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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Quatro Esforços

 “Quatro esforços. O esforço de (a) contenção, (samvara-padhanam), (b) abandono, (pahana-padhanam), (c) desenvolvimento, (bhavana-padhanam), (d) preservação, (anurakkharana-padhanam). Qual é (a) o esforço de contenção? Aqui um bhikkhu ao ver uma forma com o olho, ele não se agarra aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade do olho descuidada, ele será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Ele pratica a contenção, ele protege a faculdade do olho, ele se empenha na contenção da faculdade do olho (do mesmo modo com os sons, aromas, sabores, tangíveis e objetos mentais). Qual é (b) o esforço de abandono? Aqui um bhikkhu não aceita um pensamento de cobiça, de raiva, de crueldade que tenha surgido, mas o abandona, dissipa, destrói, faz com que desapareça. Qual é (c) o esforço de desenvolvimento? Aqui um bhikkhu desenvolve o fator da iluminação da atenção plena, que tem como base o afastamento, desapego e cessação que amadurece no abandono. Ele desenvolve o fator da iluminação da investigação dos fenômenos ... Ele desenvolve o fator da iluminação da energia ... Ele desenvolve o fator da iluminação do êxtase ... Ele desenvolve o fator da iluminação da tranqüilidade ... Ele desenvolve o fator da iluminação da concentração ... Ele desenvolve o fator da iluminação da equanimidade, que tem como base o afastamento, desapego e cessação que amadurece no abandono . Qual é (d) o esforço de preservação? Aqui um bhikkhu mantém com firmeza na sua mente um objeto de concentração favorável que tenha surgido, assim como um esqueleto, ou um cadáver cheio de vermes, azulado, cheio de buracos, inchado." - Digha Nikaya 33, 10. 

CITTA-KKHANA: ‘Momento-de-Consciência’

Do DICIONÁRIO BUDISTA de Nyanatiloka
Manual de Termos Budistas e Doutrinários
Terceira edição revisada e ampliada editada por Nyanaponika
Tradução: Teresa Kerr e Revisão: Arthur Shaker

CITTA-KKHANA: ‘Momento-de-Consciência’, é o tempo ocupado por um único
estágio no processo de percepção ou série cognitiva (
cittavithi; v. viññana-kicca). Esse
momento por sua vez é subdividido em momento genético (
uppada), estático (thiti) e
dissolvente (
bhanga). Um momento desses é dito nos comentários ser de duração
imensamente curta e não durando mais do que uma bilionésima parte do tempo de um
flash de luz. Como quer que seja, nós sabemos por experiência que é possível dentro de
um simples segundo sonhar inumeráveis coisas e eventos. No A. I, 10 é dito: “Nada, Oh
monges, sei que muda tão ràpidamente como a consciência. Dificilmente alguma coisa
pode ser encontrada que pode ser comparada com esta mudança tão rápida da
consciência”. – (App.:
khana).


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

AKASA

Do DICIONÁRIO BUDISTA de Nyanatiloka
Manual de Termos Budistas e Doutrinários
Terceira edição revisada e ampliada editada por Nyanaponika
Tradução: Teresa Kerr e Revisão: Arthur Shaker


AKASA: ‘Espaço’, de acordo com os Comentários existe 2 tipos: 1. espaço limitado
(paricchinnakasa ou paricchedakasa), 2. espaço sem fim (anantakasa), i.e., espaço
cósmico.
1. Espaço Limitado, sob o nome de akasa-dhatu (elemento espaço), pertence à
Corporeidade Derivada (v. khandha, Sumário I; Dhs. 638) e à sextupla classificação dos
Elementos (v. dhatu; M. 112, 115, 140). É também um objeto da meditação de Kasina
(q.v.) – É definido como se segue: “O elemento espaço tem as características de
delimitação da matéria. Sua função é indicar as fronteiras da matéria. Manifesta-se
como os limites da matéria; ou sua manifestação consiste em ser intocado (pelos 4
grandes elementos), e nos buracos e aberturas. A causa aproxima é a matéria delimitada.
É por conta do elemento espaço que se pode dizer das coisas materiais delimitadas que
‘isto está acima, abaixo, ao redor, daquilo’. (Vis. XIV, 63)
2. Espaço sem fim é chamado em Asl. ajatakasa, ‘desembaraçado’, i.e., espaço sem
obstrução ou vazio. É o objeto da primeira Absorção Imaterial (v. jhana), a Esfera do
Espaço sem limite (akasanañcayatana). De acordo com a filosofia do Abhidhamma, o
Espaço sem Limite não tem realidade objetiva (sendo puramente conceitual), o qual está
indicado pelo fato que não está incluído na Tétrade do Saudável (kusala-tika) o qual
compreende a realidade inteira. As escolas budistas posteriores o consideram como um
dos diversos Estados Incondicionados ou Não criados (asankhata dharma), - uma visão
que é rejeitada no Kv. (v. Guia p. 70). O budismo Theravada reconhece somente o
Nibbana como o Elemento Incondicionado (asankhata-dhatu; v. Dhs. 1084).

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ANAPANA-SATI

Do DICIONÁRIO BUDISTA de Nyanatiloka
Manual de Termos Budistas e Doutrinários
Terceira edição revisada e ampliada editada por Nyanaponika
Tradução: Teresa Kerr e Revisão: Arthur Shaker

Muitas pessoas querem saber como é a prática profunda, completa e correta da meditação budista e em que ela é tão diferente das outras, na prática e em seus resultados. Eu digo que existe uma forma entre as várias ensinadas pelo Buda que é bastante profunda e mesmo assim pode ser aos poucos assimilada por qualquer iniciante, desde que a estude e pratique diariamente, tendo como resultado o Nirvana.
Por favor, aprenda a meditar através das palavras do próprio Buda. Nesse verbete Nyanatiloka organizou de forma bastante completa e didática toda esta instrução como foi dado pelo próprio Buda.
Em seguida, como se fosse um apêndice auxiliar, coloquei os conceitos básicos usados nesse ensinamento, extraídos do mesmo dicionário. Para mais detalhes e demais termos você pode adquirir o dicionário ou mesmo baixá-lo gratuitamente na internet.- Kalyanadhamma 

ANAPANA-SATI: ‘Plena atenção na Inspiração e Expiração’, é um dos exercícios mais
importantes para atingir a concentração mental e as 4 absorções (jhana, q.v.).
No Satipatthana Sutta (M. 10, D. 22) e em outros lugares, 4 métodos de prática são
dados, os quais podem também servir como base para a meditação do insight. O
“Discurso da Plena Atenção na Respiração” (Anapanasati Sutta, M. 118) e outros
textos, tem 16 métodos de prática, os quais são divididos em 4 grupos de 4. Os primeiros três se aplicam tanto à tranquilidade (samatha, q.v.) quanto para a meditação
do insight, enquanto o quarto se refere à prática do puro insight apenas. O segundo e o
terceiro grupo requerem o atingimento das Absorções.
“Com a mente atenta ele inspira, com a mente atenta ele expira”.
I. (1) “Quando fazendo uma longa inspiração ele sabe: “Eu faço uma longa inspiração”;
quando fazendo uma longa expiração ele sabe: “Eu faço uma longa expiração”.
(2) “Quando fazendo uma curta inspiração ele sabe: “Eu faço uma curta inspiração”;
quando fazendo uma curta expiração ele sabe: “Eu faço uma curta expiração”.
(3) “Claramente percebendo o corpo inteiro (da respiração) eu inspiro”, assim ele
treina a si mesmo; “claramente percebendo o corpo inteiro (da respiração) eu expiro”,
assim ele se treina.
(4) “Acalmando essa função corporal eu inspiro”, assim ele se treina; “acalmando essa
função corporal eu expiro”, assim ele se treina.
II. (5) “Sentindo êxtase (piti) eu inspiro”, assim ele se treina; “sentindo êxtase eu
expiro”, assim ele se treina.
(6) “Sentindo alegria eu inspiro”, assim ele se treina; “sentindo alegria eu expiro”,
assim ele se treina.
(7) “Sentindo a formação mental (citta-sankhara) eu inspiro”, assim, ele se treina;
“sentindo a formação mental eu expiro assim”, ele se treina.
(8) “Acalmando a formação mental eu inspiro”, assim ele se treina; “acalmando a
formação mental eu expiro”, assim ele se treina.
III. (9) “Claramente percebendo a mente (citta) eu inspiro”, assim ele se trein;
“claramente percebendo a mente eu expiro”, assim ele se treina.
(10) “Alegrando a mente eu inspiro”, assim ele se treina; “alegrando a mente eu
expiro”, assim ele se treina.
(11) “Concentrando a mente eu inspiro”, assim ele treina a mente; “concentrando a
mente eu expiro, assim ele se treina.
(12) “Libertando a mente eu inspiro”, assim ele se treina; “libertando a mente eu
expiro”, assim ele se treina.
IV. (13) “Refletindo sobre a impermanência (anicca) eu inspiro”; assim ele se treina;
“refletindo sobre a impermanência eu expiro”, assim ele se treina.
(14) “Refletindo sobre o desapego (viraga) eu inspiro”, assim ele se treina;
“refletindo sobre o desapego ele expira”, assim ele se treina.
(15) “Refletindo sobre a extinção (nirodha) eu inspiro”, assim ele se treina;
“refletindo sobre a extinção eu expiro”, assim ele se treina.
(16) “Refletindo sobre o abandono (patinissagga) eu inspiro”, assim ele se treina;
“refletindo sobre o abandono eu expiro”, assim ele se treina.
No M. 118 é mostrado como esses 16 exercícios levam às 4 Fundações da Plena
Atenção (satipatthana, q.v.), a saber: 1-4 contemplação do corpo, 5-8 contemplação das
sensações, 9-12 contemplação da mente (consciência), 13-16 contemplação dos objetos
mentais. Então é mostrado como esses 4 Fundamentos da Plena Atenção conduzem aos
7 fatores da iluminação (bojjhanga, q.v.); então estes levam à libertação da mente (cetovimutti, q.v.) e à libertação através da sabedoria (pañña-vimutti, q.v.)
Literatura: Anapanasati Samyutta (V. LIV) – Pts. Anapanakatha – Completa explicação da prática no Vis. VIII, 145
ff. – Para a antologia compreensiva dos textos canônica e comentá
rios, ver Mindfulness of Breathing, Nanamoli
Thera (Kandy 1964, B.P.S.).
PITI: ‘Êxtase’, entusiasmo, (traduzido também como deleite, felicidade); interesse. É
um dos fatores mentais ou concomitantes (
cetasika) e pertence ao Grupo das Formações
Mentais (
sankhara-kkhandha). Como, nos textos dos Suttas, está frequentemente ligado
a uma palavra composta, com ‘alegria’ (
pamojja) ou ‘felicidade’ (sukha), alguns
tradutores ocidentais têm erroneamente tomado essa palavra como sinônimo desses 2
termos.
Piti, entretanto, não é uma sensação ou um sentimento, e, portanto, não pertence
ao Grupo das Sensações (
vedana-kkhandha), mas pode ser descrito psicològicamente
como ‘interesse jubiloso’. Como tal pode estar associado com os estados de consciência
saudáveis, assim como os estados não-saudáveis ou neutros.
Um elevado nível de Êxtase é característico de certos estágios na meditação de
concentração, na prática de Insight (
vipassana), bem como nas primeiras duas
Absorções (
jhana, q.v.) No último aparece como um dos Fatores de Absorção
(
jhananga; v. jhana), e é mais forte na segunda Absorção. Cinco níveis de intensidade
na meditação do Êxtase são descritos no Vis. IV, 94ff – É um dos Fatores de Iluminação
(
bojjhanga, q.v.).
CITTA: ‘Mente’, ‘Consciência’, ‘Estado de Consciência’, é um sinônimo de mano
(q.v.) e viññana (v. khandha e Tab. I) – Dhs. divide todos os fenômenos em consciência
(
citta), concomitantes mentais (cetasika, q.v.) e corporeidade (rupa).
Em
adhicitta, ‘Mentalidade Elevada’, significa a mente concentrada, apaziguada, e um
dos 3 Treinamentos (v.
sikkha). A concentração (ou intensificação) da consciência é um
dos 4 Caminhos para o Poder. (v.
iddhipada).
SANKHARA: Esse termo tem, de acordo com seu contexto, diferentes formas de
significação, as quais devem ser distinguidas cuidadosamente.
(I) No seu mais frequente uso (v. a seguir 1-4) o termo geral ‘Formação’ pode ser
aplicado, com as qualificações requeridas pelo contexto. Esse termo pode se referir
tanto ao ato de ‘formar’ ou ao estado passivo de ‘tendo sido formado’ ou a ambos.
1. Como segundo elo da fórmula da ‘Originação Dependente’ (
paticca-samuppada,
q.v.),
sankhara tem o aspecto ativo ‘formando’ e significa Karma (q.v.), i.e., atividades
volitivas saudáveis e não-saudáveis do corpo (
kaya-s.), fala (vaci-s.) ou mente (citta-ou
mano-s.). Essa definição ocorre, por ex., no S. XII, 2, 27. Para s. nesse sentido, a
palavra ‘Formação-Kármica’ tem sido cunhada pelo autor. Em outras passagens, no
mesmo contexto,
s. é definido em referência a (a) Formações-Kármicas meritórias
(
puññ’abhisankhara), (b) demeritórios K. (apuññ’abhisankhara), (c) Imperturbáveis K.
(aneñj’abhisankhara), por ex. no S. XII, 51; D. 33. Essa tripla divisão cobre a atividade
kármica em todas as esferas da existência: as Formações Kármicas meritórias estendidas
à Esfera Sensual e à Matéria Sutil, as demeritórias somente à Esfera Sensual e a
‘imperturbável’ somente à Esfera do Imaterial.
2. Os acima mencionados 3 termos,
kaya-, vaci- e citta (ou mano)-s., são algumas vezes
usados num sentido um pouco diferente, a saber, como (1) função corporal, i.e.,
inspiração e expiração (por ex., M. 10), (2) função verbal, i.e., pensamento conceitual e
pensamento discursivo, (3) função mental, i.e., sensação, percepção, etc. (por ex. M.
118). Ver
nirodha-samapatti.
3. Também denota o Quarto Grupo da Existência (
sankhara-kkhandha), e inclue todas
as ‘Formações Mentais’, seja que pertençam à consciência ‘karmicamente formada’ ou
não. Ver
khandha, Tab. II, e S. XXII, 56, 79.
4. Ocorre mais além no sentido de qualquer coisa formada (
sankhata, q.v.) e
condicionada, e inclue todas as coisas que existem no mundo, todos os fenômenos da
existência. Esse significado se aplica, por ex., à bem conhecida passagem “Todas as
formações são impermanentes. . . sujeitas ao sofrimento” (
sabbe sankhara anicca. . .
dukkha). Nesse contexto, entretanto, s. está subordinado ao termo amplo e que a tudo
abarca,
dhamma (coisa); pois dhamma inclue também o Elemento Incondicionado ou
Não-formado (
asankhata-dhatu), i.e., Nibbana (por ex., em sabbe dhamma anatta,
“todas as coisas são sem um self”)
.
(II) Sankhara significa também algumas vezes ‘esforço volitivo’, por ex., na fórmula
dos Caminhos para o Poder (
iddhi-pada, q.v.); no sasankhara-, e asankharaparinibbayi (v. anagami, q.v.); e nos têrmos do Abhidhamma, asankharika- (q.v.) e
sasankharika-citta, i.e., sem esforço = espontaneamente, e com esforço = induzido.
Na literatura ocidental, na inglesa bem como na alemã,
sankhara é às vezes mal
traduzido como ‘tendências subconscientes’ ou similarmente (por ex., Prof Beckh:
‘unterbewusste Bildekraefte’, i.e., forças formativas subconscientes). Essa má
interpretação deriva talvez do uso similar na literatura sânscrita não-budista, e é
inteiramente inaplicável à conotação do termo no Budismo Páli, como listada acima sob
I, 1-4. Por exemplo, dentro da Originação Dependente
, s. não é nem subconsciente nem
uma mera tendência, mas é uma volição kármica completamente ativa e consciente. No
contexto dos 5 Grupos da Existência (v. acima I, 3), alguns poucos dos fatores do Grupo
das Formações Mentais (
sankhara-kkhandha) estão também presentes como
concomitantes da subconsciência (v. Tab. I-III), mas certamente não são restritos a ela,
nem são meras tendências.
ANICCA: ‘Impermanência’ (ou como nome abstrato, aniccata, ‘impermanência’) é a
primeira das três Características da existência (
tilakkhana, q.v.) É do fato da
impermanência que, na maioria dos textos, as outras duas Características, sofrimento
(
dukkha) e não-self (anatta), são derivados (S. XXII, 15; Ud. IV, 1).
“Impermanência das coisas é o surgimento, o desaparecimento e mudança das coisas, ou
o desaparecimento das coisas que vieram a aparecer. O significado é que essas coisas
nunca persistem da mesma forma, mas que elas estão desaparecendo e se dissolvendo
momento a momento”. (Vis. VII, 3).
A impermanência é o aspecto encontrado em todos os fenômenos, seja material ou
mental, grosseiro ou sutil, interno ou externo: “Todas as formações são impermanentes”
(
sabbe sankhara anicca; M. 35, Dhp. 277). Que a totalidade da existência é
impermanente é algo frequentemente apontado em termos dos 5 Agregados (
khandha,
q.v.), as 12 Bases Sensoriais pessoais e externas (
ayatana, q.v.), etc. Somente o Nibbana
(q.v.) o qual é incondicionado e não uma formação
(asankhata), é permanente (nicca,
dhuva
).
O insight que leva ao primeiro estágio da libertação, Entrante-na-Corrente (
sotapatti, v.
ariya-puggala), é frequentemente expresso em termos de impermanência: “O que quer
que seja sujeito da originação, está sujeito à cessação” (v. Dhammacakkappavattana
Sutta, S. XLVI, 11). Em sua última exortação, antes do Parinibbana, o Buddha lembra
seus monges da impermanência da existência como um estímulo para o esforço
determinado: “Atenção agora, bhikkhus, eu os exorto: Formações estão sujeitas ao
desaparecimento. Empenhem-se determinadamente!” (
vayadhamma sankhara,
appamadena sampadetha
; D 16).
Sem o insight profundo na impermanência e na insubstancialidade de todos os
fenômenos da existência, não há o atingimento da libertação. Por isso, a compreensão
da impermanência obtida pela experiência meditativa direta, encabeça duas listas de
Conhecimentos do Insight: (a) Contemplação da Impermanência (
aniccanupassana) é o
primeiro dos 18 principais tipos de Insight (q.v.), (b) a Contemplação do Surgimento e
do Desaparecimento (
udayabbayanupassana-ñaña) é o primeiro dos 9 tipos de
conhecimento os quais levam a “Purificação pelo Conhecimento e Visão do Progresso
do Caminho” (v.
visuddhi VI). – Contemplação da Impermanência leva à Libertação
Incondicionada (
animitta-vimokkha; v. vimokkha). Aqui colocada como excelente a
faculdade da confiança (
saddhindriya), aquele que atinge dessa forma o Caminho de
Entrante-na-Corrente, é chamado de Devoto- da-Fé (
saddhanusari; v. ariyapuggala) e
nos sétimos estágios superiores ele é chamado de Liberado-pela-Fé (
saddha-vimutta). –
Veja também
anicca-sañña.
VIRAGA, ‘Desaparecendo’, desapego, ausência de desejo sensual, desapaixonamento.
Aparece frequentemente junto com
nirodha, ‘cessação’ (1) como um nome para
Nibbana, (2) nas contemplações (a) formando a quarta tétrada nos exercícios da Plena
Atenção na Respiração (v.
anapanasati 14), (b) dos 18 Principais Insights (No. 5); v.
vipassana.
De acordo com os Com., pode significar (1) destruição momentânea do fenômeno, ou
(2) o absoluto ‘desaparecimento’, i.e., Nibbana. Nas acima mencionadas 2
contemplações, significa a compreensão de ambas, e o Caminho atingido por tal
compreensão.
VIRAGA, ‘Desaparecendo’, desapego, ausência de desejo sensual, desapaixonamento.
Aparece frequentemente junto com
nirodha, ‘cessação’ (1) como um nome para
Nibbana, (2) nas contemplações (a) formando a quarta tétrada nos exercícios da Plena
Atenção na Respiração (v.
anapanasati 14), (b) dos 18 Principais Insights (No. 5); v.
vipassana.
De acordo com os Com., pode significar (1) destruição momentânea do fenômeno, ou
(2) o absoluto ‘desaparecimento’, i.e., Nibbana. Nas acima mencionadas 2
contemplações, significa a compreensão de ambas, e o Caminho atingido por tal
compreensão.
ANUPUBBA-NIRODHA: As 9 ‘Extinções Sucessivas’, são as 8 extinções alcançadas através das 8 absorções (jhanas, q.v.) e a ‘extinção” da sensação e percepção’ (v.
nirodha-samapatti), como é dito no A. IX. 31 e D. 33: “Para o que entrou na primeira absorção, as Percepções Sensoriais (kama-sañña) se extinguiram. Tendo entrado na segunda absorção, o Pensamento Conceitual e Pensamento Discursivo (vitakka-vicara, q.v.) se extinguiram. Tendo entrado na terceira absorção, o Êxtase (piti, q.v.) é extinto. Tendo entrado na quarta absorção, a inspiração e a expiração (assasa-passasa, q.v.) são extintas. Tendo entrado na Esfera do Espaço Sem limite (akasañancayatana), as percepções da Corporeidade (rupa-sañña) são extintas. Tendo entrado na Esfera da Consciência Sem Limites (viññanancayatana), a percepção da Esfera do Espaço Sem Limites é extinta. Tendo entrado na Esfera do Nada (akincaññayatana), a percepção da esfera da Consciência Sem Limites está extinta. Tendo entrado na Esfera da Nem-Percepção-Nem-Não-Percepção (neva-sañña
nasaññayatana
) a percepção da Esfera do Nada está extinta. Tendo entrado na Extinção da Percepção e Sensação” (sañña-vedayitanirodha), percepção e sensação são extintas”. Para maiores detalhes v. jhana, nirodha-samapatti.

Observações pessoais:
Citta seria bem melhor traduzido como consciência. Mente e consciência são coisas muito diferentes no budismo, como alma e espírito respectivamente , que são diferentes no cristianismo. Isso tem gerado confusões históricas terríveis. Existem várias palavras que são traduzidas como consciência no cânone, sendo que elas falam de coisas completamente diferentes umas das outras. Isto se dá pela deficiência dos idiomas ocidentais quanto a esses termos, que simplesmente não existem na maioria dos idiomas. E mesmo o termo citta se refere também a vários tipos diferentes de consciência. Mas também porque muitos aspectos psicológicos e tipos de consciência diferentes em nós também não foram notados em nossa cultura.
Extinção se refere normalmente à extinção das impurezas que só é alcançada completamente ao atingir o despertar completo, por sua vez o despertar completo só pode ser alcançado com a extinção das impurezas. A extinção é do sofrimento, das impurezas e da ignorância. Então “A ignorância foi extirpada e surgiu o verdadeiro conhecimento, a escuridão foi extinta e surgiu a luz, como ocorre com aquele que permanece diligente, com esforço correto e decidido.” – MN4. Eis todo o caminho, o método, o objetivo e sua realização numa única sentença. Outros métodos fora dos suttas são especulações posteriores. Para mais detalhe veja o Majjhima Nikaya 8 no qual Buda ensina o caminho da extinção. Outras explicações e comentários parecem destoar com o ensinamento do cânone em que Buda fala explicitamente que a extinção não é aniquilação. Auto aniquilação inclusive é uma das ideias errôneas, ou heresias, que conduz a estados aflitivos. Isso é falado pelo Buda no MN2.22.-Kalyanadhamma 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Ambattha e o Orgulho Ferido

Digha Nikaya 3

 Ambattha Sutta

Somente para distribuição gratuita


1.1 Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava perambulando por Kosala com uma grande sangha de bhikkhus até que por fim acabou chegando num vilarejo brâmane denominado Icchanankala, ficando na densa floresta de Icchanankala. Naquela ocasião, o Brâmane Pokkharasati estava vivendo em Ukkhattha, uma propriedade real com muitos habitantes, rica em pastagens, árvores, rios e grãos, uma concessão real, uma doação sagrada que lhe foi dada pelo rei Pasenadi de Kosala.[1]

1.2. E Pokkharasati ouviu: “Gotama, o contemplativo, o filho dos Sakyas, que adotou a vida santa deixando o clã dos Sakyas, está na densa floresta de Icchanankala. E acerca desse mestre Gotama existe essa boa reputação: ‘Esse Abençoado é sublime, digno, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, iluminado, sublime. Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta geração com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. Ele ensina o Dhamma, com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. É bom poder encontrar alguém tão nobre.’

1.3. Agora, naquela época Pokkharasati tinha um pupilo, o jovem Ambattha, que era um estudante dos Vedas, um mestre dos três Vedas com os seus mantras, liturgia, fonologia e etimologia e as histórias como quinto elemento; hábil em filologia e gramática, um perito em filosofia natural [2] e nas marcas de um grande homem, [3] reconhecido e aceito pelo seu mestre nos três Vedas, através das palavras: ‘O que eu sei, você sabe; o que você sabe, eu sei.’

1.4. E Pokkharasati disse para Ambattha: “Estimado Ambattha, Gotama o contemplativo  .... está habitando na densa floresta de Icchanankala. E acerca desse mestre Gotama existe essa boa reputação ... Agora, estimado Ambattha, vá ver o contemplativo Gotama para descobrir se esse relato é correto ou não, e se o Mestre Gotama é como dizem dele. Assim conheceremos o Mestre Gotama por seu intermédio.

1.5. “Senhor, como irei descobrir se esse relato é correto ou não e se o Mestre Gotama é como dizem?”
“Estimado Ambattha, as trinta e duas marcas de um grande homem foram transmitidas através dos nossos mantras e o grande homem que as possuir tem apenas duas opções. Se ele viver a vida em família ele se tornará um regente, um monarca justo que irá governar  de acordo com o Dhamma; [4] conquistador dos quatro pontos cardeais, que estabelecerá a segurança no seu reino e que possuirá os sete tesouros.[5] Que são: a Roda Preciosa, o Elefante Precioso, o Cavalo Precioso, a Jóia Preciosa, a Mulher Preciosa, o Tesoureiro Precioso e como sétimo o Conselheiro Precioso. Ele terá mais de mil filhos que serão corajosos e heróicos e que aniquilarão os exércitos inimigos. Ele governará, tendo conquistado esta terra circundada pelo mar, sem bastão ou espada, através do Dhamma. Mas se ele deixar a vida em família e seguir a vida santa, então ele se tornará um arahant, um Buda perfeitamente iluminado, aquele que remove o véu do mundo. [6] E eu, Ambatha, sou o transmissor dos mantras e você é o recebedor.

1.6. “Sim, senhor,” ele respondeu. Ele se levantou e depois de homenagear Pokkharasati, mantendo-o à sua direita, subiu na sua carruagem puxada por um jovem garanhão, acompanhado por vários jovens brâmanes, ele foi em direção à densa floresta de Icchanankala. Ele foi até onde a estrada permitia o acesso das carruagens e depois desmontou da sua carruagem e seguiu a pé.

1.7. Agora, naquela ocasião muitos bhikkhus estavam caminhando para cá e para lá ao ar livre. Então, Ambattha foi até eles e perguntou: “Veneráveis senhores, onde ele está agora, o Mestre Gotama? Nós queremos ver o Mestre Gotama.” 

1.8. Os bhikkhus pensaram: “Esse Ambattha é um jovem de boa família e um pupilo do respeitado Brâmane Pokkharasati. O Abençoado não se importaria em ter uma conversa com um jovem como esse.” E eles responderam para Ambattha: “Aquela, com a porta fechada, é a habitação dele. Vá até lá em silêncio, sem pressa, entre na varanda, limpe a garganta e bata na porta. O Abençoado abrirá a porta.”

1.9. Ambattha foi até a habitação com a porta fechada, entrou na varanda, limpou a garganta e bateu na porta. O Abençoado abriu a porta, Ambattha entrou, ambos se cumprimentaram com cortesia e o Abençoado sentou a um lado. Mas Ambattha ficou caminhando para cá e para lá enquanto o Abençoado estava ali sentado, dizendo de modo indistinto algumas palavras de cortesia, ficando em pé ante o Abençoado enquanto assim falava.

1.10. E o Abençoado disse para Ambattha: “Estimado Ambattha, você se comportaria dessa forma se estivesse conversando com os veneráveis e eruditos Brâmanes, mestres de mestres, assim como você se comporta comigo, caminhando e ficando em pé enquanto eu estou sentado, e dizendo de modo indistinto algumas palavras de cortesia?” “Não, Mestre Gotama. Um Brâmane deve caminhar com um brâmane que esteja caminhando, ficar em pé com um Brâmane que esteja em pé, sentar com um Brâmane que esteja sentado e deitar com um Brâmane que esteja deitado. Mas com relação aos contemplativos carecas, esses subalternos com a tez escura, descendentes dos pés do Ancestral, com eles é apropriado que se converse da forma como faço com o Mestre Gotama.”

1.11. “Mas, Ambattha, você veio até aqui em busca de algo. Qualquer que seja a razão pela qual você aqui veio, você deveria dar atenção para poder ouvir. Ambattha, o seu treinamento não é perfeito. A sua presunção por estar em treinamento se deve apenas à sua inexperiência.”

1.12. Mas Ambattha ficou furioso e irritado por ter sido chamado de mal-treinado e se dirigiu ao Abençoado com insultos e grosserias. Pensando: “O contemplativo Gotama tem má vontade em relação a mim,” ele disse: “Mestre Gotama, os Sakyas são cruéis, com a linguagem grosseira, irritáveis e violentos. Tendo uma origem servil, sendo  servos, eles não honram, respeitam, estimam, veneram ou homenageiam os Brâmanes. Com relação a isso não é apropriado que ... eles não homenageiem os Brâmanes.’ Essa foi a primeira vez que Ambattha acusou os Sakyas de serem servos.

1.13. “Mas, Ambattha, que mal lhe fizeram os Sakyas?”
“Mestre Gotama, certa vez fui a Kapilavatthu para tratar de negócios do meu mestre, o Brâmane Pokkharasati, indo para o salão de reuniões dos Sakyas. Naquela ocasião um grande número de Sakyas estavam sentados sobre assentos elevados no salão de reuniões, cutucando uns aos outros com os dedos, rindo e gracejando juntos, tive a impressão de que eles só estavam se divertindo às minhas custas, e ninguém me ofereceu um assento. Com relação a isso, não é apropriado que ... eles não homenageiem os Brâmanes.” Essa foi a segunda vez que Ambattha acusou os Sakyas de serem servos.

1.14. “Mas, Ambattha, até mesmo a codorna, essa pequena ave, pode piar o quanto quiser no seu próprio ninho. Kapilavatthu é o lar dos Sakyas, Ambattha. Eles não merecem censura por tão pouco.”
“Mestre Gotama, há quatro castas: [7] os Khattiyas, os Brâmanes, os comerciantes e os trabalhadores. E dessas quatro castas, três, os Khattiyas, os comerciantes e os trabalhadores, são totalmente subservientes aos Brâmanes. Com relação a isso, não é apropriado que .. eles não homenageiem os Brâmanes.” Essa foi a terceira vez que Ambattha acusou os Sakyas de serem servos.

1.15. Então, o Abençoado pensou: “Este jovem está se excedendo na ofensa aos Sakyas. E se eu lhe perguntasse o seu nome de clã?” Assim ele disse: “Ambattha, qual é o seu clã?” “Eu sou um  Kanha, Mestre Gotama.”
“Ambattha, em tempos passados, de acordo com aqueles que se recordam da linhagem ancestral, os Sakyas eram os senhores e você descende de uma escrava dos Sakyas. Pois os Sakyas consideram o Rei Okkaka como seu ancestral. Certa ocasião, o Rei Okkaka, que amava e estimava a rainha, desejando transferir o reino para o filho dela, baniu os seus irmãos mais velhos do reino - Okkamukha, Karandu, Hatthiniya e Sinipura. E estes, tendo sido banidos, se estabeleceram aos pés do Himalaia junto a uma lagoa com flores de lótus na qual havia um grande bosque de árvores teca. [8] E por temer contaminar a estirpe, eles coabitavam com as próprias irmãs. Então, o Rei Okkaka perguntou aos seus ministros e conselheiros: “Onde estão vivendo os príncipes agora?” e eles lhe disseram. Ouvindo isso o Rei Okkaka exclamou: “Eles são fortes como teca (saka), esses príncipes, eles são verdadeiros Sakyas!” E assim foi como os Sakyas obtiveram o seu conhecido nome. E o Rei foi um ancestral dos Sakyas.

1.16. “Agora, o Rei Okkaka tinha uma escrava chamada Disa, que deu à luz a um bebê negro. Esse bebê negro, ao nascer, exclamou: ‘Lave-me, mãe! Banhe-me, mãe! Livre-me dessa sujeira, assim irei lhe proporcionar muito benefício!’ Porque, Ambatha, assim como as pessoas, hoje, usam o termo demônio, (pisaca), como designação ofensiva, assim naquela época elas diziam negro, (kanha). E elas diziam: ‘Nem bem nasceu, ele falou. É um Kanha que nasceu, um negro!’ Assim em tempos passados ... os Sakyas eram os senhores e você descende de uma escrava dos Sakyas.”

1.17. Ao ouvir isso, os outros jovens disseram: “Mestre Gotama, não humilhe Ambatha com essa conversa dele ser descendente de uma escrava: Ambatha é bem nascido, de boa família, ele é muito estudado, bom orador, um erudito, capaz de se sair muito bem numa discussão com o Mestre Gotama!”

1.18. Então, o Abençoado disse para esses jovens: “Se vocês consideram que Ambattha é malnascido, não é de boa família, não é estudado, orador medíocre, não é um erudito, incapaz de se sair muito bem numa discussão com o Mestre Gotama, então deixem que Ambattha permaneça em silêncio, vocês discutirão comigo. Mas se vocês pensam que ele é ... capaz de se sair muito bem numa discussão com o Mestre Gotama, então deixem que ele discuta comigo.”

1.19. “Ambattha é bem nascido, Mestre Gotama ... Nós ficaremos em silêncio, ele prosseguirá.”

1.20. Então, o Abençoado disse para Ambattha: “Ambattha, eu lhe farei uma pergunta que você talvez não queira responder. Se você não responder ou evadir o assunto, ou ficar em silêncio, ou for embora, a sua cabeça irá se partir em sete pedaços. O que você pensa Ambattha? Você ouviu de veneráveis anciãos Brâmanes, mestres de mestres, de onde vieram os Kanhas, quem era o ancestral deles?” Nisso, Ambattha permaneceu em silêncio. O Abençoado perguntou uma segunda vez. Novamente Ambattha permaneceu em silêncio e o Abençoado disse: “Responda agora, Ambattha, agora não é o momento de ficar em silêncio. Se alguém for questionado com uma pergunta razoável pela terceira vez pelo Tathagata e ainda assim não responder, a sua cabeça se partirá em sete pedaços no mesmo instante. [9]

1.21. Agora, naquele momento o yakkha Vajirapani [10] segurando nas mãos um raio de ferro em chamas, incandescente e brilhante, apareceu no ar sobre a cabeça de Ambattha, pensando: “Se esse jovem Ambattha, que foi questionado com uma pergunta razoável pela terceira vez pelo Tathagata, ainda assim não responder, partirei a sua cabeça em sete pedaços neste instante.” O Abençoado viu Vajirapani e Ambattha também o viu. Então, Ambattha ficou amedrontado, alarmado e aterrorizado. Buscando abrigo, proteção e refúgio no Abençoado, ele disse: “Pergunte, Mestre Gotama, eu responderei.” “O que você pensa Ambattha? Você ouviu quem era o ancestral dos Kanhas?” “Sim, eu ouvi tal qual foi dito pelo Mestre Gotama, essa é a origem dos Kanhas, aquele foi o ancestral deles.”

1.22. Ao ouvir isso, os demais jovens fizeram ruído e vociferaram: “Então, Ambattha é malnascido, não é de boa família, nascido de uma escrava dos Sakyas, e os Sakyas são os senhores de Ambattha! Nós menosprezamos o contemplativo Gotama, pensando que ele não falava a verdade!”

1.23. Então, o Abençoado pensou: “É excessiva a forma como esses jovens estão humilhando Ambattha por este ser o filho de uma escrava. Devo ajudá-lo a sair disso.” Assim, ele disse para aqueles jovens: “Não menosprezem Ambattha em demasia por ele ser o filho de uma escrava! Aquele Kanha era um sábio poderoso. [11] Ele foi para o sul, [12] aprendeu os mantras com os Brâmanes de lá e depois foi até o Rei Okkaka e pediu a filha dele, Maddarupi, em casamento. O Rei Okkaka, furiosamente enraivecido, exclamou: ‘Então esse sujeito, filho de uma escrava, quer a minha filha!’ e colocou uma flecha no arco. Mas ele foi incapaz de disparar a flecha ou de removê-la. [13] Então, os ministros e conselheiros foram até o sábio Kanha e disseram: ‘Poupe o rei, Venerável Senhor, poupe o rei!’
‘O rei estará a salvo, mas se ele disparar a flecha para baixo, a terra irá tremer em toda a extensão do reino.”
‘Venerável Senhor, poupe o rei, poupe o reino!’
‘O rei e o reino estarão salvos, mas se ele disparar a flecha para cima, em toda a extensão do reino os devas não permitirão que a chuva caia por sete anos.’ [14]
‘Venerável Senhor, poupe o rei e o reino, e que os devas da chuva façam chover!’
‘O rei e o reino estarão salvos e os devas da chuva farão chover, mas se o rei apontar a flecha para o príncipe herdeiro, o príncipe estará completamente a salvo.’
Então os ministros exclamaram: ‘Que o Rei Okkaka aponte a flecha para o príncipe herdeiro, o príncipe estará completamente a salvo!’ O rei assim fez, e o príncipe ficou ileso. Então, o Rei Okkaka, aterrorizado e temeroso do castigo divino, [15] deu a sua filha Maddarupi em casamento. Portanto, jovens, não menosprezem Ambattha em demasia por ser um filho de uma escrava! Aquele Kanha era um sábio poderoso.”

1.24. Então, o Abençoado disse: “Ambattha, o que você pensa? Suponha que um jovem Khattiya se casasse com uma jovem Brâmane, e que dessa união nascesse um filho. Esse filho de um jovem Khattiya e uma jovem Brâmane receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Ele receberia, Mestre Gotama.”
“Eles permitiriam que ele participasse nos banquetes nas cerimonias funerárias ou nos alimentos cozidos no leite, ou nas oferendas para os devas, ou nos sacrifícios?” “Eles permitiriam, Mestre Gotama.”
“Eles ensinariam para ele os mantras ou não?” “Eles ensinariam, Mestre Gotama.”
“Eles manteriam as suas esposas cobertas ou descobertas?” “Descobertas, Mestre Gotama.”
“Mas os Khattiyas permitiriam que ele recebesse a consagração Khattiya?” “Não, Mestre Gotama.”
“Porque não?” “Porque, Mestre Gotama, ele não é bem-nascido por parte da mãe.”

1.25. “O que você pensa, Ambattha? Suponha que um jovem Brâmane se casasse com uma jovem Khattiya, e que dessa união nascesse um filho. Esse filho de um jovem Brâmane e uma jovem Khattiya receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Ele receberia, Mestre Gotama.” ... (igual ao verso 24) “Mas os Khattiyas permitiriam que ele recebesse a consagração Khattiya?” “Não, Mestre Gotama.”
“Porque não?” “Porque, Mestre Gotama, ele não é bem-nascido por parte do pai.”

1.26. “Portanto Ambattha, quer seja comparando um homem com um homem ou uma mulher com uma mulher, os Khattiyas são superiores e os Brâmanes são inferiores. O que você pensa, Ambattha? Suponha que um certo Brâmane, por ter cometido alguma ofensa, tenha sido declarado pelos Brâmanes como um fora-da-lei, tendo a cabeça raspada, com cinzas espalhadas sobre a cabeça, sendo banido do país ou cidade. Ele receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Não, Mestre Gotama.”
“Eles permitiriam que ele participasse ... nos sacrifícios?” “Não, Mestre Gotama.”
“Eles lhe ensinariam os mantras ou não?”  “Eles não ensinariam, Mestre Gotama.”
“Eles manteriam as suas esposas cobertas ou descobertas?’ ‘Cobertas, Mestre Gotama.”

1.27. “Mas o que você pensa, Ambattha? Se os Khattiyas tivessem do mesmo modo declarado um Khattiya como um fora-da-lei ... banido do país ou cidade, ele receberia um assento e água dos Brâmanes?” “Ele receberia, Mestre Gotama.” ... (igual ao verso 24) “Eles manteriam as suas esposas cobertas ou descobertas?” “Descobertas, Mestre Gotama.”
“E esse Khattiya teria sofrido a mais extrema humilhação ao ser declarado como um fora-da-lei ... banido do país ou cidade. Portanto, mesmo que um Khattiya tenha sofrido a mais extrema humilhação, ainda assim ele é superior e os Brâmanes são inferiores.

1.28. “Ambattha, estes versos foram recitados pelo Brahma Sanankumara:

‘Os khattiya são os melhores dentre as pessoas
Para aqueles cujo padrão é o clã,
Mas aquele com a conduta e o conhecimento consumados
É o melhor dentre devas e humanos.’[a]

Esses versos foram recitados da forma correta, não incorreta, ditos da forma correta, não incorreta, conectados com o benéfico, não desconectados. E, Ambattha, eu também digo isso:

Os khattiya são os melhores dentre as pessoas
Para aqueles cujo padrão é o clã,
Mas aquele com a conduta e o conhecimento consumados
É o melhor dentre devas e humanos.”

[Fim da primeira seção]

2.1. “Mas, Mestre Gotama, o que é essa conduta, o que é esse conhecimento?”
“Ambattha, com relação à suprema conduta-e-conhecimento não há nenhuma referência à questão do nascimento ou do clã, ou à presunção que diz: ‘Você é tão digno quanto eu sou, você não é tão digno quanto eu sou!’ Onde há conversa sobre um matrimônio, sobre dar em casamento, é que há referência a esse tipo de coisa. Pois todo aquele, Ambattha, que está escravizado à noção de nascimento ou de clã, ou ao orgulho de uma posição social, ou de parentesco através do casamento, está muito distante da suprema conduta-e-conhecimento. Só com o abandono desses vínculos é que alguém pode compreender por si mesmo a suprema conduta-e-conhecimento.”

2.2 “Mas, Mestre Gotama, o que é essa conduta, o que é esse conhecimento?”
“Ambattha, um Tathagata surge no mundo, sublime, digno, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, iluminado, sublime. Ele declara - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta geração com seus contemplativos e brâmanes, seus príncipes e povo. Ele ensina o Dhamma, com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. Um discípulo segue a vida santa e pratica a virtude (veja o DN 2, versos 41-62); ele guarda as portas dos meios dos sentidos, etc. (veja o DN 2, versos 64-74); alcança os quatro jhanas (veja o DN 2, versos 75-82). Assim ele desenvolve a conduta. Ele alcança vários insights, (veja o DN 2, versos 83-95), e a destruição das impurezas (veja o DN 2, versos 97 ) ... E além disso, não há nenhum desenvolvimento adicional de conhecimento e conduta que seja mais elevado ou mais perfeito.

2.3. “Mas, Ambattha, no desenvolvimento da suprema conduta-e-conhecimento há quatro caminhos que levam ao fracasso. Quais são esses? Em primeiro lugar, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, toma o seu bastão de carga [16] e mergulha nas profundezas da floresta pensando: ‘A partir de agora serei um daqueles que vive apenas das frutas caídas.’ Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o primeiro caminho que leva ao fracasso. Outra vez, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, sendo incapaz de viver apenas das frutas caídas, toma uma pá e um cesto e mergulha nas profundezas da floresta pensando: ‘A partir de agora serei um daqueles que vive apenas de raízes e tubérculos.’ [17] Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o segundo caminho que leva ao fracasso. Outra vez, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, sendo incapaz de viver apenas das frutas caídas, sendo incapaz de viver de raízes e tubérculos, prepara um santuário para o fogo, próximo a um vilarejo ou vila, e ali permanece servindo ao fogo.[18] Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o terceiro caminho que leva ao fracasso. Outra vez, um contemplativo ou Brâmane que ainda não logrou alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, sendo incapaz de viver apenas das frutas caídas, sendo incapaz de viver de raízes e tubérculos, sendo incapaz de servir ao fogo, constrói uma casa com quatro portas numa encruzilhada pensando: ‘Qualquer contemplativo ou Brâmane que venha dos quatro pontos cardeais, eu irei serví-lo e honrá-lo da melhor forma que possa.’ Mas assim, deveras, ele só se torna digno de ser um servente daquele que já alcançou a suprema conduta-e-conhecimento. Esse é o quarto caminho que leva ao fracasso.

2.4. “O que você pensa, Ambattha? Você e o seu mestre vivem de acordo com a suprema conduta-e-conhecimento?” “De fato não, Mestre Gotama! Quem em comparação somos meu mestre e eu? Nós estamos distantes disso!”
“Muito bem, Ambattha, então você e o seu mestre, incapazes de alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, poderiam ir com os seus bastões de carga e mergulhar nas profundezas da floresta, com a intenção de viver das frutas caídas?” “De fato não, Mestre Gotama.”
“Muito bem, Ambattha, então você e o seu mestre, incapazes de alcançar a suprema conduta-e-conhecimento ... viver de raízes e tubérculos ... servir ao fogo ... construir uma casa ... ?” “De fato não, Mestre Gotama.”

2.5. “Portanto, Ambattha, não só você e o seu mestre são incapazes de alcançar a suprema conduta-e-conhecimento, mas mesmo os quatro caminhos que levam ao fracasso estão além do seu alcance. E no entanto, você e o seu mestre, o Brâmane Pokkharasati, dizem estas palavras: ‘Esses contemplativos carecas, esses subalternos com a tez escura, descendentes dos pés do Ancestral, que conversa podem eles ter com os Brâmanes estudados nos Três Vedas?’ – muito embora você mesmo não seja capaz nem de dar conta das tarefas de alguém que fracassou. Veja, Ambattha, como o seu mestre o iludiu!

2.6. “Ambattha, o Brâmane Pokkharasati vive da generosidade e favor do Rei Pasenadi de Kosala. E no entanto, o Rei não permite que ele tenha uma audiência face a face. Quando conversa com o Rei ele assim o faz por trás de uma cortina. Com pode ser, Ambattha, que o mesmo Rei, de quem ele aceita essa renda legal e honesta, o Rei Pasenadi de Kosala, não o receba pessoalmente? Veja, Ambattha, como o seu mestre o iludiu!

2.7. “O que você pensa, Ambattha? Suponha que o Rei Pasenadi de Kosala estivesse montado num elefante ou num cavalo, ou na sua carruagem, em conferência com os seus ministros e príncipes sobre algum assunto. E suponha que o Rei se afastasse e um trabalhador ou o escravo de algum trabalhador viesse e, ficando ali em pé, dissesse: ‘Isto é o que o Rei Pasenadi de Kosala diz!’ Embora ele possa falar como o Rei falou ou discutir como o Rei discutiu, ele por isso seria o Rei ou mesmo um dos ministros do Rei?” “Com certeza não, Mestre Gotama.”

2.8. “Bem então, Ambattha, é exatamente a mesma coisa. Aqueles que foram, como você diz, os antigos brâmanes videntes, os criadores dos mantras, os compositores dos mantras antigos que antigamente eram cantados, falados e compilados, e que ainda hoje os brâmanes cantam e repetem, repetindo o que foi dito e recitando o que foi recitado – isto é, Atthaka, Vamaka, Vamadeva, Vessamitta, Yamataggi, Angirasa, Bharadvaja, Vasettha, Kassapa e Bhagu [19] – e cujos mantras se diz foram passados para o seu mestre e para você: no entanto, através disso você não se torna um sábio ou alguém que tenha habilidade no caminho de um sábio – tal coisa não é possível.

2.9. “O que você pensa, Ambattha? O que você ouviu ter sido dito pelos Brâmanes que são veneráveis, anciãos, os mestres dos mestres? Esses antigos brâmanes videntes ... Atthaka, ... Bhagu – eles desfrutavam banhados, perfumados, com o cabelo e barba aparados, enfeitados com grinaldas e coroas de flores, vestidos de branco, entregando-se aos prazeres dos cinco sentidos, assim como você e seu mestre agora fazem?” “Não, Mestre Gotama.”

2.10. “Ou eles comiam um arroz de primeira e muitos tipos de molhos e tipos de caril, assim como você e seu mestre agora fazem?” “Não, Mestre Gotama.”
“Ou eles se divertiam com mulheres enfeitadas com toucados, colares e longas saias, assim como você e seu mestre agora fazem?” “Não, Mestre Gotama.”
“Ou eles passeavam em carruagens puxadas por garanhões com os rabos e crinas trançadas, incitando-os com longas aguilhadas?” “Não, Mestre Gotama.”
“Ou eles se mantinham guardados em cidades fortificadas com estacas e valas, protegidos por homens com longas espadas ... ?” “Não, Mestre Gotama.”
“Portanto, Ambattha, nem você e tampouco o seu mestre são sábios, ou vivem de acordo com as condições que os sábios viviam. Mas com relação às suas dúvidas e perplexidades no que diz respeito a mim, você pode me perguntar que eu irei esclarecê-las.”

2.11 Então, saindo da sua habitação, o Abençoado começou a andar para cá e lá e  Ambattha fez o mesmo. E enquanto andava com o Abençoado, Ambattha procurou pelas trinta e duas marcas de um Grande Homem no corpo do Abençoado. E ele pode ver todas exceto duas. Ele ficou em dúvida e não podia ter certeza sobre duas dessas marcas, e não pôde chegar a uma conclusão sobre elas: sobre a genitália contida numa bainha e sobre o tamanho da língua.

2.12. Então, ocorreu ao Abençoado que: “Ambattha vê mais ou menos as trinta e duas marcas de um Grande Homem no meu corpo, exceto duas; ele tem dúvida e incerteza sobre duas dessas marcas e não pode chegar a uma conclusão sobre elas: sobre a genitália contida numa bainha e sobre o tamanho da língua.” Então, o Abençoado através dos seus poderes supra-humanos fez com que Ambattha pudesse ver a sua genitália contida numa bainha. Em seguida, o Abençoado esticou a língua para fora, lambendo ambas as orelhas e ambas as narinas e depois cobriu toda  a extensão da sua testa com a língua. Então, Ambattha pensou: “O contemplativo Gotama é dotado de todas as trinta e duas marcas de um Grande Homem, completas, sem faltar nenhuma.” Assim, ele disse para o Abençoado: “Mestre Gotama, posso ir agora? Eu tenho muitos afazeres, muitas coisas para tratar.” “Ambattha, faça aquilo que você julgar adequado.” Em seguida, Ambattha montou na carruagem puxada por um jovem garanhão e partiu.

2.13. Nesse ínterim, o Brâmane Pokkharasati estava sentado no seu parque com um grande número de Brâmanes, apenas esperando por Ambattha. Então, Ambattha chegou no parque e foi até onde a estrada permitia o acesso das carruagens e depois desmontou da sua carruagem e seguiu a pé até onde se encontrava Pokkharasati, cumprimentando-o e sentando a um lado. Então Pokkharasati disse:

2.14. “Bem, estimado jovem, você viu o Mestre Gotama?” “Eu vi, senhor.”
“O relato sobre o Mestre Gotama é correto ou não, o Mestre Gotama é como dizem ?” “O relato sobre o Mestre Gotama é correto, não incorreto; e o Mestre Gotama é como dizem, não de outra forma. Ele possui as trinta e duas marcas de um Grande Homem.”
“Mas houve alguma conversa entre você e o contemplativo Gotama?” “Houve, senhor.”
“E sobre o que foi a conversa?” Assim, Ambattha relatou a Pokkharasati tudo que havia ocorrido entre e ele e o Abençoado.

2.15. Em vista disso Pokkharasati exclamou: “Bem, que belo pequeno erudito, que belo homem sábio, que belo experto nos Três Vedas! Qualquer um que trate dos seus assuntos dessa forma deve com a dissolução do corpo, após a morte, renascer num estado de privação, num destino infeliz, no inferno! Você encheu o Venerável Gotama de insultos e como resultado disso ele apresentou mais e mais coisas contra nós! Você é um belo pequeno erudito ... !” Ele estava tão furioso e enraivecido que chutou Ambattha e queria de uma vez ir ver o Abençoado.

2.16. Mas os Brâmanes disseram: “É demasiado tarde, senhor, para ir ver hoje o Contemplativo Gotama. O Venerável Pokkharasati deve ir vê-lo amanhã.”
Então, Pokkharasati, tendo preparado vários tipos de boa comida na sua casa, saiu iluminado por tochas de Ukkattha para a floresta de Icchanankala. Ele foi até onde a estrada permitia o acesso das carruagens e depois desmontou da sua carruagem e seguiu a pé até onde se encontrava o Abençoado e ambos se cumprimentaram. Quando a conversa cortês e amigável havia terminado, ele sentou a um lado e disse:

2.17. “Venerável Gotama, o nosso pupilo Ambattha veio vê-lo?” “Ele veio, Brâmane.” “E houve uma conversa entre vocês?” “Sim houve.” “E a respeito do que foi essa conversa?”
Então, o Abençoado relatou a  Pokkharasati tudo que havia acontecido entre ele e Ambattha. Em vista disso, Pokkharasati disse para o Abençoado: “Venerável Gotama, Ambattha é um jovem tolo. Que o Venerável Gotama o perdoe.” “Brâmane, que Ambattha seja feliz.”

2.18-19. Então, Pokkharasati procurou pelas trinta e duas marcas de um Grande Homem no corpo do Abençoado. E ele pode ver todas exceto duas. Ele ficou em dúvida e não podia ter certeza sobre duas dessas marcas, e não pôde chegar a uma conclusão sobre elas: sobre a genitália contida numa bainha e sobre o tamanho da língua; mas o Abençoado pacificou a mente dele com relação a isso (igual aos versos 11-12). E Pokkharasati disse para o Abençoado: “Que o Venerável Gotama aceite de mim hoje uma refeição junto com a Sangha dos bhikkhus!” E o Abençoado concordou em silêncio.

2.20. Então, sabendo que o Abençoado havia concordado, Pokkharasati, fez com que se anunciasse a hora para o Abençoado: “É hora, Mestre Gotama, a refeição está pronta.” E o Abençoado carregando a sua tigela e o manto externo, foi com a Sangha dos bhikkhus até a casa de Pokkharasati e sentou num assento que havia sido preparado. Então, com as próprias mãos Pokkharasati serviu e satisfez o Abençoado com os vários tipos de boa comida, e os jovens brâmanes serviram os bhikkhus. Em seguida, quando o Abençoado havia terminado de comer e retirado a mão da sua tigela, Pokkharasati sentou a um lado, num assento mais baixo.

2.21 Então, o Abençoado transmitiu o ensino gradual ao Brâmane Pokkharasati, isto é, ele falou sobre a generosidade, sobre a virtude, sobre o paraíso; ele explicou o perigo, a degradação e as contaminações dos prazeres sensuais e as vantagens da renúncia. Quando ele percebeu que a mente do Brâmane Pokkharasati estava pronta, receptiva, livre de obstáculos e confiante, ele explicou o ensinamento particular dos Budas: o sofrimento, a sua origem, a sua cessação e o caminho. Tal qual um pano limpo, com todas as manchas removidas, irá absorver um corante de modo adequado, assim também, enquanto o Brâmane Pokkharasati estava ali sentado, a visão imaculada do Dhamma surgiu nele: “Tudo que está sujeito ao surgimento está sujeito à cessação.”

2.22. E Pokkharasati, tendo visto o Dhamma, alcançado o Dhamma, compreendido o Dhamma, examinado a fundo o Dhamma, superou a dúvida, eliminou a perplexidade, obteve a intrepidez e se tornou independente dos outros na Revelação do Mestre, dizendo: “Magnífico, Mestre Gotama! Magnífico, Mestre Gotama! O Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Eu, junto com meu filho, minha esposa, meus ministros e conselheiros, buscamos refúgio no Mestre Gotama, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. [20] Que o Mestre Gotama nos aceite como discípulos leigos que nele buscaram refúgio para o resto da vida. E sempre que o Venerável Gotama visitar outras famílias e discípulos leigos em Ukkattha, que ele também visite a família de Pokkharasati! Qualquer jovem brâmane que ali se encontre irá então homenagear e reverenciar o Venerável Gotama, arrumará para ele um assento e água, e se sentirá feliz por isso; e isso será para o benefício dele por muito tempo.”
“Muito bem dito, Brâmane.”

Abreviações:

DA      Digha Nikaya Atthakatha


Notas:
[1] Uma frase padrão que aparece com freqüência nos suttas, tal como no  DN 4.1, 5.1, MN 95.1, etc. [Retorna]

[2] Outra frase padrão. [Retorna]

[3] Para uma descrição dessas marcas (pr­é Budistas) veja o DN 30. Claramente elas são importantes para os Brâmanes para estabelecer as credenciais do ‘contemplativo Gotama.’ Veja também o MN 91. [Retorna]

[4] Veja DN 17.[Retorna]

[5] Veja DN 17.[Retorna]

[6] Loke vivattacchado: uma expressão difícil. O ‘véu' é a ignorância, etc.[Retorna]

[7] Esta divisão em quatro grupos mostra um estágio inicial do sistema de castas. Na época do Buda, na sua terra natal, os Khattiyas, (Nobres guerreiros), aos quais ele pertencia, ainda constituíam a primeira casta, com os Brâmanes em segundo lugar, embora estes últimos já tivessem se estabelecido como a casta superior nas regiões mais a oeste e estavam claramente lutando por esta posição na terra natal do Buda. O Buda com freqüência se refere a um agrupamento distinto: Khattiyas, Brâmanes, chefes de família e contemplativos. [Retorna]

[8] Sakasanda. A palavra saka também pode significar ‘erva,’ mas neste caso com certeza tem o outro significado de ‘teca.’ [Retorna]

[9] Uma ameaça curiosa que nunca é concretizada e deve certamente ser pré-Budista. [Retorna]

[10] Este yakkha, equiparado a Indra no DA, está preparado, igual ao MN 35.14, para concretizar a ameaça. Dessa forma, uma das antigas divindades é vista apoiando a nova religião. Em textos Mahayana encontramos um Bodisatva com o mesmo nome. [Retorna]

[11]Isi (em Sânscrito rsi, ocidentalizado como ‘rishi’). Deve ele ser identificado com Krishna (Sânscrito Krsna = Pali Kanha)?[Retorna]

[12]Dakkhina janapada: ocidentalizado como Deccan.[Retorna]

[13] De acordo com o DA, este era chamado o ‘feitiço Ambattha’.[Retorna]

[14] Um blefe de acordo com  DA: na verdade o feitiço era capaz apenas de evitar que a flecha fosse disparada.[Retorna]

[15] Brahmadanda: ‘castigo extremo’ (com um outro significado no DN 16.6.4).[Retorna]

[a] Veja o SN VI.11. [Retorna]

[16] Um bastão ou canga para carregar os pertences.[Retorna]

[17] Isto é, cavando as raízes e tubérculos, algo que o primeiro não fez.[Retorna]

[18] O fogo sagrado, ou talvez Aggi (Agni) o deus do fogo.[Retorna]

[19] Os antigos rishis associados com os mantras dos Vedas (de acordo com o DN 13.13). Com relação ao que segue veja também o  DN 27.22.  [Retorna]

[20] Pokkharasati ao que parece não havia consultado a esposa, família e dependentes. Quando Uruvela-Kassapa quis juntar-se à Sangha, o Buda fez com que ele primeiro consultasse os seus 500 discípulos. Mas é lógico que há uma grande diferença entre tornar-se um discípulo leigo e juntar-se à Sangha. [Retorna]


quarta-feira, 22 de junho de 2016

NIBBANA SUTTA

 -Nibbana Sutta -ANIII.55
Então o brâmane Janussoni foi até o Abençoado e depois de cumprimentá-losentou a um lado e disse:
"Mestre Gotama, é dito: 'Nibbana visível no aqui e agora, Nibbana visível no aqui e agora.' De que modo Nibbana é visível no aqui e agora, 
com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentadopelos sábios por eles mesmos?"
(1) "Brâmane, alguém excitado pela paixão, subjugado pela paixão, com a mente obcecada pela paixão intenciona pela própria aflição, pela 
aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele experimenta sofrimento mental e angústia. Mas quando a paixão é abandonada, ele não 
intenciona pela própria aflição, pela aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele não experimenta sofrimento mental e angústia, É 
desse modo que Nibbana é visível no aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser 
experimentado pelos sábios por eles mesmos.
(2) "Alguém tomado pela raiva, subjugado pela raiva, com a mente obcecada pela raiva intenciona pela própria aflição, pela aflição dos 
outros, ou pela aflição de ambos, e ele experimenta sofrimento mental e angústia. Mas quando a raiva é abandonada, ele não intenciona 
pela própria aflição, pela aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele não experimenta sofrimento mental e angústia. É desse modo 
queNibbana é visível no aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentado pelos 
sábios por eles mesmos.
(3) "Alguém deludido, subjugado pela delusão, com a mente obcecada pela delusão intenciona pela própria aflição, pela aflição dos outros, 
ou pela aflição de ambos, e ele experimenta sofrimento mental e angústia. Mas quando a delusão é abandonada, ele não intenciona pela 
própria aflição, pela aflição dos outros, ou pela aflição de ambos, e ele não experimenta sofrimento mental e angústia. É desse modo que 
Nibbana é visível no aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentado pelos 
sábios por eles mesmos.
"Magnífico, Mestre Gotama! Magnífico, Mestre Gotama! Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado 
em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou 
segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Eu busco refúgio no Mestre Gotama, no 
Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o Mestre Gotama me aceite como discípulo leigo que buscou refúgio para o resto da vida.".

BHAVANGA-SOTA e BHAVANGA-CITTA

Do Dicionário Budista - Manual de Termos Budistas e Doutrinários de Nyanatiloka.
Terceira edição revisada e ampliada editada por Nyanaponika.
Tradução: Teresa Kerr
Revisão: Arthur Shaker                                                            
BHAVANGA-SOTA  e  BHAVANGA-CITTA:    O  primeiro  termo  pode  ser
aproximadamente interpretado como ‘Corrente subterrânea que forma a Condição dos
Seres, ou  Existência’,  o  segundo  como  ‘Subconsciência’,  apesar  de,  como  ficará
evidenciado a  seguir, diferir,  em  diversos  aspectos,  do uso  do termo  comum  na
psicologia  Ocidental. Bhavanga  (bhava-anga),  o  qual  nos  trabalhos  canônicos,  é
mencionado  duas  ou  três  vezes  no Patthana,  é  explicado  nos  comentários  do
Abhidhamma  como a fundação  ou  condição  (karana)  da  existência  (bhava),  como
condição sine  qua  non da  vida,  tendo  a  natureza  de  um  processo,  lit.  um  fluxo  ou
corrente  (sota).  Assim,  desde  tempos  imemoriais,  todas  as impressões e  experiências
são,  como assim  dizer,  armazenadas,  ou  melhor  dizendo, estão  funcionando,  mas
ocultas para  a consciência  plena,  de onde  ocasionalmente  emergem como  fenômeno
subconsciente e se aproximam do limiar da plena consciência, ou cruzando-a se tornam
completamente  conscientes.  Esta  assim  chamada  ‘corrente  subconsciente  da  vida  ou
corrente subterrânea da vida’ é aquilo através da qual pode ser explicada a faculdade da
memória, os fenômenos psíquicos paranormais, crescimento mental e físico, Karma e
Renascimento, etc – Uma tradução alternativa seria ‘continuum-da-vida’.
Deve-se notar que bhavanga-citta é um karma- resultante estado de consciência (vipaka,
q.v.) e que, no nascimento como um ser humano ou nas formas superiores de existência,
ele é sempre resultado de karma bom ou saudável (kusalakamma-vipaka), embora em
vários  níveis  de  força  (v. patisandhi,  final  do  artigo).  O  mesmo  é  aplicado  para a
Consciência-Renascimento  (patisandhi)  e  Consciência  da  Morte  (cuti), as  quais  são
somente manifestações particulares da Subconsciência. – No Vis. XIV é dito:
“Logo que a consciência-renascimento (no embrião no momento da concepção) cessou,
então  surge  uma  similar  Subconsciência  com  exatamente  o mesmo  objeto,  seguindo
imediatamente sobre a consciência-renascimento e sendo o resultado deste ou daquele
Karma  (ação  volitiva  feita  no nascimento anterior e  lembrada  no  momento  antes  da
morte). E novamente um posterior estado semelhante de subconsciência surge. Agora,
não surgindo outra consciência para interromper a continuidade da corrente-da-vida, a
corrente-da-vida,  como  o  fluxo  de  um  rio,  surge  da  mesma  forma  novamente  e
novamente,  mesmo  durante  o sono  sem sonho  e  em  outros momentos. Dessa  forma
deve-se entender o contínuo surgimento desses estados de consciência na corrente-davida.” Cf. viññana-kicca. Para maiores detalhes v. Fund. II (App).