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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Sistemas de governo segundo o budismo - primeira parte


1. Introdução

É triste ver as discussões de polarização política no país porque tudo parece ter se reduzido a uma ignorante polarização direita-esquerda, o que está bem longe dos fatos e ações concretas. Sites budistas, autores e professores, às vezes tem assumido posições de um lado ou do outro, outros simplesmente criticam estes sem assumir que estão se sentindo de certo lado, defendendo certo discurso, e fingindo estar fazendo uma análise imparcial. Estes são os piores.

O pior de tudo é que o brasileiro no geral parece não ter a mínima noção do que seja esquerda e direita (seja do ponto de vista histórico, ou econômico, ou político ou qualquer outro inclusive), nem os mais intelectualizados, aliás estes principalmente. Estes conceitos, apesar da semelhança e influência direta de alguns padrões bem particulares europeus, destoa completamente do mundo contemporâneo e dos acontecimentos históricos. Os conceitos e as características que apresentam como sendo suas próprias, e mais distorcidamente as dos outros, são completamente fora do contexto e da realidade. Além disso não seguem nenhuma lógica ou padrão de definições e características a não ser a lógica da própria conveniência. 

Os termos ou lados não são definidos no Brasil nem sob uma lógica historicista nem econômica nem política, mas uma mistura mal feita de tudo isso segundo a conveniência do argumentador. E se alguém detectar os erros e apontar as incoerências no discurso estas nunca são discutidas pelo contrário, a pessoa será atacada, no mínimo a resposta será um "quem é você?". Enfim, as discussões giram em torno de certas conveniências e padrões da moda e a opinião de certas "autoridades" no assunto, os ídolos do momento ou os gênios que já teriam pensado isso décadas atrás e deram já naquele tempo todas as soluções para a conjuntura atual.

2. O uso do budismo para difusão de ideias políticas que não estão no budismo

Ver isso no meio "religioso" é ainda mais triste. Principalmente quando essa aparente ignorância é revestida de mentiras. Ontem comecei a ler uma página de um budista conhecido e não pude seguir adiante em suas críticas à direita política porque não há como levar a sério. Seu argumento é tão apaixonado que de dez características que atribuiu à direita em sua sua crítica sete eram da esquerda, e destas cinco eram exclusivas da esquerda. Mas como essas características eram vistas por ele como ruins é claro que tinham que ser da direita que estava criticando. Isto foi um exemplo bem típico do que falei acima.

O objetivo desse artigo não é  demonstrar posições (ridiculamente classificadas de direita ou de esquerda) que possam ser atribuídas anacronicamente ao discurso de Buda, é demonstrar pelos suttas e sutras o pensamento do Buda sobre um sistema de governo de acordo com seu ensinamento. Por isso nesse pequeno estudo vou demonstrar a partir de textos canônicos que essa polarização não encontra base nos textos, pior ainda os argumentos de democracia, esquerda política, anarquia, distribuição de renda, igualdade econômica, e similares. Estes não encontram nenhum referencial nas palavras do Buda que ao citar governo e administrações exemplares sempre se referia a monarcas, leis, juízes, justiça. Buda tinha em mente um modelo de governo, o melhor e ensinou várias vezes sobre isso. Isto é um assunto muito importante no ensinamento budista e se isso não fosse importante Buda não teria feito tantos discursos nesse sentido, não abordaria longos discursos, exemplos, histórias sobre o tema, não passaria a vida fazendo diversos sermões sobre isso, instruindo reis, príncipes e administradores, muitas vezes de forma especial e em particular.


Para começar vamos utilizar o Digha Nikaya que é onde se encontram vários referenciais ao que seria um governo justo, benéfico e honesto. Depois o Majjhima Nikaya que é mais extenso e talvez tenha os suttas mais conhecidos e usados para falar de posicionamentos inadequadamente. Depois faremos um apanhado de outras coleções de suttas (porque só pretendo usar basicamente o que se diz serem ensinamento e palavras do Buda) e sutras que vem sendo usados de forma inadequada para justificar posições políticas, principalmente os últimos, que incrivelmente são os mais usados para defender ideias de democracia e de forçada distribuição de bens. Incrivelmente porque esses são os que mais falam de reis, príncipes e generais justos, que fizeram o correto, e de como a inveja aos bens ou riqueza alheia são prejudiciais, onde monges preferem morrer do que aceitar receber aquilo que foi tirado de outros.

3. Algumas ideias sobre governo encontradas no Digha Nikaya

No DN3 - Ambattha Sutta, é profetizado o destino possível de Sidatta caso ele não seguisse o caminho monástico que o levou ao budado. "Se ele viver a vida em família ele se tornará um regente, um monarca justo que irá governar de acordo com o Dhamma; conquistador dos quatro pontos cardeais, que estabelecerá a segurança no seu reino e que possuirá os sete tesouros. Que são: a Roda Preciosa, o Elefante Precioso, o Cavalo Precioso, a Joia Preciosa, a Mulher Preciosa, o Tesoureiro Precioso e como sétimo o Conselheiro Precioso. Ele terá mais de mil filhos que serão corajosos e heroicos e que aniquilarão os exércitos inimigos. Ele governará, tendo conquistado esta terra circundada pelo mar, sem bastão ou espada, através do Dhamma."

Esta descrição  caracteriza a visão da época de um governo bom, justo, próspero, seguro, que governa de acordo com um dhamma.  Se isto é ruim para o Buda ele deve, ao falar sobre governo, romper completamente com tal sistema prejudicial, não dar conselhos como melhorá-lo ou administrá-lo bem, nem usá-lo como exemplo em seus símiles, nem exemplos de governantes justos ou sábios. Mas o que vemos ao longo dos discurso não é isso. Vejamos primeiro se o Buda no Digha Nikaya vem a romper com esse modelo ou corroborar de alguma forma ele...

Apesar da profecia não ser pronunciada pelo Buda nela encontramos praticamente características apenas daquelas repudiadas pelos que defendem hipocritamente um falso discurso de "justiça social": riquezas, tesouros, poder centralizado, forças armadas, mil filhos. Esse é o cenário que se esperava de um bom governante. Dizer que Buda só usou exemplos como esses nos discursos (que veremos a seguir) porque era tudo que conhecia ou tudo que havia na época é o mesmo que dizer que Buda não era onisciente ou pelo menos que não enxergava esses supostos males de tal sistema e suas consequências, ou no mínimo que não se importava em compactuar com sistemas tiranos ainda que fosse apenas em seus exemplos e histórias "como se fosse possível haver justiça em tais sistemas".

3.1. Deveres de um monarca que gira a Roda do Dhamma no Cakkavatti-Sihanada Sutta (DN 26) - O Rugido do Leão ao Girar a Roda

No Cakkavatti-Sihanada Sutta (DN 26) - O Rugido do Leão ao Girar a
Roda, o Buda exorta os bhikkhus a se ‘manterem no seu próprio domínio’ através da prática da atenção plena e nesse mesmo discurso vemos (e veremos mais adiante) que tipo de governo Buda considera correto. Ele traça nesse sutta a visão do papel de um monarca, um governante justo e íntegro, e da evolução do mundo em consequência das atitudes de governantes. Vejamos que conselhos Buda apresenta nesse sutta.

“Certa vez, bhikkhus, houve um monarca chamado Dalhanemi que girou a roda, um monarca justo que governou de acordo com o Dhamma; conquistador dos quatro pontos cardeais, que estabeleceu a segurança no seu reino e que possuía os sete tesouros. Que são: a Roda Preciosa, o Elefante Precioso, o Cavalo Precioso, a Joia Preciosa, a Mulher Preciosa, o Tesoureiro Precioso e como sétimo o Conselheiro Precioso. Ele tinha mais de mil filhos que eram corajosos e heroicos e que aniquilavam os exércitos inimigos. Ele governava tendo conquistado esta terra circundada pelo mar, sem bastão ou espada, através do Dhamma. Mas se ele deixasse a vida em família e seguisse a vida santa, então ele se tornaria um arahant, um Buda perfeitamente iluminado, aquele que remove o véu do mundo." - Cakkavatti-Sihanada Sutta (DN 26).

Opa! A descrição do Buda de um governante que girou a roda do Dhamma segundo Buda é como a que vimos acima, ou seja, é um monarca, um rei, conquistador (um "opressor imperialista" na visão coletivista (?)), que estabeleceu segurança (um "militarista"?); tinha tesouros, mais de mil filhos corajosos que aniquilavam exércitos (eram "tiranos"?). E um "ditador totalitarista como esse" governava de acordo com o Dhamma, e bastava que ele deixasse a vida em família e seguisse a vida santa, então ele se tornaria um arahant, um Buda perfeitamente iluminado. Sim. Isto pode acontecer a despeito de milhares de monges extremamente dedicados à prática, ao ensino, muitos desde a infância que não conseguem tal realização, tanto naquela época como hoje.

Para que não reste dúvida vamos ver mais sobre o girar da roda do dhamma no mesmo sutta:

"Então o Rei Dalhanemi mandou buscar o seu primogênito, o príncipe herdeiro, e disse: ‘Meu filho, a Roda Preciosa deslizou da sua posição. E eu ouvi dizer que quando isso acontecesse para um monarca que gira a roda, ele não teria mais muito tempo de vida. Eu estou saciado dos prazeres humanos, agora é o momento de buscar os prazeres divinos. Você, meu filho, assuma o controle desta terra circundada pelo oceano. Eu irei raspar o meu cabelo e barba, vestirei os mantos de cor ocre e deixarei a vida em família pela vida santa.’ E tendo instalado, da forma requerida, o seu
filho mais velho como rei, o Rei Dalhanemi raspou o seu cabelo e barba, vestiu os mantos de cor ocre e deixou a vida em família pela vida santa. E sete dias depois que o sábio real havia seguido a vida santa, a Roda Preciosa desapareceu.

“Então um certo homem veio até o Rei Khattiya ungido e disse: ‘Senhor, você deve ser informado que a Roda Preciosa desapareceu.’ Em vista disso o Rei sentiu pesar e tristeza. Ele foi até o sábio real e relatou-lhe o que havia acontecido. E o sábio real disse: ‘Meu filho, você não deve sentir pesar ou tristeza pelo desaparecimento da Roda Preciosa. A Roda Preciosa não é uma herança de família. Mas agora, meu filho, você precisa se tornar
um Monarca que gira a roda. E então poderá ocorrer que, se você realizar os deveres de um Monarca que gira a roda, no Uposatha do décimo quinto dia, tendo lavado a sua cabeça e ido para o terraço no topo do palácio para o dia de Uposatha, a Roda Preciosa surgirá para você, com mil raios, com a roda, o cubo, completa em todos os aspectos.’"

Observe que é devido a um rei com aquelas referidas qualidades que a Roda do Dhamma gira, e que o filho terá que ser como foi o pai para que a possibilidade da Roda girar exista, "você precisa se tornar um Monarca que gira a roda", ou seja, assim como seu pai. Observe também que o rei não é um virtuoso ele vive na busca dos prazeres, ora humanos, ora divinos: "Eu estou saciado dos prazeres humanos, agora é o momento de buscar os prazeres divinos."; e que ele não simplesmente abandona seu reino, deixa tudo, se desapega de tudo como costuma-se pensar, ele resolve todas as questões administrativas relativas a passar o reino a seu filho e que esse governe como ele, até porque, afinal, ele deseja que o filho também se torne um monarca que gira a Roda do Dhamma.

Agora vamos ver o que é que faz um monarca que gira a Roda, como ele deve administrar o seu reino. Segue o verso subsequente do anterior: 

"“Mas qual, senhor, é o dever de um Monarca que gira a roda?” “É o seguinte, meu filho: Você, na dependência do Dhamma, honrando-o, reverenciando-o, amando-o, homenageando-o e venerando-o, tendo o Dhamma como sua insígnia e bandeira, reconhecendo no Dhamma o seu mestre, você deve estabelecer guarda, defesa e proteção de acordo com o Dhamma para a sua própria família, suas tropas, seus nobres e vassalos, para Brâmanes e chefes de família, pessoas que vivam nas cidades e no campo, contemplativos e Brâmanes, para animais e pássaros. Não permita que o crime prevaleça no seu reino e para os necessitados, lhes dê o que necessitem. E quaisquer contemplativos e Brâmanes que no seu reino tiverem renunciado à vida dos prazeres sensuais e estiverem dedicados à renúncia e à nobreza, cada um se domesticando, cada um se acalmando, cada um se esforçando para dar um fim ao desejo, se de tempos em tempos eles vierem consultá-lo quanto ao que é benéfico e o que é prejudicial, o que é criticável e o que é isento de crítica, o que deve ser seguido e o que não deve ser seguido e qual ação irá no longo prazo conduzir ao dano e sofrimento e qual irá conduzir ao bem-estar e felicidade, você deveria ouvi-los e dizer-lhes que evitem o mal e façam o bem. Esses, meu filho, são os deveres de um Monarca que gira a roda."

É interessante observar aqui o que é estabelecido, basta ler, mas também o que não é estabelecido: eleições (democracia, etc.), ele continua sendo um monarca com plenos poderes; distribuição forçada de bens, de renda, nem de riqueza (nem apropriação das posses de uns para dar a outros), mas sim para que o rei dê aos necessitados o que eles necessitam; e nem igualdade social, equanimidade ou igualdade de supostas classes, continuam existindo tropas, Brâmanes, nobres e vassalos (as "classes" sociais e econômicas da antiga Índia que de certa forma ainda existem hoje). É importante notar também que tudo isso é feito de acordo com o Dhamma, na dependência do Dhamma, estas coisas não estão em desacordo com o Dhamma do Buda. Mais adiante veremos o que é que está em desacordo, mas que muitos estão defendendo como uma visão social do budismo.

Note também que o rei não deve deixar o crime prevalecer. Como os reis faziam isso? Só não era deixando sem punição ou soltando os criminosos, nem sem uso da força e de armas, portanto muitas ideias de uma sociedade anarquista ou de hippies nova era baseados no budismo não têm nenhum fundamento. E veja que o rei é que ensina os contemplativos que vem visitá-lo para serem instruídos, o sábio, fonte do dhamma é o rei, não os monges, apesar que estes também devem ser ouvidos. Olhe em que estes contemplativos vem consultar o rei: "se de tempos em tempos eles vierem consultá-lo quanto ao que é benéfico e o que é prejudicial, o que é criticável e o que é isento de crítica, o que deve ser seguido e o que não deve ser seguido e qual ação irá no longo prazo conduzir ao dano e sofrimento e qual irá conduzir ao bem-estar e felicidade." Um rei deve saber essas coisas, aqui ao ponto de instruir os monges, não sobre  trazer uma suposta igualdade econômica ou social. Ele deve trazer ordem, virtude, prosperidade, felicidade. Agora, as pessoas que tem problema com desigualdade e que acreditam que não há felicidade possível na desigualdade e mesmo na pobreza, ou que colocam a dependência da felicidade em questões de poder aquisitivo, estas é que estão totalmente fora de sintonia com o ensinamento de Buda.

Veja agora o que aconteceu ao rei que seguiu essas mesmas diretrizes ensinadas por seu pai:

..."e ele realizou os deveres de um Monarca que gira a roda. E ao fazer isso, no Uposatha do décimo quinto dia, tendo lavado a cabeça e ascendido até o terraço no topo do seu palácio para o dia de Uposatha, a Roda Preciosa surgiu para ele, com mil raios, com a roda, o cubo, completa em todos os aspectos. Então o Rei pensou: “Eu ouvi que quando um Rei Khattiya ungido vê essa roda no último dia da quinzena, ele se tornará um Monarca que gira a roda. Que eu possa me tornar um monarca assim!”

"Então, levantando-se do seu assento e arrumando o manto externo sobre o ombro, o Rei tomou um vaso com água com a mão esquerda, borrifou a Roda com a mão direita e disse: ‘Gire para adiante, boa roda preciosa; triunfe, boa roda preciosa!’ Então a roda preciosa girou para adiante na direção leste e o Rei a seguiu com o seu exército. E em qualquer região na qual a Roda parasse, o Rei estabelecia residência com o seu exército. E aqueles que antes a ele se opunham na região leste vinham e diziam: ‘Venha, grande Rei; bem vindo, grande Rei; comande, grande Rei; aconselhe, grande Rei.’ E o Rei dizia: ‘Vocês não devem matar seres vivos; vocês não devem tomar aquilo que não for dado; vocês não devem agir de forma imprópria em relação aos prazeres sensuais; vocês não devem dizer mentiras; vocês não devem beber bebidas embriagantes; sejam  moderados na alimentação.’ E aqueles que antes a ele se opunham na região leste se tornavam seus súditos."

O monarca seguiu as mesmas diretrizes e chegou aos mesmos resultados. É necessário mais algum comentário? O sutta segue ainda dando a mesma descrição de acontecimentos para os outros pontos cardeais. E depois de serem realizadas as mesmas coisas nessas direções "a roda preciosa triunfou sobre a terra de oceano a oceano, ela retornou para a capital real e permaneceu como que presa pelo eixo ao portão do principal palácio do Rei, como um adorno no portão do palácio principal. E um segundo Monarca que gira a roda fez o mesmo e um terceiro, um quarto, um quinto, um sexto e um sétimo monarca também".

Agora vejamos o ponto talvez até mais importante do sutta: sobre outro (e depois outros) que governou segundo suas próprias idéias, segundo suas "geniais" soluções.

..."Mas ele não foi até o sábio real para lhe perguntar sobre os deveres de um Monarca que gira a roda. Ao invés disso, ele governou o povo de acordo com as suas próprias idéias, e sendo assim governado, o povo não prosperou tão bem quanto havia prosperado sob os reis anteriores, que haviam realizado os deveres de um Monarca que gira a roda. Então os ministros, conselheiros, funcionários do tesouro, guardas e porteiros e os recitadores de mantras vieram até o Rei e disseram: ‘Senhor, enquanto você governar o povo de acordo com as suas próprias idéias, diferente da forma que ele foi governado sob os monarcas anteriores, o povo não irá prosperar bem. Senhor, há ministros … no seu reino, nós mesmos inclusive, que preservaram o conhecimento sobre como um Monarca que gira a roda deveria governar. Pergunte-nos, Majestade e nós lhe diremos!’

"Então o Rei ordenou que os ministros e todos os demais se reunissem e ele os consultou. E eles explicaram os deveres de um Monarca que gira a roda. E tendo ouvido o que eles disseram, o Rei estabeleceu guarda , defesa e proteção, mas ele não atendeu as necessidades dos necessitados e como resultado a pobreza se espalhou. Com a disseminação da pobreza, um homem tomou algo que não lhe havia sido dado, dessa forma cometendo o que passou a ser chamado de roubo. Eles o prenderam e o trouxeram perante o Rei dizendo: ‘Majestade, este homem tomou algo que não lhe foi dado, que chamamos de roubo.’ O Rei disse: ‘É verdade que você tomou algo que não lhe havia sido dado – que é chamado de roubo?’ ‘Sim é, Majestade.’ ‘Porque?’ ‘Majestade, eu não tenho nada para o meu sustento.’ Então o Rei lhe deu alguns bens dizendo: ‘Com isto, meu bom homem, você poderá se manter, sustentar sua mãe e pai, manter uma esposa e filhos, levar adiante um negócio e presentear os  contemplativos e Brâmanes, o que irá promover o seu bem-estar espiritual e conduzir a um feliz renascimento com um resultado prazeroso no plano celestial.’ ‘Muito bem, Majestade,’ o homem respondeu."

Vamos dar muita atenção porque aqui há muita sabedoria. Veja que o rei continuou seguindo suas próprias idéias, escolheu entre as instruções apenas a que lhe agradou. Estabeleceu a guarda, mas não ajudou aos necessitados (isto se parece também com muitos "praticantes" budistas, que simplesmente dizem manter a atenção; meditam e leem livros, mas não dão atenção aos preceitos, continuam, com fala incorreta, pensamentos incorretos e até ações...). Observe que o fato de ser um monarca não impede de ajudar os necessitados, mas é justamente o contrário, um monarca é que tem justamente todas as condições necessárias para ajudar aqueles que necessitam (diferente de outras formas de governo em que é preciso medidas burocráticas, votações parlamentares e consequentemente negociação política e de torca de apoio e favores). 

Os outros reis agiram de acordo com o dhamma, mas este agora não fez. Este é um exemplo de "governo laico". Um exemplo histórico de um rei em nosso mundo que se esforçou para estabelecer esses princípios do dhamma foi o principal responsável pela expansão do budismo no oriente (e por consequência também muito depois no ocidente) foi o rei Asoka. Ele se esforçou em viver de acordo com o ideal do monarca que gira a roda, inclusive provavelmente foi o primeiro na história a criar hospitais para animais. 

Mas este rei do exemplo acima, que seguiu suas próprias idéias, acreditava que estava correto, que era justo, ele não era um rei mal, mas devido a suas ações baseadas em idéias pessoais, que provavelmente considerava mais sábias e corretas do que as que os conselheiros haviam ensinado, seu reinado foi um desastre. Ele ignorou a inclusive a história, todo o legado dos reis anteriores, e suas experiências bem sucedidas. Trocou tudo isso por outras idéias. 

A pobreza cresceu, a carência, a fome, mas nem por isso os pobres começaram todos a roubar, temos escolhas, e um homem, este escolheu tomar o que não lhe foi dado, isto é, ele feriu um dos cinco preceitos básicos do budismo. Uma pessoa não deve fazer fazer isso, pois isso tem consequências ruins, segundo o ensinamento do Buda, muito menos um governante... 

E ele não puniu o ladrão, pelo contrário, reconheceu suas necessidades e supriu, deu até a mais para que pudesse investir. Ele foi bonzinho. Na sua visão talvez ele tenha sido justo e reconhecido que também tinha responsabilidade naquela situação, e resolveu segundo suas próprias ideias dar uma solução. Ou seja, ele não prendeu, não puniu, deu liberdade, deu dinheiro, premiou. Agora vamos observar o resultado disso na sociedade, segue o relato do sutta:

"E exatamente a mesma coisa aconteceu com um outro homem. Então, as pessoas ouviram que o Rei estava distribuindo bens para aqueles que
tomassem algo que não lhes houvesse sido dado e assim elas pensaram: ‘E se nós fizéssemos o mesmo!’ E então um outro homem tomou algo que não lhe havia sido dado e eles o trouxeram perante o Rei."

Ou seja, ele estimulou, premiou o ato de roubar e o resultado foi que o pensamento de roubar contaminou outra pessoa. Veremos em seguida que por atos cada vez mais degenerados, que começam com uma pessoa e se disseminam, haverá um verdadeiro caos e completa degeneração da sociedade, dos valores, da saúde, do tempo de vida, da beleza, etc.. Veja se isso descrito até aqui não é muito parecido com o que tem ocorrido na história de nosso país, onde os políticos agem exatamente como esse rei, e as pessoas passam por consequências similares. Vivemos num país que ignora todas as experiências bem sucedidas do passado e de outros lugares, que ignora também todas os exemplos mal sucedidos e tentativas de governos orientados por ideologias, que geraram um caos como o que veremos em seguida neste sutta; um país com livros de história completamente ideologizados, cheios de mentiras, omissões e distorções. E ainda existem muitos no budismo que defendem essas mesmas ideologias que só geraram caos, violência, miséria, fome e conflitos em todo o mundo, principalmente uma que não se baseia em paz, mas justamente em seu oposto a luta, de supostas classes entre si.

Veja como o sutta descreve a degeneração mundial , naquele mundo, naquela época, começando por aquele rei. a partir de uma atitude de um rei e da reação de uma pessoa. 

"O Rei perguntou porque ele havia feito aquilo e ele respondeu: ‘Majestade, eu não tenho nada para o meu sustento.’ Então o Rei pensou: ‘Se eu der bens para todos aqueles que tomarem algo que não lhes foi dado, os roubos irão crescer cada vez mais. Melhor eu dar um fim nisso, dar um fim de uma vez por todas, cortar a cabeça dele.’ Assim ele ordenou aos soldados: ‘Prendam os braços deste homem para trás com uma corda forte, raspem a cabeça dele e conduzam-no ao rufar dos tambores pelas ruas e praças e para fora da cidade pela porta do sul, lá deem um fim nele aplicando a pena capital, decepando a sua cabeça!’ E assim eles fizeram."

Uma reação que vem de um extremo para o outro, foi a ideia do rei considerando sua sabedoria e justiça. Depois de premiar um ladrão (um argumento típico dos populistas é dar indiscriminadamente recursos a todos) e ver o resultado do experimento de suas convicções  dar errado, ele tem a convicção do extremo oposto da primeira ideia. Depois de ser o responsável pelo aumento da pobreza, da miséria, de todas as crises até então, como se pelo menos uma boa parte desse povo não soubesse ser culpa do rei o caos estabelecido, ele resolve usar a força, a violência, uma solução radical, a típica de todos os ditadores, que se acham corretos e justos em suas idéias, e de seus apoiadores. O que acontece em consequência disso:

"Ouvindo sobre o ocorrido, as pessoas pensaram: ‘Vamos obter espadas afiadas e depois poderemos tomar de qualquer um aquilo que não nos for dado, daremos um fim em todos, daremos um fim em todos de uma vez por todas, cortaremos as suas cabeças.’ Assim, tendo obtido algumas espadas afiadas, elas se lançaram em assaltos homicidas sobre vilarejos, vilas e cidades e também se dedicaram ao roubo nas estradas, matando as suas vítimas cortando-lhes a cabeça."

Este ponto, trazendo para nosso mundo parece ter sido solucionado, pois todos os governantes e ditadores parecem ter lido "A arte da guerra", "O príncipe", "Cadernos do cárcere" e o legado de vários outros autores com um pensamento mais direcionado,  como Marx, Lenin, Stalin, além de Gramsci e outros propositores de ditaduras como solução que dizem numa só vós "desarmem o povo para que não haja rebelião". Mas não, não está solucionado, vemos que os criminosos sempre têm seus meios de estar armados e cometendo atos como os mencionados acima. Agora vejamos no sutta como se aprofundam os problemas:

"Assim, por não haver generosidade para com os necessitados, a pobreza se disseminou, do incremento da pobreza, o tomar o que não é dado se disseminou, do incremento do roubo, o uso de armas se disseminou, do incremento do uso de armas, o ato de tirar a vida se disseminou e do incremento do ato de tirar a vida, o tempo de vida das pessoas diminuiu,
a sua beleza diminuiu e como resultado da diminuição do tempo de vida
e da beleza, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido oitenta mil anos passaram a viver apenas quarenta mil. E um homem da geração que viveu por quarenta mil anos tomou algo que não lhe foi dado. Ele foi trazido perante o Rei que lhe perguntou: ‘É verdade que você tomou algo que não lhe foi dado – que é chamado de roubo?’ ‘Não, Majestade,’ ele respondeu, dizendo assim uma mentira deliberada.

"Assim, por não haver generosidade para com os necessitados … o tirar a vida se disseminou e do incremento do tirar a vida, a mentira se disseminou e do incremento da mentira, o tempo de vida das pessoas diminuiu, a sua beleza diminuiu e como resultado da diminuição do tempo de vida e da beleza, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido quarenta mil anos passaram a viver apenas vinte mil. E um homem da geração que viveu por vinte mil anos tomou algo que não lhe foi dado. Um outro homem o denunciou para o Rei, dizendo: ‘Senhor, o fulano tomou algo que não lhe foi dado,’ falando assim mal de outrem. 

"Assim, por não haver generosidade para com os necessitados … o falar com malícia se disseminou e como conseqüência, o tempo de vida das pessoas diminuiu, a sua beleza diminuiu e como resultado da diminuição do tempo de vida e da beleza, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido vinte mil anos passaram a viver apenas dez mil. E na geração que viveu por dez mil anos, alguns eram belos e outros eram feios. E aqueles que eram feios, sentindo inveja daqueles que eram belos, cometiam adultério com as esposas deles.

"Assim, por não haver generosidade para com os necessitados … a conduta sexual imprópria se disseminou e como conseqüência, o tempo de vida das pessoas diminuiu, a sua beleza diminuiu e como resultado da diminuição do tempo de vida e da beleza, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido dez mil anos passaram a viver apenas cinco mil. E na geração que viveu por cinco mil anos, duas coisas se disseminaram: a linguagem grosseira e a linguagem frívola, e como conseqüência, o tempo de vida das pessoas diminuiu, a sua beleza diminuiu, e como resultado da diminuição do tempo de vida e da beleza, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido cinco mil anos passaram a viver, alguns, apenas dois mil e quinhentos e outros, dois mil. E na geração que viveu por dois mil e quinhentos anos, a cobiça e a raiva se disseminaram, e como conseqüência, o tempo de vida das pessoas diminuiu, a sua beleza diminuiu, e como resultado da diminuição do tempo de vida e da beleza, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido dois mil e quinhentos anos passaram a viver apenas mil. E na geração que viveu por mil anos, o entendimento incorreto se disseminou … e como conseqüência, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido mil anos passaram a viver apenas quinhentos. E na geração que viveu por quinhentos anos, três coisas se disseminaram: o incesto, o desejo excessivo e as práticas depravadas … e como conseqüência, os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido quinhentos anos passaram a viver, alguns, apenas duzentos e cinqüenta e outros, apenas duzentos. E na geração que viveu por duzentos e cinqüenta anos, três coisas se disseminaram: falta de respeito pela mãe e pelo pai, por contemplativos e Brâmanes, e pelo cabeça do clã.

"Assim, por não haver generosidade para com os necessitados … a falta de respeito pela mãe e pelo pai, por contemplativos e Brâmanes, e pelo cabeça do clã se disseminou, e como conseqüência, o tempo de vida das pessoas diminuiu, a sua beleza diminuiu, e os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido duzentos e cinqüenta anos passaram a viver apenas cem."

Observe quantas degenerações e suas consequências surgem em consequência de um ato. No budismo não existem ações coletivas que não tenham surgido em um indivíduo, e não existe uma ação que não surja de condições anteriores. O texto deixa claro as condições corretas para surgir o que é benéfico. As pessoas não se degeneram automaticamente devido aos acontecimentos ou ambientes, elas escolhem, uns matam, outros são mortos, uns roubam, outros são roubados, uns caluniam outros são caluniados, etc.. Qualquer que conhece o ensinamento budista sabe que é mais vantajoso morrer, ser roubado e caluniado do que estar do outro lado. É aí a função do rei. Não é o povo que deve reagir as injustiças de alguns, isso é a função do rei, proteger o indivíduo da ação injusta ou violenta de outro ou de grupos, punir e afastar do convívio público os desviados. 

Também fica claro o quanto se ressalta o cuidar dos necessitados. As pessoas tem que ser generosas no reino, mas muito mais o rei, o rei deve prover o meio pelo qual as necessidades dos necessitados sejam atendidas, afinal a pessoa nasce e é cuidada por seus pais, mas ela não trás de si mesma nenhum suprimento, ela precisa de outros recursos para se manter que já pertencem a outras pessoas. É obvio, e algo que nenhum desses "gênios" da sociologia, da economia e política parece perceber, algo que o Buda aponta (e veremos mais claramente em outro suttas) a questão da dependência do ser humano da sua família (em muitos suttas ele diz que o esforço dos pais é impagável pelos filhos, por mais que os honre e que cuide deles) e a interdependência inexorável de todos.  Nenhum tipo de estado pode gerir essa necessidade com justiça a não ser uma monarquia ou um sistema feudal (e não se trata novamente aqui do que se vê nos livros de escola, que se trata apenas de um império copactuado entre religião e estado para arrecadar impostos), pois tendo o rei justo (ou o dono das terras) os poderes e meios, ele pode determinar como esse suprimento será produzido sem prejuízo, porque se for simplesmente por impostos haverá prejuíso de uns trabalhando para outros a troco de nada e isso não é justo.

O rei precisa ser necessariamente justo segundo o Buda e se ele cobra impostos, ou seja, não é uma contribuição voluntária, isso não é justo. Todos os sistemas tem que se basear em alguma imposição seja legal ou econômica para que haja um arrecadação de impostos e se sustente os governantes e supostamente os necessitados. Na monarquia também tem sido assim, mas só a monarquia pode dispensar toda imposição se quiser, enquanto que outros sistemas não podem e jamais poderão de fato ajudar os necessitados arrecadando impostos, pois todos esses valores são repassados obrigatoriamente aos produtos para subsistência do produtor cobrado e do parasita governamental, e esses produtos são os mesmo que serão consumidos pelos necessitados. Com o crescimento populacional sempre será mais arrecadado, mas também mais será cobrado, tais sistemas nunca podem ser justos nem que queiram e que todos os administradores sejam honestos. 

Por outro lado se o rei for como um senhor feudal ele é o dono das terras e pode arrendá-las e distribuir a produção e o lucro como bem entender com os trabalhadores e consigo mesmo, e sendo justo, ele o fará com justiça. Não há necessidade de um trabalhar para outro, pois todos podem trabalhar e todos distribuindo o saldo da produção cada pessoa pode sustentar sua família e até algum necessitado sem família, podemos imaginar, porque toda produção de mantimentos e produtos básicos sempre excede as expectativas de consumo. Num estado democrático por exemplo existem milhares de outras dependências simplesmente políticas, que de modo algum têm a ver com administração nem economia, além da necessidade de agradar o eleitor, do tempo limitado, da oposição que pode simplesmente desfazer tudo até por questões ideológicas, etc. além da inegável impossibilidade de um estado democrático de fato por mais que todos fossem obrigados a escolher (o ser obrigado a, já é outra demonstração disso). 

Mas não vamos entrar nesse assunto por enquanto, pois estamos ainda no âmbito dos suttas e este ponto se mostra além das entrelinhas em sutras mahayana. O que fica claro nos suttas é que o sistema de governo ideal é aquele que tem um monarca justo, que escolhe conselheiros sábios, tem um administrador geral que calcula, reorganiza, e executa o que for necessário, empregados, generais e exércitos de confiança e um povo pacífico e obediente. Buda não exalta a esperteza, a reivindicação, nem a cobrança de direitos, pelo contrário, coloca os assuntos sobre reis, governantes, sistemas políticos, relações de poder e realizações de administradores como assunto inútil e prejudicial para o povo; incentiva a obediência mesmo pondo em risco a própria vida; e fala que o justo pensa no dever e o negligente nos direitos, entre outras falas mais radicais ainda (que citarei na continuação desse trabalho). Quem fala o contrário é certamente porque não lê suttas (e ou sutras, a depender da escola) mas apenas autores que escrevem apenas o que lhes convém segundo o que pensam buscando justificativas em falas do Buda ou numa suposta tradição ininterrupta.

Vejamos o que mais este sutta coloca na cadeia de consequências das idéias do rei postas em ação:

“Bhikkhus, virá um tempo em que os filhos dessas pessoas terão um tempo de vida de dez anos. E com isso, as meninas estarão prontas para casar com cinco anos de idade. E assim, estes sabores desaparecerão: manteiga líquida, manteiga, óleo de sésamo, melaço e sal. Para essas pessoas o grão de kudriisa  será o alimento principal, da mesma forma como o arroz e o caril (curry) são hoje. E com elas, os dez tipos de conduta virtuosa irão desaparecer por completo e os dez tipos de conduta não virtuosa irão prevalecer: para
aqueles que possuírem um tempo de vida de dez anos não haverá uma palavra para “virtude” então, como poderá haver alguém que pratique ações virtuosas? 

"Aquelas pessoas que não tenham respeito pela mãe e pelo pai, por contemplativos e Brâmanes, e pelo cabeça do clã, serão aquelas que desfrutarão de honra e prestígio. Tal como é agora com as pessoas que demonstram respeito pela mãe e pelo pai, por contemplativos e Brâmanes, e pelo cabeça do clã, que são elogiadas e honradas, assim será com aqueles que
fizerem o oposto. 

“Entre aqueles com um tempo de vida de dez anos ninguém irá se dar conta de mãe ou tia, da cunhada da mãe, ou da esposa do mestre, ou da esposa do pai de alguém, e assim por diante – haverá completa promiscuidade no mundo igual a bodes e cabras, porcos e porcas, cães e chacais. Entre eles, haverá forte inimizade, ódio violento, raiva violenta e pensamentos de matar, mãe contra filho e filho contra mãe, pai contra filho e filho contra pai, irmão contra irmão, irmão contra irmã, da mesma forma como o caçador sente ódio
pelo animal que ele está caçando."

Veja se tudo isso não é parecido com o mundo de hoje. Veja como a questão da família é tão impostante e a obediência aos administradores e ao cabeça do clã. As virtudes estão cada vez mais desprezadas, relativizadas. A decadência moral é gritante, mas se as pessoas seguem relativisando tudo não verão assim. Buda não diz para agir segundo a razão ou o que for mais conveniente, ele dá uma lista, as virtudes são essas, o que for o contrário disso é não-virtude; ele não dá uma lista e diz para ficar à vontade e usar como quiser ou como covém, ele aponta as consequências ruins de seguirmos nossas próprias idéias em vez das virtudes. O administrador teria obrigatoriamente de se manter dentro dessas regras, não num sistema supostamente laico, sob pretexto de uma suposta liberdade ou democracia, pelo contrário, sair das normas gera obrigatoriamente sofrimento e menos liberdade. Isso é óbvio, como pode alguém estudar budismo e ver isso de forma diferente? Decerto porque não estuda. Sigamos e vejamos a possibilidade do revés da situação:

“E para aqueles com um tempo de vida de dez anos, haverá um tempo de ‘intervalo das espadas’ de sete dias, durante o qual eles verão um ao outro como animais selvagens. Espadas afiadas irão surgir nas mãos deles e o pensamento: ‘Ali está um animal selvagem!’ eles irão matar uns aos outros com aquelas espadas. Mas haverá alguns que irão pensar: ‘Não matemos mais ou que não haja mais mortes! Vamos para florestas remotas, rios difíceis de atravessar, ou montanhas inacessíveis, e vivamos das raízes e frutas da floresta.’ E isso eles fazem por sete dias. Então, ao final dos sete dias, eles emergem dos seus esconderijos e se regozijam em comunhão dizendo: ‘Seres bons, vejo que vocês estão vivos!’ E então o seguinte pensamento irá ocorrer nesses seres: ‘Foi só por termos nos habituado aos modos ruins e prejudiciais que sofremos a perda dos nossos semelhantes, façamos o bem! Que coisas boas poderemos fazer? Vamos abster-nos de tirar a vida – essa será uma boa prática.’ E assim eles se abstêm de tirar a vida e, tendo adotado essa ação
benéfica, eles a praticarão. E por ter realizado essas coisas benéficas, o seu tempo de vida se incrementa e a beleza se incrementa. E os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido dez anos passaram a viver vinte anos."

Observe algo que costuma passar despercebido, ainda com esse caos, na linha de causa e consequência, não há qualquer determinismo ou coletivismo, existem pessoas diante da mesma situação tomam caminhos completamente opostos. Mas o importante aqui é ver as escolhas, quais delas combinam com as proposições do Buda.

Buda diz para o povo lutar pelo que é seu, pelos bens ou alimentos ou seus direitos ou pelo poder? Ele aponta um caminho revolucionário onde as pessoas tomam o poder ou mesmo toda a riqueza e distribui igualmente? Ele propõe uma mudança de sistema e que se elejam líderes e façam até mesmo a justiça ou distribua a riqueza? Enfim, seriam muitas as perguntas que eu teria que fazer, mas veja. É justamente o contrário, largar tudo isso, toda essa ambição, cobiça, sofrimento, crimes, inimizade, ódios, deixar tudo, as espadas e todo o resto e ir para a floresta, sobrevier dos furtos que ela dá e vivem em comunhão, largar essa arrogância, luta e crimes desnecessários e prejudiciais. Buda não ensina "lute pelos seus direitos", mas "largue tudo, vá para as montanhas e locais de difícil acesso, viva em paz dos frutos da terra, em comunhão, não em luta..." (parafraseando). E qual a consequência disso?

"Então irá ocorrer a esses seres: ‘É pela adoção de práticas benéficas que
incrementamos nosso tempo de vida e a beleza, portanto, dediquemo-nos ainda mais a práticas benéficas. Vamos nos abster de tomar aquilo que não nos for dado, da conduta sexual imprópria, da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira, da linguagem frívola, da cobiça, da má vontade, do entendimento incorreto; vamos nos abster de três coisas: incesto, desejo excessivo e práticas depravadas; vamos ter respeito pela mãe e pelo pai, por contemplativos e Brâmanes e pelo cabeça do clã e vamos
perseverar nessas ações benéficas."

Vamos observar que "coincidentemente" aqui algumas pessoas pensarão em conformidade com o ensinamento do Buda. Ele salta qualquer pensamento intermediário ou evolução, proque não interessa, interessa o que Buda mostra saldável, veja que são os preceitos e ensinamentos de Buda a que tais pessoas chegam, não uma boa ideia qualquer, mas a que leva ao caminho certo, os preceitos. Veja mais quais são os valores apresentados. Três dos cinco preceitos básicos aparecem. Veja os valores e condutas: abster-se do incesto, desejo excessivo e práticas depravadas; ter respeito pela mãe e pelo pai, por contemplativos e Brâmanes e pelo cabeça do clã e vamos perseverar nessas ações benéficas. Ele diz para se rebelar contra os Brâmanes e seus erros, sua "opressão social", suas castas? Eles diz que famílias e clãs é algo primitivo a ser superado. Não, nada disso existe no budismo. 

Buda diz para respeitar os brâmanes (embora se tenha que apartar-se deles e de suas doutrinas que são bastante criticadas pelo Buda) não para fazer um protesto, uma revolta ou revolução, mas tome seu caminho. Buda não diz que a existência de clãs e cabeças de clãs seja um hábito primitivo ou militarista, autoritário, ou seja lá o que for que imaginem. Ele não diz em nenhum discurso que não devem existir clãs, ele diz para respeitar os cabeças de clãs e as famílias e os indivíduos, e não se opõe (como se opôs aos brâmanes em sua religião e política). Ele diz para perseverar nessas ações benéficas. Sempre existem ações benéficas, sempre existe a opção de tomar a decisão pela ação benéfica. Tudo parte de decisões, do que fazer com o que encontramos, do indivíduo no budismo, não de um sistema, não de uma coletividade, não de uma decisão de uma maioria que impõe sua vontade sobre uma minoria (o que chamam democracia e ainda acham que isso é bom e que faz o bem), mas da liberdade individual. Agora vamos às consequências dessas decisões e atitudes.

"E assim eles farão essas coisas e como conseqüência disso o seu tempo de vida e a beleza se incrementarão. Os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido vinte anos passaram a  viver até quarenta, os filhos deles passaram a viver até oitenta, os filhos deles passaram a viver até cento e sessenta, os filhos deles passaram a viver até trezentos e vinte, os filhos deles passaram a viver até seiscentos e quarenta; os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido de seiscentos e quarenta anos passaram a viver até dois mil anos, os seus filhos passaram a viver até quatro mil anos, os filhos deles passaram a viver até oito mil anos e os seus filhos passaram a viver até vinte mil anos. Os filhos daqueles cujo tempo de vida havia sido de vinte mil anos passaram a viver até quarenta mil anos e os filhos deles passaram a viver até oitenta mil anos.

"Entre aquelas pessoas com um tempo de vida de oitenta mil anos, as meninas estarão prontas para casar com quinhentos anos de idade. E essas pessoas conhecerão apenas três tipos de enfermidades: desejo, jejum e envelhecimento. E na época dessas pessoas, este continente de Jambudipa será poderoso e próspero; vilarejos, vilas e cidades estarão muito próximas uma das outras. Jambudipa, tal como Avici estará tão cheio de gente quanto
uma mata está cheia de capim e arbustos. Nessa época, a Benares de hoje será uma cidade real denominada Ketumati, rica, próspera e populosa, repleta de gente e bem suprida. Em Jambudipa haverá oitenta e quatro mil cidades lideradas por Ketumati como a capital real. 

"E na época das pessoas com um tempo de vida de oitenta mil anos, irá surgir na capital Ketumati um rei chamado Sankha, um monarca que irá girar a roda, um monarca justo de acordo com o Dhamma, conquistador dos quatro pontos cardeais" (…)

Em que direção seguem as professias do Buda? Mundos melhores e cda vez melhores. Observemos bem as características que ele descreve desses mundos. Se ele descreve essas e não outras é porque essas são importantes. Longevidade, beleza, saúde, prosperidade, etc.. E surge o que num sistema cada vez melhor? Uma eleição? Um parlamento? Um presidente? Uma anarquia? Uma sociedade alternativa? Uma comuna? Uma ditadura do proletariado? Não! Surge um rei, um monarca, um conquistador. O topo, o melhor sistema governamental para Buda é a monarquia (e se você ainda não estiver convencido trarei vários outros textos que mostram isso). Por que o budista odierno se sente à vontade para discordar do Buda nisso e não no resto? Ele acha que nesse ponto Buda foi ingênuo ou ignorante de outros sistemas melhores ou que só nesse ponto ele não foi iluminado? De duas coisas uma, ou a monarquia é o melhor sistema para o budista ou Buda não era iluminado. Escolha.

"E na época das pessoas com um tempo de vida de oitenta mil anos, irá surgir no mundo um Abençoado chamado Metteyya, sublime, digno, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos  mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, iluminado, sublime. Ele irá declarar - tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto - este mundo com os seus devas, maras e brahmas, esta geração com seus contemplativos e sacerdotes, seus príncipes e povo. Ele irá ensinar o Dhamma, com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele irá revelar uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. Ele será acompanhado por milhares de bhikkhus tal como eu sou acompanhado por centenas.

"Então o Rei Sankha irá reconstruir o palácio que uma vez foi construído para o Rei Maha-Panada e tendo ali vivido, ele irá renunciá-lo e presenteá-lo para os contemplativos e Brâmanes, os mendigos, os transeuntes, os destituídos. Então, raspando o cabelo e a barba, ele irá vestir os mantos de cor ocre e deixar a vida em família pela vida santa sob a orientação do supremo  Metteyya. Permanecendo só, isolado, diligente, ardente e decidido,
em pouco tempo, ele alcançará e permanecerá no objetivo supremo da vida santa pelo qual membros de um clã deixam a vida em família pela vida santa, tendo conhecido e realizado por si mesmo no aqui e agora."

A monarquia, o Rei Sanka, são praticamente mostrados como condições para o aparecimento de Metteya. Nesse ponto podemos ver o discurso de muitos líderes budistas, inclusive monges de alto prestígio, desmoronar. Muitos budistas também ridicularizam outras religiões, principalmente como o cristianismo e o judaísmo (incluindo o bramanismo, aqueles que conhecem), que possuem profecias e histórias ligadas a reis, monarquias, salvadores reis, reconstrução de templos ou palácios como marcos, capitais poderosas, e até valores familiares em alguns casos. Aí está o Buda fazendo o mesmo tipo de profecia, com as mesmas características e objetos (e há muitos outros detalhes semelhantes). Na verdade tais pessoas são contra os valores e modo como os apresenta qualquer religião ou filosofia. Mas "coincidentemente" muitos desses são exatamente os Buda apresenta. Tais pessoas para o estudioso atento deveriam parecer como espiões infiltrados que querem disseminar suas idéias em todas as instituições, mas infelizmente esses são os que fazem mais barulho e atraem mais "adeptos". Outros com uma visão mais ortodoxa são vistos como preconceituosos, atrasados, ou que estão mais influenciados por elementos culturais do que pelo dhamma.

Para terminar, vamos finalizar, com o ensinamento, essencial, e que todos concordam no budismo (ou deveriam), que é o que está no ensinamento desse sutta.

"Bhikkhus, sejam ilhas para vocês mesmos, refúgios para vocês mesmos, buscando nenhum refúgio externo; com o Dhamma como a sua ilha, o Dhamma como o seu refúgio, buscando nenhum outro refúgio. E como, um bhikkhu é uma ilha para ele mesmo ... ? Quando ele permanece  contemplando o corpo como um corpo, ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo  mundo; quando ele permanece contemplando as sensações como sensações, a mente como mente, os objetos mentais como objetos mentais, ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo."

Por favor observe bem isso, sem isso a meditação pode ser assídua por anos e nunca vai sair do lugar comum; e sem isso a humanidade, seja qual for o sistema de governo, vai permanecer nas costumeiras oscilações morais, de justiça e de sabedoria precárias: "tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo  mundo". É dito duas vezes, no meio e no fim do parágrafo. E um grande medidor para qualquer um que venha como professor ou mestre do dhamma ou darma, se ele observa bem esse ponto quando ensina a meditação (ou se ele, por outro lado, ensina a "lutar pelos seus direitos", "lutar pela igualdade", enfim, lutar, lutar, lutar, pelas coisas do mundo, como muitos têm feito). Mas veja como é que diz Buda que seu "direito" vai se incrementar, seu poder, sua riqueza, sua felicidade, seu tempo de vida, sua beleza. O que será que essa frase enigmática no inicio quer dizer? Por que será que Buda aponta agora nessa direção? Buda explica em seguida, não precisa que ninguém lhe diga.

"Mantenham-se no seu próprio domínio bhikkhus, no seu território ancestral. Se vocês assim o fizerem, o seu tempo de vida irá se incrementar, a sua beleza irá se incrementar, a sua felicidade irá se incrementar, a sua riqueza irá se incrementar, seu poder irá se incrementar."

"E qual é o tempo de vida para um bhikkhu? Neste caso, um bhikkhu desenvolve a base do poder espiritual que possui concentração devido ao desejo e às formações volitivas do esforço. Ele desenvolve a base do poder espiritual que possui concentração devido à energia e às formações volitivas do esforço. Ele desenvolve a base do poder espiritual que possui concentração devido à mente e às formações volitivas do esforço. Ele desenvolve a base do poder espiritual que possui concentração devido à investigação e às formações volitivas do esforço. Ao praticar com freqüência essas quatro bases do poder espiritual, ele poderá se quiser, viver por todo um século, ou a parte que faltar para um século. Isso é o que chamo de tempo de vida para um bhikkhu.

“E o que é a beleza para um bhikkhu? Neste caso, um bhikkhu pratica a conduta correta, ele vive contido pelas regras do Patimokkha, perfeito na conduta e na sua esfera de atividades, temendo a menor falha ele treina adotando os preceitos de virtude. Essa é a beleza para um bhikkhu.

“E o que é a felicidade para um bhikkhu? Neste caso um bhikkhu, isolado dos prazeres sensuais entra no primeiro jhana, segundo, terceiro, quarto jhana. Essa é a felicidade para um bhikkhu.

“E o que é riqueza para um bhikkhu? Neste caso um bhikkhu, permanece permeando o primeiro quadrante com a mente imbuída de amor bondade, da mesma forma o segundo, da mesma forma o terceiro, da mesma forma o quarto; assim, acima, abaixo, em volta e em todos os lugares, para todos bem como para si mesmo, ele permanece permeando o mundo todo com a mente imbuída de amor bondade, abundante, transcendente, imensurável, sem
hostilidade e sem má vontade. Depois, com a mente imbuída de compaixão, … com a mente imbuída de alegria altruísta, … com a mente imbuída de equanimidade, … ele permanece permeando o mundo todo com a mente imbuída de equanimidade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade. Essa é a riqueza de um bhikkhu.

“E o que é o poder para um bhikkhu? Neste caso, um bhikkhu, com a eliminação das impurezas, permanece num estado livre de impurezas com a libertação da mente e a libertação pela sabedoria, tendo conhecido e manifestado isso para si mesmo no aqui e agora. Esse é o poder para um bhikkhu.

Este é o foco, este é o poder, esta é a vontade (olhe quantas vezes aparece a palavra "volitiva", vontade é importante, desejo também, veja como e em que direção o desejo é importante, embora a maioria ensine outro budismo diferente de Buda). Este é o esforço, estas são as regras. É um treinamento que você faz se quiser e pode se dizer budista mesmo que não faça, pode se dizer praticante do dhamma? Mesmo os "leigos" tem preceitos para serem adotados, "contido pelas regras do Patimokkha, perfeito na conduta e na sua esfera de atividades, temendo a menor falha ele treina adotando os preceitos de virtude". E agora terminando, para quem não sabe, Buda fala de uma força do mau, pessoal, um Satã ou um Arimã do budismo, real e poderoso que deve ser vencido. Se estão lhe ensinando um budismo de um mundo alternativo, sem hierarquia, sem regras, sem compromisso, de democracia ou socialismo em vez de monarquia e valores morais definidos; sem inferno, sem ser do mau, cheio de psicologismos e supostos "apenas simbolismos", sinto muito, você está sendo enrolado, é hora de ver o que você quer.

"Bhikkhus, eu não considero que exista um outro poder tão difícil de ser conquistado quanto o poder de Mara. É apenas acumulando estados benéficos que o mérito se incrementa."

Isso foi o que disse o Abençoado. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado.


(continua...)

quarta-feira, 7 de março de 2018

Psicologia Budista Primeira Palestra

Por R Y O T A N  T O K U D A - do livro Psicologia Budista
Vamos começar as aulas sobre Psicologia Budista. Na verdade não existe uma Psicologia Budista, mas sim um estudo especial, que nós podemos considerar como se fosse uma Psicologia, a isto chamamos em japonês Yuishiki e em sânscrito Vijna Matravada. Praticantes Zen com muita experiência de meditação chegaram à conclusão de que este mundo é visto através de uma consciência que abrange um ponto de vista totalmente diferente. O Yuishiki é estudado através da prática da meditação e sempre junto com a prática da meditação. Essa teoria diz que todo este mundo é consciência e, para entendê-la, são necessários vários anos de treinamento e pesquisa. O Budismo não tem dogmas, baseia-se em algumas teorias fundamentais. A primeira delas diz respeito às características da existência. Que são em número de quatro. A primeira característica é Anikka, que, em sânscrito, significa impermanência. Todas as coisas deste mundo estão em constante mutação, tudo se transforma. Entretanto as pessoas estão querendo segurá-las pelo apego, mas nunca conseguirão, por isso o Zen diz que a vida comum é sofrimento. A segunda característica da existência é o sofrimento proveniente do apego. Em sânscrito, esta segunda característica se chama Dukkha. Toda a impermanência é insatisfação e dor, a dor é proveniente do apego que pro- 9 duz o sofrimento. Assim, nós podemos saber a terceira característica da existência, que é Anatman. Não há nada de permanente, é o que significa Anatman. Atman é o ego. Anatman é a negação do ego. Não existe ego, tudo é sem um ego permanente e nada tem identidade. Não se pode chamar eu, meu ou minha. Não somente as coisas todas não pertencem a você, mas o teu corpo também não pertence a você. A quarta característica da existência é, portanto, Nirvana. Existe um estado de extinção da dor, e existe uma paz que o mundo não pode dar nem tirar. Exatamente quando se chega a este estado de não-ego, não há nada para segurar, para pedir, é o vazio e com isto nós podemos encontrar tranqüilidade ou paz. Estas são as Quatro Características da Existência, mas seres humanos muitas vezes não entendem essa teoria e continuam ano após ano apegados às coisas não se dando conta que não podem possuí-las para sempre e sofrem com isso. Falaremos agora de outra teoria Budista fundamental. Esta teoria é considerada como o primeiro sermão do Buda depois de seu iluminamento. Quando ele estava analisando sua experiência do iluminamento, a primeira coisa que descobriu foi esta teoria, também chamada de As Quatro Nobres Verdades, a qual diz o seguinte: toda existência é dor; toda dor provém do apego, da ignorância; existe uma maneira de se extinguirem o apego e a ignorância e essa maneira é a prática do Caminho. Toda a existência é dor, sofrimento - Dukkha. No Budismo, os quatro sofrimentos principais são nascimento, velhice, doença e morte, porque todas as fases da existência humana encaradas sem sabedoria são sofrimento. Vi- 10 ver neste mundo é sofrimento, é adoecer e morrer. Existem também os sofrimentos secundários: primeiro, aquele proveniente da separação daqueles a quem amamos; em segundo lugar, o proveniente do encontro com aqueles a quem odiamos; em terceiro lugar, não conseguir alcançar aquilo que se deseja; finalmente, não se conseguir ficar longe daquilo que se odeia. Temos os Skandhas. Os cinco Skandhas são o corpo, as coisas materiais e a consciência. A nossa existência. Nós temos cinco sentidos e com isso estamos vivendo neste mundo. O desejo sempre funciona através dos cinco sentidos visando a satisfação. Existem cinco tipos de desejos que são dormir, comer, sexo, poderes e bens materiais. Essas coisas são necessárias para vivermos neste mundo; não podem faltar, mas existe um limite, o querer sempre mais, é como uma faca com mel, a pessoa lambe, lambe o mel, e aí corta a língua com a lâmina da faca. Hoje em dia no mundo, o nível espiritual está muito baixo e as altas sociedades estão cheias de coisas apodrecidas. Há, por exemplo, o sexo livre, juntamente com drogas, mas quem pode utilizar essas drogas são bilionários, porque são caras e se não for para quem tem muito dinheiro acabam acontecendo crimes e assassinatos. As pessoas dessas sociedades possuem muitos bens materiais, mas espiritualmente estão decadentes, isto tudo é Dukkha, sofrimento. Qual é pois a origem do sofrimento? É o apego e a ignorância. Como é que se pode acabar com o sofrimento? Acabando com o desejo ou apego, pode-se chegar ao Nirvana. O Nirvana é o Caminho para atingir a extinção do sofrimento, é como o método do médico diante do doente. O médico pergunta: "Qual é o problema? Dor de cabeça, dor de 11 estômago. Por que foi surgir esta dor? Estava muito tenso, ou estava muito nervoso?" Descobrindo a origem do mal, então se receita o remédio, e é o remédio que cura. É sobre este método de médico que estamos falando aqui. Qual é o Caminho para extinção do sofrimento? O Caminho para extinção do sofrimento é o Óctuplo Caminho, que são: Compreensão Correta, Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação Correta, Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Correta e Concentração Correta. Se nós formos capazes de viver neste mundo com o Óctuplo Caminho, nós nos desvinculamos do sofrimento. O Budismo tem uma outra teoria um pouco mais complexa, que é a teoria dos Doze Nidanas. A teoria dos Doze Nidanas é mais ou menos a seguinte: por que é que existe o envelhecimento, decadência e morte? Por que tudo isto é sofrimento? Por que foi que nascemos? Por que existimos? Essa teoria diz o seguinte: o que existe? Tato, sensação, percepção, todas aquelas funções da consciência. Por quê? Por que possuímos mente? Porque temos apego. Prosseguindo nesta cadeia de causas, quando se chega na última, essa teoria diz que tudo é ignorância. Ignorância não tem luz, ou seja, é ausência de sabedoria. Não vemos as coisas claramente, como elas são realmente, isto é a ignorância. Partindo agora do contrário, se não houver ignorância, se se conseguir sabedoria, não há a corrente de causas, e se não tem isto então não tem aquilo, assim vem o não ter nascimento e por isto os Budistas descobriram que o fundo da nossa existência, o fundo do nosso sofrimento é a ignorância. 12 Nós precisamos estudar a raiz do problema que é a ignorância. Esta pesquisa de Yuishiki, (Vijna Matravada) é estudar a ignorância, através da prática da meditação. Agora, voltemos ao Óctuplo Caminho: compreensão correta, pensamento correto, palavra correta, ação correta, vida correta, esforço correto, atenção correta, concentração correta. Praticando o Óctuplo Caminho, pode-se evitar criar o Karma. A palavra Yuishiki significa apenas consciência, este mundo é consciência. Isto é baseado na teoria do Anatman (não-ego). Nós temos vários tipos de desejos e o primeiro é o ego, a compreensão errada, isto é, pensar que existe este corpo, assim se fica apegado ao corpo. Com isso vem o orgulho e assim se inicia o processo de amar a si próprio. Ama mas não pode satisfazer totalmente os desejos, produzindo o sofrimento. A teoria Budista fundamental é o Anatman, isto é, não existe um ego. Então pergunto, como é que se pode explicar a reencarnação e coisas deste tipo? A teoria Yuishiki explica: não existe uma identidade que mantenha o corpo constante e eternamente, apenas existe um corpo de continuação do eu, nascendo e morrendo a cada momento, e isto pode ser explicado através da comparação com uma vela. Quando se acende uma vela, ela continua acesa: esta chama é a mesma chama, mas ao mesmo tempo não é a mesma chama, isto é o que acontece também com os seres humanos. Assim o Budismo chega ao fundo da consciência, da 6ª consciência. Mais profundo ainda há a 7ª e a 8ª consciências, isto é, três a quatro consciências antes daquelas explicadas por Freud ou Jung. Isto nós chamamos consciência de Alaya e 13 substância da reencarnação, porque Alaya forma o corpo do ser humano, a consciência, a mente e ao mesmo tempo as estrelas, montanhas, rios e árvores e tudo mais. Por isso não pode apegar às coisas. Geralmente a pessoa pensa: eu estou aqui e estou vendo montanhas, mas os Budistas vê- em que no fundo isto é uma coisa só, não há uma parte que fica com a substância eu e uma outra parte separada como uma coisa, um objeto: montanha. Em Alaya Vijnana a pessoa se vê como se estivesse existindo fora de si mesma, então, todas as existências fora de si próprias não estão separadas de si próprio. Isso pode assustar. O que seria neste caso a Ciência? Ela estuda os materiais para descobrir a realidade. Hoje em dia os cientistas descobriram barreiras ou obstáculos muito grandes. No Brasil, muitos físicos já estão praticando Zen, também conheço cientistas na Inglaterra e na Itália que começaram a praticar o Zen. Do ponto de vista Budista, os seres humanos, nós e a natureza, não somos duas coisas separadas e contrárias. Fora da nossa consciência não existem montanhas ou natureza, no fundo é uma coisa só. Hoje em dia o pensamento moderno está contaminado com o mito da Ciência, mas essa apresenta dificuldades em muitos aspectos. Também a Psicologia chegou a grandes obstáculos por pesquisar a mente através do método científico. As teorias podem ser muito bonitas, mas ninguém sabe como explicar as coisas. Depois de Freud, por exemplo, surgiram muitas outras linhas de Psicologia, a Yungiana, a Gestáltica, a da Psicologia Transpessoal, Reich, etc., todas buscando a compreensão da mente e algumas vezes aplicando métodos orientais, com isto está se querendo chegar até o fundo. Essa questão o Yuishiki es- 14 tudou dentro da consciência e, analisando, chegou à conclusão de que estas coisas, a nossa existência e os fenô- menos no mundo, são uma só coisa, apenas facetas de Alaya Vijana, a qual separa e junta as duas coisas. Há uma relação dos estados de consciência. Existem cinco pré-consciências, que são: visão, audição, olfação, gustação e tato e, uma sexta que nós chamamos de mente, pensamento, conhecimento, emoções e sentimentos, aquilo que pensa, aquilo que sente dores ou é triste ou alegre. Para os Budistas, entretanto, existem ainda outras consciências, a sétima consciência ou Manas Vijnana, a consciência do egocentrismo, e a oitava consciência, a Alaya Vijnana. Geralmente a nossa percepção funciona desta maneira: há um limite que origina o nome. O nome indica o objeto com palavras. Quando termina isto, termina a percepção. Isto é uma mesa. Isto é uma cadeira. Assim nós pensamos que entendemos o que isto é. Este limite é a forma e tem duas características: a primeira é a aparência. A mesa tem 4 pés, tem gavetas, mas, olhando bem, não é mesa, é madeira, e a madeira são moléculas e átomos, e por aí vai. Aparentemente é, mas olhando bem, o que é? Sempre existem as palavras. Hoje em dia a Ciência está penetrando dentro da função da mente. Através da anatomia do cérebro, descobriu-se que nós temos o cérebro direito e o esquerdo, cada parte tem uma função. O direito não tem nomes e o esquerdo é com palavras. As pessoas aprendem as coisas através de nomes, palavras, frases, tudo com a parte esquerda, mas a intuição direta e a criatividade estão no lado direito. Por isto o conhecimento, o computador, 15 isto pode desenvolver a parte esquerda, mas nós precisamos também do lado direito funcionando bem, para podermos ter sentimentos quando escutamos uma música bonita e coisas assim. Em cada parte do cérebro já se estão localizando as consciências, como a fome, o desejo, o olfato, o tato, cada parte é responsável por certas consci- ências. Por exemplo, se cortar uma das partes do cérebro de um gato, ele pode começar a comer e com isto não ter a sensação da barriga cheia, come, come, até morrer. Se cortar a outra parte então não tem mais fome e aí fica sem comer, até acabar morrendo. Depois da aparência, a segunda característica da forma é o nome, a origem de surgir a ação da língua, pois com a forma a pessoa coloca nome. A forma tem esta característica. Esta mesa ocupa espaço e outros materiais não ocupam o mesmo espaço, com isto julga-se entender as coisas quando se coloca o nome. Na vida cotidiana nós estamos dentro deste mundo, mas os Budistas de Yuishiki colocam isto como sendo uma falsa discriminação ou uma discriminação ilusória, porque a nossa função de percepção está toda limitada, de acordo com a sétima e a oitava consciências. Por isso, para se perceber este mundo é necessário uma outra maneira, chamada em sânscrito SamyakuVijnana. Esta é a verdade última e pode ser percebida por sabedoria correta. A palavra Tathagata significa ser como eles são. Vocês se lembram daquela palavra Tathagata, o nome do Buda. Buda tinha dez tipos de nomes, Namo Tassa, Bagavato, Arahato, Sama Sambudassa, Arahat, Tathagata. Ele mesmo chamava a si próprio de Tathagata. Tathagata significa Tata-a-ta, aquele que vem assim como vem, ou aquele que vai indo assim como vai indo. 16 Este assim é o que estamos tratando hoje. No Brasil há uma gíria, é isto aí bicho. É exatamente isso; Tathagata é isso mesmo, vem assim, vai assim, nesta verdade absoluta e presente. Através da sabedoria correta podemos ver as verdadeiras formas das coisas sem as distorcer, mas essa percepção não é uma coisa externa e sim uma coisa do mundo do Dharma. Por exemplo, nós estamos andando de noite e de repente vemos uma cobra, e levamos aquele susto, e pulamos para trás. Ao melhor observar, percebemos que aquilo não era cobra, era uma corda. É parecido, não? Nós estamos trabalhando em cima dessas coisas. A cobra é um nome, não é cobra, é corda, mas este nome corda também não é uma verdade. Não é corda não, são simplesmente fibras de plantas que estão trançadas, nisto é que colocamos o nome de corda. Mas a fibra trançada não existe, a Ciência chegou até este ponto, descobriu moléculas e os átomos. As plantas são formadas com átomos. Os Budistas também pensaram nesse átomo e o chamaram Gokubi que quer dizer aquilo que não pode mais ser dividido. Os cientistas e físicos também chegaram até esse ponto. A palavra átomo significa aquilo que não pode ser dividido, a-tomo, com o prefixo de negação a, mas hoje em dia todos sabem que o átomo não é o último, pode também ser dividido, como o nêutron, o elétron e tudo mais. Quando se conseguiu entender isso surgiu a bomba atômica, a arma nuclear. Nós estamos neste momento com o perigo da destruição do mundo. Até agora sempre houve guerra, mas somente guerra convencional, ganhando ou perdendo, a guerra termina, mas se acontecer a 3ª Guerra Mundial, então será o fim. A energia de uma bomba atô- 17 mica é de 100 ou 1000 vezes maior do que a da bomba de Hiroshima e Nagasaki e países como a União Soviética ou os Estados Unidos têm mais de 1000 mísseis. Este é o resultado da Ciência moderna, com isto todo mundo fica assustado; então há o mito da Ciência. Alguma coisa está errada. O átomo não pode se dividir mais, mas, se não pode se dividir, então não existe. O átomo, o nêutron e o elétron, se forem quebrados, o que irá acontecer? Haverá liberação de uma enorme quantidade de energia. Voltando agora à prática do Caminho. Os cientistas sempre procuram a verdade, sentem aquela emoção de encontrar a verdade, mesmo cientes do perigo que suas descobertas podem trazer. Quando surgiu a teoria atômica, outras pessoas que nada tinham a ver com isto,como os militares, por exemplo, lançaram mão e dela fizeram uso. Então o que acontece? Se liberar esta energia proveniente da quebra de núcleos, prótons e elétrons, o que vamos encontrar? Teoricamente, se existe uma coisa material, ela pode ser dividida. Dividindo, dividindo, chega-se até uma coisa muito pequena, mas no pensamento, pode-se ainda imaginar a divisão, partículas infinitamente menores. Há os quatros pontos cardeais, mais o ponto que está em cima e o que está embaixo, ao todo seis pontos cardeais. Isto é o átomo, a menor coisa que existe, mas se existe, tem ainda estes seis lados, referentes aos pontos cardeais. E se existem esses seis lados, ainda se pode dividir e com isto se encontra o vazio. O Budismo chegou à conclusão de que tudo é vazio, mas os cientistas não podem aceitar o vazio. O vazio é o zero. Multiplique o zero cem mil vezes, mas ainda continua sendo zero. A Ciência hoje é isto, para criar algo tem que ter 1, 2, 3, somente assim pode-se criar. A química pode criar a vida através das proteínas, pode criar uma 18 vida primitiva, mas sempre a partir das coisas que já existem. Entretanto o nada é sempre nada, o vazio é sempre vazio. O Budismo é o vazio total, dentro do vazio aparecem as existências maravilhosas. Este mundo é exatamente isso, tudo é vazio, só se vê o vazio, as coisas existem, mas não têm identidade. As coisas se formam provisoriamente com a união dos elementos, mas estão mudando totalmente. Isto era árvore, agora é madeira, amanhã mesa e depois pode queimar ou apodrecer. 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

BHAVANGA-SOTA e BHAVANGA-CITTA


Do Dicionário Budista - Manual de Termos Budistas e Doutrinários de Nyanatiloka.
Terceira edição revisada e ampliada editada por Nyanaponika.
Tradução: Teresa Kerr
Revisão: Arthur Shaker                                                          
BHAVANGA-SOTA  e  BHAVANGA-CITTA:    O  primeiro  termo  pode  ser
aproximadamente interpretado como ‘Corrente subterrânea que forma a Condição dos
Seres, ou  Existência’,  o  segundo  como  ‘Subconsciência’,  apesar  de,  como  ficará
evidenciado a  seguir, diferir,  em  diversos  aspectos,  do uso  do termo  comum  na
psicologia  Ocidental. Bhavanga  (bhava-anga),  o  qual  nos  trabalhos  canônicos,  é
mencionado  duas  ou  três  vezes  no Patthana,  é  explicado  nos  comentários  do
Abhidhamma  como a fundação  ou  condição  (karana)  da  existência  (bhava),  como
condição sine  qua  non da  vida,  tendo  a  natureza  de  um  processo,  lit.  um  fluxo  ou
corrente  (sota).  Assim,  desde  tempos  imemoriais,  todas  as impressões e  experiências
são,  como assim  dizer,  armazenadas,  ou  melhor  dizendo, estão  funcionando,  mas
ocultas para  a consciência  plena,  de onde  ocasionalmente  emergem como  fenômeno
subconsciente e se aproximam do limiar da plena consciência, ou cruzando-a se tornam
completamente  conscientes.  Esta  assim  chamada  ‘corrente  subconsciente  da  vida  ou
corrente subterrânea da vida’ é aquilo através da qual pode ser explicada a faculdade da
memória, os fenômenos psíquicos paranormais, crescimento mental e físico, Karma e
Renascimento, etc – Uma tradução alternativa seria ‘continuum-da-vida’.
Deve-se notar que bhavanga-citta é um karma- resultante estado de consciência (vipaka,
q.v.) e que, no nascimento como um ser humano ou nas formas superiores de existência,
ele é sempre resultado de karma bom ou saudável (kusalakamma-vipaka), embora em
vários  níveis  de  força  (v. patisandhi,  final  do  artigo).  O  mesmo  é  aplicado  para a
Consciência-Renascimento  (patisandhi)  e  Consciência  da  Morte  (cuti), as  quais  são
somente manifestações particulares da Subconsciência. – No Vis. XIV é dito:
“Logo que a consciência-renascimento (no embrião no momento da concepção) cessou,
então  surge  uma  similar  Subconsciência  com  exatamente  o mesmo  objeto,  seguindo
imediatamente sobre a consciência-renascimento e sendo o resultado deste ou daquele
Karma  (ação  volitiva  feita  no nascimento anterior e  lembrada  no  momento  antes  da
morte). E novamente um posterior estado semelhante de subconsciência surge. Agora,
não surgindo outra consciência para interromper a continuidade da corrente-da-vida, a
corrente-da-vida,  como  o  fluxo  de  um  rio,  surge  da  mesma  forma  novamente  e
novamente,  mesmo  durante  o sono  sem sonho  e  em  outros momentos. Dessa  forma
deve-se entender o contínuo surgimento desses estados de consciência na corrente-davida.” Cf. viññana-kicca. Para maiores detalhes v. Fund. II (App).

Yogacara e a Escola Consciência-apenas - parte 1


O discurso Yogacara explica como nossa experiência humana é construída pela mente.

Yogacara (em sânscrito , literalmente: “a prática do yoga”, “aquele cuja prática é yoga”) é uma influente escola budista de filosofia e psicologia enfatizando a fenomenologia e (alguns argumentam) ontologia através da lente interior da meditação e yoga práticas. Ela se desenvolveu dentro do indiano Mahāyāna por volta do quarto século EC.
Nomenclatura, ortografia e etimologia:
[Yogacara] ou Cittamātra [consciência apenas]
China : Weishi Zong (唯识宗”escola Consciência-apenas”), Weishi Yújiāxíng Pai (唯识瑜伽行派”Consciência Apenas Yogacara Escola”), Fǎxiàng Zong (法相宗”,  "Escola Dharmalaksana”), Cí’ēn Zong (慈恩宗 “Escola Ci’en”)
Japonês : Yuishiki (唯识”Consciência-apenas”), Yugagyō (瑜伽行”Escola Yogacara”)
Coreano : Yusig Jong (유식종 “escola Consciência-apenas”), Yugahaeng Pa (유가행파 “Escola Yogacara”), Yusig-Yugahaeng Pa (유식유가행파 “Escola Consciência Apenas Yogacara”)
Vietnã : Duy Thuc Tong (“Escola Consciência Apenas”), Du-gia Hanh Tong (“Escola Yogacara”)
Tibete : sems-tsam
Mongol : егүзэр, yeguzer
Inglês [brasileiro]: Escola Prática de Yoga, escola Consciência-apenas,  Realismo subjetivo, Escola mente apenas.

Yogacara é também transliterado (usando alfabeto Inglês normal) como “Yogachara”. Outro nome para a escola é Vijñanavada (sânscrito) Vada significa “doutrina” e “caminho”;. Vijñāna significa “consciência” e “discernimento”.
História
O Yogacara, juntamente com o Madhyamaka , é uma das duas principais escolas filosóficas nepalesas e do Budismo Mahayana  indiano.
Origem
Masaaki (2005) afirma: “[de] acordo com a Sūtra Saṃdhinirmocana , o texto Yogacara primordial, o Buda define a “roda da doutrina“(Dharmacakra) em três movimentos”. Assim, o Sutra Saṃdhinirmocana, como o pioneiro doutrinário de Yogacara, inaugurou o paradigma de as três voltas da roda do Dharma , com seus princípios próprios no “terceiro giro”. Os textos Yogacara são geralmente considerados parte do terceiro giro junto com o relevante sutra . Além disso, as pesquisas e o discurso Yogacara sintetiza as três voltas. As origens da tradição erudita Yogacara indiana estavam enraizadas na escolástica sincrética de Nalanda University, onde a doutrina da consciência-apenas (vijñapti-matra ou cittamātra) foi a primeira amplamente propagada. Doutrinas, dogmas e derivados desta escola tem influenciado e tornam-se bem estabelecidas na China, Coréia, Tibete, Japão e da Mongólia e em todo o mundo através da divulgação e diálogo feito pela diáspora budista. A orientação da escola Yogacara é largamente consistente com o pensamento dos Nikayas Pāli. Ele freqüentemente trata posteriores desenvolvimentos de uma forma que realinha-los com as versões anteriores de doutrinas budistas. Dan Lusthaus conclui que uma das agendas da escola Yogacara foi para reorientar a complexidade de refinamentos posteriores na filosofia budista de acordo com a doutrina budista. 
Vasubandhu, Asanga e Maitreya-natha
Yogacara, que teve sua gênese no Sutra Saṃdhinirmocana, foi amplamente formulada pelos brâmanes nascidos meio-irmãos Vasubandhu e Asanga (que se dizia ser inspirado pelo quase histórico Maitreya-natha , ou o divino Maitreya). Esta escola tinha uma posição proeminente na tradição indiana escolar durante vários séculos, devido a sua linhagem elogiado e propagação em Nalanda.
Yogacara e Madhyamaka
Como evidenciado por fontes tibetanas, esta escola foi prolongada em dialética com o Madhyamaka . No entanto, há discordância entre os ocidentais contemporâneas e tradicionais estudiosos budistas sobre o grau em que eles se opuseram, se não em tudo. Para resumir a principal diferença de uma forma bem breve correndo o risco da acusação de imprecisão, enquanto o Madhyamaka conclui que afirmar a existência ou não existência de qualquer coisa, em última análise real era inadequado, alguns expoentes da Yogacara afirmavam que a mente (ou em variações mais sofisticadas, a sabedoria primordial) e só a mente é, em última análise real. Nem todos os Yogacaras, no entanto, afirmavam que a mente era verdadeiramente existente. De acordo com algumas interpretações, Vasubandhu e Asanga em particular, não o fez. Mais tarde expoentes Yogacara sintetizaram as duas visões, particularmente Śāntarakṣita , cuja visão foi mais tarde chamada de “Yogacara-Svatantrika-Madhyamaka” pela tradição tibetana. Em sua opinião, a posição Madhyamika é a verdade última e, ao mesmo tempo o ponto de vista da mente é apenas uma maneira útil de se relacionar com convencionalismos e estudantes em progresso mais habilmente em direção ao final. Essa visão sintetizada entre as duas posições, que também incorporou pontos de vista de cognição válida a partir de Dignaga e Dharmakirti , foi um dos últimos desenvolvimentos do budismo indiano, antes de ser extinto no século 11 durante a incursão muçulmana . Também foi exposta por Xuanzang, que depois de um conjunto de debates com expoentes da Escola Madhyamaka, compôs em sânscrito, o tratado de três mil versos a não-diferença de Madhyamaka e Yogacara. Ensinamentos posteriores Yogacara são especialmente importantes no budismo tântrico , que evoluiu junto com o seu desenvolvimento na Índia.
Yogacara no Tibete
Yogacara foi transmitida ao Tibet por Śāntarakṣita e mais tarde por Atisa , foi posteriormente integrante do budismo tibetano , embora o ponto de vista Geluk dominante entendeu-se que era menos definitivo do que Madhyamaka. A terminologia Yogacara é usada pelo Nyingmapa em seu apogeu, Dzogchen. Yogacara também se tornou central para a Ásia Oriental. Os ensinamentos de Yogacara tornaram-se a escola do budismo chinês Wei Shi. Os atuais debates entre escolas tibetanas, os pontos de vista Shentong (vazio de outros) e rangtong (vazio de si), parecem semelhantes aos debates anteriores entre Yogacara e Madhyamaka, mas as questões e distinções evoluíram ainda mais. Embora os pontos de vista mais tardios tibetanos poderiam ter evoluído a partir das posições anteriormente indianas, as distinções entre os pontos de vista tornaram-se cada vez mais sutis, especialmente depois que o Yogacara incorporou a visão Madhyamika do supremo. Ju Mipham, comentarista no século 19, escreveu em seu comentário sobre a síntese Śāntarakṣita, que é melhor a visão de que ambas as escolas são a mesma e que cada caminho também leva ao mesmo estado final permanente.
Yogacara no Leste da Ásia
Até o fechamento da Dinastia Sui (589-618), o budismo na China haviam desenvolvido muitas escolas e tradições distintas. Xuanzang, nas palavras de Dan Lusthaus :
… Chegou à conclusão de que as muitas disputas e conflitos de interpretação que permeiam o budismo chinês foram o resultado da indisponibilidade de textos cruciais na tradução chinesa. Em particular, ele [Xuanzang] pensou que uma versão completa do sastra Yogācārabhūmi , uma descrição Yogacara enciclopédica das etapas do caminho para o estado de Buda  escrito por Asanga, iria resolver todos os conflitos. No século 6 um missionário indiano chamado paramartha (outro tradutor principal) tinha feito uma tradução parcial do mesmo. Xuanzang resolveu adquirir o texto completo na Índia e apresentá-lo para a China. 
Além disso, Dan Lusthaus [mostra] gráficos diferentes nas dialética e tradições divergentes do budismo na Índia e China descobertos por Xuanzang e menciona a natureza de Buda , Despertar da Fé , e Tathagatagarbha :
Xuanzang também descobriu que o contexto intelectual em que os textos budistas eram disputados e interpretados era muito mais amplo e variado do que os materiais chineses haviam indicado: posições budistas foram forjados em um debate sincero com uma gama de doutrinas budistas e não budistas desconhecidos na China, e a terminologia dos debates culminou ricamente em seu significado e conotações dentro deste contexto. Enquanto na China o pensamento Yogacara e Tathāgata-garbha foram se tornando inseparáveis, na Índia ortodoxa Yogacara parecia ignorar se não mesmo rejeitar o pensamento Tathāgata-garbha. Muitas das noções fundamentais em budismo chinês (por exemplo, a natureza de Buda) e seus textos cardeais (por exemplo, O Despertar da Fé) eram completamente desconhecidos na Índia.
Principais expoentes de Yogacara
Principais expoentes Yogacara classificados em ordem alfabética e de acordo com a localização:
China: paramartha真谛(499-569), Xuanzang玄奘(602-664) e Kuiji窥基(K’uei-chi; 632-682);
Índia: o meio-irmãos Asanga e Vasubandhu; Sthiramati安慧e Dharmapala护法
Japão: Chitsū智通e Chidatsu智达(NB: essas duas pessoas são mencionadas no Kusha (budismo) )
Coréia: Daehyeon大贤, Sinhaeng (神行; 704-779), Wonch’uk (圆测; 631-696) e Wonhyo (zh:元晓; 원효; 617-686)
Tibete: Dolpopa , Taranatha , Jamgon Kongtrul Lodro Thaye , Ju Mipham
Corpus Textual
Sutras
O Sutra Sandhinirmocana , Unravelling o Mistério da Sutra Pensamento (2 º século dC), foi o sutra Yogacara seminal e continuou a ser uma referência primordial para a tradição. Também contêm elementos Yogacara o Pratyutpanna Samādhi Sūtra (1 º século dC) e o Daśabhūmika Sūtra (pré-século 3 dC). Mais tarde o Lankavatara Sutra (quarto século EC) também assumiu uma importância considerável. Outros sutras proeminentes incluem o Yogacara Sūtra Śrīmālādevīsiṃhanāda e o Sūtra Ghanavyūha . 
Cinco tratados de Maitreya
Entre os textos mais importantes para a tradição Yogacara estão os Cinco Tratados de Maitreya. Estes textos são ditos relatados a Asanga pelo Bodhisattva Maitreya, apesar de Maitreya poder ter sido o fundador real da Yogacra-escola. Eles são os seguintes:
Ornamento à clara realização ( Abhisamaya-alankara , Tib. mNgon-par-rtogs Pa’i rgyan)
Ornamento para os Sutras Mahayana ( Mahāyāna-sutra alankara , Tib. theg-pa chen-po’i mdo-sde’i rgyan)
Continuum Sublime do Mahayana ( Ratna-gotra-vibhāga , Tib. theg-pa chen-po rgyud bla-ma’i bstan)
Fenômenos distintivos e ser puro ( Dharma-Dharmata vibhāga , Tib. chos-dang-chos nyid rnam-par ‘byed-pa)
Distinguindo o Oriente e nos extremos ( Madhyānta-vibhāga , Tib. dbus-dang mtha ‘rnam-par’ byed-pa)

Um comentário sobre o Ornamento à clara realização chamado “Esclarecer o significado de” por Haribhadra é também frequentemente usado, como [também] é outro de Vimuktisena . A maioria destes textos foram também incorporados na tradição chinesa, que foi criada há vários séculos antes do Tibete. No entanto, o Ornamento à clara realização não é mencionado por tradutores chineses até o século 7, incluindo Xuanzang, que era um perito neste campo. Isto sugere que possivelmente surgiram de um período posterior ao que é geralmente atribuída a ele.
Asanga
A autoria dos textos críticos Yogacara também é atribuída a Asanga pessoalmente (em contraste com os cinco tratados de Maitreya). Entre eles estão o Mahāyāna-Samgraha e o Abhidharma-samuccaya . Às vezes, também atribuído a ele é o sastra Yogācārabhūmi , uma grande obra enciclopédica considerada a declaração definitiva de Yogacara, mas a maioria dos estudiosos acreditam que ele foi compilado um século mais tarde, no século 5, enquanto seus componentes refletem diferentes etapas do desenvolvimento do pensamento Yogacara.
Vasubandhu
Vasubandhu é considerado o sistematizador do pensamento Yogacara. Vasubandhu escreveu três textos fundamentais da Yogacara:
Trisvabhāva-Nirdesa (Tratado sobre as três naturezas, Tib. Rang-bzhin gsum nges-par bstan)
Viṃśaṭikā-karika (Tratado em Vinte Estâncias)
Triṃśikaikā-karika (Tratado de Trinta Estâncias)
Ele também escreveu um importante comentário sobre a Madhyantavibhaṅga. De acordo com o estudioso budista Jay Garfield:

Enquanto o Trisvabhāva-Nirdesa é sem dúvida o. Mais filosoficamente detalhado e abrangente das três obras curtas sobre o tema composta por Vasubandu, bem como o mais claro, quase nunca é lido ou ensinado nas contemporâneas culturas tradicionais ou centros de aprendizagem. A razão pode ser simplesmente que este é o único dos textos raiz de Vasubandhu para a qual não existe auto-comentário. Por esta razão, não há nenhuma composição dos estudantes Vasubandhu de comentários sobre o texto e, portanto, não há nenhuma linhagem reconhecida de transmissão para o texto. Então ninguém dentro da tradição tibetana (o único sobrevivente tradição Mahayana acadêmica) poderia considerá-lo ou, se autorizado, a ensinar o texto. É, por isso que simplesmente não estudaram, uma grande pena. É um belo ensaio e filosofia profunda e uma introdução sem paralelos ao sistema Cittamatra.

Comentários mais tardios

Outros comentários importantes sobre vários textos foram escritos por Yogacara Sthiramati (século 6) e Dharmapala (7 º século), e uma síntese Yogacara-Madhyamaka influente foi formulada por Śāntarakṣita (século 8).
http://despertar.saberes.org.br/saberesancestraistradicionaisnativos/yogacara-yogachara-vijnanavada-caminho-da-consciencia-pratica-meditaca/