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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O Budismo e a Ordem

Do livro, sendo editado, PALESTRAS DE UM MESTRE ZEN NÃO-ZEN E NÃO MESTRE
Por Ryokan Hiroshi
Na ordem existem budistas e seria tolo pensar que budistas se converteriam à outras doutrinas ou à totalidade de nossas doutrinas pela simples demonstração de verdades. Infelizemnte ou felizmente o budismo surgiu num segundo momento como religião e sua crença ou acitação não é tão derivada da razão como querem fazer pensar aqui no ocidente, mas muito mais uma questão de simpatia ou abertura. 
Seria tolo também pensar que pessoas de outras religiões que fazem parte da ordem vão aceitar o budismo por simples demonstração de verdades, ou de sua utilidade terapêutica, ou de sua racionalidade, ou qualquer outra coisa que se ache que o budismo possui como força de convencimento. E nem é esse o objetivo aqui, mas sim, numa série bem simples, apresentar o tipo de budismo que representamos que não é nem completamente o budismo ocidentalizado repleto de elementos da culura e religiões do ocidente nem o mais fundamentalista como aqueles que se baseiam estritamente no cânone e tradições. Um caminho do meio disso, com uma fundamentação teórica e prática muito firme.
Se eu estivesse diante de uma platéia budista ou de interessados no budismo geral ou na escola cittamatra teria que falar outras coisas, mas para vocês da ordem e para pessoas que nos acompanham ou têm interesse eu posso falar, não como budista, nem como professor numa escola ou ordem e sim como buscadores da verdade e "verdadeiros" que somos. Então devo dizer da visão da escola, da ordem e da minha própria visão o que é isso.
A visão da ordem
Aqui nós não vemos budismo como religião e não vamos falar disso agora que é tão claro para nós que é totalmente dispensável discorrer e tomar nosso tempo com tal inutilidade, pois não importa. Nossa primeira visão (pode existeir outra) é que Buda foi humano e ensinou uma terapia para curar nossa mente porque ela não está bem. Não, não está nada bem. Discutir tais classificações [de budismo] é um sinal claro disso. É o mesmo que estando com a flexa envenenada já enfiada ficar discutindo se o líquido que vai nos curar é um remédio, um antídoto ou uma porção, em vez de tomar o líquido. 
Somos doentes e um homem, Sidarta, saiu de seu palácio à procura da cura e quando encontrou ele passou mais de quarenta anos ensinando de várias maneiras e a vários tipos de pessoas como curar sua loucura, a alucinação de sua própria mente. Então o budismo da ordem é isso, uma terapêutica. E essa é toda a história.
Buda no mundo helénico é um dos terapeutae. Sabemos que os essênios que são uma parte de nossa ordem levavam esse nome e que beberam provavelmente dessa sabedoria de primeira mão, já que muitos budistas, inclusive monges, viveram na efervescência cultural daquele lugar. Os essênios sorveram de várias sabedorias. E essa é uma ordem de sabedorias, não de religião, religião cada um tenha a sua e a cumpra bem.
Mas há pessoas na ordem que não se enquadram nas religiões existentes nem querem ficar irreligiosos, elas querem fazer parte de algo, eu entendo, eu mesmo era assim antigamente, queria saber o que era preciso para me considerar já budista ou o que fosse. Então a ordem tem um caminho e uma religião para cada pessoa. O que ela tem são as vias e dentro das vias um lado de cada é uma religião. 
Dentro da via budista temos dois movimentos já, o anterior e o atual, a F.B.N.A. que foi a construção de decisão de como ia ser e a F.E.B.B. que é como ela é.  E como ela é? Dentro da F.E.B.B. a pessoa pode encarar sua religião como budista ou encarar o budismo como sua forma de análise psíquica ou uma psicologia. O que caracteriza, como se descreve, como é nossa fraternidade budista?
É assim, se parece muito com o zen, mas não é o que se poderia dizer exatamente zen. Partindo disso vemos sua característica, enchuta, resgatadora dos fundamentos, prática, simples. Mas não entendemos ainda sua doutrina. Essa doutrina é o lado complicado, dizem, mas que vou mostrar bem clara e simples daqui a pouco. Ela se parece com a escola jonang tibetana, (a chamada herética, não essa que eles hoje estão já aceitando de novo).Então ela parece uma doutrina do "vazio do outro" como a jonang. Mas, não é só isso, é isso e a outra visão, do múltiplo, ainda por um terceiro ângulo essa doutrina é uma espécie de fundamentação epistemológica, podemos dizer que é fundamentalmente citramatra. 
Essa doutrina é nossa escola, se pode dizer que é fundamentalmente citramatra e a filosofia dela é chamada yogacara. Adotada por escolas, umas zen, por exemplo. Não importa, o que importa é o que ela é, não o que dizem dela ou quem a adota. Basicamente ela diz que tudo é mente, ou melhor, que tudo é consciencia. E isto é tudo, está dito todo o corpo da doutrina. 
A visão da escola budista consciência-apenas 
Se fossemos todos atentos bastaria que eu dissesse isso e pronto, estaria tudo explicado e tudo entendido e todos sairiam iluminados ou quase ou a caminho. Mas não é assim, não é? ... Por isso há tantas explicações tantos textos, discussões, aulas, livros, e essa é talvez a escola que mais produza livros e talvez os mais extensos. Tudo é muito simples e está dito nessa única sentença: tudo é consciência apenas.
Mas como há esse defeito, essa doença mental nossa aqui, nós não entendemos logo o que significa isso, como é isso. Então temos que passar anos praticando, sentando, limpando a casa, arando a terra com enxada, lendo livros, fazendo orações... até que um dia conseguimos ver isso que é tão simples e tão claro, tão lúcido, tão perfeito. Como podemos não ter visto isso antes?!
Conclusão
Então é isso. O budismo da ordem é isso. É uma terapia psicológica que a ordem toda usa e uma religião para todos que queiram encará-la assim, e ter encontros formais como qualquer outro grupo religioso budista. Onde nós empeendemos em entender corretamente essa visão, e vê-la de fato, como ela é, por nós mesmos. 
Então fazemos as práticas e os estudos necessários e adotamos a postura moral caso já não tenhamos de outras fontes, o que é muito comum, a família, a religião, certos valores; e juntando esses três na vida, num momento nós sentamos e abandonamos tudo por esse tempo, para vermos isso, como tudo é consciência, para nós mesmos sermos budas um pouquinho para ir acostumando e sendo cada vez mais.
O grupo é a Fraternidade de Estudantes de Budismo que aqui no Brasil se chama "do Brasil", F.E.B.B.. Como é isso, como ela funciona, o que pratica, quando se reúne, quais são os textos sagrados. Meus filhos... Isso só pode ser aprendido numa convivêcia e compartilhamento de estudos e experiências. É o que descreverei em seguida bem resumidamente e detalhando sempre o que é importante. Mas para saber mesmo vai levar pelo menos cerca de um ano. 
Na ordem não existem grupos, não se formam grupos, nem de estudos, é só professor e estudante diretamente. O que existe e pode acontecer é que pessoas já na fraternidade se reunam em torno disso ou criem grupos de prática ou dêem palestras, então como aqui se pode fazer um grupo ligado diretamente à F.E.B.B. ou indiretamente atravez do coordenador que poderá revelar ou não essa ligação ou que eu seja seu professor... O que se faz e se deve fazer é ensinar o que importa, essa parte prática psicológica, não há tempo para outra coisa nem monastérios nem academias nem cerimônias, a vida é curta e a morte pode chegar a qualquer instante, e onde sua mente está é o que importa. Onde ela está agora?
Perguntas
Qual o significado do seu nome?
Pergunta fora do assunto. Tudo bem. Meu nome é Ryokan Hiroshi Igarashi. Significa Pousada Próspera Cinquenta Tempestades. Ryokan é um tipo de pousada típica japonesa com objetos da cultura do japão e quartos com nome de flores. Hiroshi é generoso ou próspero, e próspero. E Igarashi significa cinquenta tempestades. É uma pousada próspera que protege você de cinquenta tempestades até que você tenha condições de ir só e ter sua casa protegida. Deve ser isso que devo ser.
O senhor é de qual tradição?
De todas e de nenhuma. Já perticipei e estudei de muitas. Vamos lá. Excluindo-se as não budistas, umas zen, umas tântricas, theravada, uma shin [terra-pura], a do sutra-do-lotus-apenas, e tive interesse em estudar tenday e shingon, e agora mais só dhyana. A escola do bárbaro ruivo (ou loiro), Boddhidharma, historicamente falando. Mas de Sidharta na verdade. Buda não ensinou escolas, nem tradições, nem sutras, nada disso, pior ainda rituais e devocionais a ele próprio, ou não? Buda ensinou técnicas psicológicas, formas de ver correta, caminho óctuplo, é o centro, não tem escolas.
Você disse que não importa a escola, mas falou da escola cittamatra como a escola da ordem. E falou sobre influências culturais e a importância da prática e não ensinou nenhuma prática. Eu queria saber sobre isso.
É que budismo não ensina escolas... Cada escola é que ensina sua visão de budismo. A maioria nem fala que existem outras visões, ou seja, outras escolas. Veja, ainda falei isso, poderia dizer que Buda disse assim e pronto, todas as outras visões seriam desconsideradas. E é o que acreditamos. Que Buda ensinou isso, há outros detalhes, mas esse é o ponto. Falar de escolas e se posicionar como uma é só um aviso, de que outros vão discordar, e de que nossa posição é essa, por respeito a outras visões eu falo, mas também aviso, olhe, em outras coisas é discutível, mas não abrimos mão do fundamento, e para nós o fundamento é esse, consciência-apenas. O fundamento prático é o caminho óctuplo, o fundamento moral, podemos dizer, são os paramitas e o fundamento epistemológico, ontológico, cosmológico, genealógico, etc. é consciência apenas. Assim como Buda ensinou aos Brahmanes o caminho de alcançar o mundo de Brahma e isso é considerado mais apenas como uma conversa específica com aqueles do que um detalhe importante do caminho, precisamos separar os detalhes importantes do caminho de outros ensinamentos mais particulares ou conversas com alguém, e deixar de fazer doutrina em cima disto. Buda não disse aos Brahmanes, "olhe, Brahman não existe, atingir o mundo de Brahman não é objetivo", nem disse "o que existe é o não-eu, Nirvana é não-eu, eu vou ensinar a religião certa, me adorem e estarão salvos". As coisas humanas acrescentadas na boca dos budas sempre vão deturpando o ensinamento. Tudo isso foi predito por ele. E ele disse que se você conservar o fundamento não perderá, ele não disse "quem conservar tudo que falei não se perderá", ele disse quem conservar o fundamento não degeneraria no caminho. 
Isso responde sua outra questão sobre influências culturais. Buda não está ensinando uma cultura, nem dizendo para você abandonar sua cultura, nem sequer sua religião, mas os pontos de vistas errôneos, as ações errõneas, consequentemente as visões, discursos e ações errôneas que existem nessas. Mas em todo lugar que chegou o budismo, mesmo Sakyamuni estando lá, o budismo incorporou influências e elementos da cultura local, a cosmologia, por exemplo. Isto não é importante, nem positiva nem negativamente, a não ser que tais elementos vão contra o ensinamento. Dizer que budismo é psicologia é uma clara leitura que nossa cultura faz do que seja budismo, dizer que é uma religião foi uma leitura que a cultura da época fez, não tem problema, dá no mesmo. Mas Buda ensinou apenas o dharma, isto é, o ensinamento.
Sobre prática, a prática de hoje foi uma nova visão, tente ver isso, veja se não é assim, se que tudo o que conhece e pensa existir não é consciência. Tudo é consciência de. Você não pode ver nada além disso. Qualquer coisa que sente ou conhece ou cria ou que possa imaginar é sempre apenas consciência de alguma coisa. Por favor observe e veja isso. Veja se não é assim...
Muuuito obrigado. Gasshô.

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