões, sistemas, filosofias e culturas que falei tem sua própria dana-sila-bhavana, não? Precisamos compreender o outro, do ponto de vista do outro, se estiverem errados não vamos conquistá-los com críticas, mas com nossa visão, podemos apresentar um aspecto que não estão vendo se pudermos perceber. A grande ligação é essa. Há uma falha, um limite humano de perceber, em qualquer pessoa, em todas, um que vê uma coisa não vê outra e assim por diante. Religião podemos discutir, debater, apresentar e nisso passamos a ver mais do outro. Espero que tenha visto agora...

Todos esses que falei propõem uma certa unificação final ou retorno a um estado original, uma mudança, e que isso clareará sua visão no futuro. Nenhum esforço nesse sentido merece nosso desprezo, todos tem algo a nos informar e nós também temos algo a informar. Se isto surtirá efeito, se será praticável e se será levado à prática é outro assunto. Em todas essas culturas existem pessoas em vários níveis de compreensão dessa mesma cultura. Não estou me colocando como um budista nem como um cristão nem como um psicólogo nem como um pesquisador, mas como justamente alguém como qualquer outro que debate sobre qualquer coisa que conhece e que viu. As pessoas desenvolveram uma reação contra o religioso que tenta convencer outros de sua religião e não vêem que essa defesa passa por justamente criar falsas idéias sobre aquilo que aquela pessoa vai apresentar e ignorar o que ela vai apresentar. Depois vamos por aí criticando o que ignoramos, o que decidimos ignorar. Não é dizer que devemos considerar todas como válidas ou similares, mas estamos falando agora de pessoas, sua colocação foi sobre as pessoas e devemos tratá-las com a mesma amabilidade como se nós mesmos estivéssemos ali naquela situação.

[Havia mais uma pergunta dessa mesma segunda pessoa e a resposta, mas o texto foi perdido.]